Vol. 16, N. 61 ImaginaRIO – Rio é eleita capital mundial do livro em 2025

ImaginaRIO #61

ImaginaRIO #61

Rio de Janeiro, Fevereiro e Março…
 

Rio é eleita capital mundial do livro em 2025

Que “cidade maravilhosa” é incrível, todo mundo sabe. Mas, em 2023, o Rio recebeu uma das maiores honras culturais que uma cidade pode conquistar: ser escolhida Capital Mundial do Livro. A cerimônia que oficializou o título, concedido pela UNESCO, aconteceu em 2025, no Teatro Carlos Gomes. O que se considerou para a escolha da cidade foi o fato dela demonstrar compromisso sério com o incentivo à leitura e com políticas culturais que promovem o livro como instrumento de transformação. Talvez você esteja aí do outro lado se perguntando: por que o Rio de Janeiro foi escolhido?

A resposta passa por diferentes camadas — e a mais bonita delas seja a experiência literária que acontece em muitos lugares além das livrarias e das feiras. O Rio foi reconhecido porque faz da leitura uma ferramenta de resistência, diversidade e ancestralidade.

Resistência, porque, em tempos de desigualdade, exclusão e cortes em políticas públicas, ler continua sendo um ato de transformação individual e coletiva. A literatura que circula nas periferias e nos becos dessa cidade é, muitas vezes, uma resposta direta à realidade dura do dia a dia.

Diversidade, porque o Rio lê em muitas vozes. A literatura carioca hoje é feita por autores pretos, brancos, indígenas, LGBTQIAPN+, de favela, de asfalto, acadêmicos e independentes. Quem participa dos saraus e encontros poéticos nas periferias sabe que essa produção não apenas existe, ela pulsa.

E ancestralidade, porque as histórias que circulam aqui não começaram ontem. Elas vêm carregadas da força das culturas afro-brasileiras e indígenas, heranças que moldaram não só a identidade do Rio, mas da literatura brasileira como um todo.

Mas não foi só isso que colocou o Rio no centro do mapa literário mundial. Um dos trunfos foi a força de eventos já consolidados, como a Bienal do Livro Rio, uma das maiores feiras literárias da América Latina, que atrai multidões a cada edição. Para completar, 2025 também já é histórico por sediar, pela primeira vez, a cerimônia do Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, tradicionalmente realizado em São Paulo. Pela primeira vez, a festa literária mais importante do país será à beira-mar.

Além disso, o Rio já é endereço de instituições fundamentais para a literatura brasileira. É aqui que está a Biblioteca Nacional, maior da América Latina e uma das maiores do mundo. Também abriga a Academia Brasileira de Letras (ABL), criada por ninguém menos que Machado de Assis, um dos maiores nomes da literatura mundial.

Aliás, falar de literatura no Rio é falar de um território que inspirou alguns dos principais autores do país. Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector — todos eles passaram por aqui, viveram aqui ou transformaram essa cidade em personagem.

Para 2025, a cidade prepara uma programação extensa: mais de 400 atividades previstas, espalhadas por todas as regiões, envolvendo bibliotecas, escolas, coletivos literários e iniciativas independentes. Vai ter clube de leitura, sarau, contação de histórias, distribuição de vales-livro para estudantes da rede pública e projetos que vão levar livros até onde eles normalmente não chegam.

Essa escolha é também um gesto simbólico da UNESCO: mostrar que o livro não é um privilégio de poucos, mas um direito de todos. Democratizar o acesso à leitura é um compromisso sério — e essa também é a missão do Rio para os próximos anos.

Agora é transformar o título em ação concreta. Incentivar novos leitores, formar novos escritores e fazer da leitura parte da rotina das pessoas, independentemente de onde elas vivam ou estudem.

O Rio sempre é palco de grandes encontros — da música, do esporte, da arte. É hora de ser palco também para as palavras. Ser Capital Mundial do Livro não é só um título bonito para decorar currículo — é um compromisso. E o Rio, pelo que vem mostrando, está pronto para cumpri-lo.

 

Personagem da Gema
 
Luiz Antônio Simas

Carioca de alma – e de nascença -, filho de mãe pernambucana e pai catarinense, Luiz Antônio Simas é daqueles personagens que parecem ter nascido das esquinas, dos blocos, dos botequins e das rodas de samba do Rio de Janeiro. Com formação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também concluiu o mestrado em História Social e, com mais de três décadas de atuação em sala de aula, tornou-se uma importante referência na valorização da cultura popular brasileira, com ênfase nas tradições afro-brasileiras e nas manifestações culturais das camadas populares da sociedade.

Autor de diversos livros, Simas é um verdadeiro cronista da cidade viva, aquela que pulsa nos subúrbios, nas festas, nos terreiros, nos carnavais e nos batuques. Sua obra busca destacar a importância dessas expressões culturais na construção da identidade brasileira. Para o autor, a cultura popular é mais do que entretenimento:  é um campo legítimo de conhecimento e resistência, e deve ser reconhecida como parte fundamental da história do país.

Entretanto, o historiador e autor não é só da teoria, ele é da prática, da vivência. Simas é babalaô no culto de Ifá e já teve composições gravadas por diversos artistas da música popular brasileira. Além disso, participa ativamente do carnaval carioca como jurado do Estandarte de Ouro e realiza iniciativas de aulas públicas em espaços como praças, bares e coretos – ele transforma a rua em sala de aula e a oralidade em ferramenta de ensino. Seu trabalho foi reconhecido com importantes premiações, como o Prêmio Jabuti, e homenagens de escolas de samba e instituições culturais.

A trajetória de Luiz Antonio Simas evidencia um compromisso constante com a valorização das culturas populares, das espiritualidades afro-brasileiras e da sabedoria ancestral. Sua produção intelectual e artística contribui para o fortalecimento da diversidade cultural brasileira, promovendo reflexões sobre identidade, resistência e pertencimento a partir dos saberes do povo e da rua. Por isso, Simas é, acima de tudo, um personagem da gema, desses que ajudam a costurar a alma do Rio de Janeiro.

Rio entre Esquinas
 
A Bienal do Livro 2025

Enquanto o Rio celebra o título de Capital Mundial do Livro, os cariocas recebem mais uma edição do famoso evento literário e cultural “A Bienal do Livro”, no espaço Riocentro, localizado na Barra Olímpica – zona oeste do Rio de Janeiro. O evento promove o incentivo à leitura e o contato de diferentes públicos a esse universo imersivo das palavras que contam histórias, acontecendo entre os dias 13 e 22 de junho.

Neste ano de 2025, o evento se torna ainda mais especial graças à nomeação da cidade como Capital Mundial do Livro, o que atribui à Bienal um papel ainda mais relevante dentro do cenário cultural. Integrando essa celebração, o evento contará com diversas experiências interativas e únicas para os visitantes, como a roda-gigante Leitura nas Alturas Light, o Labirinto de Histórias Paper Excellence e o Escape Room Bienal Estácio.

A festividade se destaca não só pela diversidade de livros disponíveis para compra, mas também pela presença de grandes autores nacionais e internacionais, sessão de autógrafos, palestras e debates sobre diversos temas, lançamentos exclusivos, oficinas e apresentações artísticas. Na edição deste ano, o jornalista e escritor Ruy Castro, o grande homenageado da Bienal, fez, com exclusividade, o lançamento de dois livros de sua autoria.

Um dos pontos mais expressivos da Bienal é, sem dúvidas, a diversidade do seu público. A presença de pessoas de diferentes idades, gêneros, etnias, classes sociais e vivências imprime ao evento um caráter ainda mais plural, democrático e acolhedor. Essa multiplicidade não só enriquece as trocas culturais, como também reflete a potência dos livros e da arte como ferramentas de conexão, representatividade e transformação social.

 

Leitura do Mês
 
Bestiário Brasileiro – Monstros, visagens e assombrações

Nesta obra, Luiz Antônio Simas apresenta um olhar criativo, direto e, ao mesmo tempo, sensível sobre o Brasil, usando figuras curiosas e cheias de sentido para pensar questões políticas, sociais e culturais. Com uma linguagem clara e cheia de humor e ironia, o autor nos leva a conhecer criaturas que representam tipos de pessoas, modos de agir e formas de organização que fazem parte tanto da imaginação quanto da vida real do país.

Diante disso, a partir da tradição falada, do saber do povo e de referências ao folclore e às religiões de matriz africana, Bestiário Brasileiro é um mergulho no mundo encantado, mas também nas contradições do país. Simas traça um retrato forte do Brasil, dando forma a bestas que apontam temas como racismo, ganância, autoritarismo e medo do diferente. Essa leitura é essencial para quem se interessa pela cultura do país, pelas questões sociais e quer enxergar o Brasil por caminhos criativos e ligados às nossas origens.

Disponível para compra em: 

https://www.martinsfontespaulista.com.br/bestiario-brasileiro-1113987/p

ImaginaRIO Entrevista
 
Wilson Neto

Por trás da profissão como programador, Wilson Neto também coleciona experiências no mundo da música e da literatura. Quando mais jovem, foi baterista de uma banda de punk-rock com amigos, no qual também interpretou e escreveu canções e, à medida em que explorava diferentes expressões de arte, encontrou na escrita uma maneira de também dialogar com o mundo. Autor de “Contra Cultura” e “Folhas Vivas”, Wilson, escritor independente, nascido e criado em São Gonçalo, representa, com a sua história, pessoas repletas de potencialidades artísticas, mas que ainda são pouco valorizadas por sua origem em lugares periféricos e invisibilizados do estado do Rio.

O que te motivou a publicar suas obras?

Começar a escrever foi resultado de um processo espontâneo. Na minha época de ensino médio, eu era mais da área de exatas, mas, depois que concluí a escola, comecei a ter contato com o punk-rock e hardcore brasileiro, que são gêneros musicais com letras carregadas de influências. Uma banda em específico que me fez pesquisar sobre o que eu ouvia foi a ‘Dance of Days”. Eles tem uma música chamada “Comerciais de Cigarro” que, no refrão, diz “tão García Márquez, feito personagem de Cem Anos de Solidão”. No momento que procurei quem era esse autor e seu livro, eu acredito que foi meu primeiro contato com a leitura de forma intencional e instintiva, fora das obrigações da sala de aula. No começo foi difícil e cansativo terminar essa obra por não estar acostumado com algo tão denso, mas, depois que terminei, eu me vi instigado pela história incrível, e sinto que mudou algo na minha vida. Nessa jornada com a música e a literatura, procurando ler outros romancistas e suas obras, me senti estimulado em expressar mais as minhas opiniões. Acredito que foi com a literatura que comecei a me desenvolver como pessoa, com mais clareza dos meus pensamentos, e, consequentemente, mais preparado para dar voz às minhas opiniões. Então, escrevendo textos longos em redes sociais, me aventurando em criar contos, explorando novos horizontes literários, eu quis escrever tudo o que estava vivendo no meu primeiro livro, o Contra Cultura.

Experienciar o mundo e se descobrir uma potência versus a realidade de alguém que mora numa cidade periférica: como foi começar a escrever sem referências locais?

Eu vivia numa realidade em que o acesso à literatura era escasso, tampouco havia o incentivo a essa busca, então meu despertar foi muito tarde. No período da infância e adolescência, eu não desenvolvi o interesse pela leitura, aprendi já na fase adulta, e foi um processo difícil de lidar. Eu diria que, em primeiro lugar, foi um processo de ter que refazer a minha mentalidade, que foi sendo mudada pelo punk e o hardcore, pois sempre incentivaram a ideia do “faça você mesmo”. Nessa época, quase sem recursos, eu tinha uma banda com meus amigos e a gente ensaiava com contrabaixo emprestado e fazíamos os shows acontecerem. Essas experiências para o meu despertar foram muito benéficas porque, na hora de colocar pra frente a ideia de publicar meu livro, era literalmente fazer eu mesmo. O processo principal foi eu me aceitar como um escritor e legitimar que aquilo era um trabalho que poderia chegar a outras pessoas e ter algum significado real. Com tudo isso, o momento que eu realmente decidi publicar foi mais fácil, porque eu encontrei uma gráfica de São Paulo que fez as primeiras cópias de exemplares e, em uma semana, eu estava com o livro todo com as formatações prontas. Foi muito necessário eu passar por esse processo de aceitação.

Quais potências você enxerga em São Gonçalo que são ignoradas por quem está de fora?   

Um exemplo prático, acho que nem tão da escrita, é a banda “Os Garotin”, que já eram muito conhecidos por aqui antes deles ganharem maior visibilidade. Acredito que seja um bom exemplo do quão rica é essa cidade e como é importante ter uma política para que esses talentos possam se desenvolver com maior facilidade. Há muitos potenciais escondidos aqui, mas que são ignorados, infelizmente; repleto de pessoas que têm muito a oferecer na arte. A realidade é que ainda existe um estigma quando se trata de São Gonçalo. As pessoas ainda olham “torto” quando você diz ser daqui, ainda existe esse olhar de desprezo e essa desconfiança. Então, se você é um artista de São Gonçalo, que está tentando alcançar um voo maior, muito provavelmente também passará por um processo de higienização para tentar apagar essa origem.

ImaginaRio: E sobre novos projetos? Já tem alguns em mente, o que podemos esperar?     

Tenho sim. Planejo lançar um novo livro em breve, penso em um romance bem estruturado, mais longo. O que me trava muito hoje é a segurança e a estabilidade que eu tenho. Acredito que a arte se desenvolve muito melhor em um momento de desconforto, o que não é uma realidade pra mim agora. Transformar isso tudo em história é muito mais difícil do que as minhas noites de choro, então acho que isso é a minha maior dificuldade.

A cidade do Rio recebeu o título de Capital Mundial do Livro pela UNESCO. Como você enxerga o valor desse título? Além disso, considerando a concentração das instituições e atividades culturais do setor literário no centro da cidade e a falta da promoção desses eventos culturais em territórios periféricos, como você enxerga o impacto desse reconhecimento para territórios marginalizados?

É algo positivo e super benéfico para o setor cultural da cidade, além de colocar a capital no cenário cultural cada vez mais relevante à nível internacional, porém ainda é algo acessado por nichos específicos, privilegiados da nossa sociedade. Então, eu acredito que esse título deve se converter na promoção da leitura em instituições públicas que se encontram nas periferias, senão será algo de valor apenas para a grande academia e a elite carioca. Em termos práticos, o título deve ser transformado em algo que gere resultado nos locais onde o verdadeiro valor da leitura ainda não chegou. A literatura pode dialogar com as diferentes  realidades do estado do Rio, mas a partir da presença de escritores capacitados, incentivados, que residem nessas periferias e trazem visibilidade a essas vivências marginalizadas. É necessário que ocorra o rompimento da estrutura para gerar acessibilidade. Eu vejo o título como importante, mas não há uma efetivação real para os lugares excluídos dos circuitos culturais do Rio. A capital se destaca pela existência de instituições que promovem a literatura, como o Gabinete Real Português de Leitura, a Biblioteca Nacional, a Bienal e a FLUP. Mas, a desigualdade social é um marcador da ausência de ações de promoção cultural. Esse título precisa ser um promotor do fomento ao acesso à cultura, e não apenas um título com valor em si mesmo.

🧑🏿‍🤝‍🧑🏻O ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro. Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no ImaginaRIO? Entre em contato com a gente pelas nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail laconuerj@gmail.com
Coordenadores: Ricardo Freitas, Vania Fortuna
Bolsista Qualitec: Marcelo Resende
Equipe: Pedro Rubim, Pedro Favera, Juliana Nascimento, Laiza Villaça, Maria Helena Carmo, Rafael Nacif e Isadora Ortiz

# Edição feita pelos alunos da disciplina Estágio Supervisionado/LACON: Maria Luísa Alves de Melo; Ana Clara Rodrigues de Jesus; Leonardo Coelho Avelino; Laryssa do Patrocinio Vieira; João Pedro Côrtes Betim Paes Leme; Gabriela Matias Pereira Sales; Mariana da Silva Nântua; Caroline Esthefany Dias Olimpio e Taíssa da Motta Brito. Sob a coordenação da Professora Vania Fortuna.

Apoio:

Facebook
Twitter
Link
Website
Copyright © 2026 Observatório imaginaRIO, All rights reserved.
Você está recebendo esse e-mail, porque está inscrito em nosso boletim.

Our mailing address is:
Observatório imaginaRIO
R. São Francisco Xavier, 524, 10º andar – Sala 10001
Rio De Janeiro, Rj 20010-000
Brazil

Add us to your address book


Want to change how you receive these emails?
You can update your preferences or unsubscribe from this list.

Email Marketing Powered by Mailchimp

Compartilhe essa publicação:

Outros textos