Rio de Janeiro, Fevereiro e Março

Negro Muro
Idealizado pelo artista muralista Fernando Cazé e pelo produtor cultural e pesquisador Pedro Rajão, o projeto Negro Muro usa a arte urbana para dar visibilidade a personalidades negras e se contrapor à narrativa colonizadora presente na arquitetura, nas ruas e nos monumentos cariocas.
Atuando desde 2018 no mapeamento da memória negra, o coletivo já soma mais de 60 intervenções artísticas espalhadas pelo Rio de Janeiro. Cada mural é acompanhado por um QR code que direciona para as transmissões ao vivo do processo de pintura, permitindo que transeuntes conheçam mais sobre a iniciativa, registrem as obras, compartilhem nas redes sociais e ampliem a circulação de histórias que a História oficial não conta.
O alcance do Negro Muro vai além das ruas: os artistas também já pintaram patrimônios históricos e culturais como o Museu da Imagem e do Som (MIS-RJ), o prédio administrativo do Theatro Municipal, o Museu da Cultura e História Afro-Brasileira (MUHCAB), a última residência do Almirante Negro João Cândido, o Estádio de São Januário (Clube de Regatas Vasco da Gama), além das quadras das escolas de samba Império Serrano, Caprichosos de Pilares e Arranco do Engenho de Dentro e de sete escolas municipais.
Desde 2023, o Negro Muro também passou a integrar circuitos culturais oficiais da cidade: a Riotur, órgão de turismo do Rio de Janeiro, incluiu o projeto em sua plataforma como parte de roteiros que valorizam a memória negra. Além disso, em junho de 2024, o projeto realizou uma intervenção de grande destaque na Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV) da Fiocruz: foram inaugurados dois murais que retratam Joaquim Venâncio, patrono da escola, e diversos técnicos negros que foram fundamentais para a Fundação, muitos deles até então pouco conhecidos. A iniciativa foi acompanhada por uma roda de conversa com os idealizadores, que enfatizaram o papel da arte como instrumento de reparação histórica e de fortalecimento do pertencimento e visibilidade da memória negra no ambiente acadêmico.
Personagem da Gema

Conceição Evaristo
Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em Belo Horizonte, em 1946, e migrou para o Rio de Janeiro na década de 1970. Graduada em Letras pela UFRJ, atuou como professora da rede pública de ensino da capital fluminense. É mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutora em Literatura Comparada pela UFF. Reconhecida nacional e internacionalmente, Conceição Evaristo é uma das mais importantes vozes da literatura brasileira contemporânea, com sua escrita marcada pela noção de “escrevivência”, conceito que valoriza a experiência de vida de mulheres negras como fonte de produção literária.
Em janeiro de 2025, a autora foi homenageada com um mural de 600 metros quadrados no coração da Pequena África, região portuária do Rio de Janeiro marcada pela memória da diáspora africana. A obra, considerada o maior grafite já dedicado a uma escritora no Brasil, foi assinada pelo projeto Negro Muro. O local escolhido reforça a relação íntima de Conceição Evaristo com a área: ela vive no Morro da Conceição e mantém ali o centro cultural Casa Escrevivência, dedicado à preservação da memória, à literatura e à promoção da cultura negra.
Rio entre Esquinas

Foto: Divulgação/@negromuro
Circuito Guiado Negro Muro
Conhecido nas redes sociais pelo bordão “Correr é bom demais!”, em que compartilha sua rotina de treinos por diferentes trajetos do Rio de Janeiro, o corredor Pedro Paulo foi o responsável por dar o ritmo ao primeiro circuito Negro Muro.
O percurso, de aproximadamente sete quilômetros e uma hora de duração, teve seis paradas estratégicas para contemplação dos murais dedicados a Pixinguinha, Waldemar Santana, Machado de Assis, Ruth de Souza, Luiz Gama e Conceição Evaristo, em um trajeto que conecta a Lapa à Gamboa, regiões centrais marcadas pela memória negra e pela efervescência cultural carioca.
Realizado no dia 23 de agosto, o evento gratuito uniu atividade física, direito à cidade e valorização da memória negra por meio da arte urbana. Durante o circuito, os idealizadores do projeto, Pedro Rajão e Fernando Cazé, compartilharam com os participantes detalhes sobre os processos criativos de cada obra, reforçando a proposta do Negro Muro de transformar a rua em espaço de aprendizado, celebração e reparação histórica.
Entrevista

Foto: Divulgação/@negromuroPedro Rajão
Pedro Rajão é produtor cultural, pesquisador musical e um dos realizadores do projeto Negro Muro. Desde 2018, promove, ao lado do muralista Fernando Cazé, o mapeamento da memória negra através da arte urbana. São homenagens pintadas em muros para exaltar a importância de mulheres e homens negros na construção da sociedade.
ImaginaRIO: Como você e o Cazé se juntaram para idealizar o projeto Negro Muro?
Rajão: Estou dirigindo e produzindo um documentário sobre o Fela Kuti há 12 anos. Na época eu trabalhava como DJ e descobri mais esse lado da música nigeriana, highlife, juju music, e o próprio Fela. Comecei a fazer um documentário a partir do primeiro show do Seun Kuti, no Rio, em 2010. O Seun é o filho mais novo do Fela e herdou a banda do pai. Para quem é fã de Afrobeat, fã de Fela Kuti, ter ele na cidade era muito importante. Consegui fazer uma entrevista com ele, que foi a grande semente de um projeto maior.
Na época eu me interessava muito por grafite, mas apenas como admirador. Nunca tinha trabalhado com nenhum artista urbano, muralista, pixador, nada. Pedi uma indicação a um amigo, que me apresentou o Cazé. Eles trabalhavam juntos. O Cazé tem formação de motion designer, mas já pintava na rua há mais de 20 anos. Entrei em contato com ele, fui à casa dele, no Bairro de Fátima. Cheguei lá com um DVD do Fela, “Music is the Weapon”, e um disco do Fela. Fizemos uma sessão de imersão e pintamos o primeiro muro dele. Esse primeiro muro, que a gente chama de muro zero, foi o primeiro Fela, ainda em uma linguagem muito de cartoon. Depois, em 2018, já com outra estética, fizemos em frente ao Colégio Francisco Campos, na Rua Nossa Senhora de Lourdes, no Grajaú.
A partir dessa experiência do Fela, passamos a trabalhar figuras com esse conceito de georreferenciamento. O Fela nunca esteve no Brasil, mas foi o início do mapeamento. Depois fizemos o Lima Barreto, no Méier, onde ele morava, na Rua Caunes.
ImaginaRIO: Então existe uma pesquisa anterior? Não é simplesmente pintar o rosto de uma pessoa célebre, mas também, no caso de pessoas brasileiras que moravam no Rio de Janeiro? Tem uma questão de memória carioca?
Rajão: O Rio, por ter sido capital por muito tempo, abrigou gente de tudo que é lugar. Então é isso: João Cândido era gaúcho, Martinho da Vila é do interior do Estado, Clementina de Jesus era de Valença, Barbosa do Vasco é de Campinas. A gente já fez até um levantamento: são várias figuras que fizeram a vida aqui, mesmo sendo de outros lugares.
ImaginaRIO: Como você acha que esse projeto provoca uma mudança de perspectiva sobre a memória da cidade?
Rajão: O Negro Muro nasce como um projeto de grafite, que é um tentáculo da cultura hip-hop, um movimento pretíssimo americano, de imigrantes jamaicanos, principalmente, mas também nigerianos, de várias partes da África. Essa arte, que é negra por essência, quando chega ao Brasil, se transforma.
Quando começamos, era com spray. O muro da Lélia Gonzalez foi o último que pintamos com spray, em 2022. De lá para cá, tudo é com pincel, e temos buscado muros maiores também. O próprio Cazé se apresenta como muralista, não mais como grafiteiro. Talvez ainda diga artista urbano, mas ele está se colocando como muralista de fato. São pinturas em larga escala, com pincel. É outra arte, outro fazer, tecnicamente e esteticamente.
As placas, os monumentos públicos, estátuas, bustos, nomes de ruas, viadutos e avenidas refletem muito quais são as histórias e memórias que queremos exaltar. Mas vemos várias figuras colonizadoras em cima de cavalos. O Duque de Caxias, por exemplo, sanguinário que botava a tropa negra na frente para morrer no Paraguai. Ele trucidou o Paraguai, acabou com dois terços da população masculina. Mesmo assim, é patrono do nosso exército até hoje, nome de cidade.
E, contraditoriamente ou não, fora dessa via oficial dos monumentos e nomes de rua, um mural da Ruth de Souza com 33 metros de altura é visto por muito mais gente do que uma plaquinha de rua que poucos param para ler. O nosso trabalho, e o de outros artistas preocupados com memória e território, é uma arte muito mais direta, didática, que provoca quem está interessado e até quem não está. Quem gosta de saber que ali nasceu fulano de tal, e quem se incomoda. E eu acho isso ótimo: provocar o rancor dos racistas é muito importante.
Leitura do Mês

Capitães de Água
O livro é uma coletânea de poemas que, sob a perspectiva de Math de Araújo, cria da Maré e estudante de jornalismo da Uerj, propõe uma navegação intensa pelos mares que apetecem a existência de corpos negros em diferentes momentos do tempo no Rio de Janeiro. Lançado em 2025, “Capitães de Água” não só se debruça no combate e exposição das desigualdades sociais, que impulsionam a desumanização do sujeito negro, como se alia a sensibilidade e vulnerabilidade, presente em decorrentes tempestades emocionais, na busca pela dignidade e pela superação, uma maré tranquila.
O autor não aprisiona sua narrativa em um só sentimento. Por outro lado, são variadas as abordagens para se discutir questões diárias como solidão negra, autoestima, cultura, traumas e pertencimento. Resultado de sessões terapêuticas que investigaram afogamentos sociais, raciais e psicológicos, a coletânea oferece em 56 poemas um “desafogamento mental”, relembrando seu leitor de que o capitão do seu próprio destino é ele mesmo e de que se pode alcançar terra firme.
Disponível para compra aqui.
O ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro. Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no ImaginaRIO? Entre em contato com a gente pelas nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail laconuerj@gmail.com
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- Equipe:Pedro Favera, Juliana Nascimento, Laiza Villaça, João Otávio, Maria Helena Carmo, Rafael Nacif e Isadora Ortiz
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