Vol. 3, N. 11 BERRO! – Moda agênero: tendência de moda ou liberdade para os corpos?
Escrito por
Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo
BERRO! #11Uma seleção dos melhores conteúdos LGBTQIA+ para você! 🌈
#11 Agosto 2022
🎥 Berro indica
Tangerine
O filme Tangerine (2015) conta a história de Sin-Dee, uma mulher trans que namora o seu cafetão, e que após sair da prisão descobre através de sua amiga Alexandra que ele a estava traindo. A trama se desenvolve com Sin-Dee andando pela cidade em busca dele, em uma tentativa de descobrir a verdade e questionar o porquê da traição.
Embora o foco da narrativa seja essa busca da protagonista, o que mais impressiona é o cotidiano das mulheres trans retratadas. O filme aborda diversos aspectos, como a realidade de algumas mulheres trans na prostituição (e o perigo que passam ao se encontrarem com pessoas desconhecidas), o preconceito que sofrem nas ruas, a insegurança que sentem em relacionamentos amorosos (em geral, elas são amantes, enquanto as esposas são mulheres cis) e a necessidade de uma irmandade forte para conseguirem sobreviver em uma sociedade que as marginaliza.
Apesar de ser uma produção de baixo orçamento – o filme foi gravado com três iPhones 5S – Tangerine ganhou diversos prêmios, como o de Melhor Filme de Ficção no Prêmio Félix (Festival do Rio) e Melhor Filme no Cork International Film Festival. O filme está disponível no Mubi.
💣Notícias
Confira aqui as notícias sobre diversidade LGBTQIAP+ do mês de julho!
Absurdo! Após pressões do governo dos Emirados Árabes, a empresa Amazon restringiu produtos e pesquisas relacionadas à comunidade LGBTQIAP+. De acordo com o jornal New York Times, mais de 150 palavras não apresentam nenhum resultado na pesquisa feita na plataforma, como “LGBT” e “Orgulho”. Após essa decisão, a empresa fez um comunicado enfatizando que preza pela diversidade e manutenção dos direitos da comunidade LGBTQIAP+, mas que existe uma necessidade de agir de acordo com as leis de cada região.
Presos no século passado! Joacine Katar Moreira, autora de um projeto de lei que caracteriza o crime de injúria racial no Código Penal português, relatou em entrevista concedida ao jornal O Globo que o parlamento não chegou, ao menos, a votar o projeto. Segundo a historiadora, essa lacuna na legislação gera consequências negativas para as vítimas de racismo no país, sobretudo se elas tiverem menos poder aquisitivo e forem estrangeiras. Além disso, Joacine comentou o caso de racismo sofrido pelos filhos de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank e citou alguns dos obstáculos que devem ser enfrentados devido a legislação atual de Portugal.
Representatividade nas eleições: Um levantamento feito com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), analisou os anos eleitorais de 2016 e 2020, e concluiu que se o ritmo de eleição de homens e mulheres for mantido, a paridade entre os gêneros poderá demorar até 144 anos. O relatório com o título de “Desigualdade de Gênero e Raça na Política Brasileira” foi feito pelo Instituto Alziras em parceria com a Oxfam Brasil. O cenário preocupa bastante em relação à desigualdade de mulheres negras na política, onde a participação é pouco registrada.
Homenagem de Beyoncé: O álbum RENAISSANCE, lançado no dia 29 de julho, é a sétima produção de estúdio da cantora Beyoncé. Após o vazamento das faixas na internet, antes da data prevista, Beyoncé compartilhou com os fãs o encarte do álbum, com detalhes sobre os bastidores. Nele, a artista agradece ao tio gay, Johnny Knowles, que infelizmente faleceu por complicações do HIV, e o cita como a primeira pessoa que a apresentou às referências e às músicas que serviram de inspiração para o novo lançamento. Além disso, Beyoncé também agradece à comunidade LGBTQIAP+: “Obrigada a todos os pioneiros que deram origem à cultura e a todos os anjos caídos cujas contribuições não foram reconhecidas por tanto tempo. Esta é uma celebração para vocês”.
Dados da violência contra LGBTQIAP+: A cantora Daniela Mercury, que faz parte do Observatório de Direitos Humanos do Poder Judiciário, levou duas propostas para a coleta de dados sobre a violência às pessoas LGBTQIAP+ ao Conselho de Justiça Nacional (CNJ). “Só teremos uma democracia plena quando todos estiverem protegidos e amparados pela lei”, disse a artista e militante de causa aos direitos LGBTQIAP+.
“Shantay, you stay!” Finalmente, o programa Ru Paul’s Drag Race ganhará uma versão brasileira para chamar de sua, com estreia prevista para o primeiro trimestre do ano que vem. As inscrições para participar da competição drag ocorrerão até 26 de agosto. Para participar, é preciso responder a um questionário com cerca de 50 questões sobre músicas favoritas para dublagem e até mesmo se a pessoa já foi detida por conta de algum crime, além de anexar três fotos em drag e uma foto descaracterizada.
Moda agênero: tendência de moda ou liberdade para os corpos?
No mês de julho, o podcast do Lacon teve a participação das convidadas Bianca Rati (UFP) e Manita Menezes (Universidade Positivo), debatendo o tema da moda gênero neutro ou moda agênero. Bianca e Manita abordaram a diferenciação entre o que é neutro e o que é unissex, se a moda abraça todos os corpos, e também se atende à terceira idade. Se interessou em saber mais sobre o assunto? Escute o episódio completo no Spotify! 🤩
💡 Pesquisa acadêmica
Turismo, Movimento LGBTQIA+ e Hospitalidade Urbana
O artigo “Turismo, Movimento LGBTQIA+ e Hospitalidade Urbana: um olhar crítico acerca dos espaços gay-friendly”, escrito por Bernardo Jose Costa Silva e Karoliny Diniz Carvalho, debate a segmentação do mercado turístico voltada para o público LGBTQIA+ e a necessidade de mais espaços gay-friendly, direcionados ao acolhimento da comunidade. Essa demanda deve ser assegurada pelo Ministério do Turismo (MTur) e aplicada pelos governos estaduais e municipais. A partir da análise dos materiais de Camargo (2003), Beni (2006), Grinover (2007) e Trigo (2009), os autores ressaltam também a importância do olhar crítico sobre os espaços que se dizem gay-friendly e, na realidade, não contribuem com a melhoria na experiência do público LGBTQIA+, que ainda sofre com o preconceito.
🎭 Artista da edição
Rogéria
Rogéria, a “travesti da família brasileira”, foi um ícone do movimento LGBTQIAP+. Na década de 1960, a artista iniciou a sua carreira como maquiadora da extinta TV Rio, sendo a responsável pelo visagismo de atrizes como Fernanda Montenegro e Bibi Ferreira, que a incentivaram a se dedicar também à interpretação.
Na TV Rio, foi rebatizada por Zélia Hoffman e passou a ser conhecida como “Rogério”. Em 1964 – durante um tradicional concurso de fantasia do Carnaval carioca – o público novamente a rebatizou, quando começou a gritar “Rogéria! Rogéria!”. A partir daquele momento, a sua vida foi dedicada ao palco, ganhando, em 1979, o Troféu Mambembe, como atriz revelação, pela peça O Desembestado.
Em 2016, foi uma das homenageadas pelo filme “Divinas Divas”, dirigido por Leandra Leal. O documentário comemorou os seus 50 anos de carreira, ao lado de outras travestis pioneiras. No ano seguinte, 2017, foi publicada a sua biografia: “Rogéria – Uma mulher e mais um pouco”, mesmo ano em que, infelizmente, a artista nos deixou devido a uma infecção unitária.
Rogéria é uma referência fundamental na popularização do debate da pluralidade de gênero no Brasil.
A ONG Mães pela Diversidade reúne mães, pais e responsáveis de crianças, adolescentes e adultos LGBTQIAP+ com o objetivo de compartilhar vivências e proteger a comunidade. O coletivo, que acumula mais de 103 mil seguidores no Instagram, surgiu em 2005, na cidade de São Paulo, e se expandiu por todo o país, promovendo debates sobre o movimento LGBTQIAP+ e a importância do apoio familiar.
💻 Produtores de conteúdo
Blogueirinha
A personagem sarcástica criada pelo youtuber carioca Bruno Matos humoriza as situações caóticas do mundo das blogueiras. Os bordões engraçados são as suas marcas registradas. Quem não conhece o “tutupom“? Bruno, que dá vida à personagem, é gay e teve seu início de carreira como ator bem pouco reconhecido, devido a sua orientação sexual.
Glória Groove
A drag queen vivenciada por Daniel Garcia, um homem gay da periferia paulistana, vem sendo reconhecida nacionalmente por sua extensão vocal incrível, sua presença de palco e simpatia. A ‘Lady Leste’ tem conquistado o público e as pistas de dança com vários sucessos, como “Bonekinha” e “Leilão“.
😍Depoimento
Milena Xavier
Oi, me chamo Milena Xavier, tenho 20 anos, sou técnica em alimentos (formada pelo IFRJ) e, atualmente, faço faculdade de Filosofia na UFRJ. Sou lésbica, desfeminilizada e apaixonada pelo Botafogo! 🤩
Eu descobri que gostava de meninas aos 13 anos, mas o processo de me reconhecer e me aceitar como lésbica foi longo e extremamente doloroso. Nasci em berço cristão e tive toda a base da minha vida formada por princípios religiosos e verdades absolutas, desde cedo sempre ouvi sobre como a homossexualidade era errada e sobre como Deus pode “curar” e “salvar” aqueles que encontram-se nessa condição. Dos 13 aos 18, minha vida se resumiu em negar minha própria sexualidade e, ao mesmo tempo, em tentar, através da religião, me curar dela. A partir dos 18, comecei a me desvencilhar da religião e entrei num outro processo muito doloroso, porém bonito, de auto aceitação. Comecei a ter a Filosofia como minha libertação. Os questionamentos começaram a surgir e, num certo momento, eu percebi que estava presa a doutrinas humanas e a construções sociais criadas para distorcer minha visão sobre mim mesma, para dificultar o meu próprio reconhecimento enquanto mulher LÉSBICA.
A partir disso, meus pais tiveram um papel fundamental na minha vida. Eles, que antes não me aceitavam e preferiam se manter distantes de tudo que envolvia minha sexualidade, começaram a buscar entender minha comunidade, começaram a me acolher, me defender e lutar por mim em todos os ambientes. Eles também entraram num processo de expandir a mente e se desconectar de uma religião que quase me matou. Hoje, às vésperas dos meus 21 anos, posso dizer que me reconheço e me orgulho de ser uma mulher lésbica, me orgulho do meu processo, me orgulho da minha luta pela minha liberdade e me orgulho muito dos meus pais, que decidiram me acolher e abrir mão de suas próprias verdades por mim.
Sei que a comunidade LGBTQIA+ tem conquistado seu espaço e seus direitos, porém, acredito que essa luta transcende isso. Temos que buscar atingir a origem do problema. É preciso seguir, com respeito e muito diálogo, na busca pela mudança na mente de cada indivíduo e na busca pelo nosso lugar na formação das nossas crianças. A homofobia é estrutural e precisa ser desconstruída nos lares, escolas e principalmente dentro das Igrejas.
🛍️ Marca
Eneágono
A loja de acessórios inspirados pela cultura afro-brasileira é a marca do Berro! deste mês! A dona da loja, a mestranda em Ciências Sociais pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP) da UERJ, Iná Cholodoski, é uma mulher trans que, por meio das criações de acessórios, dá voz e transmite força para todo o tipo de diversidade. As peças podem ser encontradas através do Instagram @lojaeneagono e são entregues para todo o Brasil. Vale a pena conferir e conhecer mais sobre o belo trabalho dessa artista.
📃 Glossário
Queer: É uma corrente política e ideológica que tem como objetivo quebrar as normatividades de gênero e sexualidade, por meio de um pensamento crítico da ordem social.
Andrógine: É um gênero não-binário caracterizado pela ambiguidade dos gêneros binários. Basicamente, é um intergênero onde a pessoa andrógina costuma ser considerada um bigênero.
Ginerromântica: É uma pessoa que sente atração romântica pelo gênero ou expressões de gênero femininas.
Skoliorromântica: É uma pessoa que sente atração romântica por apenas gêneros não-binários ou genderqueer.
Aplatônica: É a pessoa que não sente atração sexual ou romântica por ninguém. É considerado presente na área cinza.
📆 Calendário LGBTQIAP+
29 de agosto – Dia Internacional da Visibilidade Lésbica
O boletim Berro! Comunicação para a Diversidade tem a proposta de reunir notícias, artigos, dados representativos, ações, produtores e conteúdos com o foco LGBTQIAP+. Este boletim é uma realização doLaboratório de Comunicação Cidade e Consumo (Lacon/Uerj).
Gostaria de divulgar sua pesquisa acadêmica, produção artística ou audiovisual, evento ou outro conteúdo relacionado a temáticas LGBTQIA+?
Entre em contato com a gente através das nossas redes sociais (@laconuerj) ou do e-mail berrouerj@gmail.com😉✌️