Vol. 8, N. 31 BERRO! – Ampliação na classificação de gênero

BERRO! #31

BERRO! #31

Berrando pelo Rio

Queerioca

A QueeRiOca é um centro cultural no Rio de Janeiro, dedicado à produção artística da comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil. Criado durante a pandemia por Cristina Flores e Laura Castro, começou como uma residência artística virtual para permitir a colaboração segura entre artistas. Com o fim da pandemia, o Projeto Reviver Cultural Centro da prefeitura integrou a QueeRiOca a um espaço público no centro do Rio de Janeiro. O centro promove a criatividade e apoia artistas LGBTQIAPN+, celebrando a diversidade e a inclusão através da arte como ferramenta de transformação social.
Acontecimento
Ampliação na classificação de gênero

O Ministério da Saúde atualizou a classificação de gênero para mais de 200 procedimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), visando ampliar o acesso de pessoas transexuais a tratamentos médicos. Essa mudança permite que homens e mulheres trans realizem procedimentos antes restritos a gêneros específicos, como vasectomia, tratamentos contra câncer de útero, parto, mastectomia, e exames de saúde feminina e masculina. A demanda foi levada ao STF pelo PT em 2021, argumentando que a restrição dificultava o acesso de pessoas trans a cuidados de saúde essenciais.

Berro Indica
Potyguara Bardo

Potyguara Bardo é a personagem performática criada por José Aquilino, um multiartista que canta, atua, dubla e compõe. Nascida no Rio Grande do Norte, Potyguara encontrou inspiração no programa RuPaul’s Drag Race para expressar sua essência e convicções. O nome Potyguara é derivado da etnia indígena Potiguara, enquanto Bardo faz referência ao livro “A Experiência Psicodélica”, de Timothy Leary, que aborda os estágios da experiência psicodélica. Potyguara Bardo iniciou sua carreira musical em 2018 com o lançamento do álbum “Simulacre”, a cantora potiguar alcançou projeção nacional quando a música “Oásis” se tornou viral nas redes sociais.
LGBTQÍcones
Marsha P. Johnson
 
Marsha P. Johnson foi uma figura central no movimento pelos direitos LGBTQ+ e uma das líderes dos protestos de Stonewall em 1969, que marcaram o início do movimento moderno pelos direitos LGBTQ+. Nascida em 1945, Johnson se mudou para Nova York, onde se tornou uma presença icônica em Greenwich Village. Como mulher trans negra e drag queen, ela enfrentou muita discriminação, mas também dedicou sua vida à defesa da comunidade, co-fundando a organização STAR (Street Transvestite Action Revolutionaries) com Sylvia Rivera para ajudar jovens transgêneros e sem-teto. Johnson também participou da cena artística de Nova York e colaborou com artistas como Andy Warhol. Sua morte em 1992, inicialmente considerada um suicídio, levantou suspeitas de assassinato, e a investigação foi reaberta em 2017. Hoje, Marsha P. Johnson é lembrada como uma pioneira dos direitos LGBTQ+, cujo legado de coragem e ativismo continua a inspirar.
Leitura do Mês

Devassos no Paraíso: A Homossexualidade no Brasil, da Colônia à Atualidade 


“Devassos no Paraíso: A Homossexualidade no Brasil, da Colônia à Atualidade” de João Silvério Trevisan é uma obra fundamental que traça a história da homossexualidade no Brasil desde a era colonial até os dias atuais. O livro analise as mudanças nas percepções e tratamentos da homossexualidade ao longo do tempo, abordando a repressão durante a ditadura militar e o surgimento do movimento LGBTQIAPN+. Utilizando uma abordagem interdisciplinar, Trevisan combina história, sociologia e cultura para oferecer uma visão abrangente e detalhada da luta e resistência da comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil, destacando a importância do reconhecimento e da igualdade.

Depoimento da Edição
Bruno Da Silva

Em 2015, trabalhei em uma loja de departamento, não vou dizer qual. Mas ela é famosa no Natal. Eu tinha vinte e pouquinhos anos e ia para o trabalho usando uma mochila estampada com corujas. Era de tecido marrom e vermelho, com detalhes dourados. Chamava atenção. Não lembro quem me deu essa mochila, mas eu achava linda. No vestiário, um dos meus colegas resolveu fazer chacota da mochila, falou algo tipo “que isso, Bruno, mochila de coruja, coisa de viado”. Eu só ri. E não por desconforto ou para participar da piada, mas porque para mim ELE era a piada. Eu vi um homem adulto que dependia tanto de afirmação e validação, que um objeto era capaz de estremecer a essência dele. Naquela época eu já estava confortável com minha sexualidade. A mesma piada, dois anos antes, teria me deixado com sequelas profundas. Mas naquele momento eu só fiquei extremamente feliz por não ser hétero. Acho que foi a primeira vez que eu vi que ser um completo homossexual me permitiria, se eu quisesse. ser uma pessoa um pouco mais livre que a maioria das pessoas com quem eu convivia, homens e mulheres.

 

Sempre foi da minha natureza ser um pouco “do contra”, talvez eu já me sentisse diferente, talvez fosse o meu ascendente em aquário. Eu gostava mais da Sharpay que da Gabriella. Era o único torcedor do Fluminense em uma casa de Flamenguistas. Virar a casaca causou um rebuliço dentro de casa. Eu amei…Esse momento no vestiário foi muito marcante porque esse lance de ser diferente ou “do contra”, que até então era um pouco solitário, passou a ser uma espécie de super poder. Se o oposto é ter medo de usar uma mochila estampada com coruja, por favor, eu quero ser do contra! Que felicidade entrar no ônibus com um amigo e sentar ao lado dele! (Já repararam que homens héteros não fazem isso?). Existem homens que nem limpam a bunda! Como pode alguém que tem rixa com o papel higiênico querer me dizer o que eu posso vestir?

 

Onde eu estava? Ah, a liberdade. Naquele dia eu decidi que ia aplicar isso em tudo na vida. É gratificante e benéfico demais renunciar às regras criadas para exercer controle sobre a gente. Mesmo que essa renúncia seja pequena para o mundo. Por isso me assombra ver membros da comunidade LGBTQIAP+ sendo preconceituosos. Para que quebrar a corrente? Tão mais gostoso inspirar alguém a se libertar também, sejam quais forem as amarras desse alguém. É uma experiência agridoce, nascer diferente e escolher viver com o corpo inteiro, ou até mesmo um pezinho, fora da norma. Mas é dessa experiência que vem nosso super poder. 

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