BLOG | Vol. 6, No. 29-32 (ago. 2026) | N. 229

Uma pesquisadora em Paraty: o que minha primeira Flip revelou sobre a Bienal do Livro Rio

Visitantes fazem fila em frente à Casa Folha – Foto: Rafaela Araújo / Folhapress

Pesquiso eventos literários. Mais especificamente, investigo como a Bienal do Livro Rio vem se transformando nos últimos anos e como esse processo dialoga com as plataformas digitais, os influenciadores literários e novas formas de viver, compartilhar e consumir a leitura. Foi por isso que voltei da minha primeira Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada entre os dias 22 a 26 de julho de 2026, com a sensação de que tinha participado de um evento literário e, ao mesmo tempo, encontrado novas perguntas para a minha própria pesquisa.

Minha relação com a Bienal do Livro Rio começou muito antes do doutorado. Frequento o evento desde 2009. Durante muitos anos, ele aconteceu justamente na semana do meu aniversário, em setembro, e visitar a Bienal tornou-se uma tradição para comemorar essa data. Cresci associando aqueles dias às filas para comprar livros, às sessões de autógrafos, às mochilas pesadas no fim da tarde e à expectativa de voltar para casa carregando histórias. Antes de ser objeto de pesquisa, a Bienal já fazia parte da minha memória afetiva.

Talvez por isso minha primeira Flip tenha provocado um estranhamento tão interessante. A Flip, criada em 2003, transformou Paraty em um dos principais encontros literários do país. Durante alguns dias, escritores, leitores, editoras, pesquisadores e artistas ocupam a cidade histórica em uma programação formada por mesas, debates, oficinas, lançamentos e atividades culturais. Em Paraty, a literatura parece caminhar pelas ruas. Os casarões, as praças, os cafés e até o percurso entre uma mesa e outra fazem parte da experiência.

Foto: Rafaela Araújo/Folhapress
Foto: @agenciasairas

Enquanto caminhava pelas ruas de pedra, observava leitores sentados nas calçadas conversando sobre livros, pessoas aguardando o início das mesas e pequenas editoras espalhadas pelo centro histórico. Em muitos momentos, tive a impressão de que a cidade inteira respirava literatura. Foi impossível não comparar aquela experiência com a Bienal que frequento há tantos anos.

Essa comparação não nasceu da ideia de decidir qual evento é melhor. Os dois cumprem papéis diferentes e dialogam com públicos distintos. O que me chamou a atenção foi perceber que eles representam formas diferentes de organizar a experiência literária. E foi justamente ao conhecer a Flip que consegui enxergar com mais nitidez as transformações recentes da Bienal do Livro Rio.

Essa comparação não nasceu da ideia de decidir qual evento é melhor. Os dois cumprem papéis diferentes e dialogam com públicos distintos. O que me chamou a atenção foi perceber que eles representam formas diferentes de organizar a experiência literária. E foi justamente ao conhecer a Flip que consegui enxergar com mais nitidez as transformações recentes da Bienal do Livro Rio.

Roda gigante na Bienal do Livro do RJ — Foto: Giovanna Durães

Em 2025, a Bienal apresentou um reposicionamento importante ao adotar oficialmente o conceito de Book Park, definido pela organização como um “parque de diversões literárias”. A proposta aproximou o evento da linguagem dos grandes parques temáticos e dos festivais de experiência. Entre as atrações estavam a roda-gigante Leitura nas Alturas, o Labirinto de Histórias, o Escape Room, a Biblioteca Fantástica, novos palcos para conversas e entrevistas, além de espaços interativos e experiências imersivas distribuídas pelos pavilhões. O livro permanecia no centro da narrativa do evento, mas passava a dividir espaço com atrações concebidas para serem vividas, fotografadas, filmadas e compartilhadas.

Essa transformação não pode ser compreendida apenas como uma estratégia de entretenimento. Ela dialoga com mudanças mais amplas na forma como nos relacionamos com os eventos culturais. Como observam Elson Faxina e Pedro Gilberto Gomes (2016), a midiatização corresponde à constituição de uma nova ambiência social, um contexto em que os dispositivos de comunicação deixam de funcionar como ferramentas externas e passam a integrar o modo como percebemos, narramos e experimentamos o mundo.

Essa ambiência também estava presente em Paraty. Pessoas registravam fachadas históricas, gravavam vídeos durante as mesas, fotografavam cafés, editoras independentes, livrarias e encontros inesperados. A literatura circulava junto com celulares erguidos. A experiência vivida já nascia acompanhada pela possibilidade de circular nas redes sociais.

Ao mesmo tempo, havia um ritmo diferente. Depois das mesas, grupos permaneciam conversando por longos minutos nas praças. Leitores trocavam recomendações de autores que nunca haviam lido. Pessoas caminhavam sem pressa, descobrindo pequenas livrarias ou entrando em debates quase por acaso. A programação parecia se expandir para além dos espaços oficiais. A cidade funcionava como uma extensão natural da festa.

Na Bienal de 2025, minha impressão foi outra. Era comum encontrar filas para fotografar uma instalação antes mesmo de entrar nela, visitantes planejando vídeos para as redes sociais, criadores de conteúdo produzindo coberturas em tempo real e grupos esperando o melhor enquadramento diante das atrações do Book Park. Ler continuava sendo parte fundamental da experiência, mas registrar que se esteve ali também passava a integrar a visita.

Essa percepção me levou novamente a Guy Debord. Em A sociedade do espetáculo, o autor afirma que “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens” (DEBORD, 1997, p. 14). A ideia continua provocadora porque desloca a discussão das fotografias para as relações que elas organizam. As imagens deixam de ser um simples registro e passam a participar da forma como nos encontramos, compartilhamos experiências e produzimos sentidos sobre determinados acontecimentos.

Os influenciadores literários ajudam a compreender essa transformação. Paula Sibilia (2016) observa que as tecnologias digitais ampliaram as possibilidades de visibilidade e compartilhamento, criando condições para que experiências individuais se convertessem em conteúdo público. No universo dos livros, leitores passaram a ocupar um lugar de destaque ao comentar obras, recomendar leituras e formar comunidades em torno da literatura. Editoras e organizadores de eventos passaram a reconhecer esse potencial, aproximando booktubers, bookstagrammers e criadores de conteúdo de diferentes plataformas de suas estratégias de comunicação.

Não acredito que isso diminua a importância da crítica literária, dos escritores ou da mediação realizada por professores e pesquisadores. Trata-se de outro circuito de circulação dos livros, capaz de aproximar novos públicos e criar formas contemporâneas de descoberta da leitura. Ao mesmo tempo, esse movimento também integra um mercado em que visibilidade, alcance e engajamento adquirem valor econômico, como analisa Sibilia ao discutir as performances de si nas plataformas digitais.

Curiosamente, foi na Flip que compreendi melhor a Bienal. Ao observar um evento cuja programação continua organizada em torno das mesas literárias e das conversas entre autores e leitores, consegui perceber com mais clareza a dimensão da mudança ocorrida no Rio de Janeiro. A Bienal não deixou de ser um evento sobre livros. Ela reorganizou a maneira como esses livros são apresentados, aproximando a experiência literária da lógica contemporânea do entretenimento, da participação e do compartilhamento.

Essa reorganização também conversa com a cidade. Como lembra Ricardo Ferreira Freitas (2017), as cidades comunicam e constroem narrativas sobre si mesmas por meio de seus grandes eventos. Em 2025, quando o Rio de Janeiro recebeu da Unesco o título de Capital Mundial do Livro, a Bienal tornou-se uma das principais vitrines dessa narrativa. O evento passou a comunicar uma cidade que celebra a leitura por meio de experiências capazes de circular nacional e internacionalmente pelas mídias e pelas plataformas digitais.

Quando embarquei para Paraty, imaginava que estava conhecendo outro festival literário. Voltei entendendo melhor aquele que frequento desde a adolescência. Às vezes, é preciso olhar para um lugar diferente para perceber as transformações do lugar que sempre conhecemos.

Durante muitos anos, a Bienal foi o cenário de muitos dos meus aniversários. A Flip, agora, tornou-se o lugar onde encontrei novas perguntas para a pesquisa. Talvez seja esse um dos maiores presentes que os eventos literários possam oferecer a quem os estuda: lembrar que a literatura continua acontecendo nos encontros que ela produz — entre livros, cidades, leitores e diferentes maneiras de viver a experiência da leitura.

Referências

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FAXINA, Elson; GOMES, Pedro Gilberto. Midiatização: um novo modo de ser e viver em sociedade. São Paulo: Paulinas, 2016.

FREITAS, Ricardo. Da Cidade-espetáculo à Cidade-mercadoria: a comunicação urbana e a construção da marca RIO. Revista Eco-Pós, [S. l.], v. 20, n. 3, p. 49–65, 2017.

SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. 2. ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.


Isadora Ortiz é doutoranda em Comunicação pelo PPGCom-Uerj, onde é bolsista Capes. Mestre em Comunicação pelo mesmo programa e jornalista pela FCS Uerj. Desenvolve pesquisa sobre a Bienal do Livro Rio, com foco na midiatização dos eventos literários, nas plataformas digitais e nos influenciadores literários. Integrante do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj). E-mail: isadoraortiz.98@gmail.com.

Como citar:

ORTIZ, Isadora. Uma pesquisadora em Paraty: o que minha primeira Flip revelou sobre a Bienal do Livro Rio – Blog: Comunicação, Cidade e Consumo, Rio de Janeiro, v. 6, n. 29, 2026.

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