Entre um churrasco e outro, uma ida à praia ou uma playlist tocando no celular, o samba dita o ritmo do Rio. Mais do que um gênero musical, ele é parte viva e constante da identidade carioca.
Rio entre esquinas
O Berço do Samba e as Tias Baianas
A origem do samba carioca está diretamente ligada à população negra e a elementos identitários da cultura, um resultado da miscigenação das várias etnias africanas. Após a abolição da escravidão (1888) e o fim da Guerra de Canudos (1897), muitos ex-escravizados e soldados baianos migraram para o Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil na época. Eles se instalaram na região portuária e no centro da cidade, nos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Essa área ficou conhecida como Pequena África.
Nos fundos de quintais de casas das “Tias Baianas” que formaram um espaço de resistência e preservação da cultura. Os frequentadores se reuniam para fazer festas, cozinhar, praticar religiões de matriz africana e, claro, fazer música.

Tia Ciata | Imagem: Reprodução
Foi em especial na casa da Tia Ciata que grandes músicos da época se encontravam e onde os ritmos do maxixe, lundu e das batidas dos batuques africanos se misturavam dando todo o formato do samba moderno que conhecemos hoje em dia.
O samba tem seus gêneros tradicionais como o partido alto, que traz a característica do improviso. Com um refrão fixo, mas com rimas que são criadas na hora, o ritmo é marcado pela forte presença da palma da mão. O samba de terreiro acontecia em encontros com os sambistas que ali cantavam e dançavam com as marcas da ancestralidade. Cantavam as experiências da vida, o amor, as festas e a exaltação da sua escola de samba. Diferente dos outros sambas, este acontecia nos terreiros, local atual das escolas. Já o samba enredo é o que vemos na TV atualmente, feito para contar uma história durante o desfile na Sapucaí.
O primeiro samba gravado

Partitura de Pelo telephone, samba carnavalesco de grande sucesso. Foto: Biblioteca Nacional/Divulgação/
O primeiro samba gravado e registrado como um disco de sucesso foi “Pelo telefone”, em 1917. Interpretado por Ernesto dos Santos, conhecido como Donga, e Mauro de Almeida. A música teria sido, supostamente, composta no quintal da Tia Ciata.
Ismael Silva
Com a definição do gênero “samba” consolidado em 1920, no bairro do Estácio, um grupo de jovens negros talentosos, composto por Ismael Silva, Bide e Nilton Bastos, percebeu que o samba, muito conectado com sua raiz no maxixe, dificultava o canto, a dança e o andar, devido ao seu ritmo.
Para resolver isso, Ismael ajudou a criar uma batida mais agitada, mais rápida e marcante usando o surdo, criação de Bide. Silva, para fazer com que todos entendessem, definiu assim:
“Quando comecei, o samba não dava para os agrupados carnavalescos andarem nas ruas, conforme a gente vê hoje em dia (…) O samba era assim: tan tantan, tan, tantan. Não dava. Como é que um bloco ia andar na rua assim? Aí, a gente começou a fazer um samba assim: bum bum paticumbum prugurundum…”

O sambista Ismael Silva Imagem: Folhapress
Foi com essa batida que, em 12 de agosto de 1928, os músicos fundaram a primeira escola de samba: “Deixa falar”.
As Escolas de Samba
O termo “Escola de Samba”, segundo Ismael Silva, um dos compositores da escola Deixa falar, vem de uma analogia com a Escola Normal existente no Estácio. Ismael ironizava que ali “formavam sambistas” como na instituição vizinha formavam professores. Ainda numa segunda interpretação, o termo ajudava a trazer uma certa respeitabilidade para o grupo, numa época que o samba era marginalizado e frequentemente reprimido pela polícia.
Logo após a criação, os outros morros criaram suas próprias escolas, como o Conjunto Carnavalesco Oswaldo Cruz, futura Portela, em 1923.
Com a entrada de Getúlio Vargas na presidência, houve uma necessidade, criada por ele, de algo que demonstrasse a identidade que unisse o Brasil. Percebendo que o samba era muito popular nas ruas, o presidente resolveu que, ao invés de reprimir, passaria a apoiar e oficializar o samba.
Com a década de 1930 conhecida como a “Era do rádio”, o samba chegava às casas das pessoas, inclusive à elite. Com a sua popularização emergente nessa camada da sociedade, cantores brancos e de classe média começaram a comprar as composições de quem morava nos morros. Sendo assim, o samba perdeu esse tom “marginalizado”.
Personagem da gema
Jorge Aragão

Jorge Aragão | Imagem: Arquivo pessoal da Autora
Esse percurso histórico do samba nos leva aos dias atuais, ao Festival Sesc de Inverno 2026, um festival gratuito, que acontece em mais de 25 localidades, em especial nas regiões Serrana e na dos Lagos. No dia primeiro de agosto, aconteceu o show de Jorge Aragão na Beira-rio em Três Rios.
Conhecido também como o poeta do samba, Jorge Aragão, um dos membros fundadores do Fundo de Quintal, uma banda de samba formada no Rio de Janeiro na década de 1970, que nasceu em blocos do Cacique de Ramos. O grupo ainda existe e toca nos dias atuais, trocando apenas a formação de tempos em tempos.
O público da Beira-Rio, ao ouvir as primeiras notas da música que iniciaria o show da noite, logo se animou. Jorge Aragão, com seu repertório que perpassa o samba romântico, o samba de partido-alto e o pagode tradicional, conduziu a noite cantando grandes clássicos da sua carreira, como Ja é, Eu e você sempre, Identidade e muitas outras. Durante a noite, o público dançou, cantou e se emocionou, ainda pediu para que o show não acabasse cedo. Aragão, com seu puro carisma, cedeu ao público e, como ele mesmo disse, iria fazer uma “saideira” cantando mais três músicas.
ImaginaRio Entrevista

Jadir Leal | Imagem: Arquivo pessoal do entrevistado
Para entender a força dessa tradição que começa com o povo, conversamos com o Jadir Leal, nascido e crescido em Três Rios. Aos 73 anos, ele continua um grande entusiasta do Carnaval e torcedor da Escola de Samba Bom das Bocas. Durante o show de Jorge Aragão, ele manteve a mesma energia contagiante o tempo todo e não pensou duas vezes em responder às nossas perguntas.
Como foi para você a energia durante o show do Jorge Aragão?
O show que ele fez aqui em Três Rios foi muito intenso. A humildade dele em reverenciar seus parceiros foi bacana.
O samba está presente na cultura do Rio de Janeiro. Como morador de Três Rios, como você se sente com um festival trazendo essa representatividade?
Quanto ao samba, Três Rios é referência nos municípios do estado, com um carnaval com escolas de samba desde sempre. Então, toda vez que houver eventos de samba aqui, eles serão acolhidos pela população.
Recomendação do mês

Jorge Aragão | Imagem: Arquivo pessoal da Autora
“Coisa de pele”, de Jorge Aragão
A música “Coisa de pele”, escrita por Jorge Aragão e Acyr Marques, destaca que o samba vem de um lugar de herança enraizada, que passa de forma instintiva. A letra traz o sentimento visceral que o sambista tem com a sua própria cultura: ele mostra que a paixão pela música faz parte da própria essência biológica e espiritual de quem a cria, a partir das vivências. Mostra com orgulho nas letras que o povo negro transformou o sofrimento em arte e celebração. Além de valorizar a cultura popular brasileira, o samba é uma construção coletiva do povo para o povo.

Público do Show | Imagem: Arquivo pessoal da Autora
No show que aconteceu em Três Rios, o público cantou todas as suas músicas, tendo as letras na ponta da língua. Entre uma batida de mão e outra, uma “sambada” na música animada ou um momento de apreciação da letra, é fato que, até hoje a população faz seu próprio samba, em rodas nos finais de semana ou em grandes eventos realizados pelo Sesc e pela Prefeitura. No final, “é o povo que produz o show, assina a direção”, como diz a letra de “Coisa de Pele”.
Referências:
MULTIRIO. O samba carioca. MultiRio, Rio de Janeiro, [s. d.]. Disponível em: https://multi.rio/index.php/historia-do-brasil/rio-de-janeiro/66-o-rio-de-janeiro-como-distrito-federal-vitrine-cartao-postal-e-palco-da-politica-nacional/2923-o-samba-carioca. Acesso em: 07 ago. 2026.
MUSEU DO SAMBA. Documentário Matrizes do Samba no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 17 jul. 2020. 1 vídeo (26 min 19 s). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3U2r4Ds9Y54. Acesso em: 07 ago. 2026.
NETO, Lira. Uma história do samba: as origens. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1995
CÂMARA RIO. A História do Samba – Câmara Rio Reportagem Especial #26 – 23.02.2022. Rio de Janeiro, 23 fev. 2022. 1 vídeo. Disponível em: YouTube (Canal Câmara Rio). Acesso em: 07 ago. 2026.
NOLLA, Lívia. Quem foi Tia Ciata, uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba no Brasil? Novabrasil, São Paulo, 13 jan. 2025. Disponível em: https://novabrasilfm.com.br/musica/quem-foi-tia-ciata-uma-das-figuras-mais-influentes-para-o-surgimento-do-samba-no-brasil. Acesso em: 07 ago. 2026.
KASAHARA, Ivan. A história dos desfiles das escolas de samba. MultiRio, Rio de Janeiro, 3 fev. 2016. Disponível em: https://multi.rio/index.php/noticias/8651-a-historia-dos-desfiles-das-escolas-de-samba. Acesso em: 07 ago. 2026.
RIOTUR. Casa da Tia Ciata. Riotur.Rio, Rio de Janeiro, [s. d.]. Disponível em: https://riotur.rio/que_fazer/casadatiaciata/. Acesso em: 07 ago. 2026.
REVISTA PIAUÍ. O grande Ismael Silva. piauí, São Paulo, 2 nov. 2012. Disponível em: https://piaui.uol.com.br/web/o-grande-ismael-silva/. Acesso em: 07 ago. 2026.
Esta edição foi produzida por Maria Eduarda Cabral e Luiz Fellipe Brasiliano – alunos da disciplina de Estágio Supervisionado do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Débora Gauziski de Figueredo Bueno.

