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Vol. 19, N. 77  ImaginaRIO – K- pop da fanbase ao rock: A primeira apresentação do gênero pop coreano no Rock in Rio

Imagem do Rock in Rio

K- pop da fanbase ao rock: a primeira apresentação do gênero pop coreano no Rock in Rio 

O Rock in Rio foi criado em 1985, na cidade do Rio de Janeiro, com o propósito de ser um dos maiores eventos musicais realizados no país. Em um período no qual o Brasil passava por grandes transformações culturais e sociais, o festival surgiu com o propósito de unir vários artistas e bandas nacionais e internacionais, o que ajudou a consolidar o rock como um importante meio de expressão cultural. Após as primeiras edições, o evento passou a representar não apenas a música, mas a interação entre diferentes gêneros, públicos, culturas e formas de comunicação.

Com o passar dos anos, o Rock in Rio ampliou sua proposta e deixou de estar ligado exclusivamente ao rock. O festival passou a receber artistas de diferentes gêneros, como pop, música eletrônica, rap e funk. Essa transformação acompanha uma mudança na própria indústria musical, na qual os grandes festivais passaram a funcionar como megaeventos que unem diferentes culturas, públicos e marcas, refletindo a diversidade dos gêneros musicais.

Em contrapartida, surge em 1990, na Coreia do Sul, um gênero musical diferente do habitual do país, originado da união do pop, hip-hop, R&B e música eletrônica, com influência de boy bands estadunidenses. Um estilo que envolvia, além das apresentações musicais, também performance de danças coreografadas, e que começou a ser repetido por muitos grupos, mais tarde sendo conhecido como K-Pop. Logo fez sucesso em outros países asiáticos, e, mais tarde, recebeu investimentos do governo coreano, o que impulsionou a comercialização do K-Pop mundialmente. Sua expansão internacional vai além das músicas e videoclipes, sendo uma experiência cultural, influenciando a moda, as redes sociais, o cinema e as produções televisivas.

Assim, a relação entre o início do Rock in Rio e a ascensão do K-Pop pode ser compreendida pela transformação da música em um fenômeno cada vez mais global. Enquanto o festival ajudou a aproximar o público brasileiro de artistas e culturas internacionais por meio de grandes apresentações presenciais, o K-Pop ampliou essa conexão através das plataformas digitais e das comunidades virtuais. O que ambos mostraram é como a música pode ultrapassar fronteiras, criar identidades coletivas e promover novas formas de interações culturais.

Rio entre Esquinas

Imagem do grupo StrayKids

Fanbase: a escada do sucesso 

Os megaeventos podem ser entendidos como espaços em que cultura, comunicação e consumo se encontram. No caso do Rock in Rio, essa característica aparece desde sua consolidação como um grande espetáculo musical, capaz de reunir diferentes públicos e transformar a cidade em um palco de experiências culturais. Como apontam Ricardo Freitas, Flavio Lins e Maria Helena Carmo dos Santos, o impacto de um megaevento não termina quando o espetáculo acaba: sua repercussão se espalha pela mídia e pelo imaginário coletivo, fazendo com que o evento ultrapasse seu próprio espaço físico. 

É possível observar essa mesma lógica na expansão global do K-Pop. O gênero, inicialmente associado à produção musical sul-coreana, passou a circular mundialmente não apenas pela indústria, mas também pela atuação intensa de seus próprios fãs. As fanbases, comunidades organizadas de fãs, desempenham um papel importante na divulgação dos artistas, na mobilização do público e na criação de uma identidade coletiva em torno do K-Pop. Como exemplo as armys, fãs do grupo BTS que são conhecidos pela sua intensa mobilização e divulgação do grupo. Assim, os fãs deixam de ser apenas consumidores e passam a participar ativamente da circulação e da popularização desse produto cultural, contribuindo para que o gênero ultrapasse fronteiras e alcance uma dimensão de cultura de massa.

No Brasil, essa força pode ser percebida quando grandes artistas de K-Pop como StrayKids e BTS passam a ocupar espaços como o Estádio Nilton Santos (Rio de Janeiro) e o Allianz Parque (São Paulo), respectivamente, para produção de shows. Os estádios, tradicionalmente associados ao futebol, transformam-se temporariamente em um espaço de espetáculo musical, reunindo milhares de fãs em torno de uma experiência coletiva. Essa mobilização demonstra como o público também é parte fundamental do funcionamento dos megaeventos: as pessoas se reúnem pelo desejo de estarem juntas, enquanto a repercussão midiática amplia aquilo que acontece dentro daquele espaço. Essa ideia se aproxima da análise de Freitas, Lins e Santos sobre os megaeventos como acontecimentos que produzem reverberações para além de seu local de realização. 

A chegada do K-Pop ao Rock in Rio em 2026 representa, portanto, o resultado dessa trajetória. A força construída pelas comunidades de fãs, somada à circulação digital e ao crescimento internacional do gênero, fez com que o pop coreano deixasse de ocupar apenas um espaço considerado de nicho e passasse a integrar uma das maiores vitrines musicais do Brasil e do mundo. Nesse sentido, a presença do K-Pop no Rock in Rio mostra que os megaeventos não são estruturas fixas: eles também acompanham aquilo que ganha força na sociedade. A massa de fãs, inicialmente formada e organizada em torno de comunidades próprias, contribuiu para transformar o K-Pop em um fenômeno grande o suficiente para ocupar o palco de um megaevento.

Personagem da gema

Imagem da Entrevistada

Yohana Ferreira, aluna de Letras UERJ. Conheceu o gênero em 2018; o primeiro contato foi com o grupo famoso na época, BTS. Mas sua paixão atual são os girl groups (grupos femininos), como, por exemplo, Blackpink, ITZY e AESPA.

Conhecendo o K-Pop cedo, aos 12 anos, ela mergulhou de cabeça um ano depois. Foi quando se interessou pela língua coreana, mas, como ela não tinha dinheiro o suficiente, aventurou-se pela internet, onde conheceu melhor tanto a cultura como grupos que começavam a se estruturar globalmente naquela época.

Atualmente, Yohana tem outras perspectivas sobre a comunidade Idol. “O K-Pop se moldou muito ao modo ocidental, do que era antes”. Isso traz à tona quando ela conheceu pela primeira vez o gênero, pois ela pensou ser um escape dos estilos musicais norte-americanos. Principalmente por trazer uma nova cultura e novas linguagens, “mas fico feliz que um grupo estará no Rock in Rio esse ano, me lembra quando o Blackpink se apresentou no Coachella em 2019”. Não significa que ela não queira que o gênero do pop coreano deixasse esse novo estilo, mas que ainda usasse suas raízes para realmente continuar estruturado no ramo musical, sem se adaptar a uma estética americanizada. 

Imagina Rio Entrevista 

Logo do AsianPop’s Brasil

Luciana Rodrigues, dona da conta do Instagram Asianpop’s Brasil, que possui 28,5 mil seguidores. O objetivo do perfil é funcionar como uma fanbase, divulgando shows, eventos e notícias asiáticas sobre o K-Pop e movimentando as interações de fãs do gênero.

1. Como surgiu a ideia de criar e administrar uma fanbase de K-Pop no Instagram?

A ideia veio depois de um show que teve em Belo Horizonte, em Minas. Eu e mais duas amigas resolvemos criar uma página para divulgação e mostrar mais os artistas asiáticos para o Brasil.

2. Você percebe que os fãs ajudam ativamente na divulgação dos artistas? De que forma?

Sim, os fãs ajudam muito nas divulgações. Curtindo, repostando e comentando, e isso dá muito engajamento nas divulgações.

3. O que a presença de grupos de K-Pop em grandes eventos, como o Rock in Rio, representa para os fãs brasileiros?

Na minha opinião, vencemos. Um dos maiores eventos do Brasil tinha realmente que mudar um pouco. Representa muita felicidade, pois isso é só o início de que podemos ter mais e mais K-Pop no Brasil, e o Rock in Rio deste ano vai ser o melhor dos melhores.

4. Você acredita que a presença do K-Pop em um megaevento como o Rock in Rio mostra que o gênero deixou de ser visto apenas como um fenômeno de nicho?

Acredito que sim, lutamos há muito tempo para mostrar que o K-Pop merece seu lugar no mundo e conseguimos. Cada dia crescemos mais e mais, vamos mostrar isto no Rock in Rio.

5. Na sua opinião, o que faz o K-Pop conseguir ultrapassar fronteiras culturais e conquistar públicos em diferentes países?

O que faz são os fãs do mundo todo mostrarem quem realmente são e o talento dos artistas, que muita gente até hoje está desacreditada, mas nós fãs mostramos que é real. E isso cada dia vai conquistando o mundo, fico muito feliz.

6. Você acredita que a força e a organização das comunidades de fãs nas redes sociais contribuíram para que o K-Pop alcançasse espaços antes ocupados principalmente por outros gêneros musicais? Como você percebe isso na prática?

Com certeza contribuiu muito, muito mesmo. Em Belo Horizonte, muitos fãs não sabiam de eventos ou shows ou não conheciam os artistas, e as páginas ajudaram muito. Hoje os shows são bem vistos, divulgados e muitos fãs têm acesso mais fácil em plataformas ou sites e tal. Hoje o K-Pop domina o mundo, nós fãs somos responsáveis, por isso mostramos a força que um amor de um fã tem. Quanto mais a gente posta, mais a gente ganha seguidores, pessoas querendo conhecer a cultura. Fico muito orgulhosa e feliz de fazermos parte deste mundo.

Leitura do mês

v. 27 n. 3 (2020): DOSSIÊ DECOLONIALIDADE E POLÍTICA DAS IMAGENS

O artigo aborda a relação entre o K-Pop, o ativismo de fãs e a desobediência epistêmica, tendo como principal exemplo o fandom army, dos fãs do BTS. Os autores utilizam uma perspectiva descolonial para discutir como a cultura ocidental, principalmente dos Estados Unidos e do Reino Unido, historicamente ocupou uma posição dominante na indústria cultural mundial. Nesse contexto, a expansão do K-Pop representa uma mudança importante, pois uma produção cultural não ocidental passa a conquistar espaço e reconhecimento internacional.

O texto também apresenta a Hallyu, conhecida como “Onda Coreana”, responsável pela expansão mundial da cultura sul-coreana por meio da música, dos dramas, do cinema e de outros produtos culturais. Com a internet e as redes sociais, o K-Pop conseguiu alcançar públicos de diferentes países. Os fãs passaram a utilizar essas plataformas não apenas para acompanhar seus artistas, mas também para se organizar coletivamente, realizar campanhas, arrecadar doações e participar de discussões e mobilizações sociais e políticas.

Como exemplo, os autores destacam as ações dos armys, como a campanha de apoio ao movimento Black Lives Matter e outras mobilizações políticas realizadas nas redes sociais. Essas ações demonstram que o fandom pode ultrapassar o papel de consumidor e tornar-se um agente de participação social. Dessa forma, o texto argumenta que o K-Pop e a atuação de seus fãs podem contribuir para questionar a hegemonia cultural ocidental, produzindo novas formas de circulação cultural e de participação política, relacionadas ao conceito de desobediência epistêmica.

Referências:

FREITAS, Ricardo Ferreira; Lins Flávio; DOS SANTOS, Maria Helena Carmo. Megaeventos: a alquimia incontrolável da cidade. Logos, Rio de Janeiro, v. 1, n. 24, 2014. Disponível em: <https://www.e-publicacoes.uerj.br/logos/article/view/13129>. Acesso em: 8 set. 2026.

HYUNDAI. K-pop: como o gênero mudou a cultura coreana. Universo Hyundai, [s. d.]. Disponível em: <https://www.hyundai.com.br/universo-hyundai/qualidade-de-vida/k-pop–como-o-genero-mudou-a-cultura-coreana.html](https://www.hyundai.com.br/universo-hyundai/qualidade-de-vida/k-pop–como-o-genero-mudou-a-cultura-coreana.html>. Acesso em: 15 ago. 2026. 

SOARES, Kadu. Rock in Rio 2026 terá o maior encontro de K-pop da América Latina em 11 de setembro. Rolling Stone Brasil, 11 jun. 2026. Disponível em:<https://rollingstone.com.br/musica/rock-in-rio-2026-tera-o-maior-encontro-de-K-Pop-da-america-latina-em-11-de-setembro/>. Acesso em: 17 ago. 2026. 

BERNARDO, Fernanda Clarissa da Silva; LIMA, Mariane Bastos de. K-pop: a cultura popular coreana influenciando o Brasil. Anais do XV Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura – ENECULT, Salvador, 2019. Disponível em: <http://www.xvenecult.ufba.br/modulos/submissao/Upload-484/112160.pdf>.  Acesso em: 15 ago. 2026. 

MIDDLEBURY LANGUAGE SCHOOLS. The global K-pop impact. Language Schools Blog, 18 jul. 2023. Disponível em: <https://www.middlebury.edu/language-schools/blog/global-k-pop-impact>. Acesso em: 1 set. 2026. 

URBANO, Krystal; MAZUR, Daniela; ARAUJO, Mayara; ALBUQUERQUE, Afonso de. K-pop, ativismo de fã e desobediência epistêmica: um olhar decolonial sobre os ARMYs do BTS. Logos, Rio de Janeiro, v. 27, n. 3, 2021. Disponível em: <https://www.e-publicacoes.uerj.br/logos/article/view/54453>. Acesso em: 8 set. 2026.

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Esta edição foi produzida por Clara da Silva Lima – graduanda em Comunicação Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) – na disciplina Estágio Curricular Supervisionado I – Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Débora Gauziski, subcoordenadora do Lacon e professora do Departamento de Relações Públicas da FCS/Uerj.

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