Vol. 15, N. 59 ImaginaRIO – Aldeia Marakanã – Tesouro escondido na Zona Norte do Rio
Escrito por
Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo
ImaginaRIO #59
ImaginaRIO #59
Rio de Janeiro, Fevereiro, Março…
Mônica Lima Mura Manaú Arawak, Urutau Guajajara e Potyra Guajajara, na Aldeia Marakanã.
Foto: Julia Motta/Revista Fórum
Aldeia Marakanã – Tesouro escondido na Zona Norte do Rio
A Aldeia Pluriétnica Marakanã, localizada no bairro do Maracanã, Rio de Janeiro, é muito mais do que um território ocupado por indígenas; é um símbolo de resistência, memória e afirmação da identidade dos povos originários em plena cidade. O nome “marak’aná”, de origem tupi-guarani, significa “algo semelhante a um chocalho”. A palavra, ao ser “aportuguesada” para “maracanã”, nomeou o famoso estádio, o rio que corta o bairro e o próprio bairro.
Desde 2006, a aldeia passou a representar a luta pela permanência e pelo reconhecimento da importância dos povos originários na construção e continuidade do Brasil. Tornou-se um lugar de acolhimento para indígenas em situação de vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, um espaço de resistência, troca de saberes e afirmação cultural. Os indígenas da Aldeia Marakanã buscam manter suas tradições vivas, preservar a memória ancestral dos primeiros habitantes da região e acolher indígenas que circulam ou vivem na cidade.
A Universidade Indígena, localizada na aldeia, é um centro de referência sobre povos originários, tanto para o Brasil quanto para o cenário internacional. Oferece cursos como o de “Língua e Cultura Tupi Guarani” e “Oficinas de Cantos Indígenas”. Mesmo com tamanha relevância cultural e social, a aldeia enfrentou diversas tentativas de remoção e ataques, como em 2019, quando o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL-RJ) declarou ser a Aldeia Marakanã “um lixo urbano”.
Apesar desses e de outros ataques, a comunidade segue firme, resistindo e ampliando suas ações e projetos culturais. A Aldeia Marakanã representa não apenas a retomada de um território sagrado, mas também a continuidade histórica e cultural dos povos originários. Sua existência reafirma a presença indígena na vida urbana e sua importância na formação de um país mais plural, justo e respeitoso com suas raízes.
Personagem da Gema
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Eliane Potiguara
Eliane Potiguara é carioca, professora, escritora e ativista indígena, pertencente ao povo Potiguara, que integra a família linguística tupi-guarani. Formada em Letras e Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especializada em Educação Ambiental pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Eliane Potiguara tornou-se a primeira escritora indígena no Brasil. O livro “A Terra é a Mãe do Índio” foi publicado em 1989, recebendo destaque e reconhecimento no âmbito acadêmico.
As obras da escritora enfatizam a identidade cultural dos povos originários, evidenciando a beleza e a relevância da representatividade indígena para a valorização da cultura brasileira. Eliane Potiguara é uma defensora ativa dos direitos indígenas. Fundou, em 1987, o Grupo Mulher-Educação Indígena (GRUMIN), organização pioneira composta exclusivamente por mulheres indígenas, tanto aldeadas quanto urbanas. O GRUMIN promove o acesso de mulheres e homens indígenas, assim como suas organizações, à informação, além de mobilizá-los e influenciá-los na formação de opiniões políticas e sociais.
Ao longo de sua trajetória, Eliane Potiguara reconstruiu e reafirmou com orgulho sua identidade étnica enquanto integrante do povo Potiguara, mobilizando-se politicamente em defesa da valorização das culturas indígenas e da garantia dos direitos dos povos originários. Esse processo de resgate identitário manifesta-se de forma significativa em sua produção literária e em sua atuação no campo educacional, consolidando-a como importante referência da literatura indígena e das políticas de educação intercultural no Brasil.
Rio Entre Esquinas
Foto: Fábio Rossi
Museu Nacional dos Povos Indígenas: Guardião da memória e expressão viva das culturas originárias
Inaugurado em 1953, o Museu Nacional dos Povos Indígenas é uma instituição vinculada à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e representa um dos principais centros de documentação e valorização da diversidade indígena no Brasil. Localizado em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, o museu abriga um acervo vasto — mais de 18 mil artefatos, 100 mil imagens e milhares de registros sonoros e textuais —, imprimindo-se como espaço de referência para pesquisadores, estudantes e visitantes interessados na riqueza sociocultural dos povos originários.
Mais do que um espaço de exposição, o Museu Nacional dos Povos Indígenas atua como plataforma de escuta e diálogo com comunidades indígenas de diferentes regiões do país, respeitando seus modos de vida, cosmologias e práticas de transmissão de saberes. As atividades incluem oficinas, publicações, exposições temporárias e permanentes, além de projetos colaborativos com coletivos indígenas, ampliando a percepção pública sobre o protagonismo desses povos na construção da história e dos futuros possíveis do Brasil.
No último dia 11 de Abril, o jardim do museu foi palco de cantos, falas e celebrações abertas ao público. O evento “Música, Cultura e Tradições dos Povos Originários”, reuniu artistas e representantes de diferentes etnias em uma tarde de apresentações culturais e partilhas coletivas. Com a presença de nomes como Anauá Pataxó, Daiara Tukano e o grupo Mawé, o encontro reafirmou a potência da arte indígena como forma de resistência e expressão.
Museu Nacional dos Povos Indígenas reflete não apenas uma memória, mas também a luta pelos direitos dos povos indígenas contra ameaças presentes nos espaços que ocupam. Dessa forma, entre as esquinas da cidade do Rio de Janeiro, temos um centro cultural cujas exposições e eventos contribuem para o reconhecimento e a valorização da cultura indígena.
Entrevista
Foto: Acervo pessoal de Sofia Gama
Sofia Gama
Comunicadora, artista visual, modelo e designer de moda, Sofia Gomes ressalta que desde cedo sua ancestralidade protagoniza os diversos trabalhos que produz, sobretudo as criações de peças artesanais que mesclam técnicas de bordado, argila e cerâmica, que refletem sua origem indígena. Desfilando para marcas como Farm, Renner, Magalu, Mauricio Duarte, dentre outras, Sofia é símbolo de resistência da memória e valorização dos povos originários no cenário artístico brasileiro: “Eu tento quebrar estereótipos e ir contra a ideia de que não podem existir pessoas indígenas na cidade, se vestindo como querem, seguindo seus sonhos, se entendendo e exercendo sua individualidade e seus direitos como todas as outras pessoas”, afirma.
De que maneira sua arte busca representar e valorizar a ancestralidade indígena? Isso também se reflete nos materiais que você usa na produção?
Muitas das histórias que eu conto através das minhas peças são relacionadas à minha ancestralidade direta, a história da chegada da minha família no Rio de Janeiro, ensinamentos que recebi da minha avó relacionados à natureza e à vida no geral. Uma das minhas obras que mais repercutiu nas redes é um bordado de uma frase que minha avó fala: “Coração do outro é terra que ninguém anda”, que eu leio como uma relação direta entre sentimento, terra e território. Além disso, acho que a ancestralidade é algo intrínseco ao meu trabalho em relação às técnicas e materiais que pesquiso e também à forma que tive contato com a maioria delas, primeiro através da minha família e depois em contato com outros artistas indígenas. Além de falar sobre histórias, sentimentos e vivências individuais minhas, da minha família e da minha origem, tudo que permeia meu trabalho está também relacionado a culturas e histórias que são coletivas e existem muito antes e além de mim. Acho que muito da minha arte fala sobre como eu cheguei até aqui e, principalmente, que eu existo aqui.
Como você acredita que sua arte contribui para a preservação das culturas indígenas no Brasil?
Eu penso muito sobre a dualidade e resistência da terra – e tudo que vem dela – em ambientes dominados pelo concreto e também sobre o movimento e vida das águas que passam por todos esses lugares e simbolizam tantas travessias de resistência. Através disso, busco falar sempre sobre a necessidade de defender os territórios ameaçados onde a terra ainda vive e as vidas que resistem nesses lugares, para que nenhuma família precise sair forçadamente de onde vive e tenha direito ao bem-viver, onde quer que esteja. No fundo, é sobre resistência e defesa desses sagrados que estão em constante ameaça de destruição e apagamento, sejam eles territórios físicos, culturais ou emocionais.
Em um mundo onde muitas tradições estão em risco de desaparecimento, qual é o papel do artista na promoção dessas práticas culturais?
Acredito que a contribuição do trabalho criativo no geral, como de arte e moda e outros relacionados à imagem, está na possibilidade de trazer discussões e questões de diversas formas, com variadas técnicas, apelos para a sensibilidade e atrair diversos públicos para a conversa que são tocados de formas diferentes por uma mesma peça ou imagem. Com o meu trabalho, busco demonstrar o valor e a riqueza cultural das técnicas e materiais tradicionais e, através disso, trazer para a discussão as questões que permeiam os locais onde essas técnicas foram originadas e repassadas.
Leitura do Mês
Foto:: https://www.elianepotiguara.org.br/
O livro “O Vento Espalha Minha Voz Originária”, de Eliane Potiguara, publicado em 2023, não se enquadra em um único gênero literário, pois incorpora uma variedade de elementos, como autobiografia, poesia e conto. Essa pluralidade evidencia a capacidade da obra de alcançar e ser acessível a quem se interessa pelo tema. Trata-se de uma leitura recomendada para aqueles que desejam apreciar a riqueza da literatura indígena contemporânea.
Diante dessa indicação, vale dizer que o livro é um verdadeiro convite à escuta da voz feminina indígena. Com sensibilidade e força, a autora “costura” memórias, identidades e saberes ancestrais, aproximando o leitor da resistência contínua dos povos originários. Uma leitura urgente e necessária.
Sinopse:
“A arte é uma divindade que se manifesta na alma humana.
A ancestralidade acessa várias formas de existência e de se apresentar ao mundo. Ela nutre a vida e as artes por meio da essência dos rios, montanhas, alimentos, fauna, flora, mares, consciências.
Os textos desse livro se conectam aos nossos desejos mais profundos, nas casas, escolas, universidades, instituições e comunicação de massa.
Leia este livro, ele é um totem para hoje e sempre contribuirá para a mentalidade brasileira. E povos indígenas agradecerão.”
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🧑🏿🤝🧑🏻O ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro. Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no ImaginaRIO? Entre em contato com a gente pelas nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail laconuerj@gmail.com
Coordenadores: Ricardo Freitas, Vania Fortuna Bolsista Qualitec: Marcelo Resende Equipe: Pedro Rubim, Pedro Favera, Juliana Nascimento, Laiza Villaça, Maria Helena Carmo, Rafael Nacif e Isadora Ortiz
# Edição feita pelos alunos da disciplina Estágio Supervisionado/LACON: Maria Luísa Alves de Melo; Ana Clara Rodrigues de Jesus; Leonardo Coelho Avelino; Laryssa do Patrocinio Vieira; João Pedro Côrtes Betim Paes Leme; Gabriela Matias Pereira Sales; Mariana da Silva Nântua; Caroline Esthefany Dias Olimpio e Taíssa da Motta Brito. Sob a coordenação da Professora Vania Fortuna.