Pesquisando a subvocalidade

Um núcleo de pesquisa como Lacon gira em torno de novas metodologias e perspectivas academicamente abertas. É o que me ocorreu ao atender a um convite para uma fala de encerramento de um festival de dança. Análise e compreensão de atividades criativas centradas em música e dança requerem a categoria da subvocalidade, em que vige o extra-linguístico. Na dimensão da corporeidade, há um micropensamento ou um pensamento-corpo que, para além da linguagem articulada, transfere ao plano somático uma forma especial de conhecimento, uma intencionalidade, mas também uma “adivinhação”, concretizada em insights de imagens do mundo.  

Nessa forma de conhecimento, a representação não apenas se adquire, incorpora-se, estimulada pelo ritmo, que assim cria um espaço próprio e suscita um imaginário específico. Mas é de fato um jogo extralinguístico, que implica uma experiência corporal da duração, concebível tanto na forma do êxtase musical como da dança. Em algumas línguas africanas (o kimeru, por exemplo, falada numa região do Quênia), a palavra para dizer música tem o mesmo sentido de canto e dança.

Fonte: iso.500px.com

A dança, como a música, é também real ou virtual. Quando B.B. King disse, lá pelos anos 50, que “tocar o blues é ser negro duas vezes”, podia estar se referindo a várias coisas, mas uma delas é que o negro que toca o blues é o mesmo negro que está dançando. Isso significa que a dança está implicada, senão como realidade de um tipo de movimentação física, pelo menos como primícia, no sentido de prelúdio, de primeiro elemento de uma série ou, misticamente, de uma primeira parte reservada à divindade –– uma virtual primícia rítmica, que mobiliza o corpo. 

Ou seja, a dança pode constituir uma mediação no âmbito da corporeidade, da qual se deduzem orientações dinâmicas –– como se mover, que direções tomar, como inscrever-se na duração –– dentro de um espaço determinado. São orientações naturalmente extralinguísticas, que se apreendem no registro subvocal dos sons, mas que podem ser interpretadas verbalmente e associadas ao que se sugere como uma antropologia sonora. Determinados sons induzem à aceleração, outros à quietude, à introspeção, à tristeza e ao júbilo. 

Isso vale para a música de concerto, porém é mais evidente na criação musical em que a corporeidade é essencial, como no caso das culturas tradicionais que celebram ritualmente origem e destino e nas quais cantar, tocar atabaques e dançar sempre foram aspectos religiosos da vida. 

Corporeidade não faz referência à realidade da carne humana enquanto substância individual, mas como uma “máquina” de conexão das intensidades afetivas num plano imanente ao grupo. Pode ser entendida como a aglutinação coletiva de atributos de potência e ação, diferente dos atributos pessoais, porém geradora de um “si mesmo corporal” enquanto condição própria do sensível –– portanto, do sentir, diferentemente do perceber e do conhecer, como comunicação original com o mundo.


Muniz Sodré de Araujo Cabral é graduado em Direito pela Universidade Federal da Bahia (1964), mestrado em Sociologia da Informação e Comunicação – Université de Paris IV (Paris-Sorbonne) (1967) e doutorado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978) e é Livre-Docente em Comunicação pela UFRJ. Atualmente é Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi Presidente da Fundação Biblioteca Nacional de 2005 a 2011, órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Possui cerca de 40 livros publicados nas áreas de Comunicação e Cultura. Ocupa a cadeira 33 na Academia de Letras da Bahia. 

Compartilhe essa publicação:

Outros textos