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Rio de Janeiro, Fevereiro e Março…
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Natal nos mercados populares da cidade – Saara e Mercadão de Madureira
Final de ano é sinônimo de festa! O Natal e Réveillon são acontecimentos que suscitam a comunhão, o encontro com familiares, amigos e até parentes distantes. Ocasião propícia para almoços, ceias, churrascos, bacalhoadas e trocas de presentes. Nesse burburinho, cria-se uma necessidade de ir à rua comprar presentes e lembrancinhas, além dos quitutes para desfrutarmos à mesa.
O comércio de rua, os shoppings e centros comerciais têm um aumento significativo de suas vendas, além da galera que deixa tudo pra última hora. No Rio há duas localidades de comércio popular, que expressam bem essa efervescência das festas de final de ano: a Saara, na região central da cidade, e o Mercadão de Madureira. Além da variedade de itens, que vai do alfinete ao foguete, os preços altamente convidativos atraem uma grande quantidade de pessoas. Se esses locais já são cheios o ano inteiro, nessa época se transformam praticamente num “formigueiro” humano.
Os ambulantes também têm um local destacado nesse contexto. Em Madureira, as calçadas que contornam o Mercadão tornam-se quase que um shopping informal. Na Saara, além do camelódromo da Uruguaiana, os camelôs tomam as ruas do Ouvidor, Alfândega, Sete de Setembro, Buenos Aires de uma forma tão arrebatadora que fica até difícil a circulação dos transeuntes.
Ao final, o Papai Noel não é o único que carrega a sacola cheia de presentes. Mesmo com ruas lotadas, muito barulho, corpos suados se esbarrando e longas filas. O sacrifício vale a pena para comemorarmos o Natal com nossos familiares, amigos, e, de quebra, combinar o churrasco e a cervejinha do Réveillon.
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Maria dos Camelôs
Em 2003, foi criado o Movimento Unido dos Camelôs (MUCA), de onde emergiu a figura de Maria de Lourdes do Carmo, conhecida como “Maria dos Camelôs”, que se tornou uma importante liderança do movimento dos camelôs no Brasil. O MUCA é uma organização que busca garantir mais direitos e reconhecimento para a classe, como a legalização do comércio ambulante e melhores condições de trabalho nas ruas, onde muitos enfrentam abusos e repressão por parte das autoridades.
Maria dos Camelôs teve uma trajetória de vida marcada pela luta contra a marginalização e pela busca de melhores condições de trabalho para os vendedores ambulantes, ajudando o movimento a organizar manifestações e protestos, unificando a categoria em uma frente comum.
Ao longo dos anos, Maria dos Camelôs tornou-se uma voz importante na luta por direitos sociais e trabalhistas, sendo reconhecida por sua coragem e determinação em defender os interesses dos trabalhadores que, muitas vezes, são invisíveis para as autoridades e a sociedade em geral. Sua história é uma representação de resistência e mobilização social, mostrando a força dos camelôs como uma categoria de trabalhadores que merece respeito e reconhecimento.
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Saara, “o maior shopping a céu aberto da América Latina”
Formado por comerciantes em sua maioria turcos, libaneses, sírios e judeus, que já atuavam no local, o espaço conhecido como SAARA (Sociedade dos Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega) surgiu oficialmente em 1962, no Centro do Rio. Mas, na ocasião, tendo em vista a possibilidade de perderem os imóveis que ocupavam, devido às obras que a prefeitura almejava realizar na localidade, juntaram-se para lutar pela manutenção de suas lojas.
A região é muito procurada pela diversidade de produtos e serviços a preços acessíveis, além da facilidade de acesso (metrô, trem, ônibus e VLT). O quadrilátero da SAARA é formado pela Praça da República, rua dos Andradas, rua da Alfândega e Buenos Aires. Esse é seu ponto nevrálgico, mas sua influência vai além da Presidente Vargas chegando à Marechal Floriano.
Hoje também existe na SAARA um grande contingente de comerciantes chineses, que engrossam ainda mais o caldeirão cultural da região que tem mais de 1200 lojas. Em toda essa região, se vende de eletrônicos a pastéis, passando por roupas, bijuterias, brinquedos, jóias, roupas íntimas, artigos religiosos, tecidos, material de limpeza, papelaria, móveis, sebos… Um local propenso às compras. Mesmo não sabendo o que você quer, a imensa variedade de produtos te ajuda a encontrar.
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Rastros do Saara
Rastros da Saara: memórias das diásporas árabes e judaicas no centro da cidade do Rio de Janeiro é um artigo escrito por Daniela Martins Nigri, doutoranda e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com orientação do Prof. Dr. Mohammed Elhajji. O artigo busca resgatar memórias da diáspora, muitas vezes esquecida, pelos cariocas da população sírio-libanesa, pioneira no comércio e na habitação da região do SAARA.
O artigo e o mini-documentário têm como objetivo o resgate e junção de memórias tanto orais quanto visuais, fazendo uso de filmagens, fotografias, relatos, entrevistas para assim contribuir na formação de uma memória coletiva que perdurará por gerações. No texto também é possível observar as mudanças e marcas do tempo no centro do Rio de Janeiro – especialmente os despejos e construções de avenidas durante a Era Vargas – e que transformaram a região no que conhecemos hoje.
Assim, o artigo traz à tona memórias de um SAARA que pode não existir mais da mesma forma que foi um dia, mas que, aos trancos e barrancos, ainda mantém parte da sua tradição, seja no seu espaço físico ou na memória daqueles que estiveram em algum momento presente na sua formação.
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Nathalie Kassouf
Nathalie Kassouf, 36 anos, é neta de Youssef Haddad, fundador do El Gebal, localizado à rua Buenos Aires, 328. Fundado em 1958, hoje o restaurante é comandado pelo tio de Nathalie, Tony. El Gebal é um termo em árabe que significa “a montanha”, explica Nathalie.
Como foi a experiência da sua família ao chegar aqui no Rio e como vocês decidiram abrir o El Gebal?
Meu avô foi um imigrante libanês que veio para o Brasil sem conhecer ninguém, sem dinheiro, sem nada, aquela história do imigrante. E, aos poucos, foi trabalhando aqui trabalhando lá, até que fundou o El Gebal em 1958. Grande parte dos funcionários daqui trabalharam com o meu avô, boa parte tem muitos anos de casa. Trabalharam com ele há tempos. Aqui na região era comum lojas embaixo e, nos sobrados, os imigrantes moravam.
Como permanecer a história, legado e memória da tradição da família?
Fundamental, né? A tradição. A gente ‘obedece’ as receitas da forma mais tradicional possível. E eu acho que, por isso, o El Gebal é conhecido assim, como um dos restaurantes mais tradicionais da cidade. Não só pelo tempo, mas também pela execução dos pratos, né?!
Pesquisamos alguns artigos sobre esse esvaziamento da Saara, sobre esse remix que acabou virando a Saara e que acabou resultando, com o tempo, nesse esvaziamento de imigrantes sírios e libaneses. Você é da terceira geração, qual sua opinião sobre esse processo?
Acho que as coisas acontecem de forma muito natural. Os fundadores vieram numa situação econômica e histórica diferente da que a gente vive atualmente. Tinham outras pretensões, outras necessidades, construíram seus negócios e, de repente, almejaram coisas diferentes para seus filhos. Seus filhos almejam coisas diferentes dos seus pais e não deram continuidade ao negócio. Então, foi um pouco isso que aconteceu. E, se a gente parar pra pensar, também um pouco se renova, né? Quando os chineses chegaram aqui, também imigrantes, estão vivendo da mesma forma. Então é isso, acho que não teve essa continuidade porque os propósitos das outras gerações são diferentes.
Como foi a resistência do El Gebal durante a pandemia? Foi uma época muito difícil, muitas lojas fecharam e vocês conseguiram continuar.
Eu não estava mais trabalhando aqui nessa época. Mas meu tio manteve o quadro de funcionários e conseguiu passar por essa fase. A gente tem funcionários muito antigos na casa, desde a época que o meu avô a administrava, há 30 anos. E nós mantivemos isso. Temos muitos funcionários com esse tempo de casa.
Como foi crescer em uma cultura árabe, mas tão longe do Líbano, crescendo no Rio com uma cultura tão diferente?
O meu marido, ele é brasileiro, diz que o libanês é a única raça que nasce em qualquer país e segue dizendo que é libanês. Então, o descendente de libanês que nasce no Brasil, nasce em outro país e diz ‘eu sou libanês’. Porque é muito marcante dentro das nossas casas a cultura, a comida, e as duas se misturam. Por exemplo, na minha casa no dia a dia a comida nunca foi arroz e feijão, sempre foi comida árabe mesmo. Então, é muito natural, e a gente vai mesclando, sabe? Os meus amigos vão conhecendo mais a cultura libanesa e aí a gente segue se misturando.
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