Vol. 14, N. 53 ImaginaRIO – Rio de Janeiro: La Isla Bonita

imaginaRIO #53

ImaginaRIO #53 / Abril 2024

Rio de Janeiro, Fevereiro, Março…
Rio de Janeiro: La Isla Bonita

O Rio de Janeiro entre o fim de Abril e início de Maio estará movimentado da zona norte a zona sul.

Assim como em todos os anos, a igreja matriz de São Jorge em Quintino iniciou suas homenagens ao Santo guerreiro no dia 19/04 e se estendeu até 23/04, feriado oficial do padroeiro da cidade do Rio. A igreja teve missas de hora em hora e às 15h deu início a sua procissão, passeando com a imagem do santo pelas ruas de Quintino. O evento atraiu aproximadamente 1,5 milhões de devotos durante o dia e contou com sistema de segurança próprio pela CET-Rio.

São Jorge, além de ser tradicionalmente um santo católico, possui bastante representatividade popular na cidade do Rio devido a sua proximidade com Ogum, divindade cultuada em religiões afro-brasileiras. Devido a isso, o feriado também esteve recheado das tradicionais feijoadas em homenagem a ele, como a “Jorge canta para Jorge” com Jorge Aragão, na quadra da Unidos de Vila Isabel, entre outras espalhadas pelas escolas de samba da cidade.

Já no início de Maio, a praia de Copacabana receberá uma artista que também é considerada uma divindade para muitos.

Os rumores de que a “Rainha do Pop” Madonna viria ao  Rio de Janeiro para um show gratuito começaram no fim de fevereiro devido às “pistas” que o Banco Itaú – patrocinador oficial do evento – postou em suas redes sociais. A notícia gerou reações mistas nos cidadãos cariocas, que se preocuparam com os impactos deste megaevento na cidade, mas ao mesmo tempo se animaram pela grandiosidade dele, que está sendo tratado pela prefeitura como um “réveillon antecipado”.

Madonna celebra seus 40 anos de vida artística com um show que promete ser o maior de sua carreira, atraindo um público de mais de 1 milhão de pessoas. Durante todos esses anos, a cantora impactou a indústria musical por ser pioneira a conversar sobre pautas feministas e apoiar a causa LGBTQIAP+; o Rio de Janeiro, uma cidade conhecida por sua diversidade e acostumada a sediar megaeventos, vira o palco principal e única cidade na América do Sul a receber essa grande artista em 2024.

O palco ficará próximo ao hotel Copacabana Palace no dia 4 de Maio e a região terá um sistema de segurança idêntico aos do Réveillon, que acontece no mesmo local.  Madonna promete movimentar diversos setores da cidade; a rede de hoteis do Rio já confirma 100% de ocupação em Copacabana, além de um aumento de 20% nos hoteis de bairros próximos; os aeroportos também informam um acréscimo nas pesquisas de passagens para essa época.

E você, pretende assistir ao show da Madonna nas areias de Copacabana ou acompanhando a transmissão oficial do Multishow?

Personagem da Gema
Luiz Antônio Simas

No próximo dia 04, as areias de Copacabana vão sediar o maior palco a céu aberto do Rio de Janeiro, em um show internacional gratuito, que só se compara ao dos Rolling Stones, em fevereiro de 2006. Em paralelo, Copacabana também configura o cenário da principal festa de Ano Novo carioca, festa essa que reúne anualmente dois milhões de pessoas e carrega fortes laços com a Umbanda. 

Simas é também um grande compositor e é através das músicas que expressa ainda mais o seu amor e conexão com a religião. Com músicas feitas em parceria com artistas como Marcelo D2, Maria Rita e Fabiana Cozza, o compositor trata da temática religiosa em diversas canções, tendo como exemplos: Desse Jeito, Pra Curar a Dor do Mundo, Ogã de Ogum. Sendo as três músicas em especial, dedicadas também a sua devoção à divindade Ogum, comemorada no dia 23 do mês de Abril.

Ganhador do Prêmio Jabuti, a escrita de Simas ultrapassa a geografia carioca e trata com a mesma paixão a Umbanda. O escritor é responsável por diversos livros que tratam da religião, como “Fogo no Mato: A Ciência Encantada das Macumbas”, “Umbanda: Uma Historia do Brasil”, e em especial, ligadas ao mês de Abril, às obras “Ogum, O Inventor de Ferramentas” e “Guerreiro” em parceria com César Fraga.

A “terreirização” de Copacabana e as origens afrobrasileiras do hábito carioca são tema de pesquisa e inquietação para o historiador e escritor Luiz Antonio Simas, que para além da praia tem fortes laços com a principal data festiva carioca durante o mês de Abril: O dia de São Jorge. Filho de mãe pernambucana e pai catarinense, o escritor, historiador, educador e compositor debruça sobre a cultura popular e as brasilidades – festas, carnavais e religiosidades. E como um bom carioca, é apaixonado pela cidade. Dentre os livros publicados, já visitou lugares como o Maracanã, em “Maracanã: Quando a Cidade era Terreiro” ou até os mais diversos bairros da cidade, reunindo 34 crônicas no livro “O Meu Lugar”, que trata sobre o pertencimento às mais diversas regiões do município do Rio.

 

Rio Entre Esquinas
Praça Luana Muniz

“Tá pensando que travesti é bagunça?!”. Essa frase, dita em uma reportagem do Globo Repórter, eternizou a existência de uma grande personalidade carioca: Luana Muniz, também conhecida como “A Rainha da Lapa”. Luana foi uma travesti, garota de programa, cafetina e mãe, que ficou conhecida por acolher e prestar assistências a travestis, pessoas trans, e pessoas soropositivas, entre outros grupos em situação de vulnerabilidade social. 

Em 2017, após o falecimento de Luana, o coletivo artístico “Sarau do Escritório”, que costuma homenagear figuras importantes da cultura popular carioca, decidiu re-batizar a Praça João Pessoa, na Lapa, para Praça Luana Muniz. 

O casarão onde Luana Muniz abrigava os vulneráveis da Lapa ainda existe, funcionando como um ponto de acolhimento, educação e articulação política, através da Fundação Sementes de Luana Muniz, presidida por Darla Muniz. Além disso, as meninas do Casarão apresentam um podcast chamado “Tô de Cara”, que pode ser visto no canal do Youtube da associação.

Cercada por outros pontos famosos da Lapa, como o Ximeninho e o Bar da Cachaça, a praça é um local de muita relevância para o bairro. Apesar de não ser oficial, uma placa foi afixada em um dos prédios, e permanece lá. Então na próxima vez que você estiver por ali, lembre-se de que a Rainha da Lapa pisou naquele chão.

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Leitura do Mês

O Corpo Encantado das Ruas, de Luiz Antonio Simas.

Aproveitando o nosso “Personagem da Gema”, Luiz Antonio Simas, vamos falar de uma de suas últimas obras literárias: O Corpo Encantado das Ruas. Um livro que, de maneira didática, explica os principais fundamentos da umbanda e do candomblé, e nos traz à memória uma série de costumes dessas religiões que estão intrinsecamente ligados ao nosso modo de viver e existir, enquanto cidadãos cariocas, desde a canjica na semana santa à feijoada no dia de São Jorge. O autor também estabelece um paralelo entre as ruas da cidade do Rio de Janeiro e seu axé – definido por ele como “energia vital que está presente em todas as coisas e pessoas”. 

Simas destaca a importância de estarmos sempre intencionalmente em movimento para que sintamos a energia que emana da metrópole. Ele sugere que as ruas sejam ocupadas de forma encantada, espontânea, apaixonada e “malandreada”. Assim, é possível entender o significado de cada comemoração e se reconhecer como parte daquilo. Como diz o nosso querido Jorge Ben Jor, “Jorge é de Capadócia”, e vem com seu cavalo e sua lança para sua procissão que acontece todo dia 23 de abril no Rio:

“A imagem sai da quadra da escola, em Madureira, passa pela paróquia do santo, em Quintino, atravessa os bairros próximos e retorna à quadra no fim do dia. São Jorge é por aqui o protetor dos apontadores do jogo do bicho, abençoa rodas de samba, puteiros e balcões de botequins, trafega pelos trilhos dos trens suburbanos, povoa o imaginário das luas cheias e derrota os perrengues daqueles que matam, diariamente, os dragões cotidianos para sobreviver e festejar.”

A festa de São Jorge é um exemplo do “estar intencionalmente”. Os devotos com sua fé no coração e suas roupas estampadas com a imagem do santo é o que representa a vida e o encanto das ruas. Se você curte perspectivas diferentes, esse livro é excelente para tal, proporcionando uma leitura mais completa da cidade do Rio de Janeiro e suas raízes.

ImaginaRIO Entrevista
Ana Teresa Gotardo

Pergunta 1: O show de encerramento da Celebration Tour de Madonna, a ser realizado em Copacabana no próximo mês, tem sido visto com otimismo pelos meios de comunicação, que destacam o aquecimento do turismo e da economia local. Sabe-se, no entanto, que lado a lado à valorização do atrativo estético, cultural e econômico dos megaeventos para a cidade, emerge a narrativa da violência no espaço público carioca. Como você enxerga a representação midiática da violência no Rio pelos veículos estrangeiros e o que esperar da abordagem destes no que tange ao espetáculo?

O trabalho institucional de construção da imagem do Rio de Janeiro como destino turístico, como cidade com “vocação” para sediar eventos (especialmente de grande porte, ou mesmo megaeventos), vem andando lado a lado, ao longo das décadas, com as narrativas em torno da violência na cidade. Se, por um lado, órgãos públicos como a prefeitura, o governo do estado, a Embratur, dentre outros, em conjunto com empresas privadas que visam o lucro com essa promoção turística, com a exploração comercial dos diversos atrativos da cidade, tentam retomar, de tempos em tempos, esse grande potencial turístico da cidade, por outros, não há políticas públicas eficazes de combate à violência urbana.

No período olímpico, por exemplo, as narrativas oficiais-institucionais tentaram emplacar as Unidades de Polícia Pacificadora como modelo de combate à violência urbana. No entanto, as disputas de sentidos, já há algum tempo, vêm se complexificando: novas vozes fora do circuito midiático tradicional emergem e ganham o mundo, como quando Amarildo foi sequestrado e assassinado pela polícia que deveria “pacificar” as favelas. Há muitos trabalhos acadêmicos importantes sobre as UPPs, dentre eles a dissertação de mestrado de Marielle Franco. Essas disputas de sentidos em torno da construção da cidade olímpica na mídia internacional foram meu tema de estudo no mestrado e no doutorado: enquanto os discursos oficiais trabalhavam para construir um Rio “impossível de não se amar”, cidadãos excluídos dessas narrativas lutavam por seu espaço, na busca pelo direito à cidade, denunciando violências simbólicas e físicas cometidas em torno da necessidade da “pacificação”, mais que da cidade em si, dos sentidos a ela atribuídos internacionalmente, em nome de uma necessidade mercadológica de venda/consumo.

No que diz respeito ao show da Madonna, até o momento me parece que as notícias se encontram no âmbito das narrativas oficiais: a construção de um mega-show inclusivo (tendo em vista que é gratuito e em espaço público), que será realizado em um dos cartões-postais do país (praia de Copacabana), que tem por objetivo entrar para a história como um dos maiores shows do mundo, além de ser o encerramento de uma turnê de uma das maiores artistas pop de todos os tempos. Madonna carrega uma história de sucesso que agrega valor à construção de uma imagem desejada para a cidade, da mesma forma como o “espírito olímpico” agrega valor às cidades-sede dos Jogos. Para compreender os movimentos da mídia internacional, podemos fazer algumas perguntas: até quando essa construção narrativa estará nas mãos das instituições promotoras do evento? Há potencial de emergência das narrativas extraoficiais questionando essas narrativas oficiais? E, para além da disputa narrativa, há, de fato, ações para evitar questões relacionadas à segurança durante a realização do show, que poderia se tornar palco de espetacularização de uma situação já tão midiática e que poderia ferir ainda mais a imagem da cidade – lembrando que a violência estatal, física e simbólica, também é parte do problema?

Um evento como esse carrega um grande potencial para a cidade e para seus cidadãos, tanto no que diz respeito à sua imagem quanto em relação à ocupação do espaço público pelos cidadãos, no direito à cidade, no estar-junto. O planejamento e a execução do show devem considerar, no entanto, que o direito à cidade é de todos, não apenas de uma parcela (normalmente já) privilegiada da população.

 

Pergunta 2: Desde o engajamento em campanhas de conscientização sobre a AIDS nos anos 1980 até a celebração da cultura ballroom, Madonna é tida como forte aliada da agenda LGBTQIAPN+. Nas décadas que se seguiram, a rainha do pop estreitou os laços com a comunidade LGBT, utilizando o alcance que possuía frente aos meios de comunicação para desafiar estereótipos de gênero, raça e orientação sexual. Nesse sentido, até que ponto a cidade sediar um evento da magnitude esperada para o show da Madonna representa um reforço da marca Rio como cidade gay-friendly? 

O reconhecimento do Rio como uma cidade gay-friendly também é um sentido em constante disputa, seja nos discursos oficiais, seja na forma como a cidade (e o país) trata sua população LGBTQIAPN+.

No que diz respeito à disputa narrativa, na ocasião da construção da imagem da cidade Olímpica, o então prefeito Eduardo Paes investiu no potencial de consumo desse público, entendido pelo mercado como uma população com recursos financeiros e com desejo de viajar. Paes investiu em diversas frentes nesse ativo – inclusive na construção dessa imagem na mídia internacional, como trato em minha dissertação. 

No entanto, o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo – ou seja, a prática cotidiana diz o oposto do discurso mercadológico. Isso se intensificou ainda mais quando o então presidente Jair Bolsonaro disse que o Brasil não podia “ser um destino gay” (SIC). 

É interessante observar, aqui, a emergência de um novo tipo de violência urbana atrelada à imagem do Rio de Janeiro: se antes víamos somente as narrativas de violência atreladas ao tráfico de drogas, com um recorte claro de raça e classe, em um território específico (a favela), passamos a ver também a violência ligada a gênero e sexualidade. Vale ressaltar, claro, que a violência de gênero sempre esteve presente no caso dos corpos disponíveis para consumo: os corpos das mulheres-cis negras, ou mesmo das mulheres-cis brancas, ainda que em menor disponibilidade, sempre seminus nas imagens das praias, representados em planos fechados nas nádegas, e todos os problemas relacionados à sexualização, objetificação e fetichismo do corpo cis-feminino na dinâmica do consumo turístico. Essa violência simbólica, no entanto, é naturalizada na sociedade patriarcal e sempre foi colocada nas narrativas midiáticas como um ativo positivo da marca. O movimento que vemos da emergência dos discursos que denunciam a violência contra pessoas LGBTQIAPN+ em uma cidade que procura se posicionar como destino gay-friendly é de outra ordem, uma ordem que coloca em xeque o fato de a violência estar restrita a uma raça, a uma classe e a um território específico da cidade. Em minha tese de doutorado, há documentários que dizem claramente que o Rio não é um destino gay-friendly.

De toda forma, assim como todos os sentidos, esse também está em disputa. O show de Madonna pode, sim, ser uma estratégia para se reaproximar a cidade do público LGBTQIAPN+, em uma visão que, em primeira análise, me parece estritamente de pink money. Afinal, com a complexificação das disputas narrativas, deve-se ter uma estratégia muito mais sólida para se “fazer as pazes” com esse público, para que a ação tenha resultado ao longo do tempo. 

Vale ressaltar que essas estratégias de reposicionamento do Rio por meio de megaeventos são estratégias caras, custeadas principalmente com dinheiro público, e devem surtir efeito positivo para os cidadãos, não somente para retorno financeiro pontual para empresas privadas. Nesse sentido, esses eventos são apenas um ponto da estratégia, que deve ser fortalecida por meio de políticas públicas sólidas. Caso contrário, veremos o “legado” se esvair, seja ele físico ou simbólico, como vimos em relação aos Jogos Olímpicos.

🧑🏿‍🤝‍🧑🏻O ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro. Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no ImaginaRIO? Entre em contato com a gente pelas nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail laconuerj@gmail.com

Coordenadores: Ricardo Freitas, Vania Fortuna
Bolsista Qualitec: Marcelo Resende
Bolsista Proatec: João V. Bessa
Bolsistas: Carlos Matos, Pedro Rubim
Equipe: Alunos da Disciplina Estágio Supervisionado I Lacon (Laís Barreto, Luana Rodrigues, Romulo Amorim, João Vazquez, Bruno Silva, Alison Brandão) Maria Helena Carmo e Profº Roberto Vilela Elias
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