ImaginaRio #66 – BERRO!
Rio de Janeiro, Fevereiro e Março
O BERRO! Nasceu em 2019, também na UERJ, reunindo cerca de 500 pessoas em sua estreia. Coordenado pelo LACON, sob a liderança da professora Vania Oliveira e do professor Ricardo Ferreira Freitas, o encontro surgiu da vontade de dar voz às experiências LGBTQIAPN+ dentro da comunicação social e da universidade. O LACON, por sua vez, tem tradição em fomentar pesquisas sobre diversidade, gênero e consumo, e o BERRO! tornou-se uma extensão natural desse compromisso. O evento, que teve sua 2° edição em 2025, após o sucesso da primeira edição em 2019, se firmou novamente como espaço plural para debates, produção acadêmica e articulação ativista.
Entre os dias 4 e 6 de novembro de 2025, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) sediou a 2° edição do BERRO! Expressão e Comunicação LGBTQIAPN+. A edição de 2025 trouxe novidades, ampliando o propósito da discussão, e contou com cinco mesas temáticas: LGBTQIAPN+ na academia e no mercado de trabalho; esporte; cultura pop e entretenimento; saúde mental; e política, trazendo célebres convidados, como a professora Alê Primo, a ativista Bárbara Aires, a doutora em psicologia Céu Cavalcanti e muitos outros para discutir sobre cada tema. Além disso, integrou a sua programação II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades, seminário acadêmico para apresentação de pesquisas. A chamada para resumos expandidos aceitou trabalhos de graduandos, pós-graduandos e pesquisadores, com propostas publicadas posteriormente num e-book com ISSN.
Além da esfera acadêmica, o BERRO! repercute socialmente na cidade do Rio, ao promover debates públicos sobre gênero, sexualidade e comunicação na UERJ, campus Maracanã, onde os auditórios se tornaram palco de debates importantes para os ouvintes e moradores da cidade, trazendo uma repercussão enorme para a causa. A 2° edição do Berro foi um sucesso, demonstrando o crescimento e importância desse evento para a comunidade LGBTQIAPN+, trazendo pautas necessárias para discussão e sendo um agente ativo na luta por diversidade, equidade e respeito.
Rio Entre Esquinas
BERRO!: Quando a universidade grita diversidade
O BERRO! se propõe a ser um evento onde as vozes e as pesquisas da comunidade LGBTQIAPN+ são amplificadas e celebradas. Sua realização no espaço universitário da UERJ traz um aprofundamento no mapa de debates, garantindo que o conhecimento sobre identidade e diversidade tenha um palco legitimado, acessível e seguro para aprendizado sobre a expressão e a visibilidade da comunidade. A programação, que reuniu pesquisadores, professores, doutores e ativistas, teve oito sessões na II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades e cinco mesas abertas a debates, com temas sobre saúde mental, esportes, academia e mercado de trabalho. A deputada estadual do Rio de Janeiro Dani Balbi, a vereadora reeleita de Niterói Benny Birolli e a presidenta da ANTRA, Bruna Benevides, também marcaram presença, participando deste diálogo inclusivo no âmbito da política. O evento foi um convite à reflexão sobre como o mundo pode se tornar mais justo, aberto e plural em sociedade.
Ter um evento como esse, dentro do ambiente de uma universidade pública, possui uma importância cultural e social para além da celebração da diversidade. Ele atua como um instrumento com potencial político, pedagógico e simbólico que reforça o papel do espaço universitário como um lugar também democrático, crítico e inclusivo. Produzir um evento desse porte é um lembrete de que a universidade é, e sempre será, um espaço onde a diversidade não só existe, como ocupa e se faz constantemente presente, sem vez para ser esquecida e apagada.
Para que o evento ocorresse, foi necessário um esforço árduo por meio dos organizadores. A importância do BERRO! não está só no que aconteceu nos três dias do evento, mas também em tudo o que vem antes, principalmente no cuidado, no planejamento e nas escolhas feitas pelos organizadores. Pensar em um evento 100% LGBTQIAPN+ dentro da UERJ envolve um processo que demanda um olhar responsável, sensível e consciente do impacto que isso tem para a comunidade acadêmica e queer. Esse evento é um lembrete de que a universidade é um organismo vivo, cheio de interações e pluralidade, prezando sempre pela diversidade e respeito.
Personagem da Gema
Ricardo Ferreira Freitas
Carioca de nascimento e de pesquisa, sua dedicação em compreender como eventos, corpos e narrativas se entrelaçam na paisagem carioca é notável. Ele analisa como a cidade se transforma e como seus símbolos se fortalecem ao longo do tempo. Seja explorando temas como consumo, megaeventos ou identidades, sua abordagem sempre se fundamenta nas realidades do Rio, com suas interações, tensões, celebrações e processos culturais. Essa conexão íntima com a dinâmica urbana proporciona uma leitura profunda e sensível dos movimentos estudantis e das lutas sociais que emergem na cidade.
Ao longo de sua carreira, Ricardo também foi responsável pela criação do LACON, um laboratório dedicado à intersecção entre comunicação, cidade e consumo. Sob sua coordenação, o laboratório desenvolve estudos que dialogam com questões fundamentais, como diversidade, representações sociais e a presença da comunidade LGBTQIA+ na esfera pública. Seu trabalho ilumina como esses grupos não apenas ocupam os espaços urbanos, mas também produzem significados e narrativas que enriquecem a vida carioca.
Mais do que um mero analista da cidade, Ricardo a vive, a interpreta e a devolve em forma de conhecimento acessível e relevante. Sua trajetória acadêmica, que inclui um doutorado em Paris, estágios na Sorbonne e em Montpellier, além de uma participação ativa na vida institucional da UERJ, reflete um compromisso inabalável com a educação, a pesquisa e a construção de uma universidade plural e inclusiva.
Por sua relação profunda com o Rio e seu olhar atento às expressões culturais e sociais que o permeiam, Ricardo Ferreira Freitas se destaca como o Personagem da Gema deste mês. Ele é alguém que, assim como o evento desta edição, contribui para pensar a cidade como um espaço de diversidade, resistência e movimento, inspirando futuras gerações a valorizar e celebrar a riqueza cultural carioca.
Entrevista do Mês
Fausto Amaro Ribeiro Picoreli Montanha
Fausto Amaro é professor adjunto da Faculdade de Comunicação Social/UERJ, pesquisador de comunicação e integrante do LACON, onde estuda mídia, cultura, cidade e práticas sociais. Participou da criação do BERRO! em 2019, quando o laboratório buscava ampliar espaços de expressão e debate sobre gênero e sexualidade dentro da universidade pública. Mesmo não pertencendo à comunidade LGBTQIAPN+, ele sempre atuou como aliado dentro do campo acadêmico, trabalhando para fortalecer iniciativas que ampliem visibilidade, discussão e segurança dentro da universidade. Seis anos depois, já com a segunda edição do BERRO! realizada em 2025, revisitamos a trajetória do projeto, suas transformações e o que permanece como essência.
ImaginaRio: Quando você idealizou o BERRO! em 2019, qual era o objetivo central do projeto e o que vocês queriam provocar dentro da UERJ?
Então, esse evento foi pensado na época em que eu era bolsista Qualitec do Lacon, que era uma bolsa vinculada ao Departamento de Inovação da UERJ (InovUerj). Naquele momento, apesar do cenário político muito delicado — o Bolsonaro tinha acabado de ser eleito em 2018 e estávamos no primeiro ano de mandato, se não me engano — percebíamos que era uma questão social urgente discutir sobre uma minoria historicamente marginalizada no Brasil, um país extremamente preconceituoso, onde pessoas LGBTQIA+ sofrem risco de vida cotidianamente, além de enfrentarem diversas formas de discriminação. Naquela época, em diálogo com a equipe de bolsistas e também com outros alunos, além de uma equipe de voluntários bastante significativa, pensamos em organizar um evento voltado para questões de diversidade, especificamente diversidade de gênero e sexualidade. Conversamos com o Ricardo sobre a ideia — ele adorou — e, a partir daí, submetemos o projeto ao edital do CNPq. Dado o contexto político, não esperávamos ser aprovados, mas acabamos conquistando o edital. Foi esse apoio que possibilitou convidar participantes de fora do Rio de Janeiro. O evento aconteceria de qualquer forma, com ou sem financiamento, mas o apoio do CNPq permitiu que se tornasse mais plural geograficamente, o que foi muito importante.
ImaginaRio: Como foi assumir a construção de um evento sobre gênero e sexualidade sendo alguém que não vive essas experiências diretamente? Que cuidados você considerou essenciais para garantir que o BERRO! fosse conduzido com respeito, escuta e responsabilidade?
Sendo uma pessoa de fora da comunidade, eu me coloquei em uma posição de escuta. Embora estivesse responsável pela organização do evento — desde o planejamento pré-evento até o pós-evento — apliquei ali a experiência que já tinha em outras produções, mantendo uma preocupação muito clara com planejamento, organização e logística, porque queria que tudo funcionasse da melhor forma possível.
Nas questões de conteúdo e programação, eu escutava bastante os estagiários, o Ricardo e também a Ana, que era bolsista Proatec na época. Os principais cuidados envolvem justamente assumir essa posição de abertura, de alguém que estava ali para aprender. Foi assim que me coloquei naquele momento: como alguém disposto a ouvir e a compreender melhor aquela realidade.
O processo todo foi um grande aprendizado. Eu coordenava a equipe para garantir que tudo desse certo e, ao mesmo tempo, buscamos envolver alunos e outros setores da UERJ. Foi assim, por exemplo, que conseguimos publicar o Glossário LGBT+. Na época, a nomenclatura utilizada era “LGBT+”. Essa cartilha foi produzida em parceria com o Coletivo Ametista, do qual Douglas, um dos bolsistas, fazia parte. Além do lançamento dessa cartilha, teve uma exposição de fotografias, um debate com a presença de produtores — acredito que de um ou mais documentários, mas agora não lembro exatamente — enfim, buscamos construir um evento que reunisse diferentes manifestações culturais e artísticas, e que fosse um espaço real de congraçamento e de diálogo. Esse espírito foi mantido inclusive na segunda edição do evento. Tivemos também as jornadas, ou seja, apresentações de trabalhos acadêmicos, algo que existe desde a primeira edição. Finalizando à sua pergunta: para mim foi desafiador organizar um evento sendo alguém de fora da comunidade, mas, ao mesmo tempo, foi um aprendizado enorme.
Acredito que, em qualquer evento que organizamos, mesmo ocupando uma posição de coordenação, precisamos estar abertos ao diálogo e ao aprendizado. Caso contrário, tudo fica engessado. Um evento envolve muitas etapas que exigem participação coletiva — definir a programação, pensar oficinas, selecionar convidados, escolher locais etc. Nada disso é tarefa de uma pessoa só. Inclusive, o próprio nome do evento surgiu dos estagiários. Na época, fizemos um processo coletivo para pensar possíveis nomes, e “Berro” apareceu entre as sugestões deles. Eu não lembro exatamente qual estagiário propôs, mas sei que a ideia não foi minha nem do Ricardo — foi um nome que nasceu da equipe de bolsistas daquela época.
ImaginaRio: A segunda edição, em 2025, teve outro formato e outra equipe à frente. Mesmo nos bastidores, que mudanças você percebeu entre a primeira e a segunda edição — tanto no evento quanto no contexto da universidade?
A segunda edição do evento se desenvolve em um cenário macropolítico nacional muito mais favorável, muito mais tranquilo em comparação à primeira. Como mencionei, a primeira edição aconteceu durante o governo Bolsonaro. Naquele momento, por exemplo, entramos em contato com diversas empresas — muitas delas se declararam apoiadoras da causa — mas nenhuma retornou como apoiadora. E, quando digo “apoiadora”, refiro-me ao gesto mínimo de fornecer brindes, qualquer brinde. Claro que podemos relacionar essa ausência de apoio ao fato de termos entrado em contato quando muitas empresas já tinham fechado seus patrocínios para o ano, entre outros fatores possíveis. Mas o fato é que procuramos mais de 20, talvez mais de 30 empresas, inclusive algumas que publicamente afirmaram apoiar a causa, mas nenhuma quis associar seu nome ao evento.
Já na segunda edição, houve um patrocínio importante da Petrobras, o que demonstra uma mudança de postura no cenário político. Dentro da universidade, eu não sei se houve uma mudança tão significativa — acredito que a UERJ continua sendo um espaço de acolhimento, um espaço que, de certa forma, se contrapõe à sociedade mais ampla por seu caráter de vanguarda. Então, internamente, a receptividade à pauta e à causa permaneceu. O que mudou mesmo foi o cenário político nacional.
Além disso, o evento novamente foi contemplado por um edital, dessa vez da Faperj, garantindo financiamento e reforçando uma marca já consolidada. Muitas pessoas lembravam da primeira edição. A jornada também contou com um número muito maior de trabalhos, tornando-se um espaço ainda mais rico. Participei de alguns dias e deu para perceber claramente a felicidade das pessoas apresentando suas pesquisas e trocando com outros pesquisadores. Isso, para mim, é o mais especial: a criação e o fortalecimento desse senso de comunidade.
ImaginaRio: De que forma sua atuação como pesquisador da comunicação contribuiu para moldar o formato, o discurso e o alcance do BERRO!, especialmente no que diz respeito às vivências e narrativas LGBTQIAPN+?
Acho que a área da Comunicação, respondendo à sua quarta pergunta, é um campo em que essas temáticas LGBTQIAPN+ estão muito presentes. Mesmo na jornada, em que tivemos pesquisadores das Letras, das Artes e de outras formações além da Comunicação, o campo da Comunicação continua sendo um espaço muito receptivo — não só a pessoas LGBTQIAPN+, mas também às discussões que são pertinentes à área. Temas como diversidade, cultura, cinema, redes sociais e até debates sobre divas pop acabam atravessando o universo LGBTQIAPN+ e aparecem com muita força na Comunicação.
Enquanto pesquisador da área, mesmo que eu pessoalmente não pesquise essas temáticas — minha pesquisa é sobre esporte — reconheço que elas são extremamente relevantes para o campo. E, na verdade, mesmo no esporte, a pesquisa sobre diversidade tem crescido muito nos últimos anos, especialmente na última década.
Leitura do Mês
Movimento LGBTI+: Uma breve história do século XIX aos nossos dias
Escrito por Renan Quinalha, que participou da mesa do BERRO! “LGBTQIAPN+ na academia e no mercado de trabalho”, o livro narra e sistematiza anos de estudos e reflexões sobre diversidade sexual e de gênero. A obra apresenta análises teóricas e historiográficas em linguagem acessível, sem perder profundidade, com o objetivo de alcançar um público amplo interessado no universo LGBTI+. O livro destina-se tanto a leitores que desejam se aprofundar na temática quanto àqueles que estão iniciando seus estudos em gênero e sexualidade. Trata-se, sobretudo, de um convite à ação política e à defesa da igualdade, da diversidade e da democracia.
Movimento LGBTI+: uma história do século XX aos nossos dias. São Paulo: Autonomia Literária, 2023. Disponível em: Amazon
🧑🏿🤝🧑🏻 O ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro.
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Edição feita pelos alunos da disciplina Estágio Supervisionado/LACON da Prof. Vania Fortuna e revisado pela Prof. Maria Helena Carmo:
Allana Barbosa; Lara Nunes; Julia Muniz; Beatriz Araujo; Lucas Alves; Amanda Ferreira; Danielly Gonçalves.
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