A escola me ensinou o preconceito

Minha infância foi marcada pela ditadura militar e, consequentemente, pelo preconceito. Cresci em um subúrbio do Rio de Janeiro, no extinto estado da Guanabara, e estudei em uma escola pública de bairro. Lembro-me bem da minha ansiedade infantil até chegar à idade de poder, finalmente, frequentar a escola. Eu brincava com os livros e cadernos dos meus irmãos mais velhos, como se já soubesse ler, imaginando que a escola seria o espaço da liberdade e da ascensão social, no qual eu seria feliz. Na minha família, não se falava muito de política e eu não tinha ideia do que significava o momento delicado pelo qual o Brasil passava. 

Ingressei na escola pública – o bolso da camisa branca do uniforme escolar vinha com o bordado EP – em 1969, com 6 anos de idade, para cursar o pré-primário. As aulas começavam às 7h da manhã e acho que esse foi o único período da minha vida em que eu gostei de acordar cedo. 

No primeiro ano, a escola efetivamente representou o lugar da esperança, da satisfação, do prazer em aprender. Eu não havia frequentado jardim de infância, então, as primeiras experiências de aprendizado eram cheias de magia. Aprendi a ler em poucos meses e guardo a lembrança da gentileza da professora, Dona Sueli, que não escondia seu orgulho com meu desenvolvimento. É bem verdade que eu contava com a ajuda da minha irmã nas tarefas escolares de casa. Havia um sistema de rigidez, de total respeito às professoras, mas isso me parecia próprio ao ambiente escolar. Era uma época em que as crianças faziam fila em ordem crescente de estatura para cantar o hino nacional, e os melhores alunos eram escolhidos para compor o Centro Cívico Escolar, que nada mais era do que uma célula disseminadora da ditadura e seus princípios.

No segundo ano, que era a primeira série do primário, continuei a acreditar que a escola era o melhor lugar do mundo depois da casa onde morava com a minha família. Assim foi no terceiro ano, mas, nesse período, comecei a notar que havia alguma coisa estranha acontecendo. Com oito anos de idade, as expressões “bichinha” e “viadinho” ecoavam quando eu passava, mas eu não entendia o que significavam. Aos nove anos de idade, no quarto ano, terceira série, o inferno começou a se consolidar. Garotos colocavam o pé na minha frente para eu tropeçar, a professora Letícia, longe da delicadeza da Dona Sueli, me chamava a atenção sobre o meu jeito de sentar e falar sem que eu entendesse os motivos e, um dia, a Diretora da escola, Dona Maria José, me repreendeu aos berros na fila do hino nacional devido aos meus trejeitos. A escola deixou de ser acolhedora – na verdade, aquela escola nunca havia sido, mas eu não notava antes– e passou a ser o espaço de tortura infantil e total deferência às normas militares que disseminavam preconceito e subserviência a um dos sistemas mais corruptos que o Brasil já conheceu, travestido de “milagre econômico”.

No quinto ano, quarta série, o pior passou a acontecer. Garotos me seguiam ao banheiro, me mostravam seus órgãos genitais, me mandavam fazer sexo oral. Eu sempre consegui escapar dessas violências nos banheiros, mas não da violência fora dos portões, onde esses mesmos alunos me batiam, me ridicularizavam. Nunca fui procurado por alguma professora ou pedagoga para saberem o que estava acontecendo. Ao contrário, ficava implícito que o problema era eu. Eu era o erro. Tampouco nunca chamaram alguém da minha família para conversarem sobre as agressões que eu sofria, e eu tinha vergonha de comentar em casa, pois tudo indicava que o problema estava comigo. Eu não tinha coragem, nem ambiente, de contar à minha família o que acontecia na escola. Os coleguinhas passaram a se afastar de mim, mas algumas poucas meninas continuaram amigas. 

Um dia, na quarta série, quinto ano, quando passei a estudar à tarde, minha irmã me disse que alguém escreveu pela manhã no muro da casa com giz “Ricardo é bicha”. Ela apagou. Eu sei que ela queria me proteger, mas ela também era vítima de um sistema ideológico em que o silêncio era mais adequado nessas situações. Ao final desse ano, a mãe do meu coleguinha mais próximo na escola o proibiu de falar comigo. Eu levei anos para entender o motivo.

Fonte: educacaointegral.org.br

Quando ingressei na quinta série, minha família mudou de bairro, mas eu continuei estudando na mesma escola. E as coisas foram piorando. Eu tinha tanto medo da violência na porta do estabelecimento que desenvolvi um método de sempre chegar atrasado na primeira aula. Fui punido algumas vezes pelos atrasos, mas as autoridades escolares nunca tentaram saber o motivo porque eu entrava com o primeiro tempo já iniciado. Nessa segunda metade do então denominado Primeiro Grau – que se constituía nos 5 anos do antigo primário e os quatro anos do antigo ginásio – não tive aulas de história ou geografia. Essas disciplinas haviam sido substituídas por Estudos Sociais, na qual, ao contrário do que o nome sugere, não se estudavam os problemas sociais. Ao mesmo tempo, uma outra disciplina, Moral e Cívica, servia de base para a lavagem cerebral proposta pela ditadura militar.

A escola, o local onde anos antes eu achava que seria acolhido, virou um pesadelo. Além disso, com o passar dos anos, os efeitos da ditadura militar também foram sentidos na qualidade do ensino. As escolas públicas municipais e estaduais foram perdendo a qualidade de outrora. Lembro bem de nunca ter tido aula de educação física nessa fase e de não ter professores em matérias fundamentais, como matemática, durante meses. Eu quase perdi o prazer em estudar, mas o ambiente familiar não permitiu, pois meus pais queriam os filhos formados no nível superior. 

As coisas começaram a mudar quando ingressei em escolas públicas federais no ensino médio, por meio de concurso público. Tanto no CEFET quanto na ENCE, o ensino era levado a sério e havia o compromisso de não faltarem docentes, mas ainda era o ideário militar que pairava no ar. Não havia espaço para a reflexão crítica. A sensação de liberdade só veio quando ingressei na faculdade, na Uerj. Ali, eu comecei a entender que o meu corpo era necessário, não era um erro, e que eu tinha o direito à cidade e à felicidade. Também aprendi que pensar criticamente a sociedade era mérito e não defeito.

Este depoimento não é um exercício de ressentimento. Muito menos uma tentativa de vitimização. Ao contrário, como a psicanálise defende, verbalizar ameniza o trauma, não o apaga, mas o transforma em algo que pode ser compreendido. 

Meu principal objetivo aqui é reforçar que, apesar de termos reingressado em um sistema democrático nos anos 1980, ainda precisamos ficar alertas. Quando nos deparamos com a extrema direita avançando no mundo e no Brasil, quando vemos famílias festejarem a criação de escolas cívico-militares nas diferentes regiões do país, e quando as Igrejas reacionárias invadem os espaços laicos de ensino, damo-nos conta de que aquele cotidiano que vivi na infância não foi totalmente modificado. A realidade política recente do Brasil bem demonstra isso quando um líder político medíocre e sem nenhum histórico de projetos relevantes para a população mais necessitada conseguiu chegar à presidência do país, apesar de haver declarado várias vezes que preferia ter um filho morto a vê-lo com um bigodudo como namorado. Ou, tão horrível quanto, quando disse que ao visitar uma comunidade quilombola notou que o afrodescendente mais leve pesava sete arrobas (105 kg), medida de peso usada para gado, e que essas pessoas não serviam nem para procriar.

Fonte: bbc.com
Fonte: bbc.com

Quando agora vemos os EUA, o país mais importante do mundo sob o ponto de vista econômico, eleger pela segunda vez um cidadão que mente escandalosamente, gera guerras desnecessárias e que tem como projeto que a ciência seja privilégio de poucos estudantes com dinheiro, é preciso ficarmos alertas. Esses líderes querem a ciência, a tecnologia e a educação servindo a eles e não à população. Não importa erradicar doenças, melhorar a qualidade de vida das pessoas e lutar pela inclusão de todos os corpos. O que importa é o exercício nefasto do poder, de maneira que os seus próximos enriqueçam, mesmo sabendo que não haverá meio ambiente que resista a uma sociedade sem educação. Não à toa, vemos o declínio dos investimentos de grandes empresas em políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) acontecendo recentemente. 

Em 2024, poucos anos depois do boom da inclusão organizacional, várias megaempresas globais fecharam seus setores de Diversidade e Igualdade na esteira da decisão, em 2023, da Suprema Corte dos EUA sobre a inconstitucionalidade das ações afirmativas em universidades, levando as empresas a argumentar que favorecer critérios de raça em seus processos seletivos poderia provocar sanções legais. Tal argumento provocou um gatilho nas grandes organizações sediadas nos EUA que visavam economizar em ESG, desativando setores considerados estratégicos de diversidade e inclusão. Esse movimento contaminou corporações em vários outros países, incluindo o Brasil. Trata-se de um sintoma claro de que o capital agregado às marcas continua sendo mais importante do que as vidas das pessoas.

Hoje, aos 63 anos de idade, superei boa parte dos obstáculos. Consegui continuar meus estudos e me tornar professor universitário. Tenho muito orgulho de trabalhar há 40 anos numa universidade que transforma cidadãos de diferentes raças e classes sociais em doutores. Defendo a educação e continuarei lutando para que o ensino público no nosso país seja cada vez mais fortalecido, da creche aos programas de pós-graduação. Por isso, também defendo que os corpos trans tenham acesso à vida universitária. Não é um favor ou mimimi de bicha louca. É um dever do Estado. A vida é um direito de todas as pessoas e isso inclui o acesso à educação. Não podemos continuar naturalizando que só a prostituição seja o destino de quem foi afastado das escolas. As cotas são uma potente política pública e, por isso mesmo, desagrada tanto às elites colonizadas que se comportam como os antigos colonizadores.


Ricardo Ferreira Freitas é coordenador do Lacon. É professor titular da Faculdade de Comunicação Social da Uerj. É membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom) da Uerj. Bolsista PQ2 do CNPQ e Cientista do Nosso Estado da Faperj. Email: rf0360@gmail.com

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