Chamado de “evento mais fashion do ano”, a edição anual do Met Gala aconteceu na primeira segunda-feira de maio em Nova Iorque, EUA. O evento realizado no Museu Metropolitano de Arte reuniu diversas celebridades sob o tema “Superfino: A Alfaiataria do Estilo Negro”, que retoma o revolucionário conceito do dandismo negro, inspirando-se no livro “Escravos da Moda: Dandismo Negro e o Estilo da Identidade Negra Diaspórica” de Monica L. Miller.

A obra estuda a relação de pessoas negras com a moda durante e após a escravidão, tecendo um diálogo com as estratégias de ressignificação criadas, como interpretavam os padrões tradicionais de sua época e as provocações que faziam a figura do aristocrata europeu através do uso de elementos estéticos. 

Não foi somente no tapete vermelho do baile novaiorquino que as sementes plantadas pelo dandismo negro foram colhidas e celebradas. Elas acompanharam o deslocamento de pessoas negras por eras, com diferentes interpretações de resistência e promoção do orgulho da identidade afro-diaspórica. 

O dândi negro

Quando sequestrada e aprisionada em navios negreiros, a pessoa negra passa pelo processo de esvaziamento de seus referenciais e cultura local, forçada a vestir-se com insignificância e falta de humanidade. A noção de individualidade não existe, como também passa longe o sentimento de pertencimento ao território. Na intenção de se aproximarem das narrativas que um dia viveram, muitos escravizados se apegavam a pequenos acessórios levados às escondidas, como, por exemplo, miçangas.

A imagem do escravizado também passou por mais algumas interferências estéticas. Visto pelo senhor como adorno, item de mobília, certificar-se de sua elegância era também um posicionamento ao nível de riqueza e estabilidade. Logo, o negro “domesticado” se aproxima dos códigos de vestuário do europeu, moldando sua própria identidade nos elementos oferecidos — variados cortes de terno em tecidos de alta qualidade, chapéus, cartolas, gravata e bengala. Da vaidade do senhor, o escravizado recebe ferramentas de empoderamento através da moda. Por isso, na primeira oportunidade, o dândi negro a agarrou e foi estratégico, fazendo dela sua aliada na caminhada de retomada da autoexpressividade.

O estilo do dândi trajado por homens brancos já conotava uma despreocupação com as noções de: “feminino demais”, “sensível demais”. Então, quando o homem negro se apodera dos elementos, ele acrescenta uma reflexão racial ao conceito. Agora, há a subversão de uma estética opressora para empoderadora, onde ideias de sexualidade, masculinidade, feminilidade, agressividade, sensibilidade e raça estão sendo desafiadas. 

Prelúdio de liberdade

Não meramente estética, a movimentação do conceito também alcança esferas políticas, como a reafirmação social, que, atrelada à tecnologia de expressão caracterizada no dandismo negro, influenciou os prelúdios de liberdade ainda no século XVIII. 

As tentativas de empoderamento de pessoas negras incomodou a branquitude. A represália veio por meio da criação do blackface, na qual, indignado, o homem branco tinge seu rosto com tinta preta para personificar o dândi negro e o ridicularizar em peças teatrais. A imagem libertária negra sofreu inúmeras tentativas de deslegitimação, com ataques diretos a sua postura e personalidade, cultivando o que hoje conhecemos como estereótipos raciais: o negro “irresponsável”, “atrapalhado”, “burro”, que, ao andar elegante e bem-vestido, insiste em não retornar para o seu “lugar de escravo”.

A diáspora africana nacional

O ato de se comunicar por meio das roupas foi um mecanismo dos afrodiaspóricos em se posicionar no mundo. No Brasil, os dândis contemporâneos podem ser encontrados na esfera artística musical. 

 

 

 

Dentre eles, está Luiz Melodia. O eterno “pérola negra” brasileiro exibia ao cantar seu cabelo black alinhado a um terno colorido, adornado por um colar de miçangas. A junção da arte manual ao refino fez de sua interpretação da moda tão sensível quanto as canções que escrevia.

 

 

 

Um indiscutível galã, Djavan arrebata com suas poesias e a arte de viver da liberdade identitária tão presente nos dândis negros. Como podemos ver na capa do disco “Lilás” lançado em 1984, quando o cantor une elementos que vão desde a romântica boina criada pelo europeu sobre os seus emblemáticos dreadslocks, ao ato de trajar um terno de linho que destaca a pele negra desnuda na base, a ousadia em curso é palpável.

 

 

Um referencial expressivo, Jorge Ben extrapola as noções de elegância, tecendo uma harmonia entre estampas, cores e acessórios. Na carreira musical, não há um único gênero que o caiba, visto como criador de um “estilo próprio”, o que o aproxima ainda mais do conceito do dandismo negro, onde as rédeas da autonomia são alcançáveis e é a pessoa negra quem está no controle.

 

Malandro bem-vestido

Para pessoas que vivem das ideias do conceito, ter a sua própria interpretação de elegância é como dar sentido à intelectualidade negra. Na sola do sapato que compõe a vestimenta do mestre de carnaval, na gravata engomada do jovem negro que vai à sua primeira entrevista de emprego ou no religioso chapéu de aba larga branco com listra vermelha de Zé Pelintra, o dandismo negro ganha diferentes ritmos no solo brasileiro. Envolto pela ancestralidade, fé e liberdade, foi com toda sua autonomia que o malandro bem-vestido decidiu explorar as ferramentas de opressão a seu favor, resgatando a temida subjetividade negra e a potencializando ao máximo. 

A malandragem nacional é mais que legitimada. Cantada por Bezerra da Silva, aprendemos que: “Malandro é malandro, mané é mané” / “Malandro é o cara que sabe das coisas, Malandro é aquele que sabe o que quer”. Tal separação valoriza a figura do negro como dono dos seus desejos, capaz de diferenciar o certo do errado e não “cochilar” para a vida. O sambista ironiza as imitações que fazem do conceito malandro, que vai além de saber falar, dando ênfase nas habilidades de comunicação e personalidade própria que alguém do meio deve ter. Pois, antes de tudo, é necessário atitude para fazer sua leitura individual de liberdade.

Referências:

“Escravos da Moda: Dandismo Negro e o Estilo da Identidade Negra Diaspórica” de Monica L. Miller

Um malandro inteligente e bem-vestido: Dandismo Negro