Iris Souza 

As eleições trouxeram tanto comemorações quanto preocupações para o campo progressista no Brasil. Por um lado, houve entusiasmo com a ida de Guilherme Boulos e Natália Bonavides ao segundo turno em São Paulo e Natal, respectivamente. Por outro, as vitórias de representantes da extrema direita em várias câmaras municipais causaram apreensão.

Entre os fatos mais notáveis, porém, está a eleição de 26 pessoas trans para cargos políticos no Brasil em 2024, sendo 25 mulheres trans e travestis e 1 homem trans. Apesar de representar um avanço para um país com um histórico de violência contra essa população, o número mostra uma leve queda em relação às 30 candidaturas eleitas em 2020. Esse marco reflete a luta por visibilidade e direitos de uma comunidade que enfrenta altos índices de violência e exclusão.

De acordo com o Trans Murder Monitoring (TMM), entre outubro de 2022 e setembro de 2023, 321 pessoas trans foram assassinadas no Brasil, destacando a realidade de insegurança enfrentada por essa comunidade. Nesse contexto, a eleição de representantes trans é vista como um importante passo para assegurar direitos e resistir à violência, mesmo que não seja suficiente para transformar essa realidade por si só.

No entanto, há uma complexidade que não pode ser ignorada: a diversidade política entre as candidaturas trans. Entre as 967 candidaturas registradas neste ano, muitas estão filiadas a partidos de direita e até de extrema direita, como PP, PL, União Brasil, Republicanos, e outros. Esse cenário é contraditório, já que muitos desses partidos defendem políticas que restringem os direitos das pessoas trans.

Um exemplo dessa contradição é Lucas Pavanato, do PL, que foi o vereador mais votado em São Paulo, com 161.328 votos. Durante a campanha, ele se posicionou como um “candidato anti-woke” e propôs medidas como a proibição do uso de banheiros públicos por pessoas trans. Isso contrasta com a realidade de outras pessoas trans concorrendo em partidos aliados a uma agenda contrária aos direitos LGBTI+.

A representatividade nas câmaras e assembleias é um passo importante, mas é necessário que esses mandatos sejam usados para promover transformações reais. Eleger uma pessoa trans não significa, por si só, que as políticas que impactam a vida de outras pessoas trans serão priorizadas. O que faz a diferença são as propostas, as alianças políticas, e o compromisso com a justiça social.

A presença de Amanda Paschoal, eleita pelo PSOL, e Thammy Miranda, reeleito pelo PSD, na Câmara Municipal de São Paulo, ilustrará diferentes abordagens de atuação ao longo dos próximos anos. A esperança é que suas trajetórias mostrem a importância de eleger representantes que busquem melhorias concretas para a cidade e a qualidade de vida de suas populações.

Em um cenário em que a extrema direita utiliza a comunidade trans como alvo de ataques em nome de uma suposta defesa dos “valores familiares”, é fundamental que a humanidade, a diversidade e a intelectualidade das pessoas trans sejam reconhecidas e valorizadas. A presença de pessoas trans na política pode ser uma estratégia de sobrevivência, mas é a ação concreta de legislar em prol dessa comunidade que tem o potencial de criar mudanças reais e duradouras.

Fonte: The Intercept Brasil 

Eleições 2024: A Conquista de 26 Candidaturas Trans e os Desafios da Verdadeira Representatividade