A relação entre cultura pop e esportes profissionais muitas vezes impulsiona debates sociais, pressionando instituições tradicionais a confrontarem suas próprias contradições. No hóquei no gelo norte-americano, a série Heated Rivalry tornou-se um exemplo claro dessa dinâmica. Centrada no romance secreto entre dois astros do esporte, Shane Hollander e Ilya Rozanov, a produção conquistou milhões de espectadores e reacendeu discussões sobre a falta de representatividade LGBTQIAPN+ no hóquei e no esporte.

Nesta edição do BERRO!, exploramos a falta de representatividade LGBTQIAPN+ no esporte a partir desse fenômeno cultural e refletimos sobre os desafios, contradições e possíveis avanços em um dos ambientes mais conservadores da cultura esportiva.

Berro Apresenta

Imagem: Crave/HBO Max

A Estagnação LGBTQIAPN+ no Esporte Profissional

O esporte profissional costuma ser tratado como um espaço de superação e união. No entanto, quando o assunto é diversidade, muitas ligas ainda operam sob uma lógica de silenciamento. Em diversas modalidades, atletas LGBTQIAPN+ continuam enfrentando pressões institucionais, culturais e midiáticas que dificultam assumir publicamente suas identidades.

Nos últimos meses, esse debate ganhou força a partir do fenômeno Heated Rivalry. A série, baseada nos livros da autora Rachel Reid, acompanha o romance secreto entre dois astros do hóquei profissional e rapidamente se tornou um sucesso internacional. A narrativa, centrada na tensão entre amor, carreira e masculinidade dentro de um esporte altamente conservador, conquistou audiência no mundo todo e levou novos públicos a se interessarem pelo hóquei no gelo.

O sucesso foi tão grande que a própria National Hockey League (NHL) passou a surfar na popularidade da obra. Franquias e perfis oficiais aproveitaram o engajamento da série para atrair novos fãs, comercializar produtos e dialogar com um público que historicamente esteve distante. No entanto, esse movimento também revelou uma contradição. Enquanto o romance entre atletas fictícios viraliza nas telas, a realidade da liga permanece marcada por uma ausência histórica de jogadores abertamente LGBTQIAPN+, cujo ambiente profissional continua sendo frequentemente apontado como um dos mais resistentes à diversidade entre as grandes ligas esportivas norte-americanas.

Antes mesmo do sucesso da série, a NHL já tinha campanhas voltadas para promover a inclusão de pessoas LGBTQIAPN+ no esporte, como as Pride Nights, ou Noites do Orgulho, onde os times organizam jogos que contam com tacos nas cores do arco-íris, conteúdo especial durante a partida e leilões em benefício de ONGs LGBTQIAPN+ locais. Entretanto, nas últimas temporadas, o evento tem sido alvo de críticas por alguns jogadores que se recusam a usar camisas com o tema do Orgulho, alegando motivos pessoais ou religiosos.

A crítica ganhou ainda mais visibilidade quando atores da própria série passaram a cobrar mudanças reais. O ator canadense François Arnaud, que interpreta o veterano Scott Hunter, um personagem marcado pelo trauma de esconder sua orientação sexual durante toda a carreira, tem sido uma das vozes mais incisivas nesse debate. Em entrevistas, ele apontou a contradição entre o entusiasmo da liga com a popularidade da série e a falta de ações concretas para tornar o esporte mais seguro para atletas LGBTQIAPN+.

O impacto de Heated Rivalry mostra que o público está disposto a consumir histórias queer no esporte. A questão que permanece é outra: quando essa representatividade deixará de existir apenas na ficção para ocupar também os vestiários e arenas do mundo real?

Berrando pelo Rio

Imagem: FUNARJ

Peça “Hétero Sigilo”

Com idealização, dramaturgia e performance de Bernardo Dugin, e com direção de João Fonseca, a peça “Hétero Sigilo” estreia na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema. O monólogo constrói um relato íntimo e potente sobre os pactos que fazemos para caber na sociedade, expondo como a heteronormatividade atravessa indivíduos e famílias, ensinando a mentir e a performar sob o silêncio. A peça é um convite para que o público reflita de forma íntima sobre uma violência que não se dá apenas fisicamente, que atinge cada decisão e afasta quem é silenciado de ser simplesmente quem se é. “Hétero Sigilo é um convite coletivo à verdade.”

🔞 Classificação Indicativa: 18 anos

🗓️ 06 a 29 de março | Sex e Sáb, 20h; Dom, 19h

📍 Teatro Laura Alvim | Casa de Cultura Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176, Casa de Cultura Laura Alvim, Ipanema, Rio de Janeiro/RJ – 22420004

Depoimento

Marcelo Alves de Resende (Pesquisador do Lacon)

Marcelo Alves de Resende é Pesquisador, Jornalista e Doutorando em Comunicação pela Uerj. Bolsista Qualitec do Lacon e com olhar atento às estruturas de poder e à construção de subjetividades no futebol, sua trajetória acadêmica e profissional dedica-se a investigar como a comunicação molda a percepção pública sobre o esporte, revelando as tensões entre performance, identidade e as dinâmicas de silenciamento que permeiam os campos e as redações.  Marcelo Resende também é goleiro de futebol. Jogou em categorias de base de alguns clubes. Disputou por anos o Campeonato Carioca de Fut7, atuando contra o Falcão, maior jogador da história do futsal, na época que o craque foi jogador do Vasco. Hoje, atua no futebol amador. Torcedor do Vasco, Marcelo Resende frequenta estádios de futebol desde criança.

Em entrevista exclusiva para esta edição do BERRO!, Marcelo discorreu sobre como o futebol, particularmente o masculino, é tido como um ambiente extremamente machista e LGBTfóbico, o que historicamente representa um afastamento de jogadores e torcedores do esporte. Mesmo com campanhas contra a LGBTfobia, muitos dos clubes apenas se pronunciam quando julgam necessário, com ações no mês do orgulho e sem um impacto real na estrutura do esporte, configurando o “pinkwashing”.

Marcelo ainda comenta sobre um dos maiores pontos de resistência à homofobia: “Existe desde a última década, principalmente coletivos de torcidas que lutam por um outro jeito de torcer, de estar presente nos estádios. E esse embate [contra a LGBTfobia] ainda tem acontecido hoje, para que essa mudança  ocorra nos jogos, para deixar que os indivíduos LGBTs consigam estar presentes no estádio sem serem violentados, sem passarem por situações de violência e se sintam à vontade dentro desse ambiente do futebol.”

Berro Indica

Mario e Leon (2018)

Para quem quer explorar histórias LGBTQIAPN+ dentro do universo esportivo, uma das obras mais marcantes dos últimos anos é o filme suíço Mario.

O longa acompanha dois jovens jogadores de futebol que integram a mesma equipe profissional e começam a desenvolver um relacionamento secreto. À medida que o romance se intensifica, eles enfrentam a pressão de dirigentes, patrocinadores e da própria cultura do esporte — que encara a homossexualidade como uma ameaça à carreira. Sensível e realista, o filme aborda o dilema vivido por muitos atletas que se veem obrigados a escolher entre viver sua identidade ou preservar suas oportunidades profissionais.

LGBTQÍcones

Brock McGillis

Primeiro jogador de hóquei semiprofissional canadense a se assumir publicamente como gay, Brock McGillis se tornou uma das vozes mais importantes na defesa da inclusão LGBTQIAPN+ no hóquei no gelo.

Após encerrar sua carreira competitiva, McGillis passou a dedicar grande parte de seu trabalho a transformar a cultura do esporte, realizando palestras e treinamentos com equipes, federações e programas de formação de atletas. Seu objetivo é enfrentar diretamente um dos problemas mais persistentes do hóquei masculino: o uso de linguagem homofóbica e a pressão para que jogadores escondam suas identidades.

Em entrevista recente ao portal Outsports, McGillis afirmou que a história retratada em Heated Rivalry não está distante da realidade do esporte. Segundo ele, a narrativa sobre jogadores que escondem relacionamentos por medo de prejudicar suas carreiras é algo que ele próprio “vivenciou” durante sua trajetória no hóquei.

Hoje, McGillis atua como educador e ativista, trabalhando para tornar o hóquei um ambiente mais seguro e acolhedor para atletas LGBTQIAPN+.

Leitura do Mês

Heated Rivalry (Rachel Reid)

Antes de se tornar fenômeno televisivo, Heated Rivalry nasceu como um romance publicado em 2019 dentro da série literária Game Changers.

O livro acompanha a história de dois jogadores de hóquei, Ilya Rozanov e Shane Hollander, que ao despontarem no cenário profissional, são colocados pela mídia como rivais natos. Na sombra dessa rivalidade, eles mantêm um relacionamento secreto ao longo de anos, escondendo o romance para proteger suas carreiras. A obra combina romance, tensão esportiva e reflexões sobre masculinidade dentro de um dos ambientes mais conservadores do esporte.

Com o sucesso da adaptação televisiva, o livro voltou às listas de mais vendidos e ganhou novos leitores ao redor do mundo.

Acontecimento

Nicole Silveira no Skeleton

Enquanto as ligas profissionais masculinas de inverno, como a NHL, ainda hesitam em abraçar plenamente a diversidade, os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 mostraram um caminho diferente. Um dos grandes destaques brasileiros foi a gaúcha Nicole Silveira, que consolidou sua posição como uma das maiores atletas de Skeleton do mundo.

Nicole, que é abertamente parte da comunidade LGBTQIAPN+, protagonizou um momento inusitado ao competir contra a sua esposa, a atleta belga Kim Meylemans nessas Olimpíadas de Inverno. Mais do que simbolismo, Nicole entregou performance ao conquistar a 11ª posição. Com esse resultado, ela não apenas superou sua própria marca de Pequim-2022, como garantiu o melhor desempenho da história do Brasil em modalidades de gelo e o terceiro melhor resultado geral do país em Jogos de Inverno. Em um ambiente de alta velocidade e precisão, a sua conquista frente a todos os sacrifícios enfrentados, vale muito mais do que ouro.


Esta edição do “BERRO!” foi produzida por Kaío dos Santos Machado, graduando em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista de Estágio Interno Complementar do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon/Uerj), e Tainá Marques Tavares, graduanda em Comunicação Social – Relações Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista de Iniciação Científica do Lacon, sob a supervisão de Marcelo Alves de Resende, doutorando PPGCom/Uerj e bolsista Qualitec do Lacon.

BERRO #49 – A Diversidade que o Esporte Ainda Evita