|
Rio de Janeiro, Fevereiro, Março…
|
|
|
O Carnaval carioca é conhecido mundialmente por todas suas cores, celebrações e alegria. Todo ano o Rio recebe milhares de pessoas de todo o mundo para participarem dessa festa cultural, seja nas ruas ou assistindo aos desfiles na famosa Avenida Marquês de Sapucaí. A cidade se torna um palco para o samba e alegria dos foliões. As origens do Carnaval do Rio voltam às tradições africanas, indígenas e europeias, que se fundiram ao longo dos séculos para criar uma festa única e cheia de significado cultural.
Os desfiles das escolas de samba apresentam enredos que contam histórias, homenageiam suas raízes e protestam contra o preconceito, como o enredo “Xingu”, o clamor que vem da floresta, de 2017 da Imperatriz Leopoldinense, que criticava o agronegócio e protestava pelos direitos dos povos indígenas brasileiros. E os blocos de rua reúnem multidões de pessoas de todas as classes, etnias e sexualidades, prontas para dançar, cantar e se divertir. É a celebração da arte popular e cultural do país – não é à toa que o samba é considerado Patrimônio Cultural do Brasil desde 2007.
O centro da cidade concentra o maior número de blocos carnavalescos, com diferentes públicos e ritmos, como funk e sertanejo, além do samba, claro, a exemplo do tradicional Cordão da Bola Preta. O carioca espera o ano todo pela maior festa popular da cidade, com duração de cinco dias e muita alegria. Se você quiser saber mais sobre cada bloco para decidir onde vai celebrar a folia este ano, dá uma olhada nesta lista aqui.
|
|
|
“Carnaval é alegria, e alegria é com Quinho do Salgueiro” – essa frase resume a essência de um artista que não apenas cantou sambas, mas viveu intensamente o espírito do carnaval. Nesta edição especial sobre o Carnaval, celebramos a trajetória de um ícone do carnaval brasileiro: Quinho do Salgueiro. Conhecido por sua voz marcante e presença carismática, Quinho esteve afastado do carnaval desde 2022, lutando bravamente contra um câncer de próstata. Mesmo distante dos desfiles, seu espírito permaneceu vivo, especialmente no último carnaval, quando o carro de som do Salgueiro prestou uma homenagem emocionante: foi batizado em sua honra.
Quinho começou como ritmista no antigo bloco Boi da Freguesia, hoje conhecido como Boi da Ilha. Nascido e criado numa família de sambistas, seu caminho até chegar às agremiações começou pelo seu tio, que era mestre de bateria da União da Ilha do Governador. Chamado para compor o carro de som de Aroldo Melodia, um de seus grandes ídolos, na União da Ilha do Governador, ele se destacou imediatamente. Suas atuações na União da Ilha, principalmente nas aberturas dos desfiles, são lembradas até hoje.
Entre 1988 e 1990, Quinho brilhou na União da Ilha, onde, em 1989, interpretou o inesquecível samba-enredo “Festa Profana”. Em 1990, a convite do então presidente da agremiação, Miro Garcia, Quinho se juntou ao Salgueiro, onde deixou um legado eterno. Com os versos “Eu vou tomar um porre de felicidade / Vou sacudir, eu vou zoar toda cidade”, ele levou a União da Ilha ao terceiro lugar, um feito memorável que capturou a atenção do Salgueiro.
Sua estreia no Salgueiro foi em 1991 e, já em 1993, Quinho se destacou com “Peguei um ita no Norte”. Após um breve retorno à União da Ilha em 1994, ele continuou a encantar o público em diversas escolas do Rio de Janeiro, como São Clemente, Acadêmicos do Grande Rio, Império da Tijuca, Acadêmicos de Santa Cruz e, também, em São Paulo, na Rosas de Ouro, e em Porto Alegre, na Vila do IAPI.
No entanto, foi no Salgueiro que Quinho encontrou sua verdadeira casa. Sua ligação com a escola foi fortalecida ao longo dos anos, culminando em 2009 com a interpretação de “Tambor”, que levou o Salgueiro ao seu nono e último título. Quem convivia com ele nas quadras da escola, dizia que ele cantava muito um trecho do Samba-Exaltação, de Torrão Amado: “Quando eu morrer, levarei comigo dentro do meu coração Salgueiro querido, eu não vou morrer”.
|
|
|
40 anos do Sambódromo
(foto: O Globo/ Guito Moreto)
Neste mês, o Rio entre Esquinas não poderia ser sobre outro tema! Vamos falar sobre o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, originalmente denominado Passarela Darcy Ribeiro. Planejado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1984, a passarela do samba, de 700 metros de extensão e que pode receber mais de 70 mil pessoas, completa 40 anos este ano. Em 2021, o local foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como parte dos bens representativos da obra de Niemeyer no estado.
Em 2022, a passarela do samba carioca é eleita “Patrimônio Material e Cultural” do estado do Rio de Janeiro, com o intuito de preservar a cultura do espaço, além da história do samba e do carnaval em si, e promover o espaço como destino de visitação turística. A avenida é conhecida como um lugar de samba, festa, alegria e resistência. Foi e é palco de grandiosos desfiles que ficam marcados na história da cidade.
Este ano, por exemplo, os sambas “Hutukara”, do Salgueiro, que faz uma defesa ao povo Yanomani; “Um defeito de cor”, da Portela, sobre a história da mãe preta do romance da escritora Ana Maria Gonçalves; e “A negra voz do amanhã”, da Mangueira, que homenageia a cantora Alcione, têm a expectativa de sacudir o público da Sapucaí.
|
|
|
Laura Machado e Giovanna Garcia
Este mês, nossas entrevistadas são Giovanna Garcia e Laura Machado, estudantes de Jornalismo da Uerj, que desfilam em escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro, a Viradouro e Paraíso do Tuiuti, respectivamente. Elas compartilharam um pouco sobre a relação delas com o carnaval.
ImaginaRio: Como começou sua relação com o Carnaval? Como vocês viraram tanto passista quanto porta- bandeira?
Laura: Eu sempre fui uma criança que acompanhei desfiles pela televisão. Minha mãe sempre me levou para bloquinhos tipo de shopping, então isso sempre foi uma vontade minha. Em 2018, quando morava em Nilópolis, eu acompanhei a Beija-Flor mais de perto. Mas, em 2022, quando a Mayara Lima teve aquele boom lá na Tuiuti, eu conheci meu professor do Projeto Samba do Pé, o Alex Coutinho. E, este ano, como estou morando próximo ao Tuiuti, eu passei a frequentar as aulas dele. Eu ainda não sou passista, eu desfilo num projeto social dele, “Aos Passos do Paraíso”, um projeto social que a gente paga só a taxa de inscrição e tem aula toda quarta-feira à noite. Durante as aulas, ele faz uma seleção para as aulas de passista. Estou apenas participando desse projeto e dessa ala, mas eu sinto que o Tuiuti me escolheu, sabe? Eu acredito muito nisso. É uma comunidade muito acolhedora, muito família, que me fez sentir muito acolhida, fiz muitas amizades, consegui me livrar de algumas inseguranças. Foi importante pra mim até para a comunicação – perder a vergonha de postar e transmitir nas redes a magia, a grandiosidade que é essa festa (o carnaval).
Giovanna: Meus pais já desfilavam e, quando eu tinha mais ou menos uns 13, 14 anos, eu e minha irmã começamos a desfilar com eles em escolas no Rio. A gente não tinha uma escola só, a gente só desfilava pra se divertir. Eles sempre gostaram de carnaval, sempre foram muito para bloco e tal e incentivaram muito essa parte. A gente ficava assistindo eles e depois começamos a desfilar. Em 2019 foi o primeiro ano que desfilei na Viradouro. Eu moro em Niterói, mas, antes, eu desfilava em escolas do Rio e, quando eu comecei a desfilar em Niterói, eu comecei a frequentar a quadra, frequentar a escola mesmo e desfilava na ala dos adolescentes. Cada um foi pra uma ala, meu pai foi pra uma, minha mãe foi para o carro, minha irmã foi para as bailarinas, enfim, cada um foi pra um canto. E, dentro da Viradouro, eu fui ensaiar. Minha ala tinha coreografia e eu comecei a ver o pessoal dançando e, na época, eu não sabia o que era, eles giravam e dançavam em casal e eu achei bonito e fui descobrir o que era. Coincidentemente neste ano, a minha ala vinha atrás da do “Projeto Viradouro”, que é a parte dos projetos de casais mestre-sala e porta-bandeira, e eu comecei a gostar e descobri que tinha aula na Viradouro. Então, desde junho de 2019, faço parte desse projeto da Viradouro. É um projeto gratuito para a comunidade. Quando eu comecei, era aberto para todas as idades, mas, hoje em dia, se tornou um projeto da escola mirim (até 21 anos). Eles estavam há uns 5 anos sem projetos para a escola mirim, mas retornou este ano. Vamos desfilar na terça-feira de carnaval na Sapucaí.
ImaginaRio: Quais suas expectativas para seu primeiro desfile?
Laura: O projeto se chama “Aos Passos do Paraíso”. O Alex Coutinho, diretor de passistas da Tuiuti, faz esse projeto lá ao longo do ano. Durante o ano, lá na escola, enquanto tem as apresentações dos segmentos, ele colocava algumas meninas do projeto pra se apresentarem. Ele sempre inclui as meninas dos projetos nas apresentações da escola, e rolam audições para passistas. Eu fiz um teste mês passado. Então, ainda estou esperando para saber o resultado e descobrir em qual ala vou desfilar. Nos ensaios de rua, ele bota a gente em alas comuns da comunidade para ganharmos resistência e já ficar mais próximo do dia oficial, mas é muito tranquilo e não tem muita cobrança.
ImaginaRio: Qual o maior desafio de ser porta-bandeira da escola vice-campeã em 2023?
Giovanna: Eu não desfilo como porta-bandeira da Viradouro, mas na ala de casais do projeto mestre-sala e porta-bandeira como um dos seis casais da ala. E é um prazer, sou Viradouro de coração. De certa forma, não foi um grande desafio, porque eu não defendo nota e ainda sou parte do projeto e estou aprendendo. Mas acredito que é um desafio para uma escola que subiu para o grupo especial e está no pódio desde que subiu, é um desafio para a comunidade e para a escola como um todo. Ano passado, a escola tinha planejado que o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira (Rute e Julinho) iriam abrir o desfile e depois sair, pegar uma moto e voltar para subir no último carro, abrindo e fechando o desfile. Ia ser uma homenagem. O último carro era a santa do enredo, a Rosa Maria Egipcíaca, mas, por conta de problemas no desfile, por questão de horário etc, eles não conseguiram chegar a tempo. Então, eles botaram um casal do projeto, e esse casal fui eu e meu mestre-sala. Ano passado, eu saí no carro lá em cima, era um carro enorme e muito alto e nós saímos, porque, infelizmente, não deu tempo deles chegarem. Mas posso dizer que esse foi um dos meus maiores desafios na Viradouro (ter que substituir o Julinho, uma lenda do carnaval), mas foi uma honra. Quando acabou o desfile, eu só chorava de emoção. Nós fomos a última escola, então eu estava lá em cima vendo o amanhecer no último carro no último desfile do carnaval. Foi muito emocionante, uma das melhores experiências do meu carnaval.
|
|
|
|
Samba de Enredo: História e Arte
(foto: reprodução grupo editorial record)
Nesta edição sobre carnaval, uma das grandes referências de conhecimento e literatura de carnaval e cultura popular carioca não poderia ficar de fora. Então, a leitura do mês de fevereiro é: “Samba de Enredo: História e arte”, do mestre Luiz Antônio Simas, em parceria com Alberto Mussa. Os autores exploram o desenvolvimento estético do samba de enredo, destacando-o como um gênero épico intrinsecamente brasileiro que surgiu de maneira espontânea, sem influências externas. Os autores questionam a visão convencional sobre a origem do gênero, sugerindo que o verdadeiro marco seja “61 anos de República” (Império Serrano, 1951).
Simas e Mussa não se limitam às grandes agremiações, incluindo hinos de escolas menos conhecidas, proporcionando uma perspectiva ampla e valiosa como documento histórico. O livro também explora a decadência recente do samba de enredo, apontando razões diversas, como a perda relativa de peso no julgamento, o tecnicismo dos jurados e a rígida padronização estilística. Eles lamentam a falta de permanência na memória popular dos sambas mais recentes, defendendo a redução do andamento em favor da melodia como uma possível solução. E expressam a esperança de que haja um movimento nesse sentido, permitindo que os hinos recuperem sua essência e as agremiações justifiquem novamente seu nome: escola de samba.
|
|
🧑🏿🤝🧑🏻O ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro. Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no ImaginaRIO? Entre em contato com a gente pelas nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail laconuerj@gmail.com
Equipe: Ricardo Freitas (coordenador), Vania Fortuna (sub-coordenadora), Maria Helena Carmo, Marcelo Resende, Rafael Nacif, Carlos Matos, Carlos Miguel Anjo, Guilherme da Costa, Manuela Howat, Pedro Lucas Rubim.
Apoio:

. . .
📢 Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no imaginaRIO? Envie um e-mail para laconuerj@gmail.com
|
|
|
|
|
|
|
|
|