Rafael Nacif | Dezembro 2020

Um dos livros mais polêmicos da história da indústria cultural norte-americana é o book fotográfico “Sex” da cantora Madonna, lançado como parte de um contrato multimilionário com o grupo Warner, em 1992, acompanhado de uma turnê mundial chamada “Girlie Show Tour”, de dois longa metragens chamados “Corpo em evidência” e “Olhos de serpente” e o álbum musical “Erotica”. O show passou pelo Brasil em novembro de 1993, no estádio do Maracanã, berço do futebol carioca, a verdadeira paixão nacional, com patrocínio da cervejaria Antarctica, à época a maior concorrente da Brahma.

Falar sobre as estratégias de marketing da cantora Madonna é um exercício de imenso prazer e que exige um estofo e uma disciplina que só a própria Madonna consegue ter. Dando continuidade ao seu plano de dominar o mundo, como ela aparece vaticinando em uma entrevista filmada em VHS do início da carreira, a cantora Madonna fez, em 1992 (quando eu tinha treze anos), um dos empreendimentos mais sofisticados da indústria cultural norte-americana, a fonte original das técnicas de publicidade e vendas que informam o marketing ao redor do mundo. Especialista em chocar detratores e críticos das mais diversas procedências, Madonna aparece, pela primeira vez na história da indústria da música, nua em pelo, rodeada de celebridades como Isabella Rossellini, Naomi Campbel, Ingrid Casares, Vanilla Ice e Big Daddy Kane, entre outros. Madonna usou uma técnica de exposição pública de sua intimidade com uma elaboração estética acima do normal de autoria do fotógrafo de moda Steven Meisel e sob a direção de arte de Fabien Baron. Madonna aparece trajada de sua própria nudez em público pela primeira vez num produto pensado, planejado e gerenciado por ela própria de forma sublime como uma dominatrix que leva o nome da atriz de filmes mudos dos anos 1920 Dita Parlo. Madonna edita sua própria Playboy, trocando em miúdos.

A partir deste trabalho, as portas da causa LGBT se abrem para Madonna, com o aval de seu irmão Christopher Ciccone, o responsável pelo planejamento da turnê, dos cenários aos figurinos que ficaram por conta de ninguém menos que a dupla Dolce & Gabanna. Muito antes de Lady Gaga, Madonna compreende que moda e música andam juntas no mundo das celebridades, e como ninguém tem usado de Jean-Paul Gaultier a Moschino com propriedade e exuberância, transformando seus vídeos musicais em peças de difusão de uma ideologia de igualdade de gênero, a partir do ponto de vista do feminino, prioritariamente, sem a ingenuidade e o pastiche de cantoras como Mariah Carey e outras cujo alcance vocal parece ser mais extenso do que o da própria Madonna.

A cantora, atriz, diretora, artista e celebridade Madonna aparece no pool de produtos de 1992 como uma locomotiva pró-LGBT, defendendo as liberdades sexuais e a realização das fantasias mais obscuras de seus fãs, passando pelo universo sadomasoquista com maestria e elegância únicas, guiada pelo ator Udo Kier e pelo DJ e produtor Shep Pettibone, o colaborador do megahit “Vogue” que, de forma irônica, dá início ao álbum “Erotica” com o chiado de uma agulha de vinil no LP, sendo que aquele foi um dos primeiros trabalhos da cantora a ser editado em formato digital de forma mundial, já que a tecnologia do Compact Disc vinha substituindo paulatinamente a fabricação de vinis e os CD players substituíram os equipamentos analógicos nos clubes noturnos de Nova Iorque e do mundo.

O álbum “Erotica” é considerado um fracasso comercial retumbante, com vendas baixíssimas em comparação com o álbum anterior, a coletânea “Immaculate Collection”. Não vamos entrar em estatísticas, mas asseguramos que o trabalho mais vanguardista e significativo artisticamente e politicamente de Madonna é exatamente o que tem o maior índice de rejeição do grande público. Madonna é espinafrada internacionalmente por jornalistas e repórteres de todos os veículos internacionais e pouquíssimas vozes das artes mundiais se levantam para defendê-la ou explicar o conteúdo de seu trabalho da forma adequada e correta.

Madonna amplifica com esse empreendimento de cinco lançamentos quase simultâneos, a sua posição de liderança no mundo do pop mundial, partindo do conteúdo dos inferninhos de Times Square, como o “The Vault”, onde ela filmou e fotografou parte do videoclipe de “Erotica” e do livro “Sex”, o conteúdo dos cabarés dos anos 1920 e da belle époque parisiense do entre guerras, usando referências como os filmes “Cabaré”, “Singing in the rain”, o clipe de house music “Beautiful people” de Barbara Tucker, entre outros conteúdos, num mix que leva o público ao delírio. Apesar das fracas vendas e das críticas arrasadoras que partem o coração da cantora, fazendo-a considerar esse um dos lançamentos mais sacrificantes e revisados do mundo pop, Madonna sustenta o apreço pelo trabalho e efetiva, pioneiramente, uma jornada pelo underground homossexual com tintas de cultura leather, tudo embalado para seduzir e provocar polêmica intencionalmente.

Madonna aparece esplendorosamente nua, do alto de seus 30 e poucos anos, exibindo uma forma física invejável, um corpo escultural, quase sem intervenções cirúrgicas, completamente ao natural, registrando para a posteridade a beleza de sua forma física e, dessa maneira, dando um depoimento da importância do vigor de seus treinamentos incansáveis para a produção de um conjunto de produtos estéticos de gosto considerado à época duvidoso, até porque era o período do auge da cultura clubber na Europa e do início da rave culture, comuns nos dias atuais e difundidos ao extremo, o que para a época, era uma inovação e tanto.

Olhando pelo retrovisor, Madonna parece ter deixado, até o momento e de forma definitiva, um depoimento inscrito em seu próprio corpo da importância do exercício das liberdades individuais e da independência feminina de forma categórica. Camille Paglia, a feminista norte-americana, considera esse lançamento, o livro “Sex”, um dos mais importantes feitos da indústria literária americana dos anos 1990, considerando os limites dos dotes literários da cantora e levando em conta de que se trata de um produto essencialmente fotográfico, um álbum que substituiu para a cantora Madonna a publicação de fotos eróticas em magazines como Penthouse, Playboy, Hustler e outras. É bem capaz das modelos e atrizes que se deixaram fotografar nessas publicações eróticas tradicionais terem ficado coradas com o conteúdo apresentado pela cantora, atriz e diretora no início dos anos 1990 e auge de sua beleza. Madonna tem um senso perfeito de timing e o seu relógio biológico parece tê-la avisado: “FIQUE PELADA, JÁ: abra as pernas, vadia!”.

Dos produtos desse megalançamento, os que mais parecem não ter envelhecido com o tempo são exatamente o álbum “Erotica”, o livro “Sex” e seus subprodutos, como o vídeo de seu making of vendido em DVD’s bootleg, e a turnê “Girlie Show”. Os filmes da época, “Corpo em evidência” e “Olhos de serpente” não repetem o sucesso da deliciosa comédia pastelão “Who’s that girl” e do sofisticadíssimo e subestimado “Dick Tracy”. Madonna-putonna tem um lugar de destaque na prateleira das lojas de música e de livros do mundo inteiro, graças a Deus! Vive la diference! Vive Madonna! Vive les sex!!!

FONTE: MADONNA. Sex, Nova Iorque: Warner Books, 1992. Fotógrafo: Steven Meisel.

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Rafael Nacif é doutor em Comunicação pela UERJ.

Madonna: sexo, mentiras, videoteipe e literatura