Vol. 9, N. 33 BERRO! – Homenagem ao dia internacional da arte drag (16 de julho)

LGBTQÍcones: Marcia Pantera

Márcia Pantera é uma das maiores drag queens brasileiras de todos os tempos. Ela começou sua carreira em 1980, na primeira boate gay do Brasil, a Nostromondo, que ficava em São Paulo. Márcia é a criadora do movimento bate-cabelo, uma técnica de performance em que as drags batem o cabelo no ritmo da música, e que alcançou fama internacional. Em entrevista à revista QUEM, a artista contou que jogava vôlei em São Paulo quando foi convidada por um amigo do time para ir à boate. Gostou tanto que voltou no dia seguinte. E inspirada pela drag queen Marcinha do Corintho, Pantera entendeu que as quadras não eram mais o bastante: ela queria estar em cima de palcos. 

Hoje, aos 54 anos, a artista tem uma trajetória de vida inspiradora. Antes de se tornar Márcia Pantera, ela era Carlos Marcio José da Silva, um homem gay, periférico, negro. Superou a pobreza, o preconceito no esporte, o vício em drogas, perdas familiares e se tornou um ícone da comunidade LGBTQIAPN+ brasileira. Apesar do imenso reconhecimento, Márcia diz que não quer ser lembrada apenas pelo bate-cabelo. Esse ano, ela é pré-candidata à vereadora de São Paulo, pelo PSOL. Nas palavras da própria Márcia: “Lá atrás eu plantei uma árvore e eu vim cuidando e ela ficou gigante com raízes profundas”. Ela só esqueceu de dizer que essa árvore deu frutos também. E muitas sementes.

Berrando pelo Rio: Quiosque Sunset Night

Shows de drags queens e competições de ballroom são só algumas das atrações do Quiosque Sunset Night, o primeiro bar LGBTQIAPN+ da Ilha do Governador. No Rio, a cena drag sempre esteve muito ligada ao Centro, à Lapa e ocasionalmente à Zona Sul. O Sunset começou como um espaço que iluminava os talentos das drag queens que moram na Zona Norte, e que, por diversos motivos, não conseguiam ocupar os outros espaços da cidade. Idealizado e produzido por drag queens, o “Drag Sunset”, é a principal atração do quiosque. E o que é o Drag Sunset? Uma grande competição de drag queens, em que cada semana as participantes recebem um tema e criam uma performance com base nele. O quiosque já recebeu até mesmo algumas das participantes do reality show RuPaul’s Drag Race Brasil. Apesar de ter apenas um ano, o espaço já se consagrou como um pioneiro na Ilha do Governador e vai continuar promovendo a celebração, a socialização e o acesso à cultura de corpos LGBTQIAPN+, e sendo um lugar onde a liberdade para ser e viver como quiser é encorajada e festejada.

Acontecimento: Comissão aprova uma PL maior para homicídio que envolver discriminação contra LGBTQIAPN+

A Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que classifica o LGBTcídio como homicídio qualificado e crime hediondo. A proposta, relatada pela deputada Erika Kokay (PT-DF), expande a definição de LGBTIcídio para incluir homicídios contra homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis e intersexos, além dos grupos anteriormente mencionados.

Com a nova classificação, homicídios motivados por discriminação contra a comunidade LGBTQIPN+ serão punidos com penas mais severas, de 12 a 30 anos de reclusão, comparados aos seis a 20 anos do homicídio simples. O projeto agora aguarda análise pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) e pelo plenário da Câmara, e posteriormente seguirá para o Senado.

Batizado de Lei Dandara, em homenagem à travesti Dandara dos Santos, assassinada em Fortaleza em 2017, o projeto visa a enfrentar a crescente violência contra a comunidade LGBTQIAPN+. A nova legislação garantirá que essas condenações sejam cumpridas integralmente em regime fechado.

BerroIndica: Academia de Drags

Academia de Drags é um reality show brasileiro de competição, inspirado pela franquia americana, “RuPaul’s Drag Race”. O programa, que durou três temporadas, estreou no Youtube em 2014 e foi exibido gratuitamente por essa mesma plataforma. Idealizado pelo cineasta Alexandre Carvalho e apresentado pelas drag queens brasileiras Silvetty Montilla e Alexia Twister, o show busca encontrar a drag queen mais completa do Brasil. Silvetty e Alexia são duas das drags de maior sucesso no Brasil, a primeira por seu senso de humor ácido, e a segunda por suas performances artísticas. O painel de jurados regulares contava também com a presença bafônica de Alexandre Herchcovitch, que fez parte da banca julgadora da versão brasileira de “Rupaul ‘s Drag Race”, lançada ano passado.

No programa, que faz referência a uma escola, as participantes recebem aulas sobre assuntos relacionados à arte drag, como humor e passarela, e realizam provas que aperfeiçoam suas drags e mostram os caminhos que uma pessoa pode escolher dentro dessa carreira. Cada semana uma participante é eliminada, até que restem duas finalistas. A vencedora é conhecida no episódio final, e ganha diversos prêmios, como: uma peruca natural e uma turnê de shows em diversas casas noturnas do Brasil. A recepção do público foi bastante positiva e o reality impulsionou carreiras de drags como Rita Von Hunty, Duda Dello Russo e Sasha Zimmer. Vale a pena assistir!

Leitura do Mês: A JORNADA DA DRAG QUEEN A PARTIR DA MITOLOGIA DO

HEROI DE CAMPBELL

Nessa pesquisa realizada em 2021, os doutorandos  Arthur de Oliveira Filho, Ana Paula Celso de Miranda e Hans de Nóbrega Waechter, analisaram o processo de construção da Drag Queen, que tem como característica principal a performance do feminino exagerado em apresentações de entretenimento. O ponto de partida está em entender como acontece o nascimento de uma Drag e quais dinâmicas de consumo são envolvidas na criação da persona. O principal objetivo desse estudo é entender como acontece o processo de construção estética desse sujeito contribuindo com o entendimento da moda enquanto instrumento de transformação. Foram realizadas 20 entrevistas com pessoas que já tinham passado pelo processo de produção (montagem) de suas Drags. Para a análise das entrevistas foi utilizada a técnica de história de vida, para compreender as inspirações, restrições, aprendizados, relações com a sociedade e negociações com o eu nesta dinâmica de consumo. Nos achados de pesquisa, identificamos, a partir da análise do discurso das narrativas das Drag Queens, uma possibilidade de diálogo teórico com a “Jornada do Heroi”, de Campbell. Para cada etapa da transformação da pessoa comum em Drag Queen, encontramos as mesmas etapas relacionadas por Campbell para a transformação do herói mitológico. No primeiro caso, são etapas que levam o herói do mundo comum para o extraordinário, e na Jornada da Drag Queen, da vida cotidiana para o mundo Drag onde a construção estética possibilita o nascimento desta heroína Drag, que busca seu autoconhecimento e auto-aprimoramento para conquistar a liberdade de ser para si e para o outro.

O estudo foi publicado na “Revista de Ensino em Artes, Moda e Design”, uma iniciativa interinstitucional de programas de pós-graduação da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Moda (Abepem).

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