Vol. 9, N. 35 BERRO! – Gladys Bentley

Berrando pelo Rio

Novo Oeste Bar

 

O Novo Oeste, em Santa Teresa, é uma nova estrela no cenário dos bares cariocas, trazendo uma abordagem inovadora ao tema do Velho Oeste. Em contraste com a imagem tradicional de mocinhas indefesas e machões com seus tiroteios, o Novooeste é comandado por mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, promovendo um espaço inclusivo e diversificado.

 

Inspirado por um curta-metragem homônimo, o bar combina uma decoração única, com um armário de madeira imponente e itens garimpados em mercados de pulgas, criando um ambiente acolhedor e vibrante. A equipe 100% LGBTQIAPN+ constrói uma atmosfera animada, onde o público pode desfrutar de eventos como forró, festas e o Drag Brunch.

 

A chef Danilly Ramos oferece um cardápio irresistível, com destaque para o Brizolão — um hambúrguer gourmet que combina carne, gorgonzola, picles de pera e farofa. O Novooeste se destaca como um ponto de encontro inovador, celebrando a diversidade e a inclusão no coração do Rio de Janeiro.

Acontecimento

Governo quer que “linguagem neutra” entre na pauta do Congresso

O Ministério da Cultura, comandando por Margareth Menezes, divulgou uma lista com 30 propostas que devem fazer parte do novo Plano Nacional de Cultura, uma lei que, se aprovada no Congresso, vai estabelecer as metas do setor pelos próximos dez anos. A Pasta é comandada pela ministra Margareth Menezes. 

Uma das propostas é a criação de um programa que prevê que estudantes, educadores e gestores terão “formação para uso da linguagem neutra”. A proposta de incentivo à linguagem neutra foi uma das várias apresentadas e votadas na 4ª Conferência Nacional de Cultura, um encontro que reuniu em Brasília mais de 4 mil pessoas ligadas a diversos setores da arte e do entretenimento. As propostas não são automaticamente revertidas em metas ou objetivos do Plano Nacional de Cultura, mas são subsídios para a elaboração de um novo Plano Nacional de Cultura – o atual PNC encerra sua vigência em dezembro de 2024.

Depois de enviado pelo governo, o projeto será analisado pela comissão de Educação, que é controlada por parlamentares conservadores, inclusive por Nikolas Ferreira (PL), onde certamente encontrará resistência. Mas é interessante ver que esse debate está sendo cada vez mais ampliado.

Berro Indica

It’s a Sin

 

A série britânica “It’s a Sin” explora a vida de um grupo de amigos em Londres durante as décadas de 1980 e 1990, em meio ao surgimento da epidemia de AIDS. O enredo se concentra especialmente em Ritchie Tozer (interpretado por Olly Alexander), um jovem que deixa sua pequena cidade na Ilha de Wight para seguir seu sonho de estudar teatro na grande Londres.

À medida que Ritchie se estabelece na cidade, ele desenvolve fortes laços de amizade com Jill (Lydia West), Roscoe (Omari Douglas), Ash (Nathaniel Curtis) e Colin (Callum Scott Howells). Juntos, os cinco formam uma espécie de família escolhida, apoiando-se mutuamente enquanto enfrentam a homofobia predominante dos anos 80 e a crise devastadora do HIV.

A série oferece um retrato comovente e honesto das dificuldades enfrentadas pela comunidade LGBTQIAPN+ durante um período de grande turbulência, destacando não apenas as perdas e desafios impostos pela epidemia, mas também a força e a solidariedade que surgiram em resposta. “It’s a Sin” combina drama e empatia para oferecer uma visão profunda e sensível sobre amizade, identidade e resiliência.

LGBTQÍcones

Gladys Bentley

 

João Francisco dos Santos, conhecido como Madame Satã, figura emblemática da boemia carioca e ícone LGBTQIAPN+, se tornou um símbolo de resistência e malandragem na primeira metade do século 20. Nascido em 25 de fevereiro de 1900, em Glória do Goitá, Pernambuco, Madame Satã foi uma das personalidades mais complexas e controversas da Lapa, bairro notoriamente associado à vida noturna e ao crime.

A trajetória de Madame Satã é marcada por profundos contrastes. Por um lado, sua vida foi uma luta constante contra as injustiças sociais e os abusos da polícia, o que lhe conferiu a imagem de herói para muitos. Ele se destacou no ambiente boêmio da Lapa, onde sua presença era notada tanto pelas performances artísticas quanto pelos conflitos com as autoridades. Com uma trajetória repleta de conflitos, sua fama era amplificada por suas brigas e sua habilidade com a capoeira.

Além de ser um renomado transformista e artista do carnaval carioca, Madame Satã era abertamente homossexual em uma época em que a aceitação da diversidade sexual era limitada. Sua homossexualidade, aliada à sua identidade de gênero não convencional, fazia dele uma figura ainda mais controversa e desafiadora para a moralidade conservadora da época. Sua vida marginalizada, marcada por uma série de passagens por instituições prisionais e uma ficha criminal extensa, refletia o desprezo com que muitos viam os aspectos não convencionais de sua identidade.

Leitura do Mês
Mama: Um Relato de Maternidade Homoafetiva

 

No livro “Mama: Um Relato de Maternidade Homoafetiva”, Marcela Tiboni narra sua jornada pessoal e os desafios que enfrentou ao decidir ter filhos com sua parceira, Mel. A história começa com a decisão do casal de ter filhos e a confusão inicial sobre como uma gravidez poderia acontecer sem a presença de um pai. Diante de suas dúvidas, elas recorrem aos amigos no Facebook para obter orientações sobre temas como a escolha do doador de esperma, o processo de inseminação, e como lidar com o registro de nascimento.

Marcela e Mel se dedicam a pesquisar e refletir profundamente sobre suas opções, enfrentando e superando as questões que surgem. No livro, Tiboni compartilha abertamente suas experiências e decisões, abordando questões tabu relacionadas ao amor lésbico e à maternidade entre mulheres. Marcela acredita que o diálogo é essencial para a emancipação e, ao relatar sua experiência, desafia preconceitos e intolerâncias, equilibrando força e delicadeza ao amamentar seus filhos gêmeos, mesmo não tendo sido ela a gestante.

Depoimento da Edição

Diego Paleólogo

Em novembro desse ano faço 44 anos. Há poucos dias, 5 de junho, o primeiro diagnóstico de aids completou 43 anos. Sou alguns meses mais velho que o hiv e a aids. Minha experiência gay-bicha-homo-viado é costurada por tantos fios, tantas vidas, tantas metamorfoses… Agora, domingo, dia 23 de junho, enquanto tento finalizar esse texto, ouço gritos de homens que assistem a algum jogo de futebol; minha digital não funciona no celular; penso em tudo isso: 2024, ainda medo, ainda as tentativas de não se deixar capturar, assimilar. A experiência é plural, fractal, inapreensível. Aos 13, 14, 15 anos eu sentia medo da violência que eu já sofria, do preconceito que eu já experimentava, do abandono, da solidão… Junto com o medo vem coragem. Coragem para realizar o gesto que fizeram por mim. Antes que me entendesse, antes que pudesse ter o tempo para me ver gay, os meninos da escola (esses mesmos que hoje e ontem gritam para um jogo de futebol) me arrancaram do armário. Eu era bicha antes de ser bicha; era gay antes deles serem homens. Eu era (sou? somos?) uma ameaça biopolítica ambulante antes mesmo dos 16 anos. Mas há um momento no qual a vida, a urgência, não cabe mais no corpo. É necessário gritar. Manufaturar a coragem pra, mais uma vez, sair do armário. Sair do armário pra família. Pros amigos. No trabalho. Na praia. Na boate. No cinema. No mercado. No ônibus. Na farmácia. Nas consultas médicas. Ao realizar exames de sangue. Ao doar sangue. Num flerte. Para uma nova amizade. Sair do armário. O tempo todo sair do armário. Por um lado, por enquanto, fica menos doloroso. Na UERJ, na FCS, sempre que digo em voz alta, em sala de aula, que sou gay (não que seja necessário, mas sempre acontece), sinto um frio no estômago. É mais uma saída do armário. Mas, nessas vezes, vejo olhares de afeto, de identificação, de entendimento. Estar em um ambiente assim é um privilégio. São muitas lutas e, também, muitas festas. Muitos encontros que mudaram o rumo da minha vida, dos quais tiro forças para continuar, lutar e festejar. Estar junto. Minhas experiências de ser gay-bicha-homo-viado são experiências de estar junto, estar com – estar na dor, no problema, na dança, nos bares, na vida. Cada vez mais vivo.

Gostou do conteúdo e quer receber mais? Clique aqui!
O boletim Berro! Comunicação para a Diversidade tem a proposta de reunir notícias, artigos, dados representativos, ações, produtores e conteúdos com o foco LGBTQIAP+. Este boletim é uma realização do Laboratório de Comunicação Cidade e Consumo (Lacon/Uerj). Gostaria de divulgar sua pesquisa acadêmica, produção artística ou audiovisual, evento ou outro conteúdo relacionado a temáticas LGBTQIA+? Entre em contato com a gente através de nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail berrouerj@gmail.com  
Apoio:
Coordenadores: Ricardo Ferreira Freitas, Vania Fortuna
Equipe LACON: Marcelo Resende, João V. Bessa, Carlos Matos, Pedro Rubim, Iris Souza, Bruno Silva e Rafael Nacif
Compartilhe essa publicação:

Outros textos