Vol. 16, Ed. 64 ImaginaRIO – Rio de Janeiro: berço e palco da Música Popular Brasileira

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Berço de algumas das maiores expressões culturais do país, o Rio de Janeiro é, há mais de um século, o principal palco da Música Popular Brasileira (MPB). Mais do que um gênero, a MPB é um reflexo da alma carioca: mistura, resistência e criação constante. Foi nas esquinas, nos morros e nas praias da cidade que ritmos como o samba e a bossa nova nasceram e se espalharam pelo mundo, moldando a identidade do Brasil.

A origem da MPB está profundamente ligada à transformação urbana e cultural do Rio no início do século XX. Nos bairros da Saúde, Estácio e Oswaldo Cruz, o samba ganhou corpo e ritmo. Com o tempo, o gênero ultrapassou fronteiras, consolidando o Rio como o coração musical do país. Décadas depois, foi novamente no Rio que surgiu a bossa nova, movimento que levou a música brasileira a outro patamar e com um som suave e intimista, que encantou o mundo

Hoje, o Rio continua a produzir e inspirar grandes nomes da MPB. Paulinho da Viola, Marisa Monte, Teresa Cristina e Seu Jorge são exemplos de artistas que mantêm viva a tradição carioca, ao mesmo tempo em que dialogam com novas influências. A MPB no Rio de Janeiro não é um capítulo encerrado da história musical brasileira, ao contrário é um organismo vivo que se renova a cada geração. A cidade continua inspirando artistas e acolhendo manifestações que ampliam os horizontes do que se entende por música popular brasileira. Entre o morro e o asfalto, o clássico e o contemporâneo, o Rio de Janeiro segue como cenário e protagonista da MPB, reafirmando sua posição como capital simbólica da cultura nacional.

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O Rio de Janeiro é, por destino e vocação, o cenário essencial da gênese da Música Popular Brasileira (MPB). A história da nossa música atesta a importância da cidade na consolidação desse gênero, cuja revolução estética e de diversidade se deu pela vibração e vida boêmia de seus espaços urbanos.

  Foi na Zona Sul da cidade que a Bossa Nova se estabeleceu. Mais do que um estilo, foi uma atitude de modernização, um contraponto sutil e elegante ao samba-canção da “Era do Rádio”. A solidez do movimento está nas obras e nos depoimentos dos seus criadores: Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que assinaram músicas icônicas como Garota de Ipanema, eternizando o cenário da cidade.  Mas, o verdadeiro marco zero dessa revolução musical é o lançamento do álbum Chega  de Saudade (1959), de João Gilberto. 

O gênero musical foi o passaporte para palcos internacionais, como o Carnegie Hall, em Nova York. Desse legado de refinamento e modernidade nasce, nos anos de 1960, a ressignificação da MPB. Esse conceito surge para acolher a diversidade que o Rio havia libertado: a canção poética, o tom de protesto e, especialmente, a mistura de ritmos. Jorge Ben Jor, por exemplo, cruzou o samba com o soul e o funk em um gesto de hibridismo que influenciou gerações. 

Os artistas passaram a fazer fusões com estilos já existentes para atrair a juventude. Seja com pop, rap, indie ou eletrônico, a MPB transita entre os mais diversos ritmos para atrair a atenção de novos públicos. Nomes como Emicida, Liniker, Rubel, Anavitória e Marina Sena são exemplos vivos dessa ponte entre o novo e o clássico. 

Somado a isso, os festivais também são fortes estratégias para consolidar a MPB nos dias atuais. O festival “Classicos do Brasil”, que ocorreu neste mês de outubro no Rio de Janeiro, demonstra como esse tipo de show pode ser uma plataforma de encontro entre gerações. Nele, os jovens têm a oportunidade de se conectar com obras que fazem parte da história da música brasileira, mesmo sem terem vivido a época em que essas canções foram lançadas, o que transforma o passado em não somente algo que já foi, mas uma experiência viva e atual.

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Francisca Edwiges Neves Gonzaga, mais conhecida como Chiquinha Gonzaga, foi muito mais do que uma compositora e maestrina: foi uma mulher à frente do seu tempo, que transformou a música popular brasileira e abriu caminhos para tantas outras compositoras depois dela.

Nascida no Rio de Janeiro, em 1847, Chiquinha foi a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil e uma das pioneiras na mistura de ritmos populares com a música erudita. Suas composições, como Ô Abre Alas e Corta-jaca, marcaram a história cultural do país, levando às ruas e aos salões o som vibrante e irreverente do povo.

Mas sua importância vai além das partituras: Chiquinha foi também símbolo de resistência e liberdade. Lutou contra o preconceito, pela abolição da escravidão e pelos direitos das mulheres, desafiando padrões sociais que tentavam limitar seu talento e sua voz.

Por sua trajetória inspiradora, o Dia Nacional da Música Popular Brasileira, celebrado em 17 de outubro, foi criado em sua homenagem. Uma data que reconhece não apenas sua genialidade musical, mas também sua coragem em fazer da arte um instrumento de transformação.

Mais do que reger orquestras, Chiquinha Gonzaga regeu sonhos, abriu caminhos e afinou o Brasil com o som da liberdade. Por isso, é a nossa Personagem da Gema deste mês, uma verdadeira carioca que fez da música popular um espelho da alma brasileira.

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        Nascido e criado no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Luiz Fernando Cândido da Silva, conhecido como Cândido, é um dos novos nomes que representam a força do samba dentro da música popular brasileira. Aos 28 anos, ele traz em sua trajetória as marcas da comunidade, das rodas de samba e das baterias que o formaram como músico. Integrante e idealizador do grupo Origem, Cândido promove o evento “Origem no Quintal”, uma celebração mensal que reafirma o samba como expressão de identidade, resistência e união.

1) Como se iniciou a sua relação com a música popular brasileira e de que forma esse gênero contribuiu para transformar a sua trajetória pessoal e profissional?

A minha trajetória começou na minha comunidade, lá no Morro dos Macacos, onde eu nasci e fui criado. Começou com o meu tio Birinho — ele foi o primeiro que me deu a oportunidade de conhecer um instrumento. Eu não tenho contato com meu pai, mas ele já foi da bateria da Vila. Mesmo assim, quem realmente me deu essa oportunidade foi meu tio, através de um tamborim das aulas lá no Pantanal. Foi ele que me levou para os “Herdeiros da Vila”, junto com meus primos e irmãos. Assim, comecei a trilhar o meu caminho, desfilando de tamborim, e depois passei a tocar caixa com o mestre Mangueirinha — cheguei a pegar a época dele —, depois o Luan, o Paulão… e, mais tarde, me tornei diretor de bateria mirim, quando a mestra era a Érica. A partir daí, minha vida começou a acontecer profissionalmente. Vi que eu poderia me esforçar um pouco mais para viver disso. Então, comecei a me aprimorar nos instrumentos e a estudar mais a parte teórica, que foi o que mais me ajudou. O samba-enredo em si — eu sempre falo pra todo mundo — foi o que me salvou. Eu não sei o que poderia ter acontecido comigo, mas foi ele que me abriu as portas para viver o que eu vivo hoje.

2) O Rio de Janeiro é amplamente reconhecido como o berço do samba. Na sua visão, qual é o papel da cidade na preservação e na renovação dessa manifestação cultural? Em quais espaços e expressões essa presença se mostra mais evidente atualmente?

O papel da cidade hoje é preservar os espaços, os quilombos que estão resistindo e os novos quilombos que estão nascendo. Posso dar alguns exemplos aqui da Zona Norte: o Batuq, a Galeria M3, o Bigode Buço. No Centro, tem o Beco do Rato, o Vaca Atolada, que resiste até hoje… Esses são movimentos culturais que enfrentam o tempo — e, se Deus quiser, vão ser atemporais.

Eu acho que o papel da cidade, e principalmente dos líderes, é manter isso, porque há muita gente que tenta apagar esse nosso viés de sambista. Hoje, os locais fortes são a Zona Norte — que sempre foi muito forte no samba — e a Zona Oeste também, com muito samba bom, como o Samba de Aurora e o Terreiro de Crioulo, que, na minha humilde opinião, é a maior roda de samba do Brasil. Tem também o Boteco na Rua, que é uma casa de samba que abriga novos talentos e também a galera que já está na caminhada. Então, na minha visão, o papel dos nossos líderes — os líderes da cidade — é guardar e fortalecer esses lugares que abrem as portas para os que estão chegando agora.

3) Considerando a sua trajetória e a força do samba nas comunidades cariocas, em que medida a música popular brasileira ainda se afirma como instrumento de identidade cultural, diálogo coletivo e resistência social? O evento realizado pelo grupo Origem, no dia 12 de outubro, pode ser compreendido como uma expressão dessa resistência?

Pode sim, porque hoje o grupo Origem é composto por integrantes que vieram da mesma realidade — comunidades e famílias humildes —, e esse evento é a prova de uma resistência: a de que nós podemos, de que a música salvou nossa vida. Atualmente não temos padrinhos nem investidores; tudo sai da nossa criatividade — e não falo apenas de dinheiro. Eu considero um ato de resistência porque a nossa comunicação musical, verbal, corporal e a forma de se vestir, fala muito sobre isso. Então, pra mim, o Origem no Quintal é uma resistência viva, que faz parte desse diálogo de afirmação cultural.

4) Chiquinha Gonzaga foi uma das pioneiras da música popular brasileira e abriu caminhos para inúmeras gerações de artistas. De que maneira figuras históricas como ela influenciam e inspiram a sua trajetória musical?

Chiquinha Gonzaga foi uma compositora, pianista e exemplo de resistência feminina que, infelizmente, ainda hoje é minoria em nosso meio. Ela foi a primeira compositora da primeira marchinha do Brasil, “Ó, Abre Alas”, e uma pioneira que abriu as portas para uma das vertentes do samba. Temos o samba-enredo, o samba de partido alto, samba-breque… Assim como ela, temos Arlindo Cruz que, na minha opinião, é o nosso superior, porque ele não apenas compõe samba, mas vai do rap ao forró — ele é nossa maior inspiração. Pessoas como ele, a Chiquinha, Alcione, Beth Carvalho, Clementina de Jesus, Marquinho PQD, Sombrinha, Luiz Carlos da Vila, Elza Soares dentre muitos outros, nos inspira a crescer, a querer tocar e a manter a chama do samba acesa.

5) O samba já lhe proporcionou conquistas e vivências significativas. Quais foram os principais aprendizados e realizações obtidos ao longo dessa caminhada? E quais são seus projetos e perspectivas para o futuro dentro da música popular brasileira?

Eu costumo dizer que o samba me ensinou tudo de bom e tudo de ruim. Ele me proporcionou viagens a lugares que eu só conhecia pela televisão e me permitiu estar em programas como artista. Tudo o que eu tenho hoje veio através do samba — por isso acredito no que o Arlindo Cruz diz em uma de suas músicas: “O samba é meu protetor sim, me tira do trauma da dor, na mágoa”.

Não vou dizer que o samba só me trouxe conquistas, porque viver dele é um ato de resistência. A galera acha que a gente vive só de glamour, mas não é assim. O cachê nem sempre é bom; a gente luta para realizar nossos próprios eventos e seguir em frente. Hoje, tenho uma produtora, a Inspira Produções, que me levou a conhecer artistas que, quando criança, eu via na televisão — e que hoje trabalham comigo. Eu faço a gestão de carreira de nomes como Marcelinho Moreira, Júnior Santa Fé, Júlio Macabu e também do próprio grupo Origem. Essa experiência tem me mostrado outros caminhos dentro da música, não só no palco, mas também nos bastidores, entendendo o que é construir e consolidar uma trajetória artística.

Minha perspectiva é um pouco diferente da dos demais, porque hoje penso em fortalecer minha marca, o grupo Origem, e também a Inspira Produções. Nunca projetei ser famoso; sempre projetei viver bem da música, a ponto de não me apertar em um momento de lazer.

Quanto aos projetos que estão por vir, temos a gravação do nosso audiovisual Origem no Quintal, no dia 09/11, em Pilares. O Pagode do Origem chegou na FM O dia, que foi o nosso primeiro audiovisual gravado, orgânico, e estamos presentes atualmente na programação da rádio. Temos também nossa música “A maré vai virar” que a galera conhece e pede bastante para tocar nos lugares que vamos. Não sei dizer com certeza o que vai acontecer no futuro, mas tudo está se encaminhando para sermos felizes, pois somos um grupo de jovens, independentes e que já está colhendo muitos frutos de tudo o que plantamos e seguimos firmes.

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Na obra Dicionário da História Social do Samba, Nei Lopes e Luiz Antônio Simas apresentam uma análise dos aspectos sociais que marcaram a consolidação do samba como expressão cultural, destacando o Rio de Janeiro como principal cenário desse processo.

Embora o título sugira um formato de dicionário tradicional, o livro se caracteriza como uma reconstrução da memória do samba, na qual os autores abordam questões históricas e sociais que evidenciam sua formação e importância como manifestação popular brasileira.

Disponível para aquisição on-line no seguinte site: https://www.amazon.com.br/Dicion%C3%A1rio-hist%C3%B3ria-social-do-samba-ebook/dp/B017DUK5S6/ref=cm_cr_arp_d_pdt_img_top?ie=UTF8

ImaginaRIO é uma realização do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/UERJ). O boletim tem a proposta de monitorar e divulgar as principais notícias, eventos culturais e publicações sobre as temáticas do consumo, dos megaeventos e da cidade, com foco no Rio de Janeiro. Gostaria de divulgar sua pesquisa, evento ou publicação sobre o Rio de Janeiro aqui no ImaginaRIO? Entre em contato com a gente pelas nossas redes sociais (@laconuerj) ou pelo e-mail laconuerj@gmail.com

Edição feita pelos alunos da disciplina Estágio Supervisionado/LACON: Allana Barbosa; Lara Nunes; Julia Muniz; Beatriz Araujo; Lucas Alves; Amanda Ferreira; Danielly Gonçalves.

 

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