Vol. 19, N. 75 ImaginaRIO – Salve, os Malandros! Salve, Maria Navalha!

Rio de Janeiro, Fevereiro e Março…

Foto: Reprodução das Redes Sociais / @roniery.eu

Salve, os Malandros! Salve, Maria Navalha!

O mês de julho carrega em seus dias celebrações importantíssimas para a formação social e religiosa de todo o Brasil e, especialmente, do Rio de Janeiro. Iniciando com as celebrações religiosas dedicadas à linha da Malandragem, cultuada nos terreiros de Umbanda e Candomblé, diversas pessoas se reúnem em um momento de fé para cultuar e comemorar os ensinamentos passados por aqueles que guardam os becos e as vielas cariocas. Com seus trajes formais e samba no pé, a Malandragem ensina a seus seguidores como levar a vida com muito ‘jogo de cintura’.

Sendo assim, é impossível falar de Malandragem sem prestar homenagens à Mulher: Maria Navalha. Seu nome carrega o peso de uma luta e de um ensinamento que perpassa de geração em geração: para ela, lugar de mulher é na rua! Navalha vem para ensinar que ser mulher é reivindicar o espaço público como seu e, acima de tudo, é não se deixar intimidar pelo patriarcado.

A edição deste mês do ImaginaRIO vem para saudar a força dessa figura tão conhecida pelas encruzilhadas do Rio. Como a máxima expressão da espiritualidade feminina e do empoderamento preto ancestral na linha dos malandros, sua presença nos terreiros questiona e confronta o imposto pelas ruas e pela sociedade. Sua memória conecta o passado de silenciamento e perseguição ao presente da luta.

Rio Entre Esquinas

Foto: Rodrigo de Freitas

Uma reverência à malandragem no mês de Julho

No dia 7 de Julho, é comemorado o Dia de Seu Zé Pelintra na cidade do Rio de Janeiro, oficializado pelo Projeto de Lei Municipal Nº 1222/2022. A famosa entidade das religiões afro-brasileiras carrega tradições no bairro da Lapa, na zona central da cidade, onde foi homenageada com um santuário embaixo dos Arcos, ponto turístico histórico.

Situado na Ladeira de Santa Teresa, número 1, o Santuário do Zé Pelintra é um espaço de fé que aproxima devotos às figuras espirituais da malandragem. O espaço foi idealizado por Diego Gomes e Jeff Duarte, e, após constantes depredações ao espaço por intolerância religiosa, as tentativas de construção finalmente se efetivaram, culminando no tombamento do Santuário como Patrimônio Cultural Carioca em 2022. Desde então, velas, bebidas e alimentos são deixados como oferenda às imagens presentes de Seu Zé Pelintra, Seu Miguel Camisa Preta e Dona Maria Navalha. As três imagens no Santuário representam figuras de malandros e malandras que viveram nas ruas da Lapa no século passado, e que tornaram-se entidades espirituais cultuadas em diversas religiões afro-ameríndias.

No último dia 7 de Julho, os arredores do Santuário foram tomados por devotos da malandragem e simpatizantes, que fizeram parte da quarta edição oficial do Dia de Zé Pelintra no Rio. Após a oficialização do dia em 2022, as celebrações contaram com sambas, rodas de capoeira, blocos de carnaval, apresentações artísticas e as manifestações espirituais da malandragem em terra. 

Das figuras centrais do Santuário, Dona Maria Navalha é uma das representações mais populares da espiritualidade feminina na cultura afro-brasileira. Sendo uma pombagira — entidade que resgata o poder da mulheridade preta ancestral —, ela ocupa um posto de extremo respeito na linha da malandragem, que é frequentemente associada a homens. Em sua falange, ela leva à suas devotas empoderamento e proteção espiritual. No mesmo mês que reverencia a malandragem e a mulher negra latino-americana e caribenha, Maria Navalha é a entidade que melhor representa o poder ancestral de mulheres negras na cultura brasileira. 

Personagem da Gema

  Foto: Dona Maria Navalha, por Louise Botkay em sua dissertação à título de mestre para PPG em Artes 

Relatos de época e a tradição oral descrevem Maria Navalha como uma mulher do cais e dos cabarés, espaços onde a sobrevivência feminina dependia do trabalho autônomo, muitas vezes como quitandeiras, lavadeiras e artistas, enquanto vulneráveis a uma cidade extremamente violenta e higienista. Portando uma lâmina camuflada em sua saia rodada, Maria se preparava para contra-ataques, garantindo que seu corpo e dinheiro conquistado com o próprio suor fossem respeitados e não tomados pela violência policial ou pelas opressões da rua, assegurando, assim, sua autonomia em vida carnal. Foi neste cenário de perseguição institucional que cravou seu nome na história, enquanto a malandragem — quase sempre associada aos homens — encontra em sua figura o avesso às submissões.

​Com o  passar das décadas, transcende a sua história se firmando no sagrado, tornando-se uma das entidades mais reverenciadas nas religiões de matriz africana. Na espiritualidade, é o próprio Axé da rua que se faz presente no cotidiano dos terreiros e dos seus devotos, e, como uma das principais representantes da Linha dos Malandros, se manifesta com sua gargalhada firme, seu chapéu panamá de lado e seus trajes em vermelho e branco, trazendo para as giras a sabedoria de quem conhece as dores e as armadilhas do mundo. Para os religiosos, recorrer a esta divindade sagrada significa buscar uma proteção imediata contra as rasteiras da vida, a injustiça e a violência, especialmente para as mulheres que enfrentam abusos, abandono ou a solidão.

​Essa postura de enfrentamento explica por que a memória dela atravessou gerações e se tornou um pilar fundamental no Santuário da Ladeira de Santa Teresa, um território que acolheu os desabrigados e perseguidos daquela época. No calendário atual, o mês de julho acabou concentrando duas datas que dão sentido a essa trajetória: o Dia de Zé Pelintra e da Malandragem, no dia 07/07, e o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, no dia 25/07. Juntos, esses marcos expõem uma linha contínua de resistência e reexistência que conecta o passado, o presente e o sagrado.

​Salve a sua força, sua capa encarnada e o fio do seu aço! Reverenciar Maria Navalha nas encruzilhadas do Rio é saudar a soberania da mulher que não pede licença para ocupar o espaço público. É o respeito àquela que transformou a calçada em território sagrado de proteção, deixando o aviso claro de que nenhuma prepotência do asfalto ou canetada do Estado é capaz de dobrar quem carrega a sabedoria da malandragem na alma.

​Afinal, essa inteligência de rua e espírito de guardiã não ficaram presos ao passado, atualizando-se diariamente na rotina das mulheres que hoje enfrentam transporte público, chefiam lares e criam redes de apoio para contornar a falta de estrutura urbana gerada por aquele mesmo planejamento excludente do século passado. Seja na vida diária ou na fé em que se acende uma vela nas encruzilhadas pedindo caminhos abertos, entendê-la é perceber que os métodos de defesa mudaram, mas a necessidade das mulheres em manter sua permanência nas ruas ainda persiste, mas abençoadas por esta entidade.

ImaginaRio Entrevista

Foto: Arquivo pessoal entrevistada

Nesta edição, conversamos com Deise Teixeira, 52 anos, fotógrafa, dona da marca de artigos personalizados e produtos de Axé, Sublimar Express, e médium de Maria Navalha. Em nossa conversa, Deise fala, sobretudo, de sua relação com a espiritualidade, com Maria Navalha e como isso influencia na forma como ela vê a si mesma e sua trajetória.  

Se você pudesse escolher um momento da sua vida onde sentiu a presença ou a energia de Dona Maria Navalha de forma mais intensa, qual seria essa história e o que aconteceu? 

“Como te falei antes, eu era transporte do Malandro por alguns anos em outro terreiro. Por ordem dele, mandou que eu ‘desse passagem pra Moça’, Maria Navalha. Essa ocasião foi a primeira gira de Malandros em outro terreiro, a primeira vez que ela me pegou logo que ela chegou com a forte presença, gargalhou e, depois, virou-se para uma cambona do terreiro e falou: “Biricutico,  bico seco não!”.  Sobre a intensidade, ela é realmente forte e imponente. Após essa primeira incorporação ela me firmou como médium de Maria Navalha. Maria Navalha tem sempre falas diretas. Ela é transparente.” 

Como foi o seu primeiro contato ou a primeira vez que você ouviu falar de Dona Maria Navalha? O que mais te chamou atenção nela logo de início? 

“Minha primeira incorporação com Maria Navalha foi de grande surpresa. Eu tinha conhecimento dessa entidade, porém não tinha informações e isso foi bom porque tudo passei a vivenciar como Médium de Maria Navalha foi na prática e não teoria. Logo no início o que mais me chamou minha atenção foi a força e o empoderamento que ela tem. Me tornou mais forte e com intuição de identificar as intenções de quem está ao meu redor.”.

Leitura do Mês

  Reprodução da capa de dissertação – Louise Botkay Courcier

Santuário de Navalha – Dissertação apresentada e aprovada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre ao PPG em Artes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 

Desenvolvida como uma dissertação teórico-prática para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), esta leitura oferece uma imersão na filosofia umbandista de matriz Bantu (Congo-Angola), com conteúdo sobre a observação acima da testemunha sobre o processo político, artístico e espiritual de criação do Portal Santuário de Dona Maria Navalha da Lapa.

O leitor encontrará nestas páginas um poderoso manifesto contra o racismo estrutural, a intolerância religiosa e o epistemicídio que historicamente tentaram embranquecer a Umbanda, apagando a presença negra e indígena do espaço público. Através da trajetória de Tatiana Lais (Tati), a médium e adotante legal que lidera a revitalização social e espiritual dos Arcos, a dissertação revela como a fé se materializa em ação comunitária, distribuição de alimentos e acolhimento à população em situação de rua.

Longe de uma abordagem puramente documental, a escrita de Courcier traz sua sensibilidade como cineasta, com a mesma espontaneidade de seus planos-sequência cinematográficos, enquanto captura a sabedoria das giras e os ensinamentos densos de interlocutores como Mestre Jesley Alves e Mãe Verônica, trazendo compreensão à fascinante “filosofia da esquerda”, onde entidades como Exus, Pombagiras e Malandros não operam apenas sob uma moralidade cristã e domesticada, mas também como forças que confrontam o ego humano, promovendo a cura emocional enquanto ensinam mulheres a resistirem à violência do mundo real.


Esta edição foi produzida por Allana Barbosa, Maria Eduarda Araújo Tomé e João Otávio Alves – bolsistas do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Marcelo Alves de Resende, doutorando do PPGCom/Uerj e coordenador técnico (Qualitec) do Lacon.

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