BLOG | Vol. 6, No. 29-32 (ago. 2026) | N. 230

Rio de Janeiro, “cidade partida”: reflexões sobre diferentes vivências em uma cidade em disputa

Cidades são muito mais do que simples territórios físicos. São lugares de construção simbólica, em que diversos tipos de corpos habitam o mesmo espaço. Sennett (2003) afirma que a cidade tem sido um locus de poder, em que os locais se tornaram coerentes e completos à imagem do próprio homem. O autor acrescenta, no entanto, que foi justamente nelas que essas imagens se estilhaçaram, no contexto de agrupamentos de pessoas diferentes que se apresentam umas às outras como estranhas.

É nesse cenário com múltiplas diferenças interpessoais que podemos encontrar cidades como a minha: o Rio de Janeiro. Conhecida como “cidade maravilhosa”, expressão criada pela poetisa francesa Jane Catulle Mendès após sua visita em 1911 à cidade, o Rio é tema de muitas manifestações artísticas que o descreviam sempre de forma exaltando suas belezas naturais, mas também evidenciando aspectos controversos na realidade de quem vive a cidade. 

Essa coexistência não é apenas um traço da cidade observado por artistas ou pesquisadores. Ela também atravessa as experiências cotidianas de quem vive e ocupa seus espaços.

Nos versos eternizados pela minha xará, Fernanda Abreu, em Rio 40 graus, é possível perceber uma cidade marcada por tensões, onde a “beleza e caos” convivem em um mesmo espaço. A música retrata essas contradições ao evidenciar um cenário de desigualdade social e econômica, violência urbana e contrastes que fazem do Rio de Janeiro um verdadeiro espaço onde cabem o melhor e do pior do Brasil.

É um privilégio poder viver a cidade em sua plenitude, ocupando os lugares mais belos e conseguindo obter os melhores registros que ela pode oferecer. Porém, não é só de glamour e flashes que uma cidade pode ser vivida. A mesma cidade onde ocupam aqueles que celebram e acolhem também abriga aqueles que excluem e repudiam diferentes corpos que tentam habitar os seus espaços.

“De um lado esse Carnaval”: a cidade como espaço de festa, cultura e arte

Há pouco mais de dois anos, iniciei minha jornada como pernalta. Era algo que admirava e queria fazer havia algum tempo, mais precisamente, desde que vi um bloco do Rio de Janeiro formado exclusivamente por mulheres no Carnaval de 2020. Na ocasião, lembro de olhar para cima e ficar encantada com aqueles corpos movimentando-se coreograficamente, parecendo tão seguros realizando algo que eu considerava tão difícil naquele momento.

Até pouco tempo, eu encarava essa experiência apenas como uma forma de diversão. No entanto, depois de viver dois Carnavais como pernalta, passei a observar com mais atenção o meu entorno e percebi que a minha presença ali significava muito mais do que uma experiência individual.Podemos dizer que, por alguns momentos durante o Carnaval, nós, como pernaltas desse megaevento, emprestamos nossos corpos à cidade. Eles deixam de ser apenas nossos e passam a integrar o patrimônio simbólico daquela festa, fazendo parte da paisagem natural a ser compartilhado por moradores e visitantes.

Olhares de admiração, câmeras apontadas, pedidos de foto, gritos e palavras de afeto passam a ser dirigidos àqueles corpos elevados. Por alguns instantes, eles deixam de representar apenas indivíduos e tornam-se parte da própria experiência coletiva da cidade durante a festa.

Desfile da Orquestra Voadora 2025 / Acervo pessoal da autora
Desfile da Orquestra Voadora 2025 / Foto: Carlos Portela

“Miss beleza, miss beleza universal”: os diferentes corpos que habitam a cidade

Não é só no Carnaval que vemos a presença de corpos diversos. Eles existem e existiram desde sempre, embora apenas em datas e ocasiões específicas tenham maior liberdade para se expressarem.  Essa compreensão é especialmente importante quando pensamos a cidade como um espaço de convivência entre diferentes formas de viver.

Em “Problemas de Gênero” (2003), Butler faz uma série de questionamentos sobre corpos, dialogando com importantes teóricos que discutiram o tema para embasar seus argumentos. Inicialmente, ela faz uma crítica quanto à definição da categoria “mulheres”, que, para ela, não deveria ser compreendida como única e permanente. Para a autora, essa categoria, na verdade, é produzida por discursos e relações de poder que constroem e limitam sua definição. 

Partindo da ideia de que o sujeito “mulher” não é algo fixo, Butler afirma que o gênero é performativo, ou seja, é algo que fazemos e repetimos, criando a ilusão de naturalidade, como se fosse algo que sempre existiu, mas que, na verdade, é moldado pela cultura e pela história. Essa definição permite compreender como as diferenças de gênero são socialmente construídas e naturalizadas, produzindo hierarquias que também se expressam na ocupação e no acesso aos espaços.

Louro (2019) reforça a ideia da desigualdade no acesso e na ocupação dos espaços urbanos ao afirmar que, em nossa sociedade, “a norma que se estabelece, historicamente, remete ao homem branco, heterossexual, de classe média urbana e cristão” (Louro, 2019, p.9), tornando-se a referência que “não precisa mais ser nomeada”. 

Assim, a norma não precisa ser justificada, enquanto os demais grupos sociais, como mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas pretas e outros grupos minorizados, precisam constantemente legitimar seus corpos nos mais variados espaços, incluindo as cidades. 

“Eu quero é botar meu bloco na rua”: a cidade como local de protesto

Tenho emprestado cada vez mais o meu corpo em prol do ativismo. Por muito tempo, me sentia acuada de associar minha imagem à alguma luta, por mais justa que fosse. Só que hoje vejo que não é sobre mim, porque eu pouco importo diante dos problemas estruturais que temos e devemos combater. É sobre o mínimo que faço que pode fazer diferença no futuro. No futuro que quero para mim e para quem eu mais amo, que tem ainda muitos anos de vida pela frente.

Nesse sentido, a cidade também passou a ser para mim um local de protesto. Ao lado do coletivo Gigantes na Luta, pude ocupar as ruas da cidade nos principais atos de lutas de mulheres, como o Levante Mulheres Vivas e o 8M – Dia Internacional da Mulher, ambos realizados na Praia de Copacabana. 

É curioso pensar que, o mesmo local em que estive com o punho em riste ao lado de tantas para defender direitos de mulheres, já foi palco também de manifestações convocadas por apoiadores de Jair Bolsonaro, reunindo milhares de pessoas. Atualmente, o Rio de Janeiro pode ser considerado um importante reduto bolsonarista, como é chamado o fenômeno político do avanço da extrema-direita no Brasil. Nas eleições de 2022, Bolsonaro foi o candidato mais votado para a Presidência da República no município do Rio de Janeiro, tendo recebido 52,66% do total dos votos.

Essa pluralidade de ideologias políticas pode ser comprovada por meio dos resultados das últimas eleições municipais. Com base nos dados do Portal G1, é possível verificar que, entre as 51 cadeiras ocupadas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, 70,6% são ocupadas por vereadores de partidos de centro-direita, direita ou extrema-direita, 23,5% de centro-esquerda ou esquerda e 5,9% de centro. Vale ressaltar que o atual prefeito é de um partido considerado de centro.

Gigantes na Luta no 8M 2026/ Foto: Bezerra
Gigantes na Luta no Levante Mulheres Vivas 2026 / Foto: Consuelo Fernandez

Uma “cidade partida”, uma cidade polarizada

A alcunha de “cidade partida” atribuída ao Rio de Janeiro vem do título do livro de Zuenir Ventura, que retrata uma cidade marcada pela desigualdade social, convivendo entre realidades radicalmente distintas.

Neste texto, a expressão “cidade partida” extrapola a divisão socioeconômica descrita por Ventura para representar uma cidade inserida em um Brasil polarizado e em um mundo igualmente marcado por conflitos políticos. E é nesse contexto que está o Rio de

Janeiro, que evidencia esses movimentos de disputa, que impactam diretamente a vida e os corpos dos grupos minorizados.

O fato de grupos conservadores e progressistas ocuparem o mesmo espaço (Praia de Copacabana), ainda que em momentos e por motivações distintas, ilustra essa coexistência de projetos de sociedade em permanente tensão.

Nessa disputa por espaço e poder, é importante retomar a conhecida citação de Aristóteles, registrada por Sennett (2003, p. 13): “uma cidade é construída por diferentes tipos de homens; pessoas iguais não podem fazê-la existir”.

Referências:

SENNETT, Richard. Carne e pedra: o corpo e a cidade na civilização ocidental. 3. ed. Tradução de Marcos Aarão Reis. Rio de Janeiro: Record, 2003.

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/11/09/a-historia-da-francesa-que-se-encantou-pelo-rio-e-criou-a-expressao-cidade-maravilhosa.ghtml.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

LOURO, Guacira (org). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/09/07/apoiadores-de-bolsonaro-protestam-em-copacabana.ghtml.

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2024/resultado-das-apuracoes/rio-de-janeiro.ghtml.


Fernanda Rufino é pesquisadora do Lacon. Mestranda em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom) da Uerj, Especialista em Gestão de Marketing (UFRJ) e Gestão Empresarial (FGV), além de graduada em Relações Públicas (FCS/Uerj). Temas de pesquisa: gestão da diversidade e comunicação organizacional. E-mail: ferufino@gmail.com

Como citar:

RUFINO, Fernanda. Rio de Janeiro, “cidade partida”: reflexões sobre diferentes vivências em uma cidade em disputa – Blog: Comunicação, Cidade e Consumo, Rio de Janeiro, v. 6, n. 30, 2026.

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