Vol. 15, N. 60 ImaginaRIO – Show de Lady Gaga em Copacabana

ImaginaRIO #60

 

Rio de Janeiro, Fevereiro, Março…

Show de Lady Gaga em Copacabana

  Dorival Caymmi disse lindamente em sua canção que “Um bom lugar para encontrar, Copacabana…” (“Sábado em Copacabana”, 1955) — e podemos dizer que foi exatamente isso que aconteceu no sábado, 3 de maio de 2025. Mas, desta vez, o encontro não foi embalado pela MPB ou pela bossa nova, e sim por Born This Way, Abracadabra, Bad Romance, Judas e tantos outros hinos da inigualável Lady Gaga. A cantora americana realizou um feito histórico: colocou nada menos que cerca de 2,5 milhões de pessoas nas areias de Copacabana para assistir ao show de sua nova turnê, a Mayhem Ball Tour.

  Stefani Joanne Angelina Germanotta, ou simplesmente Lady Gaga, é um ícone da música pop mundial. Cantora, atriz, ganhadora de Grammys e até de Oscar, ela consolidou sua carreira com performances transgressoras, álbuns que falam sobre liberdade, identidade e amor-próprio, além de uma estética sempre inovadora. Foi justamente esse espírito de vanguarda que levou os organizadores do evento “Todo Mundo no Rio” — iniciativa que une esforços públicos e privados, e que já havia feito história com o show de Madonna em 2024 — a escolherem Gaga como a estrela que transformaria o Rio em uma verdadeira festa. Ou melhor: num autêntico ballroom à beira-mar.

  Mais de 600 mil turistas desembarcaram na cidade somente devido ao show. Desses, 240 mil foram oficialmente identificados, sendo cerca de 80% estrangeiros. A cidade virou uma torre de Babel: ouvia-se espanhol, inglês, francês, italiano e, claro, o bom e velho português com sotaques de todo o Brasil — com destaque para visitantes vindos de São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Brasília. No exterior, o fenômeno também ecoou: as buscas por voos vindos do Chile cresceram 250%, e da Argentina, 150%.

  O impacto econômico foi estrondoso. Estima-se que o evento tenha injetado R$ 600 milhões na economia carioca — um crescimento de 27,5% em relação ao que foi movimentado no show da Madonna no ano anterior. Turistas estrangeiros gastaram, em média, R$ 590 por dia. Já os brasileiros vindos de outros estados desembolsaram cerca de R$ 515. E até os próprios cariocas entraram no clima do consumo: moradores da cidade gastaram, em média, R$ 133 por dia durante o evento.

  Os hotéis de Copacabana registraram 96% de ocupação. O Airbnb, por sua vez, explodiu: a busca por acomodações no bairro aumentou 150 vezes em comparação com o mesmo período de 2024. Muitos visitantes aproveitaram o feriado prolongado para passar entre três a quatro dias no Rio, o que impulsionou ainda mais a economia local. O efeito turístico foi tão expressivo que, segundo a prefeitura, só em mídia espontânea internacional, o show gerou o equivalente a US$ 48 milhões — algo próximo de R$ 280 milhões. E com a repercussão global, esse número pode alcançar até R$ 1 bilhão.

  Esse megaevento faz parte de uma nova estratégia da prefeitura do Rio: transformar Copacabana em palco fixo de grandes shows internacionais gratuitos, ao menos até 2028. A ideia é consolidar a imagem da cidade como destino cultural global, com música, turismo e economia caminhando juntos. E, se depender do sucesso de Lady Gaga, esse projeto já está mais do que validado. Tudo isso ao som de Bad Romance, com o mar como cenário e a cidade pulsando no ritmo do pop.

 

Personagem da Gema
 
Lady Gaga

  Lady Gaga é uma artista multifacetada — cantora, compositora e atriz norte-americana — reconhecida mundialmente por sua potência vocal, visual marcante e engajamento em causas sociais. Nesta proposta, fazemos uma brincadeira ao imaginá-la como uma mulher carioca, sem alterar sua trajetória artística, mas destacando os laços afetivos e culturais que construiu com o Rio de Janeiro desde sua primeira visita em 2012. Embora nascida em Nova York, foi na cidade maravilhosa que Gaga protagonizou momentos únicos de conexão com o público brasileiro.

  Sua passagem pelas terras cariocas em 2012, com a turnê Born This Way Ball, Lady Gaga demonstrou profundo interesse pela realidade local ao visitar o Morro do Cantagalo, onde jogou futebol com crianças e conheceu o projeto social Criança Esperança. Além disso, distribuiu autógrafos, percorreu as ruas em um mototáxi e, em um momento descontraído que repercutiu amplamente na mídia, foi vista tomando uma cerveja em um tradicional boteco da comunidade. Ainda durante sua estadia, em um gesto íntimo e simbólico, tatuou o nome “Rio” na nuca, eternizando em seu corpo a marca da cidade que a acolheu com tanto carinho. Esses episódios contribuíram para a construção de um vínculo afetivo intenso entre a artista e o Rio, como se Gaga fosse, de fato, uma legítima carioca da gema.

  Em maio de 2025, a cantora retornou à cidade para realizar o maior show de sua carreira, na Praia de Copacabana, diante de mais de dois milhões de pessoas. O espetáculo fez parte do projeto “Todo Mundo no Rio” e transformou o calçadão em uma grande festa, com coreografias marcantes, mensagens de empoderamento e uma superprodução que misturava teatro com o pop contemporâneo. Sua entrega durante a apresentação somente reforçou a sensação de que, se o Rio fosse uma pessoa, certamente teria um pouco de Lady Gaga. Ou talvez, neste exercício de imaginação, a própria Lady Gaga já seja uma carioca de alma

Rio entre Esquinas
 
Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega (SAARA)

  O Saara, tradicional polo comercial do Rio de Janeiro, é sempre muito procurado às vésperas de grandes eventos: carnaval, festa junina, Natal — e, é claro, não foi diferente com o show da Lady Gaga. Com o grande dia se aproximando, os fãs já estavam à procura dos looks perfeitos para não fazer feio quando a “Mother Monster” subisse ao palco. A estimativa era de que o evento movimentasse cerca de R$600 milhões, segundo levantamento da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, em parceria com a Riotur.

  A área é extremamente popular por abranger lojas dos mais diversos artigos: tecidos, casa e decoração, eletrônicos, moda, beleza e muitos outros. Com a recente chegada da cantora ao Brasil, a área vivenciou um aumento significativo na movimentação comercial, impulsionado pela demanda por produtos relacionados à estética visual e identidade artística de Gaga. A variedade de preços e itens oferecidos contribuíram para atrair um público ainda mais amplo, composto tanto por fãs locais quanto por turistas apaixonados pela artista.

  Varejistas da região relataram um impacto econômico positivo durante o período do evento “Todo Mundo no Rio”. Houve crescimento nas vendas de roupas, acessórios e artigos inspirados no estilo da tour Mayhem Ball. A procura expressiva por esses itens evidencia a capacidade do comércio local de se adaptar rapidamente às tendências culturais e comportamentais em circulação.

  O polo Saara se configura como um reflexo da cidade do Rio de Janeiro, que há muito tempo acompanha as tendências tanto locais quanto globais, como o tão comentado show da Lady Gaga na praia de Copacabana, demonstrando atenção constante ao comportamento de consumo de seus clientes e consumidores. Em um cenário de crescimento do comércio eletrônico e das grandes redes varejistas, esse centro comercial mantém sua força graças à variedade de produtos e a uma experiência de compra única que proporciona. Não é à toa que o Saara é um dos pilares do comércio popular do Rio de Janeiro.

ImaginaRIO Entrevista
 

Julia Ourique

  Jornalista, instrumentista e doutoranda em Comunicação na Uerj, Julia Ourique tem se dedicado à pesquisa sobre o universo musical. Com mais de uma década de experiência na área, lançou recentemente o livro Feminismo na Indústria da Música, no qual investiga a atuação das mulheres no cenário musical brasileiro, o conceito de artivismo — uma forma de ativismo que utiliza a arte para expressar ideias e reivindicar causas sociais — e as transformações da indústria sob uma ótica feminista e interseccional. Em razão do impacto cultural gerado por Lady Gaga no Brasil e no exterior, convidamos Julia para analisar o valor simbólico do show da cantora norte-americana, realizado em 3 de maio, em Copacabana, à luz dos conceitos de feminismo e artivismo.

Lady Gaga é uma artista que une performance, discurso político e espetáculo. Como você enxerga a presença dela no palco do Rio de Janeiro como um ato de artivismo feminista?

De fato, a Lady Gaga consegue reunir, em suas performances ao vivo, a mistura do discurso político com o espetáculo. Mas, a partir do artivismo feminista apresentado no livro, a Lady Gaga não entraria neste conceito. Explico: O artivismo é "um conjunto de práticas, posturas e linguagens que trazem o engajamento como elemento central, abordando temas relacionados à resistência, dissidência e dissenso" (Rocha; Rizan, 2022). Ela se inspira muito mais em Andy Warhol e todo o movimento da Pop Art, trazendo a arte para existir de uma forma comercial, mas sem deixar de ser percebida como arte, vivendo e aceitando as controvérsias de ser artista num mundo que comercializa tudo. O discurso político da Lady Gaga vem do apoio às pautas LGBTQIAPN+ e às mulheres, mas veja que ela não se aprofunda em nenhuma destas temáticas. Quando se mergulha e se compactua com as pautas, buscando, por meio da arte, traduzir debates e práticas complexas é que chamamos de artivismo. Movimentos artivistas que podemos citar, no Brasil, são o Teatro Experimental do Negro, o Teatro do Oprimido, o grupo Dzi Croquettes, o Tropicalismo...

Lady Gaga sempre incorporou a luta pelos direitos das mulheres e LGBTQIA+  em sua arte. Em que medida a realização de um show dessa magnitude no Rio pode ser vista como um gesto de afirmação política e afetiva para essas populações brasileiras?

A representatividade importa. Ver pessoas das mais variadas identidades sexuais em cima de um palco exercendo sua arte, trabalhando a partir de suas visões de mundo é sempre inspirador. E, em um mundo que, cada vez mais, insiste na ideia que devemos ser azul ou rosa, os gestos dela são afirmações de resistência até. Essas criações que Lady Gaga leva para o palco são essenciais e surgem do Haus of Gaga (uma espécie de laboratório de experimentação artística que ela mantém, e que é de lá que saem os figurinos, coreografias e cenografias dos espetáculos). A própria história da Lady Gaga, embora seja uma menina de classe média alta, branca e cisgênero, traz em sua biografia uma pessoa que cresceu convivendo com o bullying, por não se encaixar no que se esperava dela, por acreditar, desde muito cedo, que o seu lugar era na música, profissão que, até hoje, ainda é sinônimo de ser mal paga, lidar com machismo e uma série de pressões estéticas e psicológicas para chegar ao estrelato — como ela chegou.

Pensando no que você traz sobre transformação estrutural da indústria da música, você acha que a vinda de Gaga para o Brasil pode deixar um legado?

A vinda de Lady Gaga para o Brasil, tal como foi a vinda de Madonna (em 2024), são pontos importantes na história da cidade do Rio de Janeiro. Provamos que conseguimos hospedar megaeventos de música, com qualidade técnica para suportar o espetáculo e sua maquinaria, mas também capacidade de organização, de transmissão ao vivo. Mais uma vez, mostramos que somos um país da música, amamos música a ponto de transbordar e atingir os artistas e suas equipes. A cena final do show da Lady Gaga no Rio, com ela e os bailarinos olhando emocionados os fogos e a multidão que os saudava, demonstra essa capacidade que o público latino-americano tem de ser afetado pela música e devolver admiração. A partir dessas duas boas experiências, posso afirmar que fazer show gratuito no Rio se torna um marco na carreira de todo artista que deseja se destacar na cultura pop.

⁠Em sua pesquisa, você aponta o Brasil como um país que legitima o papel da cantora, mas ainda marginaliza outras funções femininas na música. Você acredita que megaeventos como esse ajudam a abrir espaços simbólicos ou ainda reforçam barreiras?

Os megaeventos são importantes para conscientizar sobre a importância de investir em cultura no país. Eles deixam claro o poder que a indústria da música — uma das nossas principais na economia criativa brasileira — tem em relação ao soft power, mas também na geração de renda e emprego para pessoas que trabalham na música, mas das funções que acompanham todos os eventos: camelôs, trabalhadores de aplicativos, comércio de merchandising não-oficial, entre outras. Além dos clássicos, como o setor de hotelaria, de transporte, de restaurantes. Os eventos, sejam de qual porte for, obedecem a leis e fiscalizações que não existem quando falamos de igualdade entre os gêneros entre as pessoas contratadas. Falo como pessoa que trabalha no mercado da música há mais de 10 anos. Enquanto não houver uma política pública voltada para pensar a indústria da música e, por consequência, os seus trabalhadores como um mercado de trabalho, que precisa de investimento e leis específicas, muito mais do que editais, a situação não vai mudar.

 

 

Leitura do Mês
 
Feminismo na Indústria da Música

Nesta obra, Julia Ourique analisa como o feminismo é capaz de transformar a indústria musical de maneira extremamente impactante no contexto político, social e econômico da nossa sociedade. Com uma linguagem acessível e muita sensibilidade, a autora apresenta as pautas feministas a partir da trajetória da PWR Records — o principal selo feminista do Brasil — e discute como a artivismo e a sororidade têm ganhado espaço na reconfiguração do mercado musical.  Essa leitura é essencial para quem se interessa pela temática de mulheres na música e é muito bem vinda a todos os tipos de music lovers.

Disponível para compra em: https://www.editoramultifoco.com.br/shop/feminismo-na-industria-da-musica-3564?srsltid=AfmBOoovWntIxhrdlTD-zv7s_ezHQSVitxocLetD3qWAPF3TIB-xLdsd

 
🧑🏿‍🤝‍🧑🏻O ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro. Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no ImaginaRIO? Entre em contato com a gente pelas nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail laconuerj@gmail.com
 
Coordenadores: Ricardo Freitas, Vania Fortuna
Bolsista Qualitec: Marcelo Resende
Equipe: Pedro Rubim, Pedro Favera, Juliana Nascimento, Laiza Villaça, Maria Helena Carmo, Rafael Nacif e Isadora Ortiz

# Edição feita pelos alunos da disciplina Estágio Supervisionado/LACON: Maria Luísa Alves de Melo; Ana Clara Rodrigues de Jesus; Leonardo Coelho Avelino; Laryssa do Patrocinio Vieira; João Pedro Côrtes Betim Paes Leme; Gabriela Matias Pereira Sales; Mariana da Silva Nântua; Caroline Esthefany Dias Olimpio e Taíssa da Motta Brito. Sob a coordenação da Professora Vania Fortuna.

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