O ano era 1984. Politicamente, o Brasil alimentava a esperança de retomar as eleições diretas. A campanha pelas Diretas Já movimentava o país. Mas, no interior do Piauí, acontecia outra despedida. Dadá, enquanto chorava, arrumava os poucos pertences numa pequena mala antiga de papelão com dois fechos de metal, um em cada extremidade. Cuidadosamente, ela colocava uma camisa do marido, falecido havia poucas semanas, alguns vestidos muito engomados, poucos sapatos e, no meio deles, a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Depois de fechar a mala, andou por cada canto de sua pequena casa. Tocava em paredes e móveis como se quisesse reter na memória os cheiros e as marcas daquele lar que lhe trazia tantas recordações do marido. No lado de fora, a chuva castigava sem trégua. Havia trovões, relâmpagos e muitas nuvens cinzentas. Olhei pela janela imaginando como conseguiríamos sair dali debaixo daquele dilúvio.
Dadá fechou a porta, saiu puxando a mala e o velho guarda-chuva preto. Ainda chorava, mas não olhava para trás. Seguiu o caminho e de repente lembrou da porteira aberta. Eu corri em seu lugar para fechá-la. Não achei justo vê-la voltar e passar por todas aquelas lembranças que certamente eram doloridas, ainda mais num dia chuvoso como aquele. Seguimos em silêncio o longo percurso até a casa da minha avó, onde Dadá residiria dali em diante. Resignada, ela apertou minha mão e continuou andando.
Engraçado não lembro como aquela mala de papelão chegou intacta debaixo daquela chuva intensa. O que permaneceu na minha lembrança não foi a resistência do papelão e sim, o que a mala carregava: o passado que precisava ser resguardado.
Durante muitos anos não compreendi por que essa lembrança insistia em permanecer comigo. Foi somente décadas depois, quando iniciei uma pesquisa na Feira das Brecholeiras, em Madureira, que aquela cena da infância voltou com força.


Saí do trem, subi os degraus meio enlameados da estação de Madureira e lá de cima avistei a feira. Era janeiro, auge do verão carioca. Mas, chovia e fazia frio. Ali de cima da estação, revi toda a despedida da Dadá: a mala, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, o andar pela casa, o longo e silencioso caminho até a casa de minha avó. Ao cruzar a passarela da estação, percebi que a distância entre 1984 e 2018 desapareceu. Eu era outra, assim como a cidade. Dadá já não estava mais ali. Mas permanecia comigo.
De longe, ouvi o pagode que vinha da caixa de som colocada estrategicamente perto dos estandes, sob o viaduto Negrão de Lima, no coração de Madureira. À medida em que me aproximava, ouvia risadas e o barulho das conversas que atravessavam os cabides repletos de roupas.
Despretensiosamente circulei pelas araras. “Ei, amiga, ficou bem em mim?”. A pergunta de uma frequentadora me desperta da volta no tempo. Enquanto eu andava, outras surgiam: “Você é nova aqui na feira?”, “Aceita um cafezinho?”.
Nesse passeio, vi muitas peças sendo desdobradas e cuidadosamente organizadas nos cabides e nas mesas. Lembrei-me novamente de Dadá e de seu esforço em guardar todo o passado naquela mala de papelão. Agora, o movimento era inverso. Era o passado que saía das malas das brecholeiras para contar outras histórias. Enquanto o novo comprador não aparecia, a peça permanecia exposta em cabides.
As roupas estavam em ótimo estado. Algumas apresentavam pequenos defeitos, como costuras desfiadas. Segurei uma peça com um pequeno rasgo nas costas e um dos botões quase caindo. Olhei demoradamente para aquela camisa amarela imaginando o que ocasionou os pequenos defeitos. Pensei: que biografias essa peça carrega? As costuras desfeitas me fizeram pensar nas mãos de Dadá.
A chuva deu uma trégua. Aproveitei para observar os produtos vendidos: sapatos, bijuterias, bolsas, brinquedos, artigos para casa e muitas roupas. Algumas eram de marcas famosas, como a Farm, uma das queridinhas da feira.
Todas as mercadorias são de segunda mão. Algumas peças são usadas e já apresentam desgaste pelo tempo. E são elas que despertam a minha curiosidade. Assim como a camisa amarela quase sem botão, fico imaginando as histórias que essas mercadorias acumulam. Nesse momento, lembrei de um trecho do livro O Casaco de Marx, do Peter Stallybrass. Logo nas primeiras páginas, o autor descreve os sinais de tempo de uma velha jaqueta de um amigo, recém-falecido. Ele descreve os vincos no cotovelo, as manchas da barra e até o cheiro das axilas e as lembranças que evocavam. Lembrei novamente da mala de papelão da Dadá e da camisa do marido falecido. Provavelmente havia vincos, marcas do tempo e inúmeras memórias.
“Esse frio não combina com verão, né?”. A pergunta me traz de volta a 2018. Naquela primeira visita à Feira das Brecholeiras, percebi que as interações ultrapassavam a compra e a venda. Havia algo mais: conversas, cuidados, lembranças e uma proximidade que revelava outras formas de sociabilidade naquele espaço.
Parei em outro estande e uma colcha de patchwork* captura totalmente a minha atenção. Olhei e percebi a coincidência. Eu ali circulando por uma feira em 2018, sendo invadida por memórias de 1984. A colcha me mostrou que a mistura de temporalidades é como aqueles retalhos de tecidos costurados: diferentes e iguais ao mesmo tempo. A mala da Dadá guardava peças para preservar um passado que se despedia e as roupas da feira traziam o passado para incorporar outras memórias do tempo presente.
Aquela colcha revelou ainda que a Feira das Brecholeiras funciona quase como um território de encontro entre tempos. Eu não volto a 1984 e nem recupero a casa de Dadá. Mas encontro, em 2018, elementos que permitem produzir uma relação entre esses mundos e percebo que a memória não é simplesmente uma gaveta onde guardo o passado.

Anos depois encontrei em Maurice Halbwachs uma explicação para aquilo que eu experimentava desde a infância: as lembranças nunca pertencem apenas a nós. Em Memória Coletiva, o autor mostra que nossas recordações ganham sentido porque são produzidas e compartilhadas nos grupos dos quais fazemos parte. A memória individual, portanto, é atravessada pela memória coletiva e se atualiza nas relações e nos espaços que habitamos. Foi isso que comecei a compreender na Feira das Brecholeiras. Ali percebi que o passado também se produz no presente, a partir dos encontros, dos lugares que atravesso e das perguntas que formulo.
Nessa primeira visita, vi muitas mulheres. Aliás, havia basicamente mulheres circulando e vendendo. Fiquei com a impressão de se tratar de um evento essencialmente feminino.
Conversei com algumas brecholeiras e percebi que muitas tinham histórias atravessadas pelo trabalho e pela necessidade de sustentar as famílias. Algumas mulheres eram vítimas de violência. Havia também as viúvas, como Dadá. Aquela que, durante minha infância, cuidou de mim e que, muitos anos antes, me ensinou que algumas despedidas permanecem abertas. Ao observar aquelas mulheres, percebi que a feira também era feita de histórias de rupturas, reinvenções e novos caminhos.
Fiz várias visitas ao evento entre 2018 e 2022 e todas elas revelaram o entrelaçamento das histórias. Aos poucos, fui compreendendo aquilo que Michel Maffesoli discute em O tempo das tribos: o indivíduo não existe isoladamente. Essa ligação se constrói com a comunidade por meio da cultura, da comunicação, do lazer e pelo laço de reciprocidade tecido entre os indivíduos. Na Feira das Brecholeiras, percebi que a circulação de mercadorias era apenas uma das dimensões daquele espaço. Havia também conversas, cuidados e trocas cotidianas que fortaleciam a sociabilidade.
As idas a campo foram retomadas em 2026. Circular novamente por entre as araras me mostrou que o viaduto Negrão de Lima nunca foi apenas um lugar de passagem. Ali circulam roupas, memórias, afetos e, principalmente, formas de pertencimento.
Deixa a porteira entreaberta, menina! Ainda há muitas histórias esperando para atravessá-la. E não esqueça: é por ela que o passado sempre encontra o presente.
*Técnica que une retalhos para formar uma nova peça, preservando as características de cada tecido.
Jorgiana Brennand é pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ, sob supervisão da profª Raquel Paiva. Doutora em Comunicação pela Uerj e mestre em Administração pelo Ibmec/RJ. É pesquisadora do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo – Lacon e professora do curso de Publicidade e Propaganda do Ibmec/RJ. Desenvolve pesquisas nas áreas de consumo, moda, brechós, subúrbio, nostalgia, memória e etnografia. E-mail: jorgianabrennand@uol.com.br
