Salve o Almirante Negro

Estamos, de novo, em novembro, de novo: o Mês da Consciência Negra.

O Mestre-Sala dos Mares, de João Bosco e Aldir Blanc:

“Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar, na alegria das regatas
Foi saudado no porto
Pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas Jorravam das costas dos negros
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que a exemplo do marinheiro gritava, então: Glória aos piratas, às mulatas, às sereias, glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa História
Não esquecemos jamais…
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais”.

Estávamos em meados de novembro de 1910. O Marechal Hermes da Fonseca (1855-1923) havia assumido a presidência da República há poucos dias. Mais precisamente em 15 de novembro. Estava numa recepção, em sua homenagem, quando eclodiu a Revolta da Chibata.

O motivo? A Marinha brasileira usava do hábito de dar chibatadas em seus marinheiros, entre outros castigos violentos. A grossa maioria deles era negra. No dia da explosão da Revolta, um destes marinheiros havia recebido 250 chibatadas. O marinheiro chamava-se Marcelino Rodrigues Menezes. Foi amarrado ao mastro de um encouraçado e levou 250 chicotadas.

A violência absurda contra o colega foi o estopim da Revolta. Os revoltosos decidiram apontar os canhões de navios em que estavam para o Rio de Janeiro. Eles queriam que o castigo e os maus-tratos fossem suspensos pela Marinha do Brasil.

O Congresso Nacional decidiu, então, estabelecer um projeto de lei que votaria a proibição dos castigos físicos aos marinheiros brasileiros, além de anistiar os rebelados. O projeto foi aprovado. Na noite do dia 26 de novembro, os marinheiros ficaram sabendo que o governo havia aceitado sua proposta e depuseram as armas.

Se havia concordado, de início, com a anistia concedida pelo Congresso Nacional aos marinheiros, o presidente marechal acabou cedendo às pressões da Marinha do Brasil e voltou atrás, permitindo que aqueles fossem presos e sofressem violência. Praticamente todos foram presos e mortos pelo almirantado.

Foi logo após a anuência do presidente marechal, logo após a rendição dos marinheiros, que a perseguição começou. Centenas deles foram expulsos da Marinha brasileira por indisciplina. No começo de dezembro outra revolta de marinheiros se iniciaria, mas na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, que segue pertencendo à Marinha. Esta revolta logo fracassou, e os marujos foram presos em uma fortaleza na ilha.

Chamado de Almirante Negro, João Cândido Felisberto (1880-1969), um dos líderes da Revolta, foi um dos raros sobreviventes. Num depoimento de Cândido concedido ao historiador Hélio Silva (1904-1995), ao jornalista Ricardo Cravo Albin (1940), entre outros, nosso Almirante Negro conta ter sido preso com outros marinheiros da Revolta numa masmorra medieval na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro.

Era dezembro. Na véspera, gentes haviam ouvido gritos de socorro abafados e nada fizeram. Relata João Cândido:

“A prisão era pequena e minava água por todos os lados. As paredes estavam pichadas. A gente sentia um calor de rachar. O ar, abafado. A impressão era que estávamos sendo cozidos dentro de um caldeirão. Alguns, corroídos pela sede, bebiam a própria urina. Fazíamos as nossas necessidades num barril, que, de tão cheio de detritos, rolou e inundou um canto da prisão.

A pretexto de desinfetar a prisão, jogaram água com bastante cal. Havia um declive e o líquido, no fundo da masmorra, se evaporou, ficando a cal. A princípio ficamos quietos, para não provocar poeira. Pensamos resistir os seis dias da solitária, com pão e água. Mas o calor, ao cair das 10 horas, era sufocante, Gritamos. Nossas súplicas foram abafadas pelo rufar dos tambores. Tentamos arrebentar a grade. O esforço foi gigantesco. Nuvens de cal se desprendiam do chão e invadiam nossos pulmões, sufocando-nos. A escuridão era tremenda. A única luz era um candeeiro a querosene.

Os gemidos foram diminuindo, até que caiu um silêncio profundo dentro daquele inferno, onde o Governo Federal, em que confiávamos cegamente, jogou 18 brasileiros com seus direitos políticos garantidos pelo Congresso Nacional. Quando abriram a porta, já tinha gente podre. O médico do Batalhão naval negou-se a fornecer atestados de óbito com morte natural. Retiraram os cadáveres e lavaram a prisão com água limpa, e os únicos sobreviventes, fomos metidos, novamente, na desgraçada prisão. Lá fiquei até ser internado como louco no hospício”.

Mas, antes, contudo, foi expulso da Marinha. Viveu uma vida miserável, trabalhou como estivador e descarregador de peixes na Praça XV, também no Rio de Janeiro.

Em 2024, a Marinha do Brasil voltaria a açoitar João Cândido. Mostrou-se contra a inclusão dele no panteão de Heróis da Pátria. Estamos de novo em novembro, de novo, do ano de 2025.


Referências:

Cristina Nunes de Sant’anna é jornalista, doutora em Ciências Sociais pela Uerj e com pós-doutorado em Comunicação pelo LACON/Uerj. Atua também como pesquisadora associada do LACON e Harpia (Uerj).

 

O Mestre-Sala dos Mares