Vol. 1, N. 03 BERRO! – “Todo mundo é igual?”

BERRO! #3
O boletim Berro! Comunicação para a Diversidade tem a proposta de reunir notícias, artigos, dados representativos, ações, produtores e conteúdos com o foco LGBTQIA+. Este boletim é uma realização do Laboratório de Comunicação Cidade e Consumo (Lacon/Uerj). 

A Morte e Vida de Marsha P. Johnson


Com direção de David France, o documentário A Morte e Vida de Marsha P. Johnson (2017) conta a história de uma mulher trans, negra, drag queen, ativista da libertação LGBTQIA+ e uma das principais figuras da Rebelião de Stonewall (1969).

O filme apresenta o cotidiano de Marsha, marcado pela luta constante para sobreviver numa sociedade que humilha, machuca e mata pessoas LGBTQIA+ simplesmente pelo ódio à diferença. O documentário também retrata situações que infelizmente eram comuns a muitos indivíduos da comunidade: a prostituição e submissão a situações degradantes para ter o mínimo para sobreviver.

O documentário mostra-se de extrema importância para o debate público, pois nele são apresentadas situações e pensamentos preconceituosos que ainda estão presentes na contemporaneidade, e continuam incentivando assassinatos e violências em nome de um ódio que não tem cabimento.


O filme está disponível na Netflix.

Campanha LGBTQIA+ do Burger King

 
Recentemente, no dia 23 de junho, a empresa de fast food Burger King lançou uma campanha sobre a diversidade em comemoração ao Dia do Orgulho LGBTQIA+, celebrado internacionalmente no dia 28 de junho.

Estrelada por crianças de diferentes faixas etárias, a campanha da rede alimentícia tem o slogan “Como eu vou explicar isso pra uma criança?”. No vídeo publicitário, as crianças dizem o que acham sobre casais LGBTQIA+ do seu ponto de vista, tratando o tema com leveza e empatia. Por conta dessa ação, o Burger King recebeu críticas e elogios – muitas pessoas encorajaram a empresa, apoiando o comercial, e outras teceram criticas preconceituosas contra a marca. Assista ao vídeo.

Jovem é vítima de crime de ódio em Embu das Artes (SP)

 
O jovem Gabriel Carvalho Garcia, de 22 anos, foi assassinado a tiros em uma barbearia na cidade de Embu das Artes (SP) enquanto esperava para cortar o cabelo. A mãe, o irmão e o namorado de Gabriel acreditam que o crime foi motivado por homofobia. O crime de ódio chamou atenção nas redes sociais após a postagem feita pelo namorado de Gabriel, Bruno Henrique Carlos, e também por ter ocorrido no mês do Orgulho LGBTQIA+. “Ele foi morto por homofobia, ele foi morto por ser quem ele é, por amar”, disse Bruno. 

Os crimes de ódio contra a comunidade queer ainda são frequentes, destruindo a vida de pessoas simplesmente pelas suas sexualidades e formas de expressão.

Primeira travesti a adotar no Brasil

 
Alexya Salvador foi escolhida para ser mãe de duas meninas trans e um menino com necessidades especiais. Ela fez sua transição de gênero aos 28 anos e é casada há 12 anos. “Sempre tive o sonho de ter filhos […]. Mas não imaginava que eu seria mãe, muito menos que eu seria a mulher que eu sou hoje”, disse Alexya.

Quando decidiu que era o momento de ter filhos, ela procurou histórias de pessoas trans que já tivessem adotado crianças, mas não encontrou nenhuma. Alexya é a primeira trans a concluir o processo de adoção no país. Leia a história completa aqui.

Transfobia em Recife 

 
Na madrugada do último dia 24, uma mulher trans foi vítima de transfobia e teve 40% de seu corpo queimado numa tentativa de homicídio na região central de Recife. Roberta, de 33 anos, ficou gravemente ferida com queimaduras de 3° grau e teve um braço amputado. Ela segue internada em estado grave. Segundo a Polícia Civil, o autor do crime foi um adolescente, que tentou fugir correndo do local, mas foi pego pela polícia. Ele foi levado à Unidade de Atendimento Inicial (Uniai) da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase).

A co-deputada estadual Robeyoncé Lima, do mandato coletivo Juntas (PSOL), esteve no Hospital da Restauração, onde Roberta está internada, e declarou que irá “oficiar os órgãos do governo para que sejam tomadas providências em relação a essa questão”. O prefeito de Recife, João Campos (PSB), usou sua conta no Twitter para se manifestar sobre o caso: “O que aconteceu é intolerável, atinge a todos e a todas nós, comprometidos com a causa dos direitos humanos e do enfrentamento à qualquer tipo de violência e preconceito”.

Demi Lovato revela ser uma pessoa não binária

 
A cantora estadunidense Demi Lovato revelou em suas redes sociais ser uma pessoa não-binária e que gostaria de ser chamada pelos pronomes de tratamento neutros “they/them (em português, “elo/delo”). No vídeo, Demi ressaltou a importância de abraçarmos as oportunidades que a vida nos dá para sermos o que queremos ser, incentivando as pessoas a serem felizes e não se prenderem ao preconceito dos outros. Em março deste ano, a cantora se assumiu pansexual no podcast The Joe Rogan Experience.

 Bixarte, rapper trans paraibana, lança primeiro clipe autoral


A rapper Bixarte deu início ao projeto “Nova Era” com o single Oxum, contando com financiamento da Lei Aldir Blanc. O trabalho prevê ainda o lançamento de mais três músicas/clipes para este ano, dando continuidade ao projeto. Bixarte tem como prioridade destacar a potência de pessoas pretas e da comunidade LGBTQIA+, bem como promover novos nomes do cenário audiovisual da Paraíba. Para assistir ao clipe, clique aqui.

“Todo mundo é igual?”

 
No artigo “Todo mundo é igual? Construções de gênero sob o olhar da juventude”, os autores apresentam o resultado de uma pesquisa de análise de construções de gênero na juventude pelas percepções de alunos e alunas da modalidade de ensino EJA (Educação de Jovens e Adultos). O texto discute a visão de estudantes de 15 a 29 anos sobre as representações de gênero na sociedade atual, considerando suas diferentes realidades.

Saúde Mental da comunidade LGBTQIA+

 
A pesquisa “Saúde mental da população LGBTQIA+: violências, preconceitos e suas consequências” é fruto do trabalho voluntário na CasAmor LGBTQI+, vivido pelos autores por dois anos. O objetivo é identificar e discutir as demandas dessa comunidade na questão da saúde mental. A pesquisa mostra a influência de preconceitos e violências na saúde mental dessa população, apresentando o contexto sócio histórico do Brasil e particularidades referentes à classe social, gênero, raça, etnia e outros marcadores sociais.

O homenageado desta edição é o ator, humorista, diretor, roteirista e apresentador brasileiro, Paulo Gustavo Amaral Monteiro de Barros, mais conhecido como Paulo Gustavo. Assumidamente gay, Paulo Gustavo conquistou milhões de brasileiros com seu carisma e talento. Através de sua arte, ele entretinha e conscientizava diversos públicos, de diferentes faixas etárias.

Um de seus trabalhos mais marcantes foi a trilogia cinematográfica “Minha mãe é uma peça”, sucesso de bilheteria no Brasil, considerada a comédia mais assistida do cinema brasileiro.
O terceiro filme da saga, “Minha mãe é uma peça 3”, é o produto audiovisual com maior arrecadação até o momento (138 milhões de reais em apenas quatro semanas de exibição, segundo a Com Score). Aproximadamente 8,7 milhões de espectadores assistiram ao filme. 

A produção tratou com bastante clareza e delicadeza a aceitação de uma mãe a seu filho gay e também ao casamento homoafetivo. A obra contribuiu para que muitas famílias aceitassem seus parentes LGBTQIA+, entendendo a homossexualidade como algo normal. Através do humor, Paulo Gustavo conscientizou a sociedade em relação à comunidade LGBTQIA+ e promoveu sua representatividade, já que o artista nunca deixou de assumir essa bandeira.

Infelizmente, Paulo Gustavo faleceu no mês de maio de 2021, vítima da Covid-19. Ele deixou dois filhos, marido e família. Sua morte gerou uma onda de revolta no meio artístico e na sociedade como um todo, já que o ator faleceu por conta de uma doença para a qual já existia vacina. Apesar das inúmeras oportunidades de compra oferecidas pelos laboratórios, o governo brasileiro não quis adquirir vacinas que poderiam ter evitado a morte de Paulo Gustavo e de mais de 500 mil brasileiros.

Paulo Gustavo pode ter morrido, mas sua arte e sua memória sempre permanecerão vivas, tanto na indústria cinematográfica e televisiva quanto nos corações dos brasileiros. 


 
O Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT é uma organização não governamental fundada em 21 de Maio de 1993. Sua sede está localizada no Rio de Janeiro e está em funcionamento. O enfoque da ONG é a cidadania e representatividade da comunidade LGBTQIA+, promovendo pautas de direitos humanos, cultura de paz, combate à violência, justiça social e informações sobre doenças (como HIV/AIDS), com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dessa população. Para conhecer melhor, clique aqui.

Porto Maravilha com as cores da bandeira LGBTQIA+

Durante o mês de junho o Porto Maravilha permaneceu iluminado com as cores do arco-íris em apoio e homenagem ao Mês do Orgulho LGBTQIA+. A iniciativa, realizada pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto (Cdurp) em parceria com o Museu de Arte do Rio, o Museu do Amanhã, o Píer Mauá e o Núcleo de Ativação Urbana, é parte da campanha “Porto pela Diversidade”, que tem como objetivo incentivar a inclusão e a diversidade nos ambientes sociais.

Para além disso, a iniciativa elaborou oficinas, seminários e várias atividades especiais durante o projeto, e também distribuiu cordões para crachás nas cores da representatividade LGBTQIA+. “São ações que dão visibilidade e celebram a diversidade. Isso vai desde reforçar este sentimento nos funcionários da empresa até iluminar prédios icônicos do Porto Maravilha. Ambas grandes sucessos. Os cordões de crachá, inclusive, atingiram outros órgãos municipais e as luzes ganharam as redes sociais”, disse o presidente da Cdurp, Gustavo Guerrante.

Grag Queen

Grag Queen é uma cantora contemporânea criada pelo artista Gregory Mohd, de 25 anos. No Instagram, a sua marca são os remixes de músicas. A cada vídeo, a cantora escolhe uma música e canta em vários ritmos diferentes, desde trap, reggae, forró, country e até ópera. Grag transita entre musicalidade, interpretação e humor, se posicionando e lutando pela comunidade LGBTQIA+. 
Katú Mirim
 
Rapper paulista, Katú Mirim é uma mulher indígena e membro do @indigenaslgbtq – coletivo criado por indígenas. A artista produz músicas e conteúdos audiovisuais sobre ativismo indígena e movimento LGBTQIA+. Confira aqui a música “Indígena Futurista” de Katú Mirim.

queerida

 

A queerida é uma marca de acessórios fundada em 2019 que produz semijoias para todes. O próprio nome da marca faz um jogo com a palavra Queer, termo que caracteriza pessoas que estão fora da heterocisnormatividade, ou seja, fora da heterossexualidade e cisgeneridade (pessoas que se reconhecem dentro do gênero imposto no nascimento). 

A comunicação da queerida é voltada totalmente para o público LGBTQIA+. A forma de interação, as referências e o posicionamento de marca evidenciam sua missão: valorizar a comunidade como um todo!

João Freire

 

Bom dia, grupo! Pra quem não me conhece, sou João Freire, tenho 20 anos e sou ator, cantor, produtor e apresentador. Sou um homem gay, branco, padrão e privilegiado em alguns quesitos e em outros não (acho que essa questão do privilégio é muito complexa e deve ser discutida).

Atualmente, comecei a produzir o meu primeiro monólogo que vai se tornar um filme e um álbum musical no ano que vem. Ele é baseado na minha persona, chamada “Narci$u”, e discorre sobre um garoto de programa queer. A narrativa ocorre por um caminho de transgressão, ruptura e destruição de qualquer questão de gênero ou sexualidade. Além disso, gravo vídeos informativos e opinativos que falam sobre news e cultura para a Catraca Livre e o Canal Reload.

Dentro da UNIRIO, estou desenvolvendo uma pesquisa sobre a arte queer e a voz, orientado pelo professor Domingos Sávio, onde a gente estuda três artistas queer: Linn da Quebrada, Ney Matogrosso e Dzi Croquettes. A pesquisa tem o intuito de falar sobre e enaltecer artistas da comunidade. Eu gosto muito e sempre indico o álbum ‘Pajubá’ da Linn da Quebrada, que para mim é uma das melhores coisas feitas pela humanidade. O Pajubá fala sobre a vivência de uma bicha, travesti, trans e preta com toda a sua vivacidade, sexualidade e seu poder de resistência. O meu trabalho na UNIRIO se mostra importante por trazer esse tipo de conteúdo para outras pessoas, já que infelizmente o universo academia ainda continua sendo muito eurocêntrico e colonizador.

Dentro da internet, eu gravo vídeos e falo muito sobre diversas questões LGBTQIA+, privilégios sociais e sobre cultura pop. De uma forma geral, sempre tentando trazer um ponto de vista não tão hierarquizador. 

Enquanto um homem gay, tenho um monte de privilégios em relação a muitas outras pessoas dentro desse guarda-chuva LGBTQIA+, mas isso não diminui nunca as minhas dores e/ou as de outras pessoas, pois são lugares diferentes. Já sofri muita homofobia e, no Carnaval de 2016 (meu primeiro carnaval), me jogaram uma garrafa de vidro na rua, tentando me matar… Enfim, mas nós persistimos e continuaremos a persistir, firmes e fortes.

Hoje eu tento ao máximo agregar e tentar conectar a causa LGBTQIA+ à comunidade, porque me dói muito ver a comunidade cada vez mais separada, porque eu acho que não é sobre isso, acho que é sobre a gente buscar força dos nossos e entender os nossos lugares dentro disso. Enquanto homem gay, eu tenho muito mais privilégio que uma pessoa trans, mas eu tenho muito menos privilégio de uma pessoa heterossexual.

Então, às vezes, eu acho que entramos numa discussão de “quem sofre mais” e não deveria ser sobre isso, sabe? Sofremos coisas diferentes e uma dor não anula a outra. Isso eu acho que vai para diversos aspectos de militância: uma pessoa indígena sofre uma coisa diferente do que uma pessoa negra, que sofre uma coisa diferente de uma pessoa LGBT e esses sofrimentos são legítimos e devem ser reconhecidos, respeitados e combatidos.

Acho que temos que aprender muito enquanto sociedade ainda sobre como democratizar o conhecimento, realizar debates e entendermos verdadeiramente (e não de forma deturpada) o que é um local de fala para que possamos entender os nossos privilégios e as bases da sociedade e do preconceito. A homofobia tem a ver diretamente com o nosso conservadorismo e valores da nossa colonização católica. Enfim, já passou da hora da gente se “desconstruir” (eu nem gosto desse termo, porque eu acho que a gente já passou da hora da desconstrução, acho que o necessário é destruir esses valores éticos, conservadores e católicos que não contemplam a todos). 

Muitas coisas nos afetam enquanto LGBTs, coisas diretas e indiretas, por exemplo: eu sempre tive a sensação de que precisava fazer “a mais” para provar o meu valor. Eu tenho dois irmãos, eles são heterossexuais, e eu sempre fui um filho prodígio. Quando eu entrei na faculdade já tinha oito anos de teatro, já fiz vinte e cinco peças, ballet, dança contemporânea, sapateado, circo, aula de canto lírico e coral. Tudo isso, eu aprendi correndo atrás de bolsas e pedindo desconto e, mesmo assim, SEMPRE tive a sensação que estava fazendo o mínimo, como se eu tivesse que fazer mais coisas para me provar. Esse sentimento era muito forte na minha adolescência. Eu fui um dos melhores alunos, passei na faculdade de primeira e ainda não me sentia bom o suficiente. Eu sempre pensei que eu tinha que provar algo, que “apesar da minha sexualidade” eu tinha o meu valor. Hoje em dia, eu acho isso uma idiotice. Eu tenho meu valor e, independente da sexualidade, isso não me diminui. Eu acho que deve sempre prevalecer o respeito e a igualdade, porque somos iguais e não devemos ser olhados e tratados de formas diferentes.

Trans x Travesti x Drag Queen 

 

As três palavras acabam gerando muitas confusões justamente por trabalharem as noções de gênero. No entanto, há diferenças significativas entre elas:

  • Trans – Pessoas que não se identificam com o gênero imposto no nascimento, isto é, pessoas que transicionam de um gênero para o outro. É importante ressaltar que a palavra trans é um termo guarda-chuva, abrigando todes que rompem com a cisgeneridade (incluindo transexuais, travestis e pessoas não-binárias).
  • Travesti – Possui o mesmo significado da palavra trans, porém, nesse caso, o uso da nomenclatura travesti parte de um lugar mais político, visto que as travestis são pessoas marginalizadas pela sociedade, lançadas ao subemprego e invisibilidade. O correto é dizer a travesti, e não o travesti.
  • Drag Queen – Se trata de uma forma de expressão artística que trabalha, principalmente, com as construções e desconstruções de gênero. Veja bem, Drag não caracteriza uma identidade de gênero ou sexualidade, Drag é arte!
Para ler esses e outros termos na íntegra, acesse nosso glossário online aqui.
  • 28 de junho – Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+
  • 14 de julho – Dia Internacional da Pessoa Não-Binária 
  • 29 de agosto – Dia Nacional da Visibilidade Lésbica 
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