Alessandra de Figueredo PORTO
Resumo
A pujança da vida noturna em Copacabana teve início na década de 1950. Houve uma imensa expansão imobiliária no bairro durante o governo do Presidente Juscelino Kubitschek (1956-1960), que ganhou bares, restaurantes, boates e cinemas, se transformando rapidamente em local preferencial da jovem boemia carioca (O’ DONNELL, 2013). A “Princesinha do Mar”, que se transforma em “Cinderela Permissiva” quando a noite chega (PORTO, 2021), prossegue com ampla oferta de lazer para diversas tribos (MAFFESOLI, 1998) no século XXI. Ou seja, a noite do bairro é efervescência, é “fervo”, descortinando a Copacabana que, ao ser pensada sob o pensamento dos regimes diurno e noturno (DURAND, 1997), se transmuta totalmente – e se deixa levar pelos mistérios e prazeres ligados ao universo noturno. E, dentre a alteridade que pulsa na noite do bairro, o público LGBTQIAPN+ se faz presente nos equipamentos de lazer da “Cinderela Permissiva”. Não se pretende aqui ignorar que Copacabana (juntamente com os bairros da Taquara, do Leblon e o centro da cidade) aparece como um dos principais locais quando se trata da violência contra a população LGBTIQIAPN+ no município do Rio de Janeiro (Sganzerla et al., 2021); contudo, o presente trabalho busca compreender que, por se apresentar como uma síntese de múltiplas interações, Copacabana demonstra o paroxismo dos mecanismos universais de diferenciação observado na pós-modernidade, e avança potente pelo século XXI com suas distintas e plurais redes de socialidades – inclusive no que tange à comunidade LGBTQIAPN+ e o lazer noturno. E, quando se trata do icônico bairro, cabe registrar a “interação intensa e permanente entre atores variados, circulando entre mundos e domínios” (VELHO, 1995, p. 229), onde obviamente coabitam as “noturnidades gays”. Nesse contexto, serão analisadas a boate Le Boy (fechada no ano de 2016), onde atualmente funciona a Pink Flamingo; e a La Cueva (inaugurada em 6 de janeiro de 1964). Cabe salientar que, quando se trata de lazer noturno LGBTQIAPN+, existe uma marcação identitária a priori, já que as pessoas procuram as boates e festas em busca dos seus, demonstrando assim que “se categorias como ‘padrão’ ou ‘viadão’ enunciam uma fragmentação identitária que vai transformar cada termo em uma tribo de fronteiras definidas, talvez isso não seja nenhuma novidade” (LONGO, 2018, p. 18). Inaugurada no ano de 1992 pelo francês Gilles Lascar, a boate Le Boy ficava localizada na Rua Raul Pompeia no102, e era destinada à comunidade LGBTQIAPN+. Em matéria publicada pelo portal de notícias Terra, o empresário declarou: “Minha casa é 100% gay e nenhum desses lugares fez a revolução que a Le Boy fez no mundo gay”3. Em setembro de 2024, a Pink Flamingo se mudou para o endereço onde funcionava a Le Boy, como declarou Thiago Araújo (dono da boate), voltada para um público cronologicamente mais jovem: Estamos trazendo o legado do Pink Flamingo para um lugar que já carrega
muita história e simbolismo para a nossa comunidade. Queremos que o
público se sinta em casa, mas com um toque renovado, proporcionando uma
experiência ainda mais inclusiva para todos, todas e todes4.
Referências
DURAND, G. Estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
LONGO, F. Entre padrões e viadões. Novos debates – Fórum de Debates em Antropologia, v. 4, p. 14-19, 2018. Disponível <https://novosdebates.abant.org.br/revista/index.php/novosdebates/article/view/114/182>. Acesso em: 5 out. 2025.
MAFFESOLI, M. O Tempo das Tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1998.
O’ DONNELL, J. A invenção de Copacabana: culturas urbanas e estilos de vida no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
PORTO, A. F. “Princesinha do Mar”: múltiplos imaginários juvenis de Copacabana. 2021. 257 f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Programa de Pós-graduação em Comunicação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Rio de Janeiro, 2021. Disponível em: <http://www.bdtd.uerj.br/handle/1/18828>. Acesso em: 6 out. 2025.
SGANZERLA, R. B. et al. Dossiê da violência em razão da Identidade de gênero e orientação sexual no estado do Rio Janeiro: Relatório final e pesquisa do Projeto Painel da Violência contra a População LGBTI+. Rio de Janeiro: Aliança Nacional LGBTI+ & Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBT, 2021. Disponível em: <https://aliancalgbti.org.br/wp-content/uploads/2021/06/Dossie-da
Violencia-LGBTI-COR.pdf>. Acesso em: 5 out. 2025.
VELHO, G. Estilo de vida urbano e modernidade. Revista Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 16, p. 227-234, 1995. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/viewArticle/2006>. Acesso em: 5 out. 2025.
7 Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/09/boate-gay-em-copacabana-resiste-ha-61- anos-com-foco-no-publico-maduro.shtml>. Acesso em: 6 out. 2025.