No dia 20 de fevereiro de 2026, a pesquisadora Isadora Ortiz defendeu, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGCOM/UERJ), a dissertação “Por motivos de #ElenaFerrante: práticas de fãs da Tetralogia Napolitana e o city branding espontâneo de Nápoles”. O trabalho foi orientado pelo Prof. Dr. Fausto Amaro (FCS/UERJ) e avaliado por uma banca composta também pelo Prof. Dr. Ricardo Ferreira Freitas (FCS/UERJ e coordenador do LACON) e pela Prof.ª Dra. Tatiana Oliveira Siciliano (PUC-Rio).

Na pesquisa, Isadora investiga como obras literárias podem influenciar a forma como cidades são imaginadas e experimentadas pelos leitores. O estudo analisa especificamente a Tetralogia Napolitana, da escritora italiana Elena Ferrante, observando como leitores e fãs da série produzem sentidos sobre Nápoles em diferentes ambientes digitais.

Por motivos de #ElenaFerrante: quando as histórias atravessam as páginas e chegam às cidades
Fonte: Editora Globo / Biblioteca Azul

O estudo dialoga com o campo da cultura de fãs, considerando que o vínculo afetivo que leitores constroem com histórias e personagens pode gerar novas formas de participação e criação. Movidos por esse afeto, fãs produzem conteúdos, compartilham interpretações e criam novas narrativas sobre os lugares associados às obras que amam.

A análise reúne materiais produzidos por fãs, como roteiros turísticos, um mapa interativo, publicações em redes sociais, tatuagens e resenhas literárias. A partir desse corpus, a dissertação mostra que as narrativas literárias podem contribuir para processos de city branding, isto é, para a construção simbólica da imagem de uma cidade, mesmo quando esse movimento surge espontaneamente das práticas dos leitores. Nesse contexto, a pesquisa também menciona intervenções urbanas realizadas no bairro onde se passa a história: fotografias oficiais da série foram impressas e coladas nos muros como parte da exposição My Brilliant Friend: Views from the Set, reproduzindo cenas da adaptação televisiva da HBO inspirada nos livros de Elena Ferrante.

Assim, a cidade deixa de ser apenas cenário da história e passa a ocupar também o lugar de personagem, experiência e destino cultural, despertando afetos, viagens e novas formas de relação entre ficção, fãs e espaço urbano.

A pesquisa também mostra como interesses pessoais e experiências de fandom podem se tornar objetos legítimos de investigação acadêmica, revelando o potencial analítico das relações entre cultura midiática, práticas de fãs e imaginários urbanos.

A dissertação completa pode ser consultada na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da UERJ (BDTD): [clique aqui para acessar o PDF da dissertação].

Como parte desse trabalho, a autora escreveu uma dedicatória que resume o espírito da pesquisa e sua relação com literatura, imaginação e cidade. Leia a seguir:

Dedicatória

Dedico esta dissertação ao poder dos livros e das narrativas que atravessam o papel, a tela e a imaginação para se tornarem parte da vida real.

Desde cedo, aprendi que os universos ficcionais não se limitam às páginas ou aos episódios: eles habitam nossos sonhos, influenciam nossas escolhas e despertam em nós o desejo de viver algo além da própria história. Quem nunca terminou um livro ou uma série e quis caminhar pelas ruas onde os personagens viveram suas aventuras, sentir os cheiros, ouvir os sons, experimentar a vida que parecia possível ali? É nesse encontro entre o real e o imaginado que esta pesquisa encontrou sua força.

Universos como o de Bridgerton, por exemplo, reacenderam a vontade de passear por Londres em busca das casas, dos bailes e dos cenários da alta sociedade que a ficção popularizou. Outras obras literárias adaptadas para o cinema e a televisão, como Orgulho e Preconceito, Game of Thrones ou Outlander, também mostraram que a literatura tem o poder de transformar cidades e regiões em destinos de peregrinação cultural. São mundos inventados que moldam rotas turísticas, movimentam economias e, sobretudo, criam vínculos afetivos duradouros entre leitores, fãs e lugares.

No entanto, entre todos esses universos, a Tetralogia Napolitana ocupa um lugar especial. As páginas de Elena Ferrante contam uma história e, ao mesmo tempo, constroem uma Nápoles diversa, contraditória, cheia de dores e encantos. Uma cidade que se oferece como palco, mas também como personagem viva, que se impõe, desafia e acolhe. Ao me debruçar sobre essa narrativa, não encontrei apenas Lila e Lenu, mas também uma nova forma de olhar para as cidades, para os fãs e para o impacto que a literatura pode ter no mundo.

Ser fã, afinal, é desejar atravessar esse portal entre o imaginário e o concreto. É acreditar que um livro pode nos levar a outros países, que uma série pode criar novas tradições de viagem, que personagens inventados podem nos ensinar sobre a vida real. Foi esse sentimento que me motivou a pesquisar, a escrever e a transformar minha própria paixão em objeto acadêmico.

Dedico, portanto, este trabalho a todos que, assim como eu, acreditam que as histórias que amamos não terminam quando viramos a última página ou quando a tela escurece no último episódio. Elas continuam vivas, reinventando os lugares, unindo pessoas e nos lembrando que imaginar é também uma forma de existir.

Sobre a pesquisa:

ORTIZ, Isadora. Por motivos de #ElenaFerrante: práticas de fãs da Tetralogia Napolitana e o city branding espontâneo de Nápoles. Dissertação de Mestrado em Comunicação. Faculdade de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2026.

Por motivos de #ElenaFerrante: quando as histórias atravessam as páginas e chegam às cidades