Rio de Janeiro, Fevereiro, Março…
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Estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio, localizada no Largo São Francisco da Prainha – Foto: Larissa Mafra
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Tradição e herança africana que pulsam no Centro do Rio de Janeiro
A Zona Portuária do Rio de Janeiro, que abrange os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo, também conhecida como Pequena África, é uma região que esteve intimamente ligada ao tráfico transatlântico de pessoas escravizadas e que, ainda hoje, é habitada majoritariamente por pessoas negras.
De 1996 até o final das obras do Porto Maravilha, achados arqueológicos deram origem ao Sítio Arqueológico Cemitério dos Pretos Novos, que ajuda a compreender o processo da diáspora africana e da formação da sociedade brasileira. No artigo “Por onde os africanos chegaram” (2015), a antropóloga e professora Simone Vassallo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), descreve a região como um local que vive e sobrevive a partir do patrimônio cultural e imaterial gerado pela população afro-brasileira: “É esta comunidade que leva adiante a tradição do samba, das religiões de matriz africana, da gastronomia, do artesanato e outras manifestações culturais”.
A Pequena África é bastante conhecida por seus bares, restaurantes e pelas suas tradicionais rodas de samba. É lá que está localizada a Casa da Tia Ciata, espaço cultural de celebração da memória da mulher que fez de seu terreiro abrigo e resistência do samba; a estátua de Mercedes Baptista, primeira bailarina negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro; o Museu da História e da Cultura Afro-brasileira (MUHCAB) e vários outros pontos que fazem parte do Círculo de Herança África, projeto idealizado pelo Instituto Pretos Novos (IPN) com o propósito de promover e fortalecer a educação patrimonial para educadores, estudantes e público em geral.
(Fonte: IPN)
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Foto: Nil Canindé/Divulgação
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Mart’nália
Mart´nália Mendonça Ferreira é carioca, nascida em Vila Isabel, zona norte do Rio. Desde criança, frequentava as rodas de samba com seu pai, com quem começou a cantar profissionalmente aos 16 anos. Ela é filha de um dos grandes nomes do samba, o cantor e compositor Martinho da Vila, e a paixão pela música corre em suas veias.
A sambista é conhecida por suas performances vibrantes e por sua habilidade em se conectar com o público. Ela não apenas canta, mas também conta histórias, fazendo com que cada apresentação seja uma verdadeira celebração da cultura carioca. E quem já teve a oportunidade de vê-la ao vivo sabe que é impossível ficar parado!
Com uma voz marcante e um jeito único de interpretar canções, ela conquistou o coração dos cariocas e também dois Grammys Latinos de Melhor Disco de Samba, com os álbuns Mart’nália Canta Vinicius de Moraes (2019) e +Misturado (2017). Em seu repertório, ela mistura samba, MPB e influências do jazz, sempre com seu estilo autêntico e descontraído.
Em seu mais recente projeto, Pagode da Mart’nália, a artista lotou a lona do Circo Voador e fez o público cair no samba ao som de clássicos dos anos 90. O sucesso foi tão grande que a casa, localizada no bairro da Lapa, abriu um show extra no último dia 14 de março. Mart’nália é, sem dúvida, uma das mais importantes sambistas da atualidade, e sua ligação com o Rio de Janeiro é profunda e inegável. Sua música e legado continuarão a inspirar e influenciar gerações.
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Foto: Michelle Beff/Divulgação
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Mulheres da Pequena África – Elas comandam o samba
Toda quarta-feira acontece a tradicional roda de samba Mulheres da Pequena África, comandada por duas cantoras e compositoras; Thais Villela, que é carioca, e Dora Rosa, remanescente indígena do Pantanal mato-grossense. Criada a partir do coletivo Mulheres do Samba Notícias com o objetivo de levar tradição, resistência e devolver o protagonismo feminino ao samba, a roda conta também com participações de sambistas de todo o Brasil.
As Mulheres da Pequena África formam um grupo diverso, composto por mulheres pretas, brancas, remanescentes indígenas, LGBTQIAPN+ e periféricas, o que se reflete no repertório escolhido para dialogar com o público, que traz a temática da sororidade, empoderamento feminino, luta antirracista e o combate à toda forma de intolerância, preconceito e discriminação.
E, como diz Dora Rosa em uma de suas canções, a presença feminina no samba deve ser enaltecida, cantada e ouvida em todo lugar: “Pode me chamar pra essa roda de samba arrumada, que eu vou. Uma voz feminina cantando uma rima eu quero escutar. Todas nossas pastoras encantam e cantam em qualquer lugar. Dona Clementina, Clara e Jovelina é tudo de bom. Viva Dona Ivone Lara, a Beth Carvalho, Leci e a Marrom”.
Serviço:
A roda de samba Mulheres da Pequena África acontece toda quarta-feira.
Local: Largo São Francisco da Prainha
Horário: a partir das 18h
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Foto: Uendell Vinícius
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Nathália da Silva
Jornalista, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Nathália da Silva é uma das lideranças que formam o Observatório Y-guassú, que surge com o objetivo de resgatar a memória ancestral e política da cidade de Nova Iguaçu, o maior município da Baixada Fluminense.
ImaginaRio: Sobre o nome do Observatório, pode explicar o motivo da escolha dessa grafia?
Y-guassú é uma referência à grafia original. O nome da cidade tem origem do Tupi Guarani e significa água/rio grande. A cidade de Nova Iguaçu é marcada por muitos mananciais, e, sendo uma cidade muito marcada pelas águas, a gente quis, já no nome do Observatório, trazer o resgate da memória ancestral da cidade. Até mesmo para que as pessoas tenham contato com o nome e entendam o que está por vir a partir dessa organização.
ImaginaRio: Como surge a ideia do Observatório Y-guassú e como ele se conecta com sua trajetória de vida?
O Observatório Y-guassú surge da união de jovens que participaram do curso de políticas públicas da Casa Fluminense, uma formação destinada a diferentes lideranças da região metropolitana do Rio de Janeiro, que visa fortalecer e criar conexões entre esses locais. Dentro desse processo, que eu participei no ano de 2024, conheci Johari Silva, liderança iguaçuana que já tinha pensamentos e desejos de criar essa organização com jovens lideranças. A partir do momento que a gente se encontra, começamos a confabular tudo que temos hoje; Pensamos nos nomes das pessoas que estão com a gente, hoje somos dez integrantes, e o que seria o Y-guassú de fato, muito no sentido de fortalecer nossa cidade com uma organização que olhasse para o passado com respeito e valorização, visando ao fortalecimento das lideranças.
E o Y-guassú se conecta com minha trajetória, porque eu sou cria do Morro do K11, que fica próximo ao centro de Nova Iguaçu. Quando você fala que é do K11, as pessoas associam a um bairro nobre. Só que dentro do K11 existe o Morro do K11, que é formado por quintais que se mantém até hoje, no modo de ancestralidade e ensinamento, fruto de uma herança quilombola que não é contada, e eu acho que é exatamente essa a função do Y-guassú: fazer o resgate da memória do que são nossos territórios, das potencialidades, da valorização dos ensinamentos dos nossos ancestrais, sobretudo valorização da oralidade, porque tudo que eu sei sobre o Morro do K11 aprendi através da fala, das histórias que me contam.
ImaginaRio: O Y-guassú é formado por jovens lideranças de Nova Iguaçu que se preocupam, entre outras coisas, em resgatar a contribuição de líderes comunitários que vieram muito antes de vocês. Qual o papel político do resgate da memória ancestral?
Eu acho que o papel político do resgate da memória é a verdade, a importância de contar a verdade. Quantos anos já se passaram desde o processo de escravização e a gente continua assistindo estátuas de colonizadores e de escravistas por aí? A própria rua onde fui criada tem o nome de um homem branco que eu nem sei quem é, mas que acaba tendo um destaque na cidade. As ruas de Nova Iguaçu, em sua maioria, têm nome de coronéis e barões. Então, o trabalho do Y-guassú acaba tendo o papel de contar a verdade sobre quem são essas pessoas que ainda hoje têm destaque e o que de fato elas fizeram com corpos semelhantes aos nossos, jovens lideranças, pessoas negras, indígenas, mulheres, LGBTQIAPN+. E também contar a verdade sobre a realidade do povo preto e indígena dessa cidade.
ImaginaRio: Um dos trabalhos que vocês têm desenvolvido é um mapeamento de lideranças sociais de Nova Iguaçu. Qual é a importância desse mapeamento?
Nosso principal objetivo com o mapeamento foi o de tecer uma rede de lideranças iguaçuanas. Nova Iguaçu é a cidade mãe da Baixada Fluminense, e a partir dela, outras cidades da Baixada foram se destrinchando. A gente tem a Cabana do Vulcão, um um espaço de ecoturismo, tem o Pantanal Iguaçuano, que tem a presença de pessoas ribeirinhas e pescadores que vivem da natureza, enfim, que precisam ter os seus direitos garantidos também. A gente tem territórios como Austin e Tinguá, que têm muita incidência no campo ambiental da coisa também. Também temos institutos super importantes, como o Tereza de Benguela, que pensa a racialidade, o direito de pessoas negras dentro da cidade de Nova Iguaçu. Enfim, a gente tem uma massa de oportunidades de se conectar. Então, o Y-guassú fez esse mapeamento muito no sentido de tecer essa rede de lideranças, para que esses projetos possam se conhecer, para que a gente possa democratizar oportunidades, editais e construir também essa troca coletiva através de reuniões territoriais e entender como os projetos têm sinergia, como está a situação de cada unidade regional, o que cada um está fazendo e fortalecer as lideranças para que elas pudessem se conhecer mais, expandir a sua visão das ações da cidade através do nosso trabalho.
ImaginaRio: A Cabana do Vulcão, localizada na Serra do Vulcão, onde existe um trabalho de ecoturismo que não chega a ser divulgado pela mídia, foi o local escolhido para imersão que marcou o início do Y-guassú. Como foi esse dia e por que a Cabana do Vulcão?
Para mim, falar da Cabana do Vulcão é essencial. Eu sou cria de Nova Iguaçu e só fui conhecer a existência da Cabana em 2024 a partir da minha amiga querida Suelen Sathler, que faz um trabalho maravilhoso de ecoturismo dentro desse espaço. A Cabana é um espaço de preservação ambiental ligado ao Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu, que é bem próximo do K11, meu território, mas que eu não tinha acesso até conhecer o trabalho da Suelen, que esteve comigo no curso de Políticas Públicas da Casa Fluminense. Foi crucial e inspirador para a gente estar nesse paraíso iguaçuano pensando a cidade de Nova Iguaçu.
Para acessar a entrevista completa, clique aqui.
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Cine Guaraci – Um filme nunca Morre
“Cine Guaraci – Um filme nunca morre” é um livro escrito por Tainá Andrade, mestra pelo PPGCine da Universidade Federal Fluminense (UFF) e doutoranda do programa de pós-graduação em Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Tainá nasceu em Rocha Miranda, zona norte carioca, no mesmo bairro onde o Cine Guaraci foi construído. Antes de ser desativado, o cinema foi uma sala imponente com mais de 1300 lugares, que exibiu filmes entre os anos de 1954 e 1989.
Atualmente o prédio onde funcionava o Cine Guaraci é ocupado por uma loja. No livro são abordadas questões que envolvem a luta dos movimentos locais pela retomada cultural do Cine Guaraci.
O livro está disponível no site da editora Multifoco https://www.editoramultifoco.com.br/shop/cine-guaraci-um-filme-nunca-morre-3058
Para conhecer mais sobre o Cine Guaraci, recebemos Tainá Andrade no episódio 32 do podcast La.Con.Quem?. Clique neste link para ouvir a entrevista completa: https://open.spotify.com/episode/2hH2HHg3yZxSyFUe0MxM6X?si=2d47c9f126ac404f
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🧑🏿🤝🧑🏻O ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro. Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no ImaginaRIO? Entre em contato com a gente pelas nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail laconuerj@gmail.com
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Coordenadores: Ricardo Freitas, Vania Fortuna
Bolsista Qualitec: Marcelo Resende
Equipe: Pedro Rubim, Pedro Favera, Juliana Nascimento, Laiza Villaça, Maria Helena Carmo, Rafael Nacif e Isadora Ortiz
Apoio:
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