Vol. 17, N. 52 BERRO! – Da rua à alta-costura: moda queer

Nesta edição, o BERRO! se aprofunda na relação entre moda e identidade. Partindo das discussões provocadas pela Paris Fashion Week e pela Semana de Alta-Costura, exploramos como a moda queer ultrapassa as passarelas para se tornar expressão e transformação social.

Ao longo das páginas, revisitamos as origens da cultura ballroom, conhecemos a trajetória da estilista e empreendedora Yukie Hayashi, da Relikia RJ, destacamos figuras que revolucionaram a moda LGBTQIAPN+, indicamos obras fundamentais para compreender essa história e refletimos sobre como pessoas LGBTQIAPN+ seguem reinventando a forma de vestir e de existir dentro e fora da indústria da moda.

Berro Apresenta: A moda queer vira resistência com o Ballroom

Legacy Voguing Ball, no New York Union Square Club, 1991. (Imagem: QX/ASSOCIATED PRESS)

Muito antes de a moda sem gênero ganhar espaço nas passarelas ou de estilistas celebrarem a fluidez como tendência, pessoas LGBTQIAPN+, especialmente mulheres trans, homens gays e pessoas negras e latinas, já utilizavam as roupas como afirmação e resistência. Foi desse contexto que nasceu a cultura ballroom, em Nova York, nas décadas de 1970 e 1980.

Os chamados balls eram eventos organizados por “casas” (houses), famílias escolhidas que acolhiam pessoas LGBTQIAPN+ frequentemente expulsas de seus lares. Nesses encontros, participantes competiam em diversas categorias que iam além da dança. Em categorias como Runway, Face, Bizarre e Realness, o figurino, a postura e a capacidade de construir uma identidade por meio da moda eram elementos centrais.

A moda no ballroom representava a possibilidade de ocupar lugares dos quais essas pessoas haviam sido historicamente excluídas. Vestir um terno impecável, desfilar com um vestido de alta-costura ou criar um visual extravagante significava reivindicar dignidade em uma sociedade marcada especialmente pela exclusão.

Décadas depois, essa influência ultrapassou os salões dos balls e alcançou a indústria da moda. Elementos como a androginia, a desconstrução das normas de gênero, a teatralidade, o exagero e a própria ideia de que roupas não precisam obedecer às expectativas impostas sobre corpos passaram a ocupar editoriais, campanhas publicitárias e as principais semanas de moda do mundo.

Hoje, muito do que vemos em eventos como a Paris Fashion Week tem raízes nessa cultura criada por pessoas LGBTQIAPN+ que transformaram a moda em sobrevivência. Conhecer o ballroom é também reconhecer que muitas das expressões estéticas celebradas atualmente nasceram da criatividade de comunidades que, durante muito tempo, permaneceram à margem da indústria.

Berrando pelo Rio: Quarta das Loiras

Imagem: instagram @quartadasloiras

Treinos abertos da Cena Ballroom Rio, o evento é organizado por Vivi Ventania, Candela Paulina e Vitória Jovem. Todas as quartas feiras ocorrem duas aulas com diferentes pessoas e temas, como a que aconteceu no dia 15/07. Aconteceram treino de passinho com Daniel Ritmado e vogue funk com Star Prince Andre Império, além de muitos outros como “hands performance” – performance com as mãos –, vogue femme e “face class” – aula de rosto.

A quarta das loiras geralmente ocorre no MAM ou no Teatro Tá na Rua, na Lapa. O evento é gratuito, mas conta com a contribuição dos participantes via PIX.

Depoimento: Yukie Hayashi (Relikia RJ)

Imagem: Instagram @hayashyuki

A moda sempre foi muito mais do que tendência. Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, ela representa uma forma de existir e reivindicar a própria identidade. Nesta edição, conversamos com Yukie Hayashi, mulher trans, designer e fundadora da marca Relikia RJ, conhecida por desenvolver peças autorais que unem moda, arte e serigrafia. Em nossa conversa, Yukie fala sobre seu processo criativo, representatividade, os desafios de empreender sendo uma mulher trans e o papel político que as roupas podem assumir.

“Meu nome é Yuki Hayashi, sou uma mulher trans/travesti e tenho 33 anos. Sou uma das fundadoras do coletivo Relikia, designer gráfica e ilustradora formada em Comunicação Visual/Design pela UFRJ. A Relikia RJ nasceu no Espaço Travessia (ocupação artística na qual faço parte dentro do Instituto Nise da Silveira), a partir do encontro com Marcelo Fernandes, com a necessidade de formalizar o trabalho de serigrafia em camisas de time que estávamos realizando juntos e repercutindo bastante nas ruas, pois além de vendermos nas feiras de fim de semana da Praça XV e Glória, também atuamos bastante na cena das batalhas de rima do Rio de Janeiro”.

Ao relembrar quando a moda deixou de ser apenas uma forma de expressão para se tornar parte da construção da própria identidade, Yukie conta que essa transformação aconteceu por volta dos 25 anos, durante seu processo de transição de gênero, iniciado em 2018, enquanto estudava na Faculdade Belas Artes: “Passei a ver e a enxergar melhor a moda como parte da minha identidade. Eu não estava sozinha, tinha outras meninas trans passando pelos mesmos processos e acabou repercutindo também no meu trabalho com a criação de um coletivo de mulheres trans, a Fudida Silk, no qual eu faço parte também. Nossos trabalhos falavam muito dos atravessamentos de sermos trans e por carregarmos essa identidade. Os estereótipos de gênero são muito marcantes, gostávamos muito de brincar com esses simbolismos e mostrar outros imaginários possíveis”.

Ao falar sobre o mercado da moda, Yukie acredita que pessoas trans ainda enfrentam barreiras importantes, mesmo com os avanços recentes nas discussões sobre diversidade: “Embora o meio da moda tenha avançado nas discussões sobre padrão de beleza e seja um local com bastante pessoas do cenário queer trabalhando nele, precisa evoluir em muitas questões e continua excludente para muitos corpos, não só os LGBTQIAPN+, mas refletindo a sociedade no geral. Vemos poucas criativas trans fazendo sucesso e sendo reconhecidas, mas com certeza estamos servindo excelência. Quando estou num trabalho, sempre procuro trazer ou indicar outras pessoas trans, assim não me sinto tão sozinha”.

Para encerrar a conversa, pedimos que deixasse uma mensagem para jovens LGBTQIAPN+ que sonham em trabalhar com moda, mas ainda não conseguem enxergar espaço para si na área: “Acho que o principal é acreditar em si mesmo e no seu trabalho. Mas também não ter medo de experimentar coisas novas e paciência, pois não é fácil viver de moda/arte, principalmente se você está começando do zero. Se, num primeiro momento, você não tem o retorno esperado, busque outros meios de se autossustentar para continuar criando, porque se no fundo você sabe que seu trabalho tem qualidade e acredita de fato, em algum momento as coisas acontecem”.

Berro Indica: Paris Is Burning

Imagem: Cartaz de divulgação, LetterBoxd

Paris is Burning é um documentário gravado durante a década de 1980, acompanha a comunidade do “Ballroom” em Nova York, formada principalmente por pessoas negras, latinas, trans e drag queens. O longa mostra os “balls”, as “houses” e entrevistas com diferentes personalidades. Também menciona e explica diversos termos que são usados até hoje, alguns não só dentro da comunidade LGBTQIAPN+, mas que se tornaram gírias amplamente utilizadas, como “shade”, jogar uma indireta, “mother”, referente à mãe de uma família/casa, a mãe lidera, é a figura mais importante da casa, ela também cuida de todos integrantes da família.

O filme, na época, foi muito importante, evidenciando uma cultura marginalizada que crescia. Além disso, hoje, ao assistir ao filme, é possível perceber como os “balls” moldaram a moda, a música, gírias e outros aspectos culturais atuais e, ainda assim, muitas vezes não são reconhecidos.

LGBTQÍcones: Leigh Bowery

Fergus Greer , Leigh Bowery Session I Look 2 1988 © Fergus Greer

Poucas pessoas desafiaram tanto os limites entre moda, arte e performance quanto Leigh Bowery. Artista, performer, estilista e ícone da cena clubber londrina dos anos 1980, Bowery transformava o próprio corpo em obra de arte.

Com figurinos extravagantes, maquiagem teatral e performances que questionavam beleza, gênero, sexualidade e o próprio conceito de moda em si, influenciou gerações de estilistas como Alexander McQueen, John Galliano e Rick Owens. Décadas depois, sua estética continua aparecendo nas passarelas e editoriais de moda ao redor do mundo.

Bowery mostrou que a moda pode ser usada com uma grande forma de provocação política e liberdade.

Leitura do mês: “Moda e a Teoria Queer: o unissex e o gênero neutro”

Fonte: Capa do artigo / dobras.emnuvens.com

No artigo “Moda e a Teoria Queer: o unissex e o gênero neutro”, publicado pela revista dObras (2021), Manita Menezes e Marcos Namba Beccari propõem uma reflexão sobre as relações entre moda, identidade de gênero e teoria queer, investigando de que maneira o vestuário pode tanto reforçar normas sociais quanto atuar como instrumento de resistência e inclusão. O texto tem como eixo central a diferenciação entre moda unissex e moda de gênero neutro. Esta última sendo destaque, uma vez que coleções de roupas consideradas “gênero neutro” permanecem reproduzindo padrões masculinos, limitando seu potencial inclusivo.

A partir das contribuições de autores como Judith Butler e Michel Foucault, Menezes e Beccari discutem a moda como um espaço de disputa simbólica, no qual coexistem mecanismos de normatização e possibilidades de transgressão. Articulando referenciais da filosofia, dos estudos de gênero e da moda, o artigo amplia o debate sobre representatividade e diversidade, mostrando que a construção de uma moda mais inclusiva depende, sobretudo, de um reconhecimento das pluralidades e das experiências de gênero.

Acontecimento: Moda queer tem protagonismo na Paris Fashion Week

Imagem: Dries Van Noten

Se durante décadas a moda foi responsável por reforçar normas rígidas sobre masculinidade e feminilidade, hoje as passarelas internacionais se tornaram um dos principais espaços de experimentação das identidades de gênero. A temporada masculina Primavera/Verão 2027 e a Semana de Alta-Costura Outono/Inverno 2025-26, realizadas em Paris entre junho e julho, exibiram uma indústria cada vez mais aberta à fluidez, ainda que cercada de contradições.

Coleções apresentadas por marcas como Louis Vuitton, Dries Van Noten, Dior, Rick Owens, Willy Chavarria, Ludovic de Saint Sernin e Balenciaga apostaram em silhuetas que desafiam códigos tradicionais do vestir. Saias, rendas, alfaiataria desconstruída, maquiagem e acessórios apareceram sem a necessidade de se prender às categorias “masculino” ou “feminino”, reforçando uma tendência que vem ganhando força nos últimos anos e décadas.

Mas apesar do crescimento da estética queer nas grandes marcas, ainda existem questionamentos sobre representatividade. Afinal, quem ocupa os cargos criativos? Quem desfila? Quem realmente se beneficia quando a diversidade se transforma em tendência?

Historicamente, pessoas LGBTQIAPN+ sempre estiveram entre os maiores responsáveis por revolucionar a moda, seja através do ballroom nova-iorquino, do movimento clubber, do punk ou da alta-costura. Hoje, a visibilidade conquistada nas passarelas representa um avanço importante, mas também reforça que essa inclusão deve acontecer de maneira estrutural, com espaço para estilistas, modelos, fotógrafos e profissionais LGBTQIAPN+ em todas as etapas da indústria.


Esta edição do “BERRO!” foi produzida por Kaío dos Santos Machado, graduando em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Maria Clara Busato, graduanda em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Maria Eduarda Tomé, graduanda em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sendo os dois primeiros bolsistas de Estágio Interno Complementar (EIC) e a terceira, bolsista de Extensão, todos do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Marcelo Alves de Resende, doutorando do PPGCom/Uerj e coordenador técnico (bolsista Qualitec) do Lacon.

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