Falar sobre diversidade sem falar sobre raça é contar uma história incompleta. Dentro do próprio movimento LGBTQIAPN+, experiências negras são atravessadas por apagamentos, estereótipos e falta de representação, especialmente se falamos de afeto.

Nesta edição, o BERRO! olha para a homoafetividade negra a partir das tensões entre violência e afeto, destacando produções, espaços e vozes que ajudam a expandir esse debate.

Berro Apresenta

Afetos pelo olhar da homoafetividade negra

Historicamente, o ato de amar para a população negra LGBTQIAPN+ significou negociar espaços, reinventar gestos e aprender a existir pelas beiradas. Mas é justamente dessas margens que surgem narrativas que tensionam violência e afeto, fazendo da homoafetividade negra mais do que tema: uma experiência sensível compartilhada que desloca o olhar e reposiciona o corpo negro LGBTQIAPN+ como centro de sensibilidade, desejo e humanidade. 

No Brasil, pensar a homoafetividade negra é necessariamente atravessar a interseção entre raça, gênero e sexualidade. É nesse cenário que se fortalece a articulação entre o Movimento Negro Brasileiro e o Movimento LGBTQIAPN+, materializada em iniciativas como a Rede Afro LGBT, que evidenciam que não há como dissociar essas experiências sem intercalar essas vivências. 

Por meio dessa percepção, emergem produções artísticas que não apenas representam, mas constroem outras possibilidades de existência. Na música, Linn da Quebrada transforma vulnerabilidade em discurso, deslocando  o lugar da dor para a afirmação. Na literatura, Conceição Evaristo escreve o afeto negro como memória e escrevivência, onde amar também é reivindicar um futuro. Já no audiovisual, o curta-metragem Negrum3 fabula outras possibilidades de vida e vínculo para corpos negros dissidentes. 

E é nesse movimento entre criação e resistência que o afeto ganha corpo,  atravessando telas, vozes e também a cidade.

Berrando pelo Rio

Imagem: Laiza Villaça

Encontro de Cinema Negro na Maré

Foi no Cine Bela Maré, na Zona Norte da cidade do Rio, que a 18ª edição do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul apresentou a sessão Amores Insurgentes, reunindo curtas-metragens que exploram afeto, cuidado e possibilidades para população negra LGBTQIAPN+. A mostra propôs um deslocamento do olhar ao colocar o afeto no centro de narrativas historicamente marcadas pela violência. 

Durante a exibição de ELA E ELU, de Lux Machado, acompanhamos o processo de autocuidado de uma pessoa trans em sua jornada de autocompreensão. Ao longo do filme, o tempo se revela como elemento central, marcando um percurso que não é imediato, mas atravessado por descobertas e deslocamentos. A questão do pronome emerge como parte fundamental desse processo, não apenas como linguagem, mas como reconhecimento de si, indicando que o afeto também se constrói a partir do próprio sujeito, em que o acolhimento das pessoas próximas pode tornar essa travessia menos solitária. 

Se no filme anterior o afeto se constrói no tempo íntimo da descoberta, em DESESQUECER, de Mayara Ferrão, ele se projeta sobre o tempo histórico. A obra articula pesquisa de arquivo, imaginação e tecnologia para reencenar possibilidades de amor entre mulheres negras que não foram registradas, não por não terem existido, mas por terem sido sistematicamente apagadas. Nesse cotidiano, a homoafetividade se manifesta na calma e viva, contrastando com narrativas históricas de violência, abrindo um espaço onde esses corpos pudessem existir em plenitude. 

A sessão, ao reunir essas histórias, revela a potência da criação a partir da perspectiva da homoafetividade negra, transformando em imagem e permitindo que esses afetos sejam, enfim, sentidos.

Depoimento

Imagem: Cortesia de Jânderson Coswosk

Jânderson Coswosk

Nesta edição, convidamos o pesquisador Jânderson Coswosk a apresentar o trabalho que desenvolve à frente do Grupo de Pesquisa Estudos Baldwinianos (CNPq) e a refletir sobre a relevância da obra de James Baldwin para pensar a homoafetividade negra. 

“Nosso grupo reúne pesquisadores interessados nas dimensões estéticas e políticas da escrita baldwiniana, articulando temas como raça, sexualidade, censura, arquivo e circulação transnacional de ideias, da arte e do pensamento negro no Norte e Sul globais.”

Ao longo do depoimento, ele chama atenção para um ponto central: a fragilidade e, muitas vezes, a ausência de um arquivo consistente sobre a homoafetividade negra nas Américas: “Minhas pesquisas e publicações recentes têm se voltado para a forma como Baldwin foi traduzido, apropriado e, em certa medida, silenciado no Brasil, especialmente durante o período da última ditadura civil-militar. Nesse percurso, um dos pontos que mais se evidenciam é o caráter ainda incipiente do arquivo que trata da homoafetividade negra, tanto no Brasil quanto nas Américas de modo geral. Historicamente, a aproximação entre negritude e dissidência sexual e de gênero nem sempre ocupou um lugar central nos debates mais hegemônicos do movimento negro organizado, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil. Nesse cenário, a obra de Baldwin se torna fundamental. Ainda que ele nunca tenha se identificado com o movimento homossexual organizado nos Estados Unidos, sua escrita abordou de maneira explícita e complexa questões relacionadas ao desejo e à vulnerabilidade de sujeitos negros dissidentes do sistema sexo-gênero, para evocarmos Paul Preciado.”

O pesquisador também destaca como certos textos de Baldwin foram apropriados ao longo do tempo: “Um caso emblemático é o romance de sua autoria Giovanni’s Room (1956), que foi rapidamente apropriado como um texto central pelo movimento homossexual estadunidense, mesmo sem uma adesão pública do autor a essa agenda. Mais recentemente, pesquisadores como Matt Brim, Mae Henderson e E. Patrick Johnson têm sido fundamentais para situar Baldwin no campo dos Black Queer Studies, contribuindo para uma leitura interseccional do autor que articula raça, sexualidade e gênero. É nesse horizonte que o grupo tem trabalhado, buscando não apenas revisitar a obra de Baldwin, mas também tensionar os limites do arquivo e ampliar os modos de leitura sobre a homoafetividade negra, sobretudo em contextos marcados por silenciamentos históricos. Pensar Baldwin hoje, a partir do Brasil, é também pensar nas lacunas e nas possibilidades de construção de um campo crítico que dê conta dessas intersecções, tanto no território brasileiro, quanto em outros contextos das Américas.”

Berro Indica

Imagem: Reprodução/Internet

Young Soul Rebels

Ambientado em Londres no fim dos anos 1970, Young Soul Rebels acompanha dois jovens negros que comandam um programa de rádio pirata e se veem envolvidos em um assassinato que atinge diretamente a comunidade LGBTQIA+. O filme mistura música, política e cultura urbana para retratar um período marcado por tensões raciais, violência e transformações sociais. Ao mesmo tempo, constrói uma narrativa sobre identidade e desejo.

Com uma estética marcante e uma trilha sonora bastante elogiada, a obra aborda a interseção entre raça, sexualidade e juventude de forma direta, sem abrir mão da complexidade dos personagens.

LGBTQÍcones

Imagem: Reprodução/Instagram @linndaquebrada

Linn da Quebrada

Multiartista, Linn da Quebrada é atriz, cantora, compositora, ativista social e apresentadora, e vem marcando a indústria como uma das vozes mais potentes da cultura brasileira contemporânea.

Sua trajetória é marcada por uma produção artística que tenciona gênero, raça e sexualidade, trazendo para o centro do debate corpos historicamente marginalizados. Em suas músicas, performances e trabalhos audiovisuais, Linn constrói narrativas que desafiam os padrões CIShéteronormativos e ampliam as possibilidades de representação.

Após ganhar ainda mais público por ter participado do reality show da TV Globo “Big Brother Brasil”, sua atuação tem tido cada vez mais alcance, se conectando com debates políticos e sociais, contribuindo para fortalecer discussões sobre identidade, afeto e existência dentro da comunidade negra LGBTQIAPN+.

Ao mesmo tempo, sua trajetória recente também evidencia as vulnerabilidades que atravessam a vida de pessoas trans no Brasil. Linn se afastou temporariamente de compromissos profissionais para cuidar da saúde mental e trouxe à tona discussões sobre pressão midiática e a falta de redes de apoio adequadas. Sua vivência expõe como, mesmo em posições de destaque, corpes trans seguem enfrentando desafios estruturais que vão muito além da visibilidade.

Leitura do mês

Imagem: Reprodução/Internet

Beijo na face – Conceição Evaristo

No conto “Beijo na face”, presente na coletânea Olhos d’Água, Conceição Evaristo narra a história de Salinda, uma mulher negra que, inserida em um casamento heterossexual opressivo, encontra em outra mulher a possibilidade de viver o desejo e, sobretudo, a libertação.

A relação se constrói à margem, rompendo com um arranjo familiar marcado por um sufocamento. É nesse deslocamento que o conto ganha força.

Evaristo trabalha a homoafetividade negra sem recorrer a estereótipos ou espetacularização. Pelo contrário, o conto revela como o racismo, o machismo e a normatividade moldam até mesmo as formas de amar, impondo limites e apagamentos.

Com uma escrita sensível e direta, “Beijo na face” evidencia o que muitas vezes fica fora das narrativas centrais: o direito de amar.

Acontecimento

Imagem: Reprodução/Instagram @vanessadamata

Amor para todos com Vanessa da Mata

Explorando o ato de amar com sensibilidade e teor universal, Vanessa da Mata transformou o palco do Parque Garota de Ipanema em um espaço livre para uma troca coletiva afetuosa durante o Festival Piano Para Todos, no dia 26 de abril. O show lotou o espaço num domingo de praia no Rio de Janeiro: desde jovens a idosos, famílias, casais homoafetivos, crianças vivenciaram um encontro agradável com a cantora mato-grossense.

Suas canções formam um verdadeiro carrossel de emoções. Ao não marcar explicitamente o gênero de quem ama e quem é amado, como por exemplo em Não Me Deixe Só, a composição rompe com delimitações normativas e abre espaço para diversas identificações e vivências que retratam uma ambiguidade entre o afeto positivo e o afeto negativo. Muitos LGBTQIAPN+ se encontram nas linhas cantadas, que refletem jornadas não só cativadas pelo amor romântico, mas pelo ato de entrega que expõe medos e desejos. 

Entre descobertas de si, reconstruções do passado e experiências compartilhadas na cidade, o afeto se afirma como linguagem, memória e possibilidade para a população LGBTQIAPN+ negra. Porque, no fim, amar é também um ato de invenção. De presença. E, sobretudo, de futuro. 


Esta edição do “BERRO!” foi produzida por Kaío dos Santos Machado, graduando em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Laiza Villaça, graduanda em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), respectivamente bolsistas de Estágio Interno Complementar e Extensão do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), sob a supervisão de Marcelo Alves de Resende, doutorando do PPGCom/Uerj e coordenador-técnico (bolsista Qualitec do Lacon).

BERRO #50 – Afetos pelo olhar da homoafetividade negra