Vol. 10, Ed. 39 BERRO! – Xica Manicongo é tema do samba-enredo da Paraíso do Tuiuti

BERRO #39

BERRO #39

Berrando pelo Rio

Musical “Vinte!” no CCBB

O espetáculo musical “Vinte!”, escrito por Tainah Longras e dirigido por Mauricio Lima, estreia no CCBB-RJ em 13 de março de 2025, com sessões no Teatro III de quinta a domingo até 6 de abril. A peça apresenta uma narrativa ficcional sobre os movimentos artísticos negros dos anos de 1920 no Brasil, tendo como referência a montagem “Tudo Preto” (1926), da Companhia Negra de Revistas.

Inspirado pelo Harlem Renaissance, o espetáculo busca reconstruir narrativas sob uma perspectiva negra contemporânea, explorando conexões com artistas históricos como Pixinguinha e De Chocolat. No palco, teatro, dança e música se conectam, criando uma experiência baseada no choro, jazz e samba.

A montagem conta com a direção musical de Muato, direção de movimento de Rômulo Galvão, direção de arte de Júlia Vicente, produção de Bem Medeiros e iluminação de Dadado de Freitas. Os ingressos custam 30 reais, 15 reais a meia entrada e estão disponíveis  no site do CCBB.

 

Acontecimento
Xica Manicongo é tema do samba-enredo da Paraíso do Tuiuti

No desfile das escolas de samba do grupo especial do carnaval de 2025, a  Paraíso do Tuiuti levou para a Sapucaí a história de Xica Manicongo, a primeira mulher trans documentada no Brasil. Vinda escravizada do Congo no século XVI, Xica se recusava a aceitar as normas de gênero e a religião impostas pela sociedade colonial à época. Ela foi denunciada por sodomia em 1591 à Inquisição, em Lisboa, segundo o pesquisador Luiz Mott, que se debruçou sobre a história de Xica. Segundo a denúncia, Xica faria parte de uma “quadrilha de feiticeiros sodomitas” e resistia a usar roupas tradicionalmente masculinas. (Band).

O samba-enredo representou Xica Manicongo como um símbolo de resistência da comunidade LGBTQIAPN+. A narrativa se imprime como resposta àqueles que insistem em apagar e reduzir a luta histórica das pessoas dessa comunidade a “problema geracional”. O desfile contou com a presença de 28 ativistas trans como, por exemplo, a deputada federal Erika Hilton, a deputada estadual Dani Balbi e a doutora honoris causa da UERJ, Keila Simpson.
 

Fonte: Band G1

Berro Indica
Antes que me esqueçam, meu nome é Edy Star

Lançado em novembro de 2024, o documentário “Antes que me esqueçam, meu nome é Edy Star”, dirigido por Fernando Moraes, resgata a trajetória de Edy Star, cantor, ator e último remanescente do icônico disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”, gravado ao lado de Raul Seixas, Miriam Batucada e Sérgio Sampaio.

O filme conta com depoimentos de amigos, como Caetano Veloso, e do próprio Edy Star, que narram o pioneirismo do artista do “glam brasileiro”, a atuação no movimento Tropicália e a vivência de um homem assumidamente gay na Bahia e no Rio de Janeiro no período da ditadura militar.

Ao revisitar a carreira e a influência na cena artística, o documentário revela a ousadia e a irreverência de Edy Star, que desafiou padrões ao longo de décadas, tornando-se  referência na luta contra o preconceito no meio musical. Com depoimentos, imagens raras e trilha sonora envolvente, o filme é uma homenagem a um artista que ajudou a moldar a contracultura brasileira.

Fonte: Rolling Stone

LGBTQÍcones
Irmãs de Pau

Isma e Vita, ou melhor, As Irmãs de Pau, dupla da Zona Oeste de São Paulo, ganharam destaque ao remixar “Derretida” no álbum “After”, de Pabllo Vittar. Apesar de não serem irmãs biológicas, o nome reforça a irmandade entre pessoas trans e travestis.

A dupla se conheceu na escola e iniciou na música durante as ocupações secundaristas de São Paulo, em 2015. Além da carreira musical, atuam também no cinema, na moda e nas artes visuais. Na pandemia, encontraram na música um processo de cura e criaram o álbum “Dotadas” (2021), abordando suas vivências como travestis nas periferias de SP.

Apesar do reconhecimento público, ainda enfrentam dificuldades na carreira musical, criticando a falta de espaço para travestis no mainstream. Além do remix com Pabllo Vittar, a dupla colaborou recentemente com a cantora Sevdaliza. A atuação com artistas nacionais e internacionais simboliza um grande avanço, mas a necessidade de mais valorização no mercado musical aponta que a luta por ocupação em determinados espaços ainda é grande.

Fonte: G1

Leitura do Mês

ALÉM DE PRETO, VIADO”: LINGUAGENS E PRODUÇÕES DE SENTIDOS PROTAGONIZADAS POR BICHAS PRETAS NO COTIDIANO MIDIATIZADO” – Diego Cotta

A tese de doutorado intitulada “Além de preto, viado”: linguagens e produções de sentidos protagonizadas por bichas pretas no cotidiano midiatizado”, de Diego de Souza Cotta, é uma leitura potente para quem deseja compreender as interseções entre racismo e LGBTfobia na contemporaneidade, especialmente no contexto midiático.

A pesquisa analisa como jovens negros gays afeminados – que se reconhecem como bichas pretas – utilizam plataformas digitais, como o YouTube, para criar e divulgar narrativas que desafiam a subalternização social e cultural. Com rigor acadêmico e olhar sensível, Cotta explora como esses sujeitos produzem discursos que não apenas denunciam opressões, mas também constroem espaços de resistência e pertencimento.

A tese articula referencial teórico das áreas de Comunicação, Filosofia, Sociologia e Estudos de Gênero, incluindo autores como Stuart Hall, Judith Butler, Achille Mbembe, Sueli Carneiro e bell hooks. Além disso, propõe conceitos inovadores, como o “quilombismo midiático interseccional”, para descrever os espaços coletivos de fortalecimento identitário e cura afetiva proporcionados por produções audiovisuais.

Depoimento
Pedro Rubim

Olá, pessoal! Sou Pedro Rubim, estudante de Relações Públicas na UERJ e bolsista de iniciação científica do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (LACON). Depois de quase um ano e meio trabalhando no laboratório, me senti confortável para dar o meu depoimento nesta edição do Berro!

Falar sobre a minha vivência como LGBTQIAPN+ sempre foi um desejo, porém expor a minha experiência pessoal é um desafio. Apesar de transparecer que lido bem com todas as questões que me cercam como homem gay, no fim do dia, elas sempre impactam o meu emocional.

Falar sobre ser um homem gay também é falar sobre ter sido uma criança gay – não no sentido da sexualidade, mas na forma como as pessoas já enxergavam e julgavam os meus “trejeitos”. Lidar com a homofobia de forma tão precoce construiu barreiras que carrego até hoje: timidez, medo de chamar atenção e até mesmo de ser ouvido. Para algumas pessoas próximas, como parentes, o silêncio é uma situação confortável. No entanto, desde que comecei a construir um senso de pertencimento por meio da convivência com outras pessoas da comunidade, principalmente estudando na UERJ e atuando dentro do Lacon me sinto mais forte para romper limitações impostas pelo preconceito desde a minha infância.

Entendo, cada vez mais, que não esconder e enfrentar agressões físicas, verbais ou até mesmo as mais veladas do dia a dia são passos essenciais na luta contra as questões que me cercam. Estar em uma das maiores instituições de ensino da América Latina, ocupar um cargo na liderança estudantil da universidade e ser pesquisador na área da diversidade têm me ensinado e me dado a força necessária para me tornar um agente contra a homofobia – e para me tornar aquilo que eu tanto desejava ter na minha infância, ao enfrentar o preconceito vindo de parentes, pais, professores e colegas de turma.

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Coordenadores: Ricardo Ferreira Freitas, Vania Fortuna
Equipe LACON: Marcelo Resende, Pedro Rubim, Laiza Villaça, Juliana Nascimento, Pedro Favera, Isadora Ortiz e Rafael Nacif
O boletim Berro! Comunicação para a Diversidade tem a proposta de reunir notícias, artigos, dados representativos, ações, produtores e conteúdos com o foco LGBTQIAP+. Este boletim é uma realização do Laboratório de Comunicação Cidade e Consumo (Lacon/Uerj). Gostaria de divulgar sua pesquisa acadêmica, produção artística ou audiovisual, evento ou outro conteúdo relacionado a temáticas LGBTQIA+? Entre em contato com a gente através de nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail berrouerj@gmail.com  
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