BLOG | Vol. 6, No. 33-36 (set. 2026) | N. 234

O não-olhar e o (re)encontro

A cena

Há uma imagem que me voltou com insistência, talvez por conta de notícias recentes que ganham as redes sociais sobre as difíceis relações entre alunos e professores. Foi 2017, no meu primeiro semestre como professor na instituição em que leciono. Eu tinha pouca experiência docente. Um aluno do primeiro período, sentado na carteira bem à frente, segunda ou terceira fileira, se arrumou de um jeito: um braço apoiado na mesa e a mão sustentando o queixo, o rosto voltado para o lado oposto àquele em que eu dava aula. Não me olhava. Não conseguia me encarar. Eu havia dito, na primeira aula, em algum comentário que se faz entre a apresentação do programa e a tentativa de conhecer a turma, que sou homossexual — não foi uma declaração do tipo “Eu sou gay”, embora pudesse ter sido. Acredito que tenha citado, em algum momento, ter um marido. Não como denúncia, não como bandeira, como dado, o que não deixa de ser um ato político. Um dado que organiza, desde o início, a maneira como alguém se apresenta em um espaço. Para muitos alunos, esse dado passou despercebido; para aquele, parece ter sido uma fricção insuportável por pelo menos um semestre.

Era um aluno com potencial diferencial. Dava para ver que havia chegado à universidade com uma base sólida de formação. Mas eu era, para ele, uma presença impossível de ser metabolizada. Eu existia na sala e ele precisava, ao mesmo tempo, estar ali e recuar diante de mim. O não-olhar era a sua maneira de habitar a aula sem abandonar a si mesmo.

Nas provas, respondia a partir das reflexões que eu e os textos havíamos provocado, não necessariamente a partir do que ele acreditava. Havia aí uma inteligência particular: a de um aluno que conseguia distinguir o que se discute daquilo em que se crê, e que escolhia responder pela bibliografia. Isso pode parecer um gesto de covardia intelectual, mas também pode ser lido como um gesto de sobrevivência, de quem se descobre, na universidade, em um campo em que suas certezas não são mais moeda corrente, onde, afinal, quem “manda” é o professor, ou melhor, é a metodologia científica.

A chegada

Para pensar o que se passou, é preciso começar pelo começo: pela chegada. O aluno que entra na universidade, sobretudo no primeiro período, traz consigo uma trajetória social, territorial, escolar e religiosa que, na maior parte das vezes, é uma trajetória de homogeneidade relativa. A mesma escola, os amigos da igreja, o mesmo bairro, os mesmos códigos. Bourdieu nos ajuda a pensar isso com o conceito de habitus, um sistema de disposições incorporado no corpo, na forma de perceber e classificar o mundo, produto de uma trajetória social que tende a reproduzir as condições de sua própria produção. Mas o habitus não é um destino, o que nos dá margem para a transformação. Buscamos, pelas experiências do cotidiano, fugas e (re)encontros. E se não buscamos, somos provocados, somos afligidos, o que, inevitavelmente, nos leva ao (re)encontro. 

Quando esse aluno chegou à universidade, não entrou apenas em um novo prédio. Entrou em outro campo, com regras próprias, outras formas de capital em jogo, outros critérios de legitimidade. E, sobretudo, entrou em contato com outras presenças: corpos, vozes, histórias, memórias, desejos que não circulavam pelo seu mundo anterior. Quando alguém formado em um conjunto de condições sociais é deslocado para um campo cujas estruturas são diferentes daquelas que o produziram, ocorre um descompasso, um tensionamento de seu mundo, as disposições incorporadas ao longo do tempo, até aquele momento, não correspondem mais às exigências do novo espaço, territorialidades são atravessadas por outras subjetivações, entra-se em negociações e disputas. O habitus foi estruturado para um mundo que não é mais o mundo em que o agente se encontra. Esse descompasso pode produzir recuo, desconforto, malogro, ou, sob certas condições de tempo e exposição, pode gerar uma reestruturação parcial das disposições, pode gerar um (re)encontro.

O não-olhar daquele aluno, sua recusa em me encarar, pode ser lido nesse registro: um habitus que não sabe operar naquele campo, que recua diante de presenças para as quais não possui esquemas de percepção. Mas há outra camada. Butler oferece um deslocamento: o gesto não expressa simplesmente uma identidade heterossexual já constituída que reage a uma ameaça, ele a constitui no ato mesmo de recuar. O não-olhar é uma iteração, uma das repetições que produzem e estabilizam a aparência de uma posição de sujeito como se fosse substância verdadeiramente possível de ver. 

É nessa fricção que o caso se torna interessante, o habitus explica a origem e a força do recuo; a performatividade explica por que o gesto, repetido, não se reproduz sempre igual. E é nessa falha da repetição que se abre a possibilidade de transformação.

A transformação não se daria por um gesto isolado, mas pela exposição prolongada e repetida a um mundo que, pouco a pouco, vai sendo incorporado. Para Butler, a iteração das normas anteriores começa a falhar no novo contexto, o gesto que antes estabilizava a identidade já não consegue reproduzir-se de forma exata, e o que emerge nessa impossibilidade de repetir é uma reconfiguração. Um (re)encontro — o prefixo entre parênteses marca uma repetição que não é exata, um encontro que é re-encontro porque a segunda ocorrência não reproduz a primeira.

A universidade pode ser esse espaço de intersecção entre mundos que, fora dela, dificilmente se cruzariam. É preciso dizer “pode”, porque a universidade também pode reproduzir desigualdades, quando seleciona e exclui, operando como mecanismo de legitimação das hierarquias existentes. Não há garantia de que o encontro com a diferença seja transformador, pode, ao contrário, produzir mais muros, mais recuos, mais radicalizações. Mas há possibilidade de (re)encontro.

Esse é o ponto que importa: não fui eu quem mudou o aluno. O que mudou o aluno, se é que se pode usar esse verbo, foi o encontro. Foi o tempo. Foi a experiência universitária como duração, como cotidiano, como exposição repetida à alteridade. Foi estar na sala com pessoas que vinham de outros bairros, com outras histórias religiosas, com outras formas de habitar o próprio corpo e a própria fala. Foi ler textos que deslocavam seu chão, que geravam tensões em suas ideias de mundo, verdades antes vividas como únicas possíveis. Foi debater, discordar, ser desafiado, ser visto.

Os diferentes, os outros, são desafiadores. E o encontro com a diferença, quando se sustenta no tempo, pode nos levar, se tivermos a inteligência e a coragem para isso, a refletirmos sobre nós mesmos, sobre nossas certezas, nossas matrizes fundadoras, nossas verdades. O aluno foi levado a isso. Ele fez isso.

O não-olhar e o rosto

Há algo, naquela imagem inicial, que merece ser pensado com mais atenção. O não-olhar. Recusar o rosto do outro é, em certo sentido, recusar a alteridade como possibilidade. Emmanuel Levinas, em Totalidade e Infinito, pensa a ética como experiência do rosto do outro. A epifania do rosto não é a fisionomia nem o que o olhar pode captar, é a presença do outro que se expressa, que fala, e que, ao se manifestar, interpela e convoca à responsabilidade. O rosto do outro me desloca do centro de mim mesmo, me convoca a uma responsabilidade que não escolhi.

O aluno que não me olhava talvez não estivesse apenas me recusando. Talvez estivesse protegendo um mundo. Encarar o outro, nesse sentido, não é apenas um gesto ocular, pode ser admitir que o outro existe, que o outro tem presença, que essa presença exige algo de mim. Olhar o outro é consentir em ser transformado por ele. O não-olhar, então, pode ser lido como uma defesa de sua estrutura de mundo, de sua matriz que busca de alguma maneira manter, mas que passa a estar ameaçada por uma presença que não deveria, segundo seus códigos, estar ali, em múltiplas performatividades conflituosas para o aluno que a olha. 

Não quero romantizar isso. Não quero transformar o aluno em um herói que superou seus preconceitos. Quero apenas sugerir que ali, naquela sala, naquela primeira aula, havia um encontro que ele não havia tido antes. E que encontros, quando se sustentam no tempo (em um semestre), podem fazer coisas que gestos isolados não fazem.

O tempo

Dois anos depois, esse aluno voltou para uma turma minha, agora na disciplina de Comunicação e Sociedade do Consumo. Não era mais o mesmo aluno. Olhava. Participava. Debatia. Trazia reflexões. Algo havia se movido. Mas o que?

Tendo a desconfiar de explicações que localizam a transformação em um agente único, um professor que disse a frase certa, uma aula que abriu uma fresta, um texto que mudou tudo. Essas explicações satisfazem nossa necessidade de narrativa, mas costumam ser falsas. O que se movia naquele aluno não fui eu quem moveu. Moveu-se em dois anos de universidade, dois anos de aulas, de colegas, de textos, de conversas no corredor, de festas, de solidão, de descobertas, de deslocamentos pequenos e cotidianos que, somados, produziram outra disposição. Um (re)encontro.

A experiência transforma, porque se incorpora ao tempo e se torna matéria de que se faz uma vida. O que aconteceu com aquele aluno, me parece, foram múltiplas e potentes experiências, algo que se fez lentamente, no cotidiano, na exposição repetida à diferença.

O convite

No último período, na época do TCC, ele me chamou para ser seu orientador. Não fui, por razões estritamente acadêmicas. Eu não tinha aderência ao tema que ele propunha, e outros colegas tinham, e indiquei o mais pertinente. Mas o convite, em si, me disse algo. Me disse algo modesto e verdadeiro: “você é alguém com quem eu quero pensar”.

A frase me coloca no lugar de interlocutor, alguém que, na experiência universitária, tornou-se uma presença com quem vale a pena dialogar. Isso, para um professor, talvez seja o suficiente. Talvez seja até mais do que o suficiente.

O hoje

Hoje, esse ex-aluno trabalha na área de Comunicação. Tem também um perfil no Instagram com muitos seguidores. Nele, desenvolve um projeto pessoal de interferência no espaço da rua, cartazes que produz e expõe, sempre com uma reflexão provocadora sobre questões sociais e políticas. Há aí uma escolha estética e política que me parece digna de nota: ele fala colado à cidade, no espaço público, na superfície que todos cruzam. O cartaz é uma forma de tática, no sentido que Michel de Certeau dá ao termo, a arte de quem não detém o lugar, mas o usa, o percorre, o subverte por dentro, o toma para si em (re)encontros.

Além disso, ele se assumiu para mim, há uns dois anos, como homossexual. E mais recentemente, de forma sutil, assumiu em seu próprio perfil que tem um namorado. Não me cabe aqui transformar isso em “resultado”. Não houve causa e efeito. Houve uma trajetória de vida, e essa trajetória, evidentemente, cruzou com a experiência universitária, mas não se reduz a ela. A universidade foi um dos lugares onde ele pôde encontrar outras formas de habitar o próprio corpo e a própria fala. Não foi o único lugar, e não foi o lugar decisivo. Foi um lugar entre outros.

O ponto

É aqui que chego ao que queria dizer. A experiência universitária, quando é experiência de fato, é transformadora não por causa de um professor, de uma disciplina ou de um texto isolado. É transformadora porque é encontro. Encontro com a diversidade de histórias, de memórias, de corpos, de desejos, de formas de pensar e de existir. O aluno que chega, tantas vezes, traz um mundo pequeno, não pequeno por ser pobre ou desqualificado, pequeno por ser restrito, por ser o mesmo. A universidade, quando cumpre seu papel, é o lugar onde esse mundo se alarga, dilata para muito além do que foi anteriormente.

Sei que nem todo encontro é transformador, que muitos alunos atravessam a universidade sem que ela os atravesse. Uma pena. Sei que a diversidade, sozinha, não garante nada, pode produzir estranhamento que se converte em mais muro, em mais recuo, em mais radicalização. Não há garantia.

Mas há possibilidade. E talvez seja isso que essa história tenha a nos dizer: que a universidade, como espaço, é um dispositivo de possibilidades. Não de certezas. A possibilidade de que alguém que nunca olhou para um homossexual, porque não precisou, porque não foi exposto a isso, porque seu mundo não continha essa presença (declarada sem medo). Venha olhar! A possibilidade de que mundos que não se cruzariam possam se cruzar. A possibilidade de que a alteridade, quando se sustenta no tempo, deixe de ser ameaça e se torne condição de constituição de si.

Friso mais uma vez: não fui eu quem fez esse aluno mudar, mas também fui. Foi a experiência universitária, entendida como exposição prolongada à diversidade de formas de ser, pensar e existir. Eu estive ali, como uma das presenças que compuseram e puderam observar a celebração desse encontro. Não mais do que isso. Não menos do que isso.

E talvez isso já seja o bastante.


Eduardo Bianchi é professor e pesquisador doutor em Comunicação Social. Suas pesquisas articulam cultura digital, gênero e sexualidade. Interesse especial nas relações entre estética, política e sociedade contemporânea. Atualmente, desenvolve pesquisa de pós-doutorado na Uerj com foco em política, gênero e uso de inteligência artificial. É professor na UVA nos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda. Título da pesquisa: Corpos, corpas e corpes [Re]construídos: Inteligência Artificial e a Reinvenção das Identidades LGBTQIAPN+ no Cenário Digital. E-mail: eduardo.bianchi.cs@gmail.com

Como citar:

BIANCHI, Eduardo. O não-olhar e o (re)encontro – Blog: Comunicação, Cidade e Consumo, Rio de Janeiro, v. 6, n. 34, 2026.

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