ImaginaRio #68
Rio de Janeiro, Fevereiro e Março…
A Inversão do Espetáculo: Quando a Rua é o Poder
A cultura dos Bate-Bolas — também popularmente conhecidos como Clóvis, nome que vem da palavra clown (palhaço) em inglês — é a tradução do Carnaval como um projeto de soberania do subúrbio carioca. Longe da lógica dos grandes blocos e desfiles de escolas de samba no Rio de Janeiro, esta tradição se organiza em turmas pelos subúrbios das zonas norte e oeste da cidade, transformando a rua em um espaço de poder. Por pertencerem a áreas específicas, os Bate-Bolas não desfilam em qualquer lugar: cada turma tem seu espaço e área por onde pode se manifestar.
O “segredo” é o pilar dessa mística: o tema e os detalhes da fantasia são guardados até o último segundo, garantindo que o momento da revelação seja um evento de impacto para o bairro. Neste movimento que inverte a lógica do espetáculo, o protagonista não é o indivíduo, mas a força e a estética do grupo que domina o seu próprio território.
Além do show de cores, a festa chama atenção pelo sentido de união e coletividade que carrega durante todo o ano de construção, criando um caminho para que moradores dessas comunidades tenham acesso a esta cultura única, com tema e história escolhidos, muitas vezes, pelos seus chamados “cabeças” de turmas.
Desta forma, podemos observar como áreas muitas vezes desvalorizadas ainda resistem com seu planejamento anual e financeiro independente, enfrentando também o forte contexto de criminalização. Estas turmas, compostas por lideranças e componentes, marcam seu território nos subúrbios da cidade, mostrando sentido de coletividade e organização a partir de reuniões e eventos durante todo o ano de organização para a grande ‘saída’ no Carnaval.
Como dito pelo artista e professor de teatro Marcus Faustini, esta não é uma festa feita para o consumo externo ou para o olhar do turista; é uma celebração de pertencimento que acontece nas esquinas da cidade. Fogos, temas, sombrinhas e bonecos, bandeiras e bolas, cores e brilhos. Nada é por acaso.
Rio Entre Esquinas
A autogestão suburbana ergue um patrimônio
A cultura dos Bate-Bolas nasceu nos subúrbios cariocas e se sustentou de forma autônoma por mais de um século, movida pela economia popular. No entanto, a partir da última década, o Estado passou a reconhecer formalmente o movimento. O marco jurídico fundamental ocorreu na esfera municipal com o Decreto nº 35.134, de 16 de fevereiro de 2012, que declarou os grupos de foliões como Patrimônio Cultural Carioca.
Este processo avançou para uma organização administrativa em 9 de abril de 2022, quando a Secretaria Municipal de Cultura do Rio entregou certificados a 400 grupos cadastrados, mapeando um universo de pelo menos 16 mil componentes. Para as turmas que buscam o pódio, o caminho passa pelo Concurso Folião Original da Riotur, no Palco da Cinelândia, centro da cidade, onde o “segredo” do barracão é submetido a um julgamento técnico em categorias como Clóvis de Bexiga e Clóvis de Sombrinha, avaliando quesitos de Animação, Criatividade e Evolução.
O reconhecimento oficial seguiu em expansão no Poder Legislativo com o Projeto de Lei nº 1849/2016, incluindo o Dia do Bate-Bola no Calendário Oficial da Cidade, celebrado no dia 27 de novembro. No entanto, para além das datas e dos registros em papel, existe uma parcela imensa da tradição que segue pulsando de forma orgânica nas ruas, movida por um rigor coletivo que é a verdadeira salvaguarda desta cultura.
Estas turmas preservam o rito da “saída”, baseado exclusivamente na autogestão financeira das mensalidades e na economia circular de seus próprios bairros. Para elas, a continuidade da tradição independe de certificações, provando que sua força reside em uma malha social profunda que não consegue capturar sua totalidade. Certificadas ou não, as turmas são a prova viva de que a organização do subúrbio é capaz de erguer um patrimônio cultural de luxo e barulho, que a rua já consagrou há gerações.
Personagem da Gema
O comando feminino no coração do barracão
Historicamente redutos de uma irmandade masculina e viril, este espaço vive hoje uma reestruturação produtiva liderada pelas mulheres. O crescimento de grupos e a fundação de novas turmas femininas é uma mudança na engenharia da festa, na qual passam a não se limitar apenas aos bastidores do ‘apoio’, mas a assumir também a cabeça do projeto, dominando desde a logística financeira até a arquitetura organizacional das fantasias.
A componente Bruna Paola Souza – de 25 anos e moradora da Taquara em Jacarepaguá – atua como vendedora e esteve à frente da organização do primeiro ano da turma ‘Meninas do Complexo da Praça Seca’, em 2026, que contou com pouco mais de 60 componentes, sendo 32 mulheres. Bruna já esteve em outras 4 turmas, e, neste ano, seguiu ao lado de sua amiga no novo projeto de criação, reforçando que a ocupação é, antes de tudo, uma reivindicação de autoridade técnica.
Ao assumirem o controle dos barracões, as mulheres subvertem a lógica de que a força da rua pertence apenas aos homens. Elas hoje detêm a propriedade intelectual sobre o “segredo” e o domínio da execução.
Essa nova configuração prova que a independência financeira e o rigor coletivo das turmas femininas também são capazes de gerar um luxo autônomo mesmo que sem revalidação do Estado ou mercado turístico, destacando soberania destas mulheres que também planejam e constroem fora de padrões inseridos pela sociedade.
ImaginaRio Entrevista
O peso e o orgulho de ser cabeça
Mãe, Bate-boleira e cabeça da turma ‘Meninas do Complexo da Praça Seca’, Julia Oliveira Souza, 24 anos, nascida e criada na Taquara, bairro de Jacarepaguá, nos conta em breve entrevista sobre seu mundo nesta cultura do carnaval.
Como o bate-bola entrou na sua vida? Você lembra da primeira vez que sentiu vontade de sair numa turma?
Bate-bola entrou na minha vida bem novinha, já com 1 ou 2 anos. Meu falecido pai foi bateboleiro a vida toda e sempre me levou para acompanhar. Eu gostei. Então é desde sempre. Quase meus 24 anos.
Por quais turmas você já passou antes de chegar onde está hoje? Como foi mudar de um grupo para outro?
Saí nas Poderosas, Meninas do poder, Tempestade, Celebridade, É o Poder e hoje estou nas Meninas do Complexo da Praça Seca. A mudança foi por querer conhecer novas turmas, outras por desentendimentos, pelas amizades que fiz.
Como você deixou de ser apenas componente para virar “cabeça” de turma? O que mudou na sua responsabilidade?
Essa pergunta é forte, porque virar “cabeça” de turma não é promoção… é peso, é responsabilidade e é exemplo. De componente para “cabeça” de turma, não acontece do nada. Geralmente começa quando você se preocupa não só com a sua fantasia, mas com a de todo mundo. Ajuda a organizar reunião, pagamento… Ser “cabeça” é sair da posição de quem só participa para quem sustenta a estrutura.
Além de sair na rua, você também coloca a mão na massa e costura as fantasias. Como você aprendeu esse ofício?
Aprender a costurar quase sempre vem da necessidade e do amor pela cultura. Minha avó costurava na minha infância, e minha irmã também. Isso me ajudou muito.
Como você consegue conciliar seu trabalho e sua vida pessoal com a correria da turma durante o ano inteiro? Sobra tempo para descansar?
Normalmente funciona assim: organização antecipada, planejamento da fantasia, pagamentos e reuniões com meses de antecedência para evitar desespero perto do Carnaval. Também tem divisão de tarefas com uma amiga, a Paola, porque uma “cabeça” inteligente não dá para fazer tudo sozinha. Para isso, a gente tem que ter uma agenda bem definida. Trabalho é trabalho e a turma tem dia e horário. Se misturar tudo, vira caos. Comunicação tem que ser clara em casa com minha família, porque precisam entender que aquele projeto é parte da minha identidade. Meu tempo de descanso muitas vezes nem é como deveria, ainda mais em época de confecção. As noites ficam mais curtas.
A gente sabe que esse universo sempre foi muito masculino. Como é para você, como mulher, ocupar esse espaço de liderança hoje?
Sempre tiveram muitos homens. Por muito tempo, eu quase não via meninas. Antes das turmas de mulher, quase não tinha mulheres vestidas de casaca e buá. Tinha mais na costura, ajudando a decorar… Organizando e saindo nem tanto. Ocupar esse espaço sendo mulher é fogo. Tenho que provar minha competência mais de uma vez e ser firme, senão já era.
Você sente que a chegada das Bate-Boletes mudou o jeito de se fazer Carnaval no subúrbio?
Mudou sim e muito. As Bate-Boletes cresceram muito e o respeito pela gente também. Muitas meninas passaram a sair até com seus filhos ao lado. Acho que por isso também. Muita criança hoje sai porque tem mãe, tia, avó. Tudo ali na turma participando e cuidando.
O que passa na sua cabeça no momento em que você termina uma fantasia e vê a turma pronta para ganhar a rua?
É arrepio e muita emoção! Vem o alívio: “eu consegui!”. Depois vem a memória de tudo que ninguém vê. Noites viradas costurando, contas apertadas, fechamento de valores, as discussões resolvidas, o medo de não dar tempo, às mãos furadas de agulha… mas quando a turma se alinha, fica toda produzida, maquiada, estruturada… É prova de superação. No fundo, vem aquele orgulho: “Eu não só sonhei. Eu construí”. É o que eu penso. Uma mistura de cansaço com a adrenalina de ansiedade e realização.
Leitura do Mês
Claun: a Saga dos Bate-bolas
Para entender a força que move as turmas, a indicação deste mês é do livro “Claun: A Saga dos Bate-Bolas”, idealizado pelo cineasta Felipe Bragança. A obra faz parte de um projeto transmídia que investiga a mitologia urbana do Rio de Janeiro através da tradição dos clóvis.
Esta obra captura o imaginário épico e a resistência. Por meio de fábulas urbanas, o livro trata os bate-bolas como figuras mitológicas — quase super-heróis do asfalto — que enfrentam a repressão para manter vivo um ritual de mais de um século.
Esta edição foi produzida por Allana Barbosa – bolsista do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Marcelo Alves de Resende, doutorando do PPGCom/Uerj e bolsista Qualitec do Lacon.
