Vol. 7, N. 28 BERRO! – Carnaval LGBTQIAPN+

BERRO! #28
#28 I Fevereiro de 2024

BERRANDO PELO RIO

(imagem: Resistência Arco Íris)

Carnaval LGBTQIAPN+

O carnaval carioca de 2024 foi gigante! A cidade do Rio de Janeiro recebeu 8 milhões de pessoas nas ruas, o que gerou a movimentação financeira de R$ 5 bilhões durante a folia. Os blocos para a comunidade LGBTQIAPN+ contribuíram bastante para uma das festas mais populares do país. Quando pensamos no acesso à cidade, a atuação dos blocos LGBTQIAPN+ atuam pela democratização do Carnaval, para além da proteção a esses corpos que ficam expostos à violência em ambientes preconceituosos sob a lógica da heteronormatividade masculina. É fundamental lembrar e atuar por um Carnaval inclusivo e de todos. Alguns dos blocos queer que tivemos neste carnaval foram:
Divina Tretas – Público estimado: 500 pessoas
TriboQ – Público estimado: 10000 pessoas
Carnatrans– Público estimado: 500 pessoas
Sereias da Guanabara– Público estimado: 700 pessoas
Em seu ano de estreia, o “Maior Bloco Lésbicas já Visto” fez sucesso! Para proporcionar um carnaval inclusivo para todas, as produtoras da Femme Club, que se autointitula “o rolê mais sapatônico do RJ”, e as sócias de Garotas ao Mar, o “festival para mulheres que amam mulheres”, se uniram para muita folia para o público lésbico.

ACONTECIMENTO

(imagem: Jornal A Verdade)

Brasil tem pelo menos 77 leis antitrans em vigor em 18 estados
 
No Brasil, existem pelo menos 77 leis que limitam direitos de pessoas transexuais, de acordo com levantamento do jornal Folha de S.Paulo. Em suma, cria-se política pública preconceituosa contra o direito de existir das pessoas trans maquiada  na falsa premissa de “proteger mulheres e crianças e resguardar a liberdade religiosa”, introduzindo um pânico moral na população. Essas leis antitrans persistem e avançam no país, mas parlamentares negam as acusações de discriminação.
Algumas das normas em questão são restrições do uso de linguagem neutra; compartilhamento de banheiro; participação de atletas trans; atividades educacionais relacionadas a gênero; acesso de menores de idade a serviços como bloqueadores de hormônios; idas de menores de idade a eventos LGBTQIAPN+ e publicidades que  fazem alusão a questões de gênero e sexualidade. Não existe uma discussão profunda junto à sociedade civil para um melhor entendimento do tema, propondo política pública para além do preconceito, em sua maioria, com viés religioso. Não há um chamamento de entidades públicas, organizações sociais, entidades LGBTQIAPN+. Há apenas a promoção do pânico moral para restringir o direito de existir dos corpos trans. As leis anti-trans surgiram em 2015 e, desde então, não pararam de ganhar palco e espaço nos parlamentos pelo Brasil. Em 2021, houve um crescimento considerável e, em 2023, o Brasil teve em média uma nova lei antitrans criada a cada duas semanas ao longo do ano. Esse avanço é preocupante e medidas devem ser tomadas para que pare de se promover a institucionalização da transfobia.

BERRO INDICA


(Imagem:O MAPA DA REPRESENTATIVIDADE NA PUBLICIDADE BRASILEIRA)
 

Pesquisa Todxs/10 – O mapa da representatividade na publicidade brasileira
 
Em 2015, a ONU Mulheres e a Heads Propaganda desenvolveram a pesquisa TODXS, com o objetivo de mapear como gênero e raça são representados pela publicidade no Brasil, através de análise de comerciais de TV e posts nas mídias sociais. Ao longo dos últimos anos, o estudo ganhou novos recortes e nesta 10ª onda, amplia a análise trazendo dados de representatividade do público LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, público maduro, publicidade para audiência infantil, além de capítulo sobre masculinidades e da inclusão de mais duas emissoras da TV aberta.
É alarmante o percentual de 0% de peças publicitárias com participação de pessoas LGBTQIAP+ no ano de 2021. Essa foi a primeira vez que isso aconteceu em 6 anos de estudo, é possivel perceber o grave retrocesso que aconteceu em relação ao mesmo estudo, publicado no ano anterior, que era de 1,3% de publicidades. O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo, como revela a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), por isso a presença dessa comunidade na mídia é urgente. Essas campanhas contribuem para a visibilidade de diferentes identidades, desafiando estereótipos e preconceitos que até os dias atuais existem na nossa sociedade. Ao retratar a comunidade LGBTQIAPN+ de forma natural e respeitosa, as mídias podem influenciar positivamente a percepção pública, fomentar a aceitação social e apoiar a luta contra a discriminação, além de refletir uma sociedade mais diversa e inclusiva.

LGBTQ ÍCONES

(Imagem: Rolling Stone)
 
Banda Uó

A banda original de Goiânia, que mistura o ritmo sertanejo com o tecnobrega do Pará, marcou os anos 2010 com o sucesso do lançamento da versão da música americana “Whip My Hair”, intitulada “Shake de Amor”. Além da nostalgia que as músicas da banda trazem, a representatividade do grupo também é marcante.
Com a união de gêneros musicais e letras provocativas, Candy Mel, Mateus Carrilho e Davi Sabbag – dois homens gays e uma mulher transexual – valorizam a cultura da comunidade LGBTQIAPN+, em uma época que antecede o que podemos considerar a “febre” de artistas LGBTQIAPN+ na música pop do século XXI, como Pabllo Vittar, Gloria Groove etc.
Em 2018, o grupo se separou para que cada integrante pudesse focar em sua carreira solo, mas em janeiro de 2024, a Banda Uó anunciou sua reunião para uma turnê, com shows já marcados pelo Brasil.

LEITURA DO MÊS

1º dossiê anual do observatório de violências lgbti+ em favelas 

“As dinâmicas pelas quais as abordagens ocorrem ou se desdobram também reatualizam violências contra os corpos LGBTQIAPN+, seja por casos de violência física ou psicológica, ou por abuso de autoridade e extorsão, 24,28% das pessoas LGBTQIAPN+ já se sentiram ameaçadas em uma abordagem policial por sua identidade de gênero e/ou orientação sexual. Se direcionarmos para os dados um olhar que considere a identidade racial, houve ameaças ou se sentiram ameaçadas, pelas mesmas motivações anteriores, 37,74% das
pessoas LGBTIQIAPN+ negras respondentes.”. Dados como esse inspiraram a escolha de leitura do mês de fevereiro. Esses números são do 1º Dossiê Anual do Observatório de Violência LGBTI+ em Favelas, realizado pelo Conexão G (grupo LGBTQIAPN+ nas favelas) em parceria com Data Labe e apoio do instituto Race and Equality e da Fundação Heinrich Böll. 

O Observatório de Violências LGBTI+ em Favelas é um projeto de pesquisa e intervenção social no Rio de Janeiro, que surgiu com o propósito de coletar e analisar dados sobre violência e violações de direitos contra a comunidade LGBTQIAPN+ em favelas. Devido à falta de políticas públicas voltadas para essa população, o observatório busca preencher essa lacuna, destacando a ausência do poder público na garantia dos direitos fundamentais dessas pessoas. O projeto busca construir dados, estratégias de resistência e propostas de políticas públicas por meio da interação direta com a população alvo. Para ler o dossiê na íntegra basta clicar no link.

DEPOIMENTO DA EDIÇÃO



Mateus Botelho
 
Olá, sou o Mateus, tenho 26 anos e estou atualmente cursando Administração na UERJ desde 2021.2. Para mim, ingressar na UERJ representou uma conquista significativa tanto em minha vida pessoal quanto profissional. Após concluir o ensino médio em 2014, busquei diversas vezes o Enem, até que, em 2016-2017, conheci o vestibular da UERJ. Inicialmente, tinha interesse em Direito, porém, ao longo do tempo, percebi que minha verdadeira vocação era a Administração. Felizmente, fui aprovado na minha primeira tentativa para esse curso. Mesmo trabalhando em período integral, dedicava pelo menos uma hora por dia aos estudos para a prova.
A experiência na UERJ tem ampliado minha visão sobre a diversidade presente em nossa cidade, algo que não tinha sido tão evidente durante o ensino médio. Embora meu curso não aborde diretamente temas como diversidade, sexualidade e cultura, sempre encontrei respeito em relação a minha identidade como membro da comunidade LGBTQIAPN+. Nunca precisei esconder quem sou.
Descobri minha orientação sexual na adolescência, o que foi um desafio considerando minha origem em uma família evangélica. Lutei internamente para me aceitar e entender o impacto que isso poderia ter em minha família. A jornada de aceitação foi gradual e incluiu conversas sinceras com minha mãe, que me apoiou incondicionalmente. Aceitar a mim mesmo foi a parte mais difícil, pois confrontei muitas crenças e expectativas que possuía como cristão e que também eram compartilhadas por minha família. Mas, no fim das contas, não precisei falar abertamente sobre isso com ninguém próximo a mim, as coisas foram fluindo da forma que deveria ser. Hoje estou feliz comigo mesmo. Tenho um esposo que sempre quis ter, e dois pets, nosso espaço, nossas famílias juntas para compartilhar nossas conquistas e ainda vamos construir muitas coisas e viajar juntos por todo o mundo.
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