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Fernando Cordeiro Barbosa
Nesta edição, entrevistamos Fernando Cordeiro Barbosa, professor credenciado ao Programa de Pós-Graduação em Defesa e Segurança Civil – PPDSC/UFF. Graduado em História pela Universidade Federal Fluminense, com mestrado e doutorado em Antropologia pela mesma instituição, Fernando atua principalmente nos temas: tipos sociais, migração, comunidade, mercado e feiras, antropologia do trabalhador, sociedade de risco e vulnerabilidade social.
ImaginaRio: As festas juninas são um elemento importante da cultura nacional, mas no Nordeste parecem ter uma relevância maior do que em outros locais do país. Como se deu essa associação tão estreita entre festas juninas e cultura nordestina?
Os festejos juninos estão enraizados na sociedade brasileira, apresentando características distintas, no tempo, no espaço e conforme as diferentes formas de existência no mundo social. A questão sobre a relação existente entre festas juninas e região Nordeste é por si só motivo de reflexões. Essa relação é realmente estreita? Por quais razões? Questionamentos desafiadores e importantes para a compreensão do mundo social. Todavia, não necessariamente podem ser respondidos satisfatoriamente, especialmente se o pesquisador não teve como objeto de estudo tais questões. Mas isso não impede a reflexão, pelo contrário, abre um leque de hipóteses para quem tangenciou e dialogou em suas pesquisas com tal temática.
A sociedade brasileira até meados do século XX era predominantemente rural. Após o advento do desenvolvimento da economia capitalista no Brasil, ocorrido especialmente após o fim da Segunda Guerra Mundial, o país vivenciou uma grande mudança social, com o crescimento dos parques industriais e a urbanização, passando a ser uma sociedade hegemonicamente urbana. Ressalto essa questão por conta da relação intrínseca entre festejos juninos e o mundo rural. As festas juninas são, em sua origem, festas de consagração da colheita. As comemorações juninas relacionadas a São João, São Pedro e Santo Antônio fazem parte da incorporação pela Igreja Católica de festas de origem pagã da antiguidade, que estavam associadas a um ciclo da natureza, como as estações do ano e a demarcação do período solstício de verão na Europa, e eram realizadas para se vislumbrar a fertilidade agrícola e humana.
As festas juninas geralmente nos encaminham simbolicamente a um passado idealizado no mundo rural. “Viva o São João na roça”. Festeja-se comendo milho: cozido, assado, pamonha. Batata doce na fogueira. Representações de uma boa colheita, fartura e fecundidade. Santo Antônio ajuda no patrimônio. Ai dele se não interceder: sua imagem ficará de cabeça para baixo até que o noivado se consuma. São Pedro abre portas. A origem pagã da festa da colheita, do sol e do fogo se imbrica com o catolicismo popular, cheio de promessas, adivinhações e superstições. Partes da região Nordeste são associadas a um passado lúdico, ao universo rural e à religiosidade popular. Os migrantes nordestinos que vieram para trabalhar no espaço urbano “sudestino” revivem nos festejos juninos esse tempo e lugar idealizado. A música de Luiz Gonzaga, presente nos festejos juninos, traduz bem essa saudade de um passado vivido, mesmo que seja por algum antepassado. A influência da migração massiva é grande nos centros urbanos. Migrar não é se aculturar, mas trocar percepções, visões de mundo e manifestações culturais. A estreita associação dos festejos juninos com a cultura nordestina é, em parte, fruto, portanto, do processo migratório.
Outra suposição dessa associação é a dinâmica social, que fez com que a região Nordeste se transformasse em um polo turístico de grandes dimensões e riqueza econômica, tendo como principal atrativo, além da natureza, a valorização de suas manifestações culturais, mesmo ocorrendo modificações ali e acolá. Foi o que aconteceu com as festas juninas, que se transformaram em evento de grande dimensão, objetivando atrair mais público. “Maior São João do Mundo”, com palcos enormes e estilização de roupas “caipiras”, investimento turístico e midiático que consolidou o casamento de longa data dos festejos juninos com a região Nordeste, que, pelo entrelaçamento consagrado, passaram a pular fogueira ainda mais juntinhos, mesmo com embalos e embalagens um tanto distintos da tradicional.
ImaginaRio: Como a migração nordestina contribuiu para a formação cultural e social do Rio de Janeiro?
A migração de nordestinos para o Rio de Janeiro tem grande contribuição e influência em diversas esferas do mundo social. As grandes transformações urbanísticas da cidade, ocorridas especialmente a partir dos anos de 1950, advieram, em grande parte, do trabalho dos migrantes de origem nordestina. Assim foi na edificação de prédios em diversos bairros da Zona Sul da cidade, nos quais alguns posteriormente passaram a atuar como porteiros nos edifícios que ajudaram a construir. Copacabana, por exemplo, em 1956 transformou-se em um grande canteiro de obras, com a edificação de 225 novos prédios. Os migrantes nordestinos contribuíram ainda para o potencial turístico da cidade, com a participação na construção de hotéis e em obras monumentais que marcam a grandeza do Rio de Janeiro, como a construção da Ponte Rio-Niterói. A necessidade de mão-de-obra de migrantes para o desenvolvimento da cidade potencializou a problemática habitacional para a classe trabalhadora, sendo a opção mais comum a moradia em favelas. Algumas das favelas cariocas são inclusive identificadas como territórios de migrantes nordestinos. As favelas do complexo da Maré surgiram juntamente com a presença de trabalhadores nordestinos na construção da Avenida Brasil, por sua vez, a favela da Rocinha cresceu juntamente com a construção de prédios na Zona Sul e a favela de Rio das Pedras, com a expansão da Zona Oeste da cidade.
Há ainda apropriações diversas de estilos de vida e formas de lazer e sociabilidade que vieram a ser monumentalizadas como lugares de memória coletiva dos migrantes nordestinos na cidade do Rio de Janeiro. O lugar que melhor simboliza tal constatação é a Feira de São Cristóvão, que se instituiu como sustentação de uma memória coletiva de um grupo de experiência comum, tornando-se ao longo de sua existência símbolo de um legado para a cidade, sendo um patrimônio que é construído, reivindicado e transmitido. A feira, assim, é referência para além do grupo social que lhe deu origem, sendo um bem simbólico para aqueles que a concebem como um espaço autêntico e alternativo de sociabilidade e lazer, constituindo-se até mesmo como um reduto da boemia carioca, que acolhe, madrugada adentro, notívagos de diversos cantos da cidade. A Feira de São Cristóvão, nesse sentido, é um espaço de diálogo entre universos sociais distintos, sendo lugar de mediação de tensões e expressão exemplar de alteridade cultural. É como se, simbolicamente, a partir dela houvesse a comunhão entre cariocas e nordestinos e Rio de Janeiro e Nordeste.
ImaginaRio: Quais são os principais traços culturais do Nordeste que se manifestam de forma mais marcante na vida cotidiana carioca?
Primeiramente, é necessário ressaltar que na região Nordeste há diferentes e variadas formas de expressão cultural, até porque essa região apresenta uma diversidade enorme, não só pela divisão por unidades da federação, mas também de ordem geográfica, ecológica, social e cultural. Algumas delas também estão presentes na vida social na cidade do Rio de Janeiro e se manifestam em diversas esferas da vida social, como na culinária, na música e na sociabilidade exercida em inúmeros espaços sociais. Muitas dessas expressões fazem parte do legado da migração de nordestinos para a cidade, todavia isto não quer dizer que a migração seja a única fonte de expressão cultural e social. A interlocução existente é também fruto de outros intercâmbios, como o turístico e os relativos às agências consagradoras de manifestações culturais, além da influência midiática. Entretanto, sem sombra de dúvida, foram os migrantes nordestinos os principais expoentes dessa inter-relação cultural.
A culinária qualificada nordestina tem forte presença na dieta alimentar e na vida cultural e social dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro. Além da Feira de São Cristóvão, há diversos restaurantes e bares no Rio de Janeiro em que pratos nordestinos, como carne de sol, baião de dois ou feijão-de-corda, geralmente preparados por migrantes cearenses, podem ser apreciados, alguns inclusive fazendo parte do roteiro gastronômico da cidade, sendo referência também para turistas estrangeiros, que, muitas vezes, são levados a esses lugares pelos cariocas. O preparo de tapioca em barraquinhas, cena típica no cenário nordestino, também tem presença no cenário carioca, especialmente nos centros comerciais dos bairros e em feiras livres. O queijo coalho na brasa, por sua vez, é uma iguaria comum nas famosas praias da Zona Sul e também nos subúrbios e Zona Norte da cidade, no carioquíssimo “churrasquinho de gato”. Tais situações revelam a composição de um ambiente múltiplo na cidade e são representativas da integração e da interlocução não apenas de diferentes comensalidades e sabores, mas de distintos estilos de vida e sociabilidade. O forró, uma manifestação musical considerada tipicamente nordestina, também tem espaço garantido na noite carioca. O forró faz parte da programação de diversos clubes e casas de espetáculo da cidade. Aliás, já faz certo tempo, especialmente a partir de meados da década de 1940, que estilos musicais apresentados como originários da região Nordeste do Brasil, como o xote e o baião, são apreciados e valorizados na cidade e mesmo nacionalmente, sendo Luiz Gonzaga um dos principais divulgadores das músicas nordestinas.
A migração de nordestinos para o Rio de Janeiro contribuiu ainda mais para a pluralidade de percepção de mundos e modos de vida na cidade. A complexa articulação de diferentes mundos sociais terminou por fomentar e reafirmar modos e valores pensados como específicos de um mundo arcaico e tradicional em uma sociedade pretensiosamente cosmopolita. É o caso das relações pessoalizadas e das redes de reciprocidade, que operam como base de sustentação emotiva, moral e de reprodução social desses agentes sociais. É importante salientar que a interculturalidade, engendrada pela troca de costumes, de experiências de saberes e de modos de perceber e agir no mundo, não acontece sem conflitos e preconceitos, mas que também, em determinadas situações, desencadeiam solidariedade e companheirismo. O fruto dessa interconexão de mundos sociais e de seus dramas é uma intrincada e intrigante simbiose da relação entre esses migrantes e os demais moradores do Rio de Janeiro, terminando por conferir um ethos particular ao já decantado estilo de vida existente na cidade do Rio de Janeiro.
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