Vol. 12, N. 48 BERRO – Um olhar para a Ásia a partir de vivências LGBTQIAPN+

Em sintonia com o início do Ano Novo Lunar, celebrado em diversos países asiáticos como China, Coreia do Sul, Taiwan e Vietnã, e com impacto em outros cuja indústria do entretenimento é forte, como Tailândia e Japão, esta edição especial do BERRO! atravessa fronteiras para destacar produções culturais, debates políticos, espaços LGBTQIAPN+ e vozes que repercutem pelo continente asiático.

A celebração baseada no calendário lunissolar acontece de forma diferente do calendário ocidental. Cada ciclo é representado por um dos animais do zodíaco chinês e também por elementos simbólicos. Em 2026, entramos no ano do Cavalo, tradicionalmente associado a movimento, à transformação, à energia e a mudanças de rumo.

Esta edição do BERRO! olha para diferentes países da Ásia para entender como essas vivências aparecem na cultura, na política, no entretenimento e na vida cotidiana.


Berro Apresenta – Ano Novo Lunar e as tensões LGBTQIAPN+ (China)

O Ano Novo Lunar é a data mais importante do calendário em países como a China. É o momento de voltar para casa, rever parentes, celebrar a continuidade da família e iniciar um novo ciclo. Mas esse período também pode ser um dos mais difíceis para os indivíduos queer.

Isso acontece porque a celebração está profundamente ligada a valores tradicionais, como casamento heterossexual, filhos e manutenção do sobrenome da família. Durante as reuniões, perguntas aparentemente comuns como “está namorando?” podem carregar uma pressão enorme para quem não se encaixa nesses padrões, semelhante ao que acontece na cultura brasileira. Aqui no Brasil, muitos jovens passam pelo mesmo no Natal.

Imagem: Reprodução/New Whaven Arts

Nesse contexto, muitas pessoas acabam escondendo seus verdadeiros relacionamentos ou até criando estratégias para lidar com a situação, como levar parceiros fictícios para encontros familiares. Mas nem todas as histórias terminam nesse lugar.

O artista e cineasta chinês Kit Hung, relembra que, antes de revelar publicamente ser gay nos anos 90, sentia que precisava esconder quem era dentro da própria família. Sua mãe chegou a pedir uma foto dele com uma garota para mostrar aos parentes e, mesmo após dizer abertamente sobre ser gay, o clima em casa ainda era de desconforto.

Hoje, décadas depois, vivendo em Londres e casado, Hung ainda sente  receio ao voltar para seu país natal com o marido. Mas, ao mesmo tempo, ele encontrou formas de ressignificar essas tradições. Uma delas foi passar a enviar os tradicionais envelopes vermelhos com dinheiro (costume típico do Ano Novo Lunar) para filhos e parentes de amigos, prática geralmente associada a casais heterossexuais. Para Hung, esse gesto funciona como uma afirmação pública do seu relacionamento.

Este ano, Hung confirmou que finalmente fará uma pequena comemoração com a família, incluindo seu marido.


Berrando pela Ásia – Shinjuku Ni-chōme (Japão)

Imagens: Reprodução/Reuters

No coração de Tóquio, o bairro de Shinjuku abriga um dos espaços mais emblemáticos da comunidade LGBTQIAPN+ na Ásia: Shinjuku Ni-chōme. Reconhecido como o maior distrito LGBTQIAPN+ do Japão, o local concentra mais de 300 bares, clubes e estabelecimentos voltados à diversidade e resistência.

Diferente de bairros queer ocidentais, Ni-chōme possui uma dinâmica particular: muitos de seus bares são pequenos, temáticos e voltados a públicos específicos, como lésbicas, homens gays mais velhos, pessoas trans ou turistas. Essa segmentação, ao mesmo tempo em que pode parecer restritiva, revela a complexidade interna da comunidade e sua busca por espaços seguros dentro de um contexto social ainda marcado pela discriminação.

Apesar de o Japão ser frequentemente visto como moderno e tecnologicamente avançado, questões relacionadas à diversidade sexual e de gênero ainda enfrentam barreiras culturais e institucionais. Ni-chōme entra nessa questão como um território simbólico de liberdade, onde as identidades podem ser vividas com maior autenticidade.

Além disso, o bairro também exerce influência significativa na cultura pop japonesa, aparecendo em animes, mangás, filmes e séries, e contribuindo para a construção de imaginários queer no país.


Depoimento: Tiago Ferreira (Brasil-Tailândia)

Imagem: Instagram/@tiagoferreira2528

Professor universitário e pesquisador especialista em estudos hispânicos e latino-americanos, Tiago Ferreira é um brasileiro carioca que vive há mais de quatro anos na Tailândia, onde atua na Universidade Thammasat, uma das instituições de ensino superior mais tradicionais do país. Perguntamos ao Tiago como é ser uma pessoa LGBTQIAPN+ na Tailândia e se ele enxergava diferenças de quando morava no Brasil:

“A Tailândia é um país bom para homens gays, como eu. Sem sombra de dúvidas, é mais cômodo ser gay aqui do que no Brasil; sinto que há menos preconceito social. Em termos de legislação, o Brasil talvez seja mais avançado, visto que a permissão para o casamento igualitário e a adoção por casais do mesmo sexo foram aprovadas muito antes do que aqui na Tailândia. Entretanto, isso se deve ao fato de o Brasil ter uma tradição democrática muito mais consolidada, o que confere ao nosso país instituições políticas bem mais fortes e estáveis. Graças a isso, nossa Suprema Corte teve poder suficiente para impulsionar os direitos LGBTQIAPN+ sem a participação direta do Congresso.

Na Tailândia, por outro lado, onde o Exército e a monarquia são as verdadeiras forças políticas, mudanças nesse sentido só seriam possíveis com o apoio dos setores conservadores da sociedade. E isso ocorreu em 2024, quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi autorizado pelo Parlamento tailandês. Até mesmo os partidos conservadores votaram pela aprovação. Se não me engano, apenas os muçulmanos votaram contra, mas eles são uma pequena minoria na casa legislativa. É difícil imaginar partidos conservadores brasileiros, como o PL, por exemplo, fazendo o mesmo. Creio que eles dificilmente votariam a favor dos nossos direitos.

A diferença de religião parece ter um peso decisivo aqui. Enquanto os conservadores brasileiros são cristãos, os conservadores tailandeses são budistas. As duas religiões atribuem pesos muito diferentes à sexualidade. Não se trata de dizer que não há homofobia no budismo, ou que seja uma religião perfeita. Longe disso. Mas é inegável como existe uma diferença gritante entre as sociedades brasileira e tailandesa nesse quesito. O conservadorismo budista dá muito menos importância à sexualidade, à reprodução, à gravidez e ao aborto. E isso impacta muito positivamente a população LGBTQIAPN+.

Eu me sinto muito livre aqui. Posso falar da minha sexualidade em todos os ambientes que frequento, sem grande alarde ou surpresa das outras pessoas. Mesmo quem é conservador raramente se importa com a sexualidade alheia. O máximo que uma pessoa pode fazer é te evitar, mas é realmente difícil ver conservadores militando ou protestando contra a população LGBTQIAPN+ ou contra o aborto. Parece que a sexualidade não gera grandes paixões ou debates públicos acalorados como ocorre no Brasil. Eu acho isso esplêndido! Gostaria que o Brasil fosse igual. Toda vez que visito nosso país e saio na rua ou vou a algum lugar, sinto aquela tensão e me pergunto se vou sofrer homofobia ou não. Não costumo sentir isso na Tailândia.

Entretanto, há algo que os dois países têm em comum: homens gays são difíceis para relacionamentos. Grande parte prioriza o sexo e, quando procura namoro, é bastante exigente quanto aos padrões estéticos. Não sinto quase nenhuma diferença em relação ao Brasil nesse aspecto.


Berro Indica: Your Name Engraved Herein (Taiwan)

Imagem: Netflix

Ambientado no fim dos anos 1980, período marcado pelo fim da lei marcial em Taiwan, Your Name Engraved Herein acompanha a trajetória de dois jovens estudantes que desenvolvem uma relação afetiva em meio a um contexto social repressivo e profundamente heteronormativo.

O filme se destaca por sua abordagem sensível e intimista, explorando temas como desejo, repressão, identidade e memória. Ao retratar o impacto das estruturas políticas e sociais sobre vivências individuais, a obra constrói uma narrativa que ultrapassa a linha do romance e torna-se também um comentário sobre a liberdade.

Visualmente marcante e emocionalmente potente, o longa conquistou grande repercussão internacional e se tornou uma das produções LGBTQIAPN+ mais relevantes do cinema asiático contemporâneo. Sua recepção também dialoga com o contexto atual de Taiwan, que se tornou o primeiro país da Ásia a legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 17 de maio de 2019.

O longa está disponível com legendas em português na Netflix Brasil.


Berrando do Brasil para a Ásia – Miss International Trans (Tailândia)

Imagem: Reprodução/Instagram

O Brasil estará muito bem representado na próxima edição do Miss International Queen. Angel Gadelha foi escolhida como a representante brasileira do concurso internacional voltado para mulheres trans realizado na Tailândia. 

Considerado o maior evento de beleza trans do mundo, reúne candidatas de diversos países  com o objetivo de valorizar não apenas a estética, mas também as trajetórias de cada uma das participantes, o ativismo e o impacto social. Ao longo dos anos, o Miss International Queen virou vitrine global para discutir visibilidade e direitos de pessoas trans, especialmente no contexto asiático, onde a Tailândia ocupa um papel de destaque na promoção de identidades de gênero diversas, ainda que, como em outros países, existam desafios estruturais a serem enfrentados.

A presença brasileira não é novidade, nosso país costuma ter destaque. Angel chega ao concurso carregando a dualidade de representar um país com forte tradição em concursos e, ao mesmo tempo, marcado por desigualdades profundas no que diz respeito a direitos e segurança para pessoas trans.


LGBTQÍcones: MewTul (Tailândia)

Imagem: Reprodução/Instagram

A Tailândia se consolidou, nos últimos anos, como o principal polo de produção de conteúdos Boys Love (BL), exportando narrativas que conquistaram o público global. Nesse cenário, artistas como Mew Suppasit e Tul Pakorn aparecem como nomes de destaque.

Mew Suppasit ganhou notoriedade internacional por seus papéis em produções BL e por sua atuação multifacetada como cantor, produtor e empresário. O artista estrelou uma das obras mais populares da história do gênero e uma das responsáveis por expandir o alcance do BL para além do público asiático, TharnType. Sua carreira reflete uma transição dentro da indústria, marcada pela busca por maior autonomia artística e por projetos que dialogam com diferentes públicos.

Já Tul Pakorn é reconhecido por seus papéis em Together With Me e Manner of Death, duas produções bastante emblemáticas do gênero. Sua trajetória está diretamente ligada à consolidação do BL tailandês como produto de exportação. Além da atuação, Tul também se destaca por sua formação acadêmica e por participar de discussões sobre representatividade.

Noivos, Mew e Tul tornaram o relacionamento público em julho de 2024. Meses depois, Mew pediu Tul em casamento durante um evento de lançamento de seu novo single. O momento também acompanha uma mudança importante no país: o casamento igualitário foi aprovado na Tailândia em 23 de janeiro de 2025.

Desde então, os dois passaram a ocupar um espaço simbólico relevante dentro do fandom global. O casal é frequentemente visto como um marco dentro da indústria BL, sendo um dos raros casos de atores do gênero que assumiram publicamente uma relação, algo que ainda não é comum no meio.


Leitura do mês: Love in the Big City (Coreia do Sul)

Imagem: Reprodução/Internet

Escrito por Park Sang-young, Love in the Big City apresenta um retrato honesto, ácido e profundamente humano da vida de um jovem gay soropositivo em Seul. A obra acompanha suas experiências amorosas, amizades, conflitos familiares e a constante negociação entre identidade e pertencimento em uma sociedade ainda marcada por normas conservadoras.

Com uma narrativa envolvente e, por vezes, melancólica, o livro se destaca por abordar temas como solidão, saúde mental, sexualidade, a vida de alguém que vive com HIV e o impacto das grandes cidades na construção das relações contemporâneas. Ao mesmo tempo, traz momentos de leveza e humor, equilibrando a dureza de certas vivências com a força dos afetos.

A obra ganhou grande repercussão na Coreia do Sul e também internacionalmente, sendo considerada um marco da literatura LGBTQIAPN+ contemporânea asiática. Seu impacto foi tamanho que ultrapassou o campo literário: o sucesso rendeu adaptações para o audiovisual, com a produção de uma série e um filme, além de impulsionar debates culturais sobre vivências LGBTQIAPN+ no país.


Acontecimento: Decisão nas filipinas reacende debate sobre casamento igualitário (Filipinas)

Imagem: FERENC ISZA/AFP

Uma decisão recente da Suprema Corte das Filipinas colocou o tema dos direitos LGBTQIAPN+ de volta no centro do debate público.

O tribunal reconheceu que casais do mesmo sexo podem ter direitos sobre bens adquiridos em conjunto, mesmo sem o reconhecimento legal do casamento. Na prática, isso significa que essas relações passam a ter algum tipo de proteção jurídica, especialmente em questões patrimoniais, algo que até então era extremamente limitado.

Não é casamento igualitário, nem união civil formal. Mas é um passo importante o próprio Estado passar a reconhecer que essas relações existem e geram efeitos legais.

O impacto disso vai além da divisão de bens, pois abre margem para discussões sobre herança, decisões médicas e outros direitos que costumam estar atrelados ao reconhecimento de casal. Ao mesmo tempo, expõe um cenário comum em vários países: o judiciário avança enquanto o legislativo segue travado, muito influenciado por setores conservadores e religiosos. Como acontece aqui no Brasil.

As Filipinas continuam sem reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas a decisão pressiona o debate e fortalece movimentos locais que já vêm atuando há anos


Esta edição do “BERRO!” foi produzida por Kaío dos Santos Machado, graduando em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista de Estágio Interno Complementar do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Marcelo Alves de Resende, bolsista Qualitec do Lacon.

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