Julia Barroso da Silveira
Resumo
Dirigido por Ryan Coogler e lançado em 2025, Sinners (Pecadores, na tradução) centraliza sua narrativa em Samuel (interpretado por Miles Caton), um jovem negro do Delta do Mississippi, sul dos Estados Unidos. A narrativa é situada em 1932, período em que as leis Jim Crow e a Ku Klux Klan (KKK) presentificavam o período de escravidão, abolida no país 67 anos antes, funcionando como ferramentas de opressão que contribuíam para a colonialidade, ou seja, garantiam a permanência de construtos coloniais. É nesse contexto que Samuel sonha em ser um músico e é convidado a se apresentar na inauguração da juke joint3 de seus primos. Em sua apresentação, a música de Samuel atravessa o espaço-tempo e evoca a ancestralidade (Martins, 2021) por meio do blues e da força da coletividade ali reunida. A inauguração atrai três vampiros – o irlandês Remmick (interpretado por Jack O’Connell) e um casal de moradores locais recém-transformados e membros da KKK – que desejam, então, transformar todas as pessoas na festa, inclusive Samuel, a fim de capturar a habilidade dele de conexão ancestral. Remmick tenta convencer o grupo que resiste ao ataque dentro da juke joint de que a transformação vampírica é uma alternativa de sobrevivência diante das constantes violências sofridas naquele cenário de separatismo, e explica que há um plano dos supremacistas brancos da região para atacar o local na manhã seguinte, já que um espaço construído por e para pessoas negras não seria autorizado a prosperar. Diante deste cenário, o trabalho pretende evidenciar como a assimilação oferecida por Remmick se aproxima da construção do mito da democracia racial no Brasil (Gonzalez, 2020) ao estabelecer a produção de corpos que, apesar de matáveis, estariam engolfados (Silva, 2022) no horizonte simbólico daquele que os transformou. Ao mesmo tempo, ainda que a aniquilação e o apagamento sejam ameaças mais explícitas nos discursos dos supremacistas, propõe-se que essa assimilação também esteja inserida na lógica da obliteração (Silva, 2022).
Referências

BELO, Pollyane. As várias dimensões de implicabilidade: Entrevista com Denise Ferreira da Silva. Revista Eco-Pós, [S. l.], v. 27, n. 3, p. 381–402, 2024. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/28422. Acesso em: 9 jul. 2025. 

BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. 

GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020. 

MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021. 

SILVA, Denise Ferreira da. Homo modernus: Para uma ideia global de raça. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022. 

A diferenciação de uso de “negridade” e “negritude” foi explicitada por Denise Ferreira da Silva em entrevista a Pollyane Belo (2024, p. 391-392): enquanto “negritude” diz respeito a um movimento estético, político, cultural e a uma filosofia, negridade é lida “como uma categoria do pensamento científico, social, moderno”. 

SPILLERS, Hortense J. Notes on an Alternative Model – Neither/Nor. In: ______. Black, White, and in Color: essays on American literature and culture. Chicago: The University of Chicago Press, 2003. p. 301-318. 

Corpos Matáveis, Corpos Transformáveis: Dinâmicas de Colonização e Racismo em Sinners
Como citar:

SILVEIRA, Julia Barroso da. Corpos Matáveis, Corpos Transformáveis: Dinâmicas de Colonização e Racismo em Sinners. Lacon - Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo | UERJ, ano 2025. Disponível em: link. Acesso em: 12 de junho de 2026.

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