Vol. 11, N. 42 BERRO! – APPLE É MULTADA NA RÚSSIA POR VIOLAÇÕES DE LEIS ANTIPROPAGANDAS  LGBTQIAPN+ 

Berro #42

BERRO #42

Berrando pelo Rio

ARRAIÁ SAI, HÉTERO 

Olha a cobra! É mentira. Olha a festa junina queer! É verdade. Pode separar seu melhor look caipira porque no dia 18 de junho, véspera de feriado, a Rua da Constituição 54, vai receber a quadrilha de uma das maiores festas LGBTQIAPN+ do Rio de Janeiro, o Arraiá da Sai Hétero.

O evento é para maiores de 18 anos e está previsto para começar às 20h, com um variado time de djs comandando a pista de dança. A celebração, além de barraquinhas com comidas típicas, contará com dois tipos de setores: a pista comum e um camarote com open bar completo. Os ingressos já estão à venda pelo Sympla.

A festa surgiu como um bloco em 2018, e arrasta multidões pelo carnaval carioca. Hoje em dia, além do seu tradicional desfile nos dias de folia, a Sai Hétero, promove também algumas edições durante o ano. Sempre mantendo sua essência em ser um espaço acolhedor, inclusivo e de celebração da diversidade.
Berro Indica
 

DEPOIS DA MEIA NOITE 

Depois da meia noite é uma websérie do Boleia Produções, com direção de Rogério Gomes, que teve sua estreia em abril de 2024. O audiovisual traz à tona com leveza e humor temas como amor sáfico, amizades, saúde mental e homofobia. A série, até o momento, possui duas temporadas, cada uma composta por oito capítulos, os quais estão disponibilizados no YouTube.

O romance, roteirizado por Lela Gomes, narra os desencontros amorosos de duas mulheres, que viveram uma primeira e intensa noite de amor na virada do ano. Alice (Amanda Simão), uma artista plástica sonhadora, e Joana (Jessica Lígia), uma publicitária bem-sucedida que jamais tira seus pés do chão para sonhar, se encontram por acaso em uma festa de ano novo. Impulsionadas pela emoção do momento, permitem-se viver aquela noite juntas. No entanto, o mesmo destino que as uniu também se encarrega de separá-las. São exatamente esses desdobramentos da vida das duas que acompanhamos na série.

É válido ressaltar que a representatividade, tanto feminina quanto LGBTQIAPN+ da série, não está atrelada somente às personagens retratadas na história. A equipe que compõe os bastidores da produção também é majoritariamente composta por mulheres da comunidade queer, atuando em diferentes áreas – na atuação, na direção, na produção e nas cantoras que dão voz à trilha sonora da trama.
Leitura do Mês
 
SITE “CADÊ LGBT”
 

Nesse mês do orgulho, resolvemos não somente indicar uma leitura única, como também um portal inteiro de possibilidades. O site “Cadê Lgbt” é um espaço de curadoria literária, dedicado a obras de autores da comunidade LGBTQIAPN+ ou voltada para essa temática.

O projeto, idealizado por Maria Freitas em 2019, nasceu em uma página do Twitter com intuito de aproximar os leitores a uma literatura LGBQUIAPN+. O objetivo de celebrar a cultura queer e dar visibilidade a obras literárias que normalmente estariam à margem das editoras tradicionais segue a mesma. Porém, hoje, a proposta foi revitalizada e segue sob nova direção, com Alan Silva como novo responsável. O projeto conta com um site e participações em outras redes sociais, como o Instagram e o TikTok.

O portal além de divulgar esses livros, fornecer resenhas, entrevistas com autores, e listas de leituras, também promove o Prêmio Libélula. Premiação voltada para a literatura LGBTQIAPN+ nacional. É possível acompanhar esse diversificado e importante acervo através do site: www.cadelgbt.com

 

Acontecimento
 
APPLE É MULTADA NA RÚSSIA POR VIOLAÇÕES DE LEIS ANTIPROPAGANDAS  LGBTQIAPN+ 

No mês passado, a Apple foi multada por um tribunal em Moscou, na Rússia, por conta de uma “propaganda LGBTQIAPN+”. Segundo leis que refletem o retrocesso das políticas do país, a empresa tecnológica cometeu três violações, que resultaram numa multa de 2,5 milhões de rublo, por cada uma delas, um montante que resulta no valor de aproximadamente 500 mil reais.

Não se tem acesso à explicação completa do motivo de cada uma das multas, pois foi solicitado por um representante da Apple que as audiências fossem privadas. No entanto, é de conhecimento geral que, desde 2023, a justiça russa endureceu ainda mais suas regras e ampliou suas restrições contra a população LGBTQIAPN+, colocando até mesmo o movimento LGBT internacional como uma organização extremista e os que ousam o apoiar como terroristas.

Essa multa é preocupante, não pelo valor que uma instituição do porte da Apple terá que pagar, mas pela poderosa ferramenta de repressão que a comunidade queer que reside no país está tendo que lidar. O caso é um lembrete do ambiente de medo e exclusão que está sendo promovido dentro da Rússia para a comunidade.

Depoimento
 
MARCOS HENRIQUE FERREIRA

Sou Marcos Henrique Ferreira, tenho 24 anos. Virginiano, estudante de Comunicação Social – Relações Públicas na UNIFACHA, atualmente no 6º período.

Acho curioso olhar para trás agora, quase no fim da graduação, e lembrar do começo — quando eu estava completamente perdido. Não sabia direito quem eu era, o que queria, ou se existia algum caminho no mundo que realmente me coubesse. Me sentia deslocado — sendo um jovem LGBTQIAPN+ vindo de uma favela da Zona Norte, fazendo um curso em uma faculdade particular da Zona Sul do Rio.

Escolhi Relações Públicas quase no susto. Basicamente, estava procurando uma forma de trabalhar com meu cantor favorito e comecei a stalkear o time dele, até que achei na descrição “Relações Públicas” — e naquele momento tive a certeza. No começo foi bastante difícil, e aos poucos fui me encaixando nesse “novo mundo” e descobrindo uma versão de mim que eu nem sabia que existia. Hoje, me sinto mais livre — pra falar, pra sonhar, pra errar e tentar de novo. Ainda tropeço bastante, mas agora caminho com mais certeza de que é realmente isso que eu quero.

A universidade não foi só sobre aprender técnicas e teorias. Foi sobre me conhecer. Conheci um Marcos muito mais comunicativo que aos poucos foi perdendo a timidez e começou a evoluir em pontos que eu jamais imaginei que veria em mim — ou que nem sequer achava que fossem relevantes.

O mais louco é perceber que, mesmo agora, prestes a me formar, ainda não estou totalmente satisfeito. E tá tudo bem. A vida não precisa estar resolvida para ser vivida. O que importa é saber que eu tenho o direito de ocupar espaços, de existir com dignidade e de não me moldar às expectativas dos outros para ser aceito.

A verdade é que não existe um único caminho certo. Cada um tem o seu. E todos nós merecemos chegar aonde quisermos. Eu ainda tô trilhando o meu. Mas, hoje, posso dizer com certeza: é possível. É difícil. É cansativo. Mas é possível.

Mesmo que a gente erre ou se perca no caminho, é como Hannah Montana sempre cantava: You’ll always find your way back home.

 

LGBTÍcone

MAJUR

Premiada nacionalmente como “Artista Revelação” pelo “Orgulho 2019”, Majur dos Santos Conceição é cantora, compositora e foi a primeira mulher trans a se apresentar no Palco Mundo, no Rock in Rio, em 2024. Nascida na periferia de Salvador, no bairro Uruguai, Majur é conhecida por abordar em suas canções temáticas como relações afetivas e empoderamento sem se restringir a questões de gênero: “Minha representatividade já está clara no visual. Não quero restringir nas letras, minha intenção é atingir diversos públicos de diversas idades.” 

Inclusive, seu último lançamento aconteceu recentemente, em maio de 2025, com o álbum “Gira Mundo”, no qual homenageia a ancestralidade e a espiritualidade. A cantora afirma não querer mostrar somente seu trabalho, mas sim desmistificar os preconceitos relacionados à religião: “Apesar de evidenciar a intolerância religiosa e o racismo no Brasil, esse álbum não é sobre religião. É sobre recontar a nossa história nos tempos de hoje. É sobre transformação e conexão, informação para o povo”, declara a artista.

Majur vêm se consolidando como um dos grandes nomes da música brasileira, transformando suas vivências em arte e cantando para o mundo a história de corpos como o dela, aqueles em que a sociedade tenta diariamente invalidar por meio do preconceito.

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Coordenadores: Ricardo Ferreira Freitas, Vania Fortuna
Equipe LACON: Marcelo Resende, Pedro Rubim, Laiza Villaça, Juliana Nascimento, Pedro Favera, Isadora Ortiz e Rafael Nacif
Esta edição do “Berro!” foi feita pelas alunas: Juliane Américo e Maria Eduarda Peres, no âmbito da disciplina Estágio Supervisionado II (LCI), sob a coordenação do Prof. Roberto Vilela Elias.
O boletim Berro! Comunicação para a Diversidade tem a proposta de reunir notícias, artigos, dados representativos, ações, produtores e conteúdos com o foco LGBTQIAP+. Este boletim é uma realização do Laboratório de Comunicação Cidade e Consumo (Lacon/Uerj). Gostaria de divulgar sua pesquisa acadêmica, produção artística ou audiovisual, evento ou outro conteúdo relacionado a temáticas LGBTQIA+? Entre em contato com a gente através de nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail berrouerj@gmail.com  

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