Vol. 11, N. 41 BERRO! – Queerioca

Berro #41

BERRO #41

 
Berro Indica
 

CorPolítica – documentário da Globoplay 

Dirigido por Pedro Henrique França com produção de Marco Pigossi, “Corpolitica” é um documentário que revela para o público os bastidores das eleições municipais de 2020, ano em que se presenciou o recorde de candidaturas LGBTQIAPN+. O filme reúne um elenco de seis candidatos da comunidade, os quais ajudam a contar o cenário político daquele período. 
O longa, no entanto, não se manteve preso à ideia de exibir somente o processo eleitoral, como também se mostrou preocupado em contar a história para além das candidaturas, trazendo a humanização desses corpos políticos, com o foco na vida pessoal dos candidatos e suas jornadas de luta contra a LGBTfobia. 
Por meio de entrevistas e relatos, o documentário nos faz um alerta sobre a urgência da ocupação de espaços políticos por pessoas que defendem os interesses da comunidade queer. Para que então haja uma transformação efetiva e construção de uma nova narrativa de sociedade, onde esses indivíduos LGBTQIAPN+ tenham seus direitos garantidos e protegidos por lei. 
Berrando pelo Rio
 
Queerioca

Do seu público à programação, a palavra de ordem agora dentro do casarão de número dezesseis, na Travessa do Comércio, nos Arcos do Teles, é diversidade. E isso porque é lá onde fica localizado o QueeRIOca, primeiro centro cultural da cidade do Rio de Janeiro voltado totalmente para produções artísticas da comunidade queer e dedicado ao público LGBTQIAPN+.

Idealizado por Cristina Flores e Laura Castro, o QueeRIOca é fruto de um projeto de revitalização do centro do Rio, promovido pelo edital Reviver Cultural, da Prefeitura do Rio de Janeiro. O objetivo é fomentar a cultura naquela região, ocupando imóveis que estavam abandonados. E para isso repassava uma ajuda de custo aos projetos aprovados. 

Os eventos do espaço são um extenso leque de manifestações culturais. Música, teatro, cinema, literatura, programas infantis, festas, tudo que respira arte, explora a pluralidade e celebra o orgulho LGBTQIAPN+ é uma possibilidade de festividade nesse ambiente tão acolhedor para a comunidade. É possível conferir a programação completa e semanal pelo Instagram do local @queerioca.

Leitura do Mês
 
Movimento LGBTI+: Uma breve história do século 19 aos nossos dias
 

Publicado em 2022, pela editora Autêntica, “Movimento LGBTI+: Uma breve história do século 19 aos nossos dias”, é um livro que aborda questões de diversidade sexual e de gênero, de forma teórica e historiográfica. 

Com uma linguagem acessível, o livro escrito por Renan Quinalha, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), busca alcançar um público mais amplo interessado nas questões que envolvem o universo LGBTQIAPN+. A obra é muito bem avaliado por leitores, que indicam e a elogiam: “Sem a pretensão de escrever um manual exaustivo, o autor nos oferece um panorama da constituição moderna do movimento LGBTQIAPN+ como movimento político que reivindica direitos, equidade e respeito, a partir de um recorte geográfico ocidental” — Erika Hilton. 

Segundo Renan, sua escrita surge como um chamado à ação política e ao engajamento na luta por respeito às diferenças, e tem muito a contribuir com o desenvolvimento desse campo de pesquisa. 

 

Acontecimento
 
Show da Lady Gaga

No dia 3 de maio de 2025, a praia de Copacabana estava completamente tomada por uma multidão de 2,1 milhões de pessoas, segundo dados divulgados pela Riotur, para receber a cantora Lady Gaga, a qual não realizava uma apresentação no Brasil desde 2012.

A cantora trouxe para o público brasileiro um verdadeiro espetáculo. Com cinco atos, seus maiores hits, queima de fogos e uma série de homenagens aos fãs, que respondiam a tudo com muita empolgação e bateção de leques. Sendo um grande ícone para o movimento queer, Gaga fez um agradecimento especial aos seus fãs LGBTQIAPN+ antes de cantar seu grande sucesso ‘Born this way”, além de carregar pelo palco uma bandeira da comunidade.

No entanto, por pouco, o show para os “Little Monsters”, como são chamados os fãs da artista, não vira um palco de tragédias. Devido à ameaça de atentado ao evento, foi desmantelado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, na operação nomeada “Fake Monsters”. O plano era tratado como “desafio coletivo” pelos criminosos para atingir os jovens e o público LGBTQIAPN+ presente. A Polícia Civil, juntamente com o Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab) desmantelou o plano, e o show ocorreu de forma tranquila.

Depoimento
 
Marcelo Lial

Me chamo Marcello Lial, sou estudante de Publicidade e Propaganda (Facha) e moro na Zona sul do Rio de Janeiro. Tenho 23 anos, sou negro, gay – e muitas outras coisas.

Como definir a experiência “ser gay”?

Muitos podem me julgar, mas, ultimamente, pra mim, tem sido bem similar ao álbum Brat, da Charli XCX. Na superfície, temos batidas altas e incríveis, um vocal bem rudimentar, mas ao nos aprofundarmos, nos deparamos com diversas composições que abordam temas profundos como: dor, perda, inveja, ciúmes, sofrimento, festas, moda, padrões de beleza e, claro, solidão.

Atualmente, percebemos como a falta de afeto, compreensão e conexões profundas é pungente na nossa realidade – tanto com o nosso eu quanto com os outros.  Claro, eu não me excluo dessa leva. Não falo apenas de padrões de beleza inalcançáveis, mas de vida também. Nos comparamos constantemente, duvidamos do nosso potencial, das nossas escolhas, do nosso corpo, mente, carreira e até mesmo das nossas qualidades – tudo isso enquanto pensamos no look da próxima festa, no próximo post, no próximo lançamento ou no próximo date, próximo passo na carreira, no academicismo e como tentar conciliar tudo isso “Faz parte do show”.  Afinal, gay e negro? Faça o dobro e ganhe metade do que eles têm.

Mas, se tem uma certeza que o LGBTQIAPN+ têm, é a certeza dos seus defeitos!

Quem nunca se questionou com o famoso “Por que não eu?” e recebeu uma enxurrada de pensamentos intrusivos – e, muitas vezes, sem fundamento –  apontando o motivo pelo qual você não foi tão amado, por que não conseguiu aquele cargo, por que o seu corpo (que te trouxe até aqui) não é mais bonito e te faz se sentir estranho a cada momento?

Aí criamos “Ele”: o outro. O outro que tem tudo e, aparentemente, sem esforço.

Chega um ponto em que falar de afeto é essencial. Afinal de contas, o afeto é o que nos torna humanos. Muitos de nós vivemos em vulnerabilidades constantes, desde antes mesmo de entenderem o que é ser gay – por falta de carinho, compreensão e apoio. Um dos piores sentimentos – e, arrisco dizer, um dos mais nocivos – é se sentir sozinho num mundo gigantesco. Especialmente em uma comunidade que vem se tornando cada vez mais exigente e excludente. Quer dizer, já vivemos em um mundo caótico que está, constantemente, tentando nos extinguir.

Por fim, voltamos ao ponto inicial: “Como é ser gay?’

Pra mim, é confrontar milhares de sentimentos pesados, com sons incríveis. Assim como o álbum Brat tem toda a parte deliciosa das batidas felizes, que te fazem dançar e querer viver ao máximo mas também é capaz de te fazer confrontar todos esses pensamentos nefastos – e muitas vezes, deprimentes.

Você está em uma festa, repleta de pessoas, em que a música fica cada vez mais alta e todos ao seu redor, cada vez mais agitados. Porém, enquanto a música vai subindo, seus pensamentos dão um jeitinho de fazer ainda mais barulho – dentro da sua cabeça

LGBTÍcones
 

Eloina dos Leopardos


Nascida em 13 de janeiro de 1937, na cidade do Rio de Janeiro, Eloína dos Leopardos, uma travesti, foi a primeira rainha de bateria da história do carnaval, em 1976, com 31 anos, pela escola de samba carioca Beija-Flor de Nilópolis. Porém, seu lado artístico começou cedo. Iniciou sua carreira como bailarina e transformista e passou a se apresentar nas casas noturnas de Copacabana. Em meados da última ditadura militar brasileira, mudou-se para Paris, onde continuou sua carreira artística, e alguns anos depois, voltou para o Rio de Janeiro apenas para o Carnaval. Dona de uma presença marcante e de um estilo único, Eloína se tornou um símbolo de ousadia e resistência, sua coroação como rainha de bateria abriu caminho para outras mulheres e transformistas no samba, rompendo barreiras em um espaço historicamente conservador. Mesmo longe dos holofotes, seu legado sempre é lembrado nas passarelas do samba e na memória do carnaval, como no desfile da Paraíso do Tuiuti de 2025, onde o enredo homenageou Xica Manicongo, primeira mulher trans documentada no Brasil e Eloina foi destaque na escola. Atualmente reside em São Paulo, e leva uma vida tranquila, onde trabalha recepcionando e acolhendo pessoas  no tradicional e conhecido restaurante “Bar da Onça”. 

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Coordenadores: Ricardo Ferreira Freitas, Vania Fortuna
Equipe LACON: Marcelo Resende, Pedro Rubim, Laiza Villaça, Juliana Nascimento, Pedro Favera, Isadora Ortiz e Rafael Nacif
Esta edição do “Berro!” foi feita pelas alunas: Juliane Américo e Maria Eduarda Peres, no ámbito da disciplina Estágio Supervisionado II (LCI), sob a coordenação do Prof. Roberto Vilela Elias.
O boletim Berro! Comunicação para a Diversidade tem a proposta de reunir notícias, artigos, dados representativos, ações, produtores e conteúdos com o foco LGBTQIAP+. Este boletim é uma realização do Laboratório de Comunicação Cidade e Consumo (Lacon/Uerj). Gostaria de divulgar sua pesquisa acadêmica, produção artística ou audiovisual, evento ou outro conteúdo relacionado a temáticas LGBTQIA+? Entre em contato com a gente através de nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail berrouerj@gmail.com  

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