Nesta edição, o BERRO! propõe uma reflexão sobre os limites entre representatividade e mercado durante o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+. A partir de discussões sobre pinkwashing, consumo, cultura e política, reunimos reportagens, indicações culturais e personagens que ajudam a compreender os desafios enfrentados pela comunidade para além das campanhas publicitárias de junho. Em tempos de avanços e retrocessos, esta edição convida o leitor à reflexão sobre quem realmente sustenta a luta por diversidade e inclusão ao longo de todo o ano.

Berro Apresenta: A Ilusão do Orgulho Corporativo

Imagem: G1/Letícia Dauer

Em junho, o mês internacional do orgulho LGBTQIAPN+, é comum observar marcas colocando arco-íris em seus logos, lançando produtos com bandeiras, criando posts no Instagram e se utilizando de símbolos importantes para a comunidade. No entanto, tudo desaparece quando o mês acaba. Na conjuntura atual, dado o recuo das políticas de Diversidade e Inclusão (DEI), até no Mês do Orgulho as empresas deixaram de se posicionar. As políticas DEI passaram a ser atacadas pelo governo dos EUA, comandado por Donald Trump. A extrema-direita ataca as pautas das minorias políticas ao promover o pânico moral. No caso da população LGBTQIAPN+, por exemplo, o discurso da extrema-direita afirma que os direitos desse grupo vão “acabar com a família tradicional”.

 O “pinkwashing”, ou lavagem rosa, vem sendo denunciado pela comunidade há muitos anos, é uma estratégia de empresas e instituições que usufruem da pauta LGBTQIAPN+ simplesmente para vender.Fora das ações de comunicação não defendem os direitos da comunidade. 

         O mês do orgulho é um momento de reflexão da comunidade queer, inclusive do que se consome. Produtos voltados para o público LGBTQIAPN+ sempre existiram, mas cada vez mais vem tomando espaço nas grandes mídias, sejam eles bens materiais ou culturais, o questionamento que deve-se fazer é se esses estão preocupados com a comunidade ou são propagandas falsas de avanço social e liberdade? Pontos imprescindíveis para serem comentados são a falta de políticas de inserção de pessoas LGBTQIAPN+ dentro do mundo corporativo, empresas financiadoras de políticas anti-LGBTQIAPN+ que mantêm um discurso externo de inclusão e a falta de representatividade da diversidade queer. Uma pesquisa do Banco Mundial informou que a taxa de desemprego de pessoas LGBTQIAPN+ é o dobro do que da população geral, 15,2% ante a 7,7%. Aponta também, que o Brasil perde mais de 90 bilhões de reais todo ano, devido à dificuldade de inserção das pessoas LGBTQIAPN+ no mercado de trabalho. 

         A preocupação só aumenta quando instituições governamentais também se utilizam dessa estratégia como forma de esconder problemas internos. Israel usa de bandeiras LGBTQIAPN+ para se promover defensora dos direitos da Comunidade, em detrimento da falta de direitos na Palestina. Se monta uma ideia de superioridade dos direitos humanos, quando na verdade, Israel vem atacando os direitos humanos de toda a população Palestina, inclusive da LGBTQIAPN+. Além disso, muitos denunciam a violência contra a Comunidade, que ainda é muito grande fora da bolha de Tel Aviv e a falta de direitos, como o casamento civil. 

Cria-se, então, uma dualidade, o sentimento de que finalmente alguns espaços se abrem com a visibilidade, mas se essa realmente traz benefícios efetivos à comunidade. Não adianta incluir por incluir. É necessário modificar a estrutura.

Berrando pelo Rio: Mostra Quem Quer Queer?

Imagem: Reprodução/Instagram @estacaoclarocinema

Existir em um sistema que escolhe a dedo quais corpos merecem ou não viver é um ato de resistência; persistir nessa existência é, portanto, um ato de revolução. Não é surpreendente que o acesso da cultura queer às massas seja constantemente inviabilizado pela crescente onda de conservadorismo no mundo e, no Brasil, o cenário não seria diferente. No entanto, apesar desse movimento, a comunidade permanece mostrando sua presença nas ruas, na política e, especialmente, na cultura. 

E é dessa forma que, em celebração ao Mês Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+ – de 22 de junho ao dia 8 de julho -, a rede de cinemas Estação Claro sediará a quarta edição da mostra “Quem Quer Queer?” em suas unidades de Botafogo e da Gávea. Com uma curadoria que celebra a trajetória da comunidade, o evento reúne uma vasta programação, que inclui a exibição de 40 longas-metragens nacionais e internacionais, sessões de curtas, além de mesas de debates e outras atividades. 

Dividida em propostas temáticas que atravessam diferentes momentos do cinema queer, a mostra percorre os panoramas históricos e contemporâneos da comunidade, abrangendo desde filmes clássicos, como Cabaret e Hairspray, até produções modernas, como Pillon (Harry Lighton), Nunca Fui Santa (Jamie Babbit) e Girls Like Girls (Hayley Kiyoko). Os ingressos para o evento já estão disponíveis nas bilheterias dos cinemas e no site do Ingresso.com.

Depoimento: Ricardo F. Freitas

Foto: Enviada pelo entrevistado

Para essa edição, conversamos com Ricardo F. Freitas, professor do Departamento de Relações Públicas da Faculdade de Comunicação Social (FCS/Uerj) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom/Uerj) e coordenador do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon). Bolsista PQ do CNPq e Cientista do Nosso Estado (CNE) da Faperj. Propomos ao pesquisador perguntas norteadoras sobre o tema.

         Os dois primeiros questionamentos eram sobre os impactos do pinkwashing na Comunidade LGBTQIAPN+ e como esse recurso é utilizado não só por marcas mas também em produtos culturais: “Assim como o greenwashing, em que as empresas ou as marcas focam em aspectos ecológicos positivos para camuflar impactos ambientais importantes em outras áreas da produção, o pinkwashing também é uma prática anti-ética utilizada por organizações ou produtos quando usam o discurso de apoio à diversidade mais para autopromoção do que para inclusão dessas pessoas minorizadas nos ambientes corporativos. O interesse maior está em produzir belos balanços sociais e atrair consumidores LGBTQIAPN+. Os impactos mais relevantes residem na manutenção do status quo da comunidade que se vê preterida para cargos de relevância nas empresas ou mesmo sequer consegue empregos formais ao longo da vida”.

         “Há várias formas nefastas de pinkwashing nas produções culturais. O queerbaiting é uma das estratégias: ela ocorre, por exemplo, em produções audiovisuais em que personagens gays não desenvolvem vida amorosa contundente para não assustar a audiência conservadora. Um outro exemplo, ainda no audiovisual, é o uso de personagens LGBTQIAPN+ na trama, porém sem representatividade nas empresas e equipes de produção”.

         Sobre a Parada LGBTQIAPN+ de São Paulo, conversamos sobre como a queda dos patrocínios afeta a sociedade, a luta por direitos e a comunidade queer. Além disso, também queríamos entender se reflete o momento da sociedade em que vivemos. “Sim, a redução de patrocínio reflete a sociedade atual, especialmente após a última eleição de Trump nos EUA. É bem verdade que Trump chegou novamente ao poder graças a um movimento conservador transnacional que assola diferentes continentes do mundo. Poucos anos após o auge das iniciativas de inclusão nas organizações, diversas multinacionais, como Microsoft, Walmart, Meta e X, encerraram seus departamentos de Diversidade e Igualdade. Essa mudança ocorreu na esteira da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em 2023, que declarou inconstitucionais as ações afirmativas no contexto das universidades. A partir desse julgamento, muitas empresas passaram a sustentar que a adoção de critérios raciais em seus processos seletivos poderia resultar em questionamentos e sanções legais. Esse argumento, embora controverso, impulsionou um movimento de retração das políticas de diversidade entre grandes corporações sediadas nos Estados Unidos, estendendo-se a outros países. Em muitos casos, a justificativa jurídica foi acompanhada de estratégias de redução de custos associados às agendas de ESG, culminando na desativação de áreas dedicadas à diversidade, equidade e inclusão, especialmente nas empresas de tecnologia de grande porte.

Esse quadro se aplica à Parada. A retirada de cena de grandes marcas reduz o alcance massivo e a naturalização da diversidade no cotidiano da população, impactando diretamente na luta por igualdade de condições em todos os setores da vida, especialmente no mercado de trabalho”.

         Ao final, a pergunta sobre a visibilidade real e o problema do pinkwashing foi feita ao pesquisador: “Se as ações de comunicação forem verdadeiras e refletirem a realidade das organizações ao longo de todo o ano, elas são muito bem-vindas, pois ajudam a informar as pessoas em geral sobre a necessidade de inclusão. O problema é que muitas vezes são só estratégias de marketing durante o mês do orgulho LGBTQIAPN+, mobilizando, portanto, a sociedade civil num curto espaço de tempo sem engajamento consistente ao longo dos outros meses”.

Berro Indica: Market This!: Queer Radicals Respond to Gay Assimilation 

Imagem: Divulgação/LetterBoxd

“Market This!: Queer Radicals Respond to Gay Assimilation”, um curta documental lançado em 2003, acompanha um movimento queer anticapitalista que, a partir de discussões e oficinas, explora diferentes maneiras de viver e de se sustentar às margens do sistema. O movimento denuncia a assimilação da heteronormatividade e da cultura mainstream na comunidade LGBTQIAPN+. Criticam a falta de representatividade de pessoas trans e racializadas, mas ironicamente se deparam com o mesmo problema dentro do movimento queer radical.

        O filme também reúne ativistas que denunciam a marketização da comunidade LGBTQIAPN+, a falta de direitos e a falsa sensação de inclusão que as ações publicitárias criam, quando estão na verdade reforçando padrões sociais de gênero, raça e classe.

LGBTQÍcones: Erika Hilton

Imagem: Reprodução/Instagram @hilton_erika

Nos últimos anos, ser uma pessoa LGBTQIAPN+ significa estar intimamente associado à deputada federal Erika Hilton. É possível dizer que essa associação tomou forças em 2020 quando, no auge do movimento bolsonarista, Erika se tornou a vereadora mais votada do Brasil e assumiu a posição de primeira mulher transgênero a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo. Sua vitória carregou não apenas simbolismos ancestrais, mas também uma denúncia à persistente transfobia da sociedade brasileira, que, historicamente, impede determinados corpos de ocuparem espaços.

Em 2022, momento em que é eleita deputada federal, seu posicionamento político toma novas proporções. Sua figura tornou-se símbolo para a comunidade e, tal qual uma “diva pop”, ela passou a transmitir para a população LGBTQIAPN+ uma segurança e uma esperança que, por décadas, sofreu tentativas de apagamento. Como consequência de sua ascensão, em 2026, ela não representa apenas partes da sociedade, mas sim todos os trabalhadores brasileiros, ao liderar a luta pelo fim da escala 6×1. 

Assim como ela relatou desejar em uma entrevista para a Vogue Brasil, em 2020, diversos grupos minoritários têm hoje suas necessidades defendidas por uma mulher preta e travesti. É inegável, portanto, que a figura de Erika Hilton vai muito além de ser apenas mais uma dentro da Câmara dos Deputados; e se hoje ser LGBTQIAPN+ é ter a deputada como principal representante, a comunidade agradece. 

Leitura do mês: Devassos no Paraíso

Imagem: Editora Objetiva

Publicado pela primeira vez em 1986, Devassos no Paraíso, de João Silvério Trevisan, é uma das obras mais importantes sobre a história da população LGBTQIAPN+ no Brasil. Fruto de uma extensa pesquisa, o livro percorre diferentes períodos da formação do país para revelar como pessoas dissidentes de gênero e sexualidade sempre existiram, mesmo diante da perseguição e das tentativas de apagamento.

Ao reunir documentos, dados, relatos e análises, Trevisan mostra que a luta por reconhecimento e cidadania antecede em muito a popularização do Mês do Orgulho e das campanhas de diversidade promovidas por grandes empresas. A obra surge como um convite ao leitor para refletir sobre as origens do movimento LGBTQIAPN+ e as formas de resistência construídas ao longo dos séculos.

Em uma edição dedicada a discutir os limites entre representatividade e mercado, Devassos no Paraíso é uma leitura essencial para compreender que o orgulho não nasceu das vitrines ou da publicidade, mas da mobilização de pessoas que enfrentaram a violência e a exclusão para conquistar seus direitos.

Acontecimento: Parada LGBTQIAP+ de São Paulo

Imagem: G1/Luiz Gabriel Franco

No domingo, dia 7 de junho, aconteceu a 30ª Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ de São Paulo, com o tema “A rua convoca, a urna confirma”, contou com shows de Pabllo Vittar, Glória Groove, Urias e outros artistas. Considerada uma das maiores paradas do mundo, esse ano caem drasticamente o número de patrocinadores. Marcas que tinham a tradição de apoiar esse evento retiraram seus investimentos.

         Algumas empresas alegaram que o tema escolhido é muito político e não gostariam de se associar a ele ou que, por causa da Copa do Mundo, o orçamento foi direcionado para o mundial. Esses parecem esconder o verdadeiro motivo de escolherem esse ano para ficarem de fora, o aumento do movimento anti-woke, principalmente após a eleição de Trump. Com a crescente onda conservadora observada no mundo, principalmente nos Estados Unidos, Europa e em países da América Latina, marcas escolhem se silenciar para diminuírem o risco de perderem público, como foi o caso da “Bud Light”, que sofreu boicote depois de uma influenciadora trans ter feito uma parceria com a cervejaria. O conservadorismo brasileiro se espelha muito nos Estados Unidos, o bolsonarismo se inspira diretamente no trumpismo, os ataques à Praça dos Três Poderes, no dia 8 de janeiro, em Brasília, são muito parecidos com a invasão do Capitólio nos Estados Unidos dois anos antes. Não só isso, alegar a fraude das eleições, foi utilizada como estratégia política tanto por Trump quanto por Bolsonaro. Também é possível apontar semelhanças nos discursos, usando palavras como “liberdade”, e criando slogans que se espalharam pelos países, “Make America great again” e “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Assim, esse movimento também é visto pelas companhias do Brasil, ainda mais em ano de eleições.

         A comunidade LGBTQIAPN+ só interessa para a maioria das empresas quando lucram em cima dela, na hora de se posicionarem politicamente não aparecem. A falta de patrocínio da Parada SP é mais um retrato da realidade. Mesmo assim, contaram mais uma vez com milhares de pessoas na Avenida Paulista para celebrar a diversidade e exigir o direito de ser quem são..


Esta edição do “BERRO!” foi produzida por Kaío dos Santos Machado e Maria Eduarda Araújo Tomé, graduandos em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e Maria Clara Busato, graduanda em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), respectivamente bolsistas de Estágio Interno Complementar e Extensão do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Marcelo Alves de Resende, doutorando do PPGCom/Uerj e coordenador técnico (bolsista Qualitec) do Lacon.

BERRO #51 – A Ilusão do Orgulho Corporativo