BLOG | Vol. 6, No. 29-32 (ago. 2026) | N. 231

“Loucura em trânsito”: ocupar, resistir e construir novos sentidos para a vida e o território

Todos os anos, mobilizações da luta antimanicomial ocupam a capital e diferentes municípios da Região Metropolitana de São Paulo, especialmente nas semanas próximas ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio. Em movimento pelas ruas, usuários dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), profissionais de saúde, familiares e integrantes da comunidade carregam cartazes e realizam intervenções artísticas em defesa da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), baseada no cuidado em comunidade, na autonomia e na dignidade. À primeira vista, essas mobilizações podem parecer apenas uma defesa dos serviços públicos de saúde mental, mas há algo maior em jogo: o direito de circular pela cidade, ocupar seus espaços, encontrar outras pessoas e participar do movimento da vida.

Durante uma dessas mobilizações, uma frase ecoava entre os participantes: “a loucura está em trânsito”. Em meio aos cantos, ela parecia dizer algo maior. Afinal, por muito tempo, pessoas em sofrimento psíquico foram afastadas das ruas, das famílias e da convivência social. Foram colocadas atrás de muros em nome de uma lógica que significava isolamento, não cuidado. Por isso, caminhar hoje pelas mesmas cidades de onde essas pessoas foram retiradas é também lembrar que esses muros existiram e reafirmar que eles jamais devem voltar a ser apresentados como resposta ao sofrimento.

Foto: Instagram / @frenteantimanicomialsp
Foto: Instagram / @frenteantimanicomialsp

A cena vista nas ruas paulistas é resultado de décadas de disputas sobre o significado da loucura, os limites da psiquiatria e a maneira como a sociedade escolhe responder a quem sofre. Para entender por que essas mobilizações continuam necessárias, é preciso percorrer o caminho que nos trouxe dos manicômios ao cuidado em liberdade, passando pelas lutas que transformaram a maneira de compreender o sujeito considerado louco e pelo desafio de garantir que a autonomia continue sendo parte essencial da atenção em saúde mental.

A construção da loucura e da exclusão: os muros que a sociedade edificou

Durante muito tempo, a resposta à loucura foi a exclusão. Pessoas consideradas “insanas” eram isoladas, retiradas do convívio familiar, impedidas de participar da coletividade e tratadas como uma ameaça à ordem social. O que inicialmente se apoiava em justificativas morais e religiosas ganhou novos contornos entre os séculos XIX e XX. Com o fortalecimento da psiquiatria, a distinção entre aqueles considerados normais e aqueles classificados como anormais passou a receber o respaldo do discurso científico.

Foi nesse contexto que os manicômios se consolidaram como principal resposta ao sofrimento psíquico. Seus muros não separavam apenas “pacientes” e sociedade. Separavam pessoas de suas famílias, de seus trabalhos, de suas relações e de tudo aquilo que compunha sua vida fora da instituição. O isolamento, apresentado como tratamento, significava perder, de forma violenta, a autonomia e o direito de decidir sobre a própria vida, o próprio corpo, as próprias vontades.

Em História da Loucura (1961), Michel Foucault mostra que essa compreensão da loucura não era natural nem inevitável, mas resultado de processos históricos e sociais. Ao discutir as relações entre saber, poder e normalidade, o autor demonstra como o discurso psiquiátrico contribuiu para estabelecer os limites entre o normal e o anormal, definindo quem seria incluído e quem deveria ser afastado e, com isso, transformando a normalidade em um critério de inclusão ou exclusão social.

“Por uma sociedade sem manicômios”: a luta para derrubar os muros

A contestação a esse modelo ganhou força no Brasil a partir da década de 1970. Em meio à redemocratização e às discussões da Reforma Sanitária, trabalhadores da saúde, usuários, familiares e movimentos sociais começaram a questionar uma assistência que havia transformado o isolamento e a violência em respostas ao sofrimento psíquico. Aos poucos, outra possibilidade ganhou espaço: cuidar no território, na vida cotidiana, fortalecendo a autonomia, a cidadania e os vínculos sociais, sem transformar o sofrimento em motivo para a exclusão.

As ideias do psiquiatra italiano Franco Basaglia e a experiência da Reforma Psiquiátrica Italiana influenciaram nessa mudança. Inspirado por essas lutas, o Movimento da Luta Antimanicomial passou a defender uma atenção psicossocial baseada na liberdade e nos direitos humanos, trajetória aprofundada pela psicóloga Maria Stella Brandão Goulart em As Raízes Italianas do Movimento Antimanicomial (2025).

O Manifesto de Bauru, lançado em 1987 com o lema “por uma sociedade sem manicômios”, tornou pública essa mudança. A reivindicação ia além do fechamento dos hospitais psiquiátricos, denunciava a exclusão e a violência institucional e defendia uma atenção em saúde mental baseada na liberdade, nos direitos e na cidadania, articulada às lutas sociais contra outras formas de opressão.

Foto: Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial (Laps)/ laps.ensp.fiocruz.br

O Manifesto de Bauru, lançado em 1987 com o lema “por uma sociedade sem manicômios”, tornou pública essa mudança. A reivindicação ia além do fechamento dos hospitais psiquiátricos, denunciava a exclusão e a violência institucional e defendia uma atenção em saúde mental baseada na liberdade, nos direitos e na cidadania, articulada às lutas sociais contra outras formas de opressão.

Nos anos seguintes, esse projeto ganhou forma com a criação dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que se consolidaram como serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico. A proposta era oferecer acompanhamento próximo e contínuo, articulado ao território e voltado à autonomia, sem fazer do isolamento uma condição para o tratamento.

Sem muros, a cidade como território de encontros e (r)existências

Quando a caminhada começa, ela não mobiliza apenas quem participa. Quem passa pela rua também é afetado pelo que vê. Alguns sorriem, outros param para gravar. É comum ouvir, com surpresa: “olha, é o CAPS”, “o pessoal do CAPS vem aí”. Há quem prefira se afastar, mas também quem decida acompanhar, aplaudir e demonstrar apoio. Tudo isso faz parte da experiência de ocupar a cidade.

Ocupar e compartilhar a cidade também ajuda a compreender a noção de território desenvolvida pelo geógrafo Rogério Haesbaert em Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção (2014). Para o autor, território não é apenas uma área delimitada no mapa, é onde as relações se estabelecem e as pessoas constroem significados sobre o que ocupam. A caminhada, nesse sentido, não apenas passa pela cidade. Ela torna visível uma população que durante muito tempo foi afastada do convívio social e que agora reivindica seu lugar e participa da construção de outras formas de viver e se relacionar com o meio urbano.

É nesse território de encontros, tensões e diferenças que o cuidado em liberdade encontra uma de suas dimensões mais importantes. Os serviços de saúde mental são fundamentais para oferecer acompanhamento especializado, contínuo, baseado em evidências e de qualidade. Ao mesmo tempo, a vida de quem utiliza esses serviços não se encerra neles. Circular, manter vínculos, encontrar outras pessoas e participar da vida em comunidade são direitos que precisam ser preservados, sem que o sofrimento psíquico determine os limites da própria vida.

Outros muros ainda precisam cair: contra todas as formas de manicômio

A Reforma Psiquiátrica mudou profundamente a maneira de pensar a atenção em saúde mental, mas a disputa está longe de terminar. Os antigos manicômios perderam espaço, mas a lógica da exclusão pode reaparecer com outros nomes e de outras maneiras.

De um lado, está o enfraquecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), marcado pelo subfinanciamento dos CAPS e das residências terapêuticas. De outro, cresce o financiamento público de comunidades terapêuticas (CTs), muitas delas de caráter religioso, associadas, em diferentes situações, a práticas de confinamento, internações compulsórias e outras formas de violência. São modelos que caminham na direção oposta daquela defendida pela Reforma Psiquiátrica.

Defender o cuidado em liberdade não significa imaginar que encontros ou amizades sejam suficientes para responder ao sofrimento psíquico. Não são. É necessário garantir uma rede pública de saúde mental capaz de oferecer acompanhamento especializado e qualificado. Os encontros e os vínculos que se constroem no cotidiano são importantes, mas não substituem a atenção oferecida pelos serviços de saúde.

“A loucura está em trânsito” é, antes de tudo, uma afirmação de liberdade. Essas pessoas continuam precisando de cuidado, mas não precisam abrir mão da cidade, dos vínculos ou da própria vida para recebê-lo. Depois de uma história marcada por muros, isolamento e exclusão, caminhar pelas ruas é também afirmar que esses espaços pertencem a elas. E que nenhuma forma de sofrimento deve ser usada como justificativa para afastá-las novamente. Juntas, mobilizadas e seguindo o “flow”, como definiu um dos participantes, elas continuam caminhando, cantando e “balançando todas as estruturas que sustentam os manicômios, antigos e novos”.


Igor Lacerda é pesquisador associado ao Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo – Lacon/Uerj. Doutor e mestre em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Uerj, desenvolve pesquisas sobre produção e disputas de sentidos e memórias no jornalismo e em outras mídias, especialmente acerca das relações entre cidade e sociedade, com ênfase na militarização urbana e suas diversas formas de violência. É autor do livro Rio, uma Cidade Sitiada: Narrativas Jornalísticas Sobre a Intervenção Militar (Viseu, 2024). Em 2025, recebeu o prêmio de melhor tese no XIX Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores de Comunicação Organizacional e de Relações Públicas. E-mail: igorlacerdasa@gmail.com

Como citar:

LACERDA, Igor. “Loucura em trânsito”: ocupar, resistir e construir novos sentidos para a vida e o território – Blog: Comunicação, Cidade e Consumo, Rio de Janeiro, v. 6, n. 31, 2026.

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