Vol. 14, N. 53 BERRO! – Os desafios do envelhecimento lésbico 

Nesta edição, o BERRO! propõe debates e desafios para reflexão – como o envelhecimento lésbico no Brasil. São questões que convidam o leitor a pensar, sentir e questionar.

A partir de discussões sobre saúde, memória, cultura e política públicas, reunimos reportagens, indicações culturais e personagens que ajudam a compreender os desafios enfrentados pela comunidade para além das campanhas de agosto sobre a visibilidade lésbica.

Berro apresenta: Visibilidade em Foco 

Imagem: Reprodução Brasil de Fato

Agosto é considerado o mês da Visibilidade Lésbica, mas é também neste mês que se celebra o Dia do Orgulho Lésbico. 

Você sabe por quê? Não? A gente te explica!

O dia 19 de agosto faz referência ao Levante do Ferro’s Bar, em São Paulo, em 1983. Esse bar era frequentado pela comunidade lésbica, e o dono tentou impedir a distribuição de uma publicação ativista lésbica, expulsando as ativistas do local. Elas, então, se mobilizaram e conseguiram garantir a distribuição do material. O dia 19 foi escolhido em homenagem à ativista Rosely Roth, que organizou os protestos e liderou essa primeira grande manifestação. 

Já o dia 29 de agosto marca o 1º Seminário Nacional de Lésbicas, realizado em 1996, no Rio de Janeiro – um encontro criado para que mulheres lésbicas discutam políticas públicas e direitos. 

As duas datas celebram a mesma luta, embora com propósitos distintos. O primeiro nasce de um ato de resistência; e o segundo, de um espaço de organização política. A vida dessas pessoas é, desde sempre, marcada por lutas e por uma forte resistência, principalmente quando pensamos nas mulheres mais velhas, que enfrentam etarismo, solidão, abandono e até mesmo a volta ao armário. 

Você já parou para pensar em como é envelhecer fora da heteronormatividade?

A invisibilidade de mulheres lésbicas idosas é um problema sério, negligenciado pelas políticas públicas. A trajetória dessas mulheres é atravessada por violências e violações de direitos, fatores que podem impactar na autoestima e saúde mental.

Para as mulheres lésbicas idosas, a ausência de acompanhamento ginecológico é uma questão preocupante. Um levantamento da Liga Brasileira de Lésbicas mostrou que uma a cada quatro mulheres lésbicas sofre algum tipo de violência ou não recebe o atendimento adequado em consultas ginecológicas. Já no caso das mulheres trans, o preconceito e o despreparo profissional impactam diretamente sua saúde.

Muitas mulheres são obrigadas a enfrentar esses desafios sozinhas, por conta do abandono parental e, por isso, é importante destacar o papel de centros de acolhimento LGBTQIAPN+  que, de alguma forma, ajudam a amenizar essa ausência. 

Mas o problema não para na saúde. Tem uma outra camada dessa invisibilidade que é ainda mais silenciosa: a da memória. Grande parte dessas mulheres viveu décadas sem sequer ter uma palavra para nomear o que sentia. Atravessaram a ditadura, a patologização da homossexualidade e anos sem qualquer proteção legal. Muitas nunca puderam contar a própria história em voz alta e correm o risco de vê-la desaparecer com elas.

Não é apenas a sociedade que esquece dessas mulheres. A academia também.

Mesmo com o crescimento das pesquisas sobre homossexualidade feminina no Brasil desde os anos 1990, a maioria dos estudos ainda foca em mulheres entre 20 e 40 anos. Sobre as mulheres lésbicas com mais de 50 anos, o silêncio acadêmico é similar ao silêncio social.

Pensar sobre o envelhecimento lésbico nos gera uma pergunta sobre o tipo de futuro que estamos construindo agora: existirão redes de acolhimento? Profissionais de saúde preparados? Memória coletiva que reconheça essas trajetórias?

Porque envelhecer fora da heteronormatividade, no Brasil de hoje, ainda é um ato de resistência. Dar visibilidade a essa experiência é também garantir que a próxima geração não precise, aos 70 anos, provar que sempre existiu.

Berrando pelo Rio: Samba Que Elas Querem

O Samba Que Elas Querem é uma roda de samba formada por mulheres, com apresentações frequentes no Beco do Rato, na Lapa. A roda nasceu do desejo de dar protagonismo às mulheres no cenário do samba carioca – lugar majoritariamente ocupado por homens. O grupo se apresenta nos dias 11 e 25 de setembro, no Beco da Cultura (Centro) e no Beco do Rato (Lapa), respectivamente.

Imagem: Reprodução Riotur

Depoimento: Ligia Quintas

Foto: Enviada pela entrevistada

Para essa edição, conversamos com Ligia Quintas, psicóloga com trabalho clínico voltado exclusivamente para o atendimento às mulheres e, majoritariamente, mulheres lésbicas. 

O primeiro questionamento foi como ela acha que mulheres 60+ lidam com seu reconhecimento como LGBTQIAPN+ e orgulho hoje em dia: 

“Mulheres lésbicas com mais de 60 anos se constituíram subjetiva e socialmente em contextos históricos nos quais a homossexualidade feminina era muito mais invisibilizada, patologizada e reprimida. Esses contextos podem produzir marcas importantes na forma como cada mulher pôde reconhecer, nomear e viver sua sexualidade.

A sexualidade, por si só, não produz naturalmente orgulho. O orgulho, especialmente enquanto posição política diante de uma identidade historicamente estigmatizada, depende de condições sociais, discursivas e coletivas capazes de transformar aquilo que foi produzido como vergonha em algo que pode ser reconhecido e valorizado. 

Como um segundo questionamento, destacamos que existem muitas barreiras que costumam se acumular ao longo da vida dessas mulheres, e, pensando em questões de saúde, perguntamos como essas barreiras (medo do julgamento, anamneses que presumem heterossexualidade…) se acumulam ao longo de suas vidas: 

“A literatura mostra um acúmulo de barreiras. A heteronormatividade institucional produz a expectativa de que a paciente seja heterossexual, organizando o atendimento (especialmente na ginecologia) a partir dessa pressuposição. Isso gera um primeiro obstáculo: o receio de revelar a orientação sexual, por medo de julgamento, constrangimento ou discriminação. Quando revela, a mulher pode encontrar profissionais despreparados, que fazem perguntas ou orientações inadequadas ou deslegitimam suas experiências sexuais.

Há relatos na literatura brasileira nesse sentido. Um estudo qualitativo com mulheres lésbicas e bissexuais encontrou experiências de constrangimento, invisibilização da sexualidade, despreparo profissional e deslegitimação das relações sexuais entre mulheres. Em um dos relatos, uma mulher abandonou o acompanhamento ginecológico por anos após ter sua sexualidade desconsiderada.

Ou seja, as barreiras de acesso não são apenas a dificuldade de chegar ao serviço: a própria experiência do atendimento pode virar barreira para o próximo. Uma experiência negativa gera medo e perda de confiança, levando à postergação ou evitação de cuidados, o que repercute na regularidade de exames preventivos e no acompanhamento da saúde. Por isso é importante pensar essas barreiras de forma cumulativa: elas se reforçam ao longo da trajetória dessas mulheres nos serviços de saúde.

Por fim, perguntamos à profissional qual mudança prioritária ela considera essencial para melhorar a vida dessas mulheres: 

“Eu não consigo pensar em apenas uma mudança prioritária, porque, como citei anteriormente, não estamos falando de uma barreira isolada. É um conjunto de transformações sociais, institucionais e culturais que possibilitaria uma maior qualidade de vida para mulheres lésbicas, especialmente aquelas que estão envelhecendo. Se eu tivesse que apontar um eixo prioritário, talvez fosse justamente a construção de instituições capazes de reconhecer essas mulheres sem pressupor a heterossexualidade como norma. Isso atravessa a saúde, mas também a família, os espaços de convivência, as políticas públicas e a forma como essas mulheres são representadas socialmente. A formação de profissionais de saúde, por exemplo, é fundamental, mas não resolve tudo sozinha. Precisamos também de políticas públicas, de espaços seguros de convivência, de maior representação e de práticas institucionais que não invisibilizem essas experiências.

Acho importante porque muitas mulheres lésbicas idosas vivenciaram, ao longo da vida, diferentes formas de repressão e ocultamento. Então, melhorar sua qualidade de vida não significa apenas garantir que elas tenham acesso a um serviço específico, mas construir condições para que possam envelhecer com dignidade, reconhecimento, vínculos sociais e sem precisar voltar ao ocultamento para serem acolhidas.

Berro indica: Deux – Nós Duas

Reprodução: Crítica (non)sense da 7Arte

Nós Duas (2019), drama francês, conta a história de duas vizinhas – Nina e Madeleine – que, há anos, vivem um amor mantido em segredo. Com o falecimento do marido de Madeleine, surge finalmente a chance de venderem seus apartamentos e recomeçarem juntas na Itália. Mas Madô ainda precisa contar aos filhos sobre a decisão e assumir sua sexualidade perante eles, e é nesse momento que o destino impõe um obstáculo tão repentino quanto devastador. 

LGBTQÍcones: Marina Lima

Imagem: Reprodução/Instagram @marinalima

Marina Lima é uma cantora e compositora carioca que, desde os anos 1970, construiu uma das carreiras mais sólidas da MPB, com álbuns marcantes como Simples Como Fogo (1983) e Fullgás (1984). Além do talento musical, ela carrega um lugar simbólico na história da representatividade LGBTQIAPN+ no Brasil: foi uma das primeiras cantoras a se assumir lésbica, aos 18 anos, dentro do cenário musical brasileiro dos anos 80, época em que a homossexualidade das artistas circulava apenas de forma velada, como boato. 

Com o passar do tempo, Marina também passou a ocupar um papel importante ao falar abertamente sobre envelhecer sendo lésbica e figura pública. Em entrevistas mais recentes, ela reconhece a evolução dos direitos conquistados pela comunidade, comparando as dificuldades do passado –  quando “ninguém podia casar, ninguém podia se assumir” – com a possibilidade atual de viver com mais abertura e cidadania. Ao mesmo tempo, admite que o peso da exposição pública sempre trouxe desafios: “Tinha um pouco de preocupação de não ser e hoje eu digo que um dos maiores orgulhos que tenho é ser dessa comunidade. Eu me expunha muito, ouvia coisas e não sabia lidar com aquilo tudo”. Nesse sentido, Marina Lima ocupa um espaço raro: uma mulher lésbica que envelheceu publicamente dentro da cena artística brasileira, sustentando sua identidade ao longo de décadas de mudança social. 

Leitura do mês: O Brilho das Velhices LGBT+

Imagem: Reprodução Amazon

O Brilho das Velhices LGBT+ é uma obra organizada por Luis Baron, Carlos Eduardo Henning e Sandra Regina Mota Ortiz. O livro reúne depoimentos e histórias de violência, preconceito e aceitação de pessoas LGBTQIAPN+ com mais de 50 anos, baseados em mais de 55 horas de entrevistas com vinte depoentes de todo o Brasil, com idade entre 40 e 80 anos. Cada narrativa é contada em primeira pessoa e traz momentos, histórias e sentimentos pessoais, seguidos de uma reflexão sobre o contexto do país em que essas vidas se desenrolaram. A obra aborda temas como o etarismo, a solidão afetiva e o apagamento da sexualidade na velhice, questionando os estereótipos que a sociedade associa ao envelhecimento – já que, como aponta um dos autores, essa é uma hegemonia branca e heterossexual, e a velhice LGBT não se encaixa nesse padrão. O propósito central é dar voz a pessoas historicamente invisibilizadas, mostrando que suas vivências são presentes e futuras, não apenas histórias do passado. 

Acontecimento: Caminhada do Orgulho Lésbico toma as ruas do Rio em agosto

Imagem: Reprodução LBGT com Causa

No dia 19 de agosto, Dia do Orgulho Lésbico, o Ocupa Sapatão RJ convocou um ato na Cinelândia, no centro do Rio. Neste ano, a mobilização carregou a mensagem “Justiça por Luana Barbosa e todas nós”, cobrando o fim do lesbocídio e mantendo viva a memória de Luana Barbosa dos Reis, mulher negra e lésbica morta em 2016 após ser agredida durante uma abordagem policial em Ribeirão Preto (SP).

O ato fez parte do “Agosto da Visibilidade Lésbica”, projeto do Ocupa Sapatão RJ, que se estende até o dia 29, quando se celebra o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica.

Estar na rua nesse mês é, ao mesmo tempo, memória e cobrança: memória de quem já lutou antes, e cobrança por um Brasil onde mulheres lésbicas possam existir com segurança.


Esta edição do “BERRO!” foi produzida por Iasmim Santos Silva e Laura Valgueiro Souza, graduandas em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na disciplina  Estágio Curricular Supervisionado I – Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Débora Gauziski, subcoordenadora do Lacon e professora do Departamento de Relações Públicas da FCS/Uerj. 

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