Rio de Janeiro, Fevereiro e Março…

Imagem: Nike

As cores da esperança

De quatro em quatro anos, a população brasileira se prepara para ir às urnas novamente, a fim de eleger governadores, senadores, deputados federais e estaduais e um presidente da República. No mesmo momento, o peito de muitos cidadãos entra em esperança não só pelas novas candidaturas, mas também por ver sua seleção em campo em busca do hexacampeonato em mais uma Copa do Mundo. 

Depois de um período de certo distanciamento do público com a Seleção Brasileira — motivado pela saída precoce de jogadores para o futebol exterior, dificultando assim a criação de vínculos com a torcida local, e também pela recente polarização política que envolveu o uniforme nacional —, o cenário atual aponta para uma mudança.

Observamos hoje, para além das telas e das redes sociais, uma ressignificação sobre o sentido da camisa do Brasil e um chamado esperançoso que recria a disposição coletiva para torcer. Esse movimento de retomada da identidade e afeto do torcedor, resgatado pelo sentimento nostálgico, tem se mostrado vivo por meio das tradicionais pinturas e decorações temáticas das ruas. 

Embora o consumo de jogos e o uso das redes sociais façam parte da rotina de todas as idades, o engajamento do público mais jovem ganha uma dinâmica diferente. Essa geração acompanha a evolução dos atletas nos clubes nacionais de forma muito mais imediata e digital, construindo uma identificação cotidiana com os futuros craques antes mesmo do mundial. Com o pentacampeonato conquistado há 24 anos, enquanto os adultos relembram o passado, os mais jovens demonstram empolgação para testemunhar a própria vitória, buscando uma conquista que não seja apenas contada por seus parentes, mas vivida por eles na internet e nas ruas.

Rio Entre Esquinas

                           Imagem: recorte de vídeo viral no Instagram

As visíveis barreiras do patrimônio festivo

Mesmo diante dos obstáculos cotidianos da nossa infraestrutura, a mobilização popular para decorar as ruas não reflete apenas o desejo de torcer pela Seleção Brasileira; ela funciona como um forte instrumento de promoção de cidadania e de construção coletiva. É através do futebol e da proximidade da Copa do Mundo que os moradores se unem, resgatando o sentimento de comunidade ao transformar o próprio espaço urbano. 

Essa capacidade de auto-organização é tão potente que o próprio poder público reconhece o seu valor. Exemplo disso é o novo concurso “Acreditar é uma Arte: O Rio nas Cores do Hexa” – lançado pela Prefeitura do Rio por meio da Secretaria Municipal de Cultura neste ano –, que premiará as ruas mais bem decoradas da cidade com um edital de R$100 mil. Tais iniciativas demonstram como a festa popular, como são as Copas do Mundo no Brasil, é capaz de movimentar o turismo, o comércio local e legitimar a identidade carioca.

​No entanto, para que essa promoção de cidadania seja efetiva, é necessário que o suporte institucional vá além dos holofotes dos grandes eventos ou do calendário eleitoral. O grande paradoxo urbano se revela quando o município estimula e premia a estética do chão pintado, mas falha em garantir investimentos em materiais básicos, como tintas e ferramentas, e em resolver problemas crônicos de acessibilidade e infraestrutura dessas mesmas vias. 

A ausência do poder público no cotidiano fora das épocas de votação cria barreiras que impossibilitam a participação igualitária de todos os bairros. E, para que o futebol continue sendo esse elo de união e cidadania, é fundamental que haja um diálogo contínuo e medidas efetivas de zeladoria urbana, pois, quando a estrutura básica da cidade falha, a própria manifestação cultural da população é limitada. 

Personagem da Gema

Foto: Reprodução/G1

Verde, Amarelo e Memória: a tradição que une as ruas do Rio

No auge das políticas de repressão e censura promovidas pela ditadura militar, as ruas cariocas – espaços de travessias rotineiras e encontros momentâneos – de repente se veem esperançosas, em festa pela conquista do tricampeonato mundial, na década de 1970. Naquele momento, as cores da bandeira do Brasil reivindicavam um dono para os próximos anos: o povo. 

A cada quatro anos, uma movimentação podia ser vista. As cores, até então estampadas apenas na bandeira brasileira e na camisa dos jogadores da seleção, tomam conta dos espaços físicos. Colorindo e dando novos formatos às calçadas, aos asfaltos e às paredes das ruas do Rio de Janeiro, o verde e amarelo brasileiros realizam o trabalho de unir a população, criando um ambiente de formação identitária e expressão coletiva. E o produto disso é uma tradição popular, que será passada de geração em geração.

Entretanto, os recentes acontecimentos – como a pandemia de Covid-19, o sequestro dos símbolos nacionais pela extrema-direita e a desesperança coletiva nos bons resultados da seleção brasileira – desanimaram o povo, e a tradição perdeu forças entre os mais jovens. Alguns lugares mantiveram a tradição, mas foi perceptível a dimimuição conforme acontecia em Copas do Mundo desde a década de 1970 até o início dos anos 2000.

No entanto, em 2026, há uma retomada dessa tradição nas ruas. Adultos que viveram essa “época de ouro” correm atrás de projetar os bons momentos de suas infâncias na de seus filhos, tirando um pouco a garotada e os adultos dos jogos e das redes sociais, permitindo-as conviver com seus vizinhos de todas as idades e identidades. Lugares como a Rua Pereira Nunes, a Rua Jorge Rudge, ambas em Vila Isabel e a Rua Alzira Brandão, na Tijuca, retornam com essa tradição, reunindo a comunidade em prol do amor pelo futebol e a vontade de torcer pela Seleção Brasileira. Além disso, novos locais surgem nas cenas, como ocorreu na Rocinha, no Vidigal, na Mangueira e em Duque de Caxias, colocando a periferia do estado aos olhos da mídia como espaços de produção cultural e econômica, para além da visão limitada do jornalismo e das redes sociais que ligam as favelas e a Baixada Fluminense apenas à pobreza e à violência.

Sendo assim, unidos por um sentimento de nostalgia e de um resgate da memória coletiva, a população carioca retoma a rua como seu principal espaço de expressão. Em entrevista para o jornal britânico The Guardian, o pesquisador do Lacon, Marcelo Resende – cuja pesquisa aborda a politização dos símbolos nacionais, como a camisa da seleção brasileira – reforçou a importância do futebol e da consequente movimentação popular na pintura das ruas para as comunidades periféricas do Rio de Janeiro: “O futebol é um dos poucos fenômenos populares ainda capazes de permitir que comunidades mais vulneráveis sintam que pertencem à nação… Pintando uma rua, você cria novos significados.”, diz Resende. Além disso, para o pesquisador, a tradição toma novas proporções ao se aliar com as redes sociais. Vídeos e fotos nas mais diversas plataformas passam a sensação de que a tradição volta com maior alcance e intensidade, em um cenário completamente diferente dos últimos títulos, o verde e amarelo do Brasil colorem não somente as ruas locais, mas os becos e vielas, visibilidade possibilitada pela internet.

Imagina Rio Entrevista 

Imagem: Enviada pela entrevistada

Débora Gauziski é professora adjunta do Departamento de Relações Públicas da Faculdade de Comunicação Social da UERJ. Doutora e mestra em Comunicação pela UERJ.

A Copa do Mundo é um dos eventos mais esperados pela população, principalmente pelos brasileiros, que sempre se mobilizam com diferentes ações. O mundial evoca o sentimento de comunidade e de esperança que o país possa mais uma vez alcançar a vitória. Esse ano o foco foi nas pinturas de rua, muitas vezes motivada pelo sentimento nostálgico, adultos saudosos sua infância nas ruas mobilizam toda a população, até as crianças de hoje, que não viveram na mesma época, mas que são cativadas pelas as histórias, as conversas e a sensação transmitidas de uma geração a outra. Isso mantém a tradição viva, que é muito importante para a construção de uma memória e de uma identidade brasileira.

Quais são os principais conceitos de nostalgia e como ela entrou na sua pesquisa?

 Recentemente, percebi que as discussões sobre memória e nostalgia atravessam os diversos objetos de pesquisa aos quais me dediquei ao longo da minha trajetória acadêmica. Atualmente, pesquiso a conexão entre música, memória e plataformas digitais, mas no mestrado e no doutorado o meu objeto de pesquisa era a fotografia.

Durante o doutorado sanduíche na Syracuse University (Estados Unidos), tive contato com a clássica obra The Future of Nostalgia (2001), da pesquisadora russo-estadunidense Svetlana Boym. Ela conta que o termo “nostalgia” surge primeiramente no vocabulário da medicina, cunhado pelo médico suíço Johannes Hofer em 1688, remetendo à sensação de tristeza relacionada ao desejo de retorno à terra natal. A nostalgia era considerada uma doença, e seus sintomas eram parecidos com os da tuberculose. As vítimas eram principalmente soldados alocados em países distantes e camponeses que haviam migrado das zonas rurais para as cidades.

No final do século XIX, a nostalgia assume o sentido metafórico de perda ou saudade de um lugar ou tempo no senso comum. Muitos autores costumam dizer que a nostalgia é também uma reação à modernidade, que impôs um novo modo de vida mais acelerado e que aspirava o futuro, rejeitando o passado. 

Boym propõe dois tipos de nostalgia: a restauradora e a reflexiva. A primeira tenta reconstruir um passado idealizado, e geralmente é instrumentalizada pela retórica política nacionalista – vide Donald Trump e seu lema de campanha “Make America Great Again”. Já a segunda, não busca um “retorno ao lar”, podendo ser crítica e até irônica. 

Há outros autores que pesquisam a nostalgia, cada um com seu enfoque e seus objetos de análise, como Katharina Niemeyer, Gary Cross, Ana Paula Goulart, Lucia Santa-Cruz, Michael Pickering e Emily Keightley, Elizabeth Guffey. É uma discussão que não está apartada do debate sobre memória.

Qual a relação entre a Copa do Mundo e a construção de uma memória social?

Os megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, rompem com a normalidade do cotidiano. Como eles acontecem com uma periodicidade estendida, a cada quatro anos, existe uma grande expectativa em torno deles. Eles são extremamente midiáticos e midiatizados, com repercussões antes, durante e depois de seu acontecimento. 

Esses eventos, em uma perspectiva benjaminiana, fazem parte do tempo do calendário. Segundo Walter Benjamin, o tempo do relógio é constante e vazio, e o tempo do calendário é irregular e carregado de presenças. Esses momentos tendem a ser marcantes na nossa memória individual e coletiva, pois relacionam-se às celebrações e à experiência vivida. Todos nós temos uma lembrança especial de Copa do Mundo. Eu, por exemplo, me lembro com muito carinho da Copa de 1994, quando o Brasil foi tetracampeão. Eu só tinha sete anos, mas tenho a recordação de assistir à final na casa da minha avó, na Taquara, com minha família. A vizinhança fechou a rua e fez uma festa maravilhosa – teve até um baile funk improvisado. 

A memória, como nos diz Maurice Halbwachs, possui sempre uma dimensão coletiva, social. Sendo assim, cada um dos indivíduos que viveram esse momento comigo é um pilar na manutenção da memória coletiva. Para o autor, mesmo as memórias individuais estão conectadas à coletividade, pois a nossa rememoração acontece a partir de “quadros sociais da memória”. Isso porque todos os indivíduos são impactados pelo seu meio social (os códigos, os símbolos, os significados, a cultura, a linguagem), que influencia mesmo a construção subjetiva de suas lembranças. 

Ao mesmo tempo, a memória é viva e está sujeita a esquecimentos e fabulações. Meus pais, por exemplo, têm outras lembranças do tetracampeonato. Eu, com meu olhar de criança à época, tenho memórias um tanto quanto idealizadas, quase fantasiosas. Foi uma alegria indescritível. 

Também é interessante pensar sobre como os meios de comunicação e as tecnologias expandiram a nossa memória coletiva. A maior parte das pessoas acompanha a Copa pelas transmissões. Algumas partidas acabaram sendo um trauma coletivo, como foi o caso do “Maracanazo” (quando o Brasil perdeu a final da Copa de 1950 para o Uruguai) e o fatídico “7 a 1” (quando perdemos para a Alemanha nas semifinais da Copa de 2014). Assim como outros eventos históricos marcantes que foram transmitidos pela mídia, a maior parte das pessoas se lembra onde e com quem estava durante a transmissão desse jogo de 2014. Essas derrotas monumentais aconteceram “em casa”, por isso a imprensa teceu inúmeras comparações entre esses dois momentos. Sendo assim, o jornalismo costuma fazer determinados enquadramentos “oficiais” da memória – que, é claro, estão sempre em disputa com a perspectiva dos atores “não-oficiais”.

As redes sociais foram tomadas por conteúdo de futebol e Copa do Mundo, com esse evento tão grande chegando. Um dos temas recorrentes foram as figurinhas e o colecionismo, que se estende por gerações. Como você acha que as tendências do colecionismo estão ligadas à nostalgia?

Acredito que o colecionismo pode ser nostálgico para algumas pessoas, mas não para todas. Os álbuns de figurinha são parte da cultura material relacionada à Copa do Mundo. Inúmeros objetos compõem a experiência desse megaevento: a pintura das ruas, as decorações nas casas, as réplicas de troféus, as camisas oficiais e não-oficiais. Como nos diz Halbwachs, os objetos são espécies de pontos de ancoragem para o processo de memória.

O colecionismo de figurinhas também possui uma dimensão social, que pode ser tão divertida quanto completar o álbum. Os encontros de trocas são uma forma de sociabilidade, atravessando gerações. Muitos pais colecionam com os filhos para tentar proporcionar uma experiência que viveram (ou que gostariam de ter vivido) na infância. Nesse sentido, acho que é uma prática que pode acionar lembranças saudosas do passado. As crianças, por sua vez, vão construir novas memórias.

Outro tema muito em alta é a pintura das ruas em épocas de Copa do Mundo. Dessa vez a prefeitura do Rio, por exemplo, vai premiar as ruas mais decoradas, por meio do concurso “Acreditar é uma Arte: O Rio nas Cores do Hexa”, organizado pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro (SMC).  Como você acha que esses incentivos podem ajudar no desenvolvimento de uma identidade coletiva? E se a nostalgia de uma outra época impulsiona a pintura das ruas para a Copa do Mundo?

Na minha lembrança, parecia que havia mais ruas enfeitadas no passado. Decorar as ruas do bairro incentiva a conexão entre os vizinhos e um espírito coletivo, pelo menos nesse momento de Copa. Eu tenho percebido que, após a pandemia, o movimento nas ruas diminuiu bastante em diversos bairros. Por isso, acho ótimas iniciativas como a da Secretaria Municipal de Cultura do Rio, que são uma forma de valorizar a cultura popular e estimular as pessoas a saírem de casa e ocuparem a cidade.

Leitura do Mês

Imagem: Site Memoria Académica

O artigo O Segundo sequestro do verde e amarelo: futebol, política e símbolos nacionais, de Simoni L. Guedes e Edilson da Silva, propõe analisar como os símbolos nacionais brasileiros – o hino, a bandeira e as cores verde e amarelo – foram utilizadas para promover certos movimentos e grupos políticos. Para os autores, houve dois “sequestros” desses símbolos: o primeiro durante a ditadura militar, quando foram usados como instrumentos de patriotismo e controle político, e o segundo a partir das Jornadas de Junho de 2013 que culminaram nas eleições de 2018, quando passaram a ser associados à direita política. 

O texto também destaca o papel do futebol, especialmente das Copas do Mundo, na apropriação desses emblemas pela população brasileira, que passou a utilizar as cores nacionais, associando-as à paixão pelo futebol e ao sentimento coletivo de pertencimento nacional. Desse modo, os autores refletem sobre como os símbolos que deveriam representar a população, ao serem reclamados por grupos políticos geram exclusão e aprofundam divisões no país.

Como complemento ao artigo de Guedes e Silva, indicamos também o artigo Narrativas midiáticas para o ‘dessequestro’ da camisa da seleção brasileira de futebol, de Vania Fortuna e Marcelo Resende. Enquanto Guedes e Silva analisam historicamente a apropriação dos símbolos nacionais por grupos políticos, especialmente pelo bolsonarismo, Fortuna e Resende investigam as tentativas de reverter esse fenômeno durante a Copa do Mundo de 2022. A partir da análise das coberturas dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo, os autores discutem como a mídia buscou reconstruir a imagem da camisa da seleção brasileira como um símbolo pertencente a toda a sociedade. Em conjunto, os artigos ampliam a reflexão proposta por Guedes e Silva ao abordar não apenas o “sequestro” dos símbolos nacionais , mas também os desafios envolvidos em seu possível “dessequestro”.


Esta edição foi produzida por Allana Barbosa, Maria Clara Busato e Maria Eduarda Araújo Tomé – bolsistas do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Marcelo Alves de Resende, doutorando do PPGCom/Uerj e coordenador técnico (Qualitec) do Lacon.

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