Berro #47

Dia 04/11

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) sediou, no mês de novembro, a segunda edição do “BERRO! Expressão e Comunicação LGBTQIAPN+”, dedicado a discutir a condição LGBTQIAPN+ na academia e mercado de trabalho, realizado pelo Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (LACON). Dentro do “BERRO!”, houve a II Jornada Identidades, Gêneros, Corpos e Sexualidades, reunindo estudantes e pesquisadores para a apresentação de trabalhos acadêmicos. A atividade destacou temas ligados à comunicação, à cultura e às diferentes formas de representação nos meios de mídia contemporâneos.

Um dos trabalhos destaques da Jornada, durante a sessão 4, foi de Pâmela Cordeiro da Silva sobre “Representatividade, moda e entretenimento: o retorno da  Victoria’s Secret Show”, que propôs uma reflexão sobre o reposicionamento da marca e o modo como o evento tenta se adaptar às demandas contemporâneas por diversidade e inclusão no setor da moda.

Numa entrevista após sua apresentação, a pesquisadora disse que espera que as pessoas tenham mais amor por elas mesmas e compreendam que apesar de existirem diversos produtos no mercado, temos o poder de escolha sobre o que mais reflete quem somos e que a moda está ligada ao exercício de ser cidadão. Ao ser perguntada sobre o que significa apresentar no Berro, Pâmela diz que possui um carinho enorme pela UERJ e que acredita que os trabalhos apresentados no Berro são importantes para a construção da cidadania, ao reconhecimento e à representatividade no Brasil. 

Outro estudo de relevância, também na sessão 4, foi a pesquisa “Representações LGBTQIAPN+ nas telenovelas das 21h da TV Globo: as singularidades de Félix (Amor à vida) e Ivana/Ivan (A força do Querer)” de Vagner Vieira e Isadora Ortiz. Ao ser perguntado sobre as possibilidades das novelas como com um espaço de acolhimento, debate e transformação social para personagens LGBTQIAPN+, Vagner disse que devido ao conservadorismo da sociedade brasileira, infelizmente, ainda é extremamente difícil apresentar um personagem da comunidade, já no primeiro capítulo, tendo sua vida sexual ativa. Ainda assim, por meio de seu estudo, ele percebe que os telespectadores estão mais abertos a acolher essas construções ficcionais. 

Durante a conversa concedida após a apresentação, Vagner reforçou o papel da televisão no cotidiano da sociedade e espera que as pessoas reflitam além dos estereótipos preconceituosos existentes na comunidade. “As telenovelas precisam trazer esse debate educacional para podermos evoluir nessa frente e trazer um ambiente mais igualitário e seguro”, pontuou. 

No período da tarde, a mesa de abertura se propôs a falar sobre o significado do evento para a comunidade acadêmica, em especial para levantar conversas sobre os desafios e as conquistas da comunidade LGBTQIAPN+. O início do evento também contou com uma homenagem à Professora Vania Oliveira Fortuna, do Departamento de Relações Públicas da Uerj. Organizadora do “BERRO!”, Vania Fortuna foi presenteada com um buquê de flores.

A 1ª mesa teve o tema “LGBTQIAPN+ na academia e no mercado de trabalho” e levantou questionamentos sobre a importância da diversidade e das oportunidades acadêmicas para a comunidade, em especial para pessoas trans. Os participantes convidados foram Renan Quinalha e Alê Primo, e contou com o Professor Ricardo Ferreira Freitas – coordenador do LACON – como mediador. 

Durante a conversa, Renan Quinalha falou sobre as atuais dificuldades enfrentadas com o atual processo de precarização das relações de trabalho, resultando em uma dissolução do mercado. Além disso, foi falado sobre como o trabalho é uma forma de pessoas LGBTQIAPN+ conquistarem a própria independência, permitindo que se afastem de ambientes tóxicos.

A conversa continuou com Alê Primo falando sobre a importância da diversidade e sobre os desafios da falsa inclusão. Para a convidada, muitas organizações costumam contratar indivíduos de grupos minoritários apenas para evitar críticas, porém, no dia a dia, existe uma exclusão desses funcionários por conta de um ambiente que não buscou se adaptar.

A mesa teve a importância das cotas trans como tema recorrente, especialmente nos ambientes acadêmicos. O Professor Ricardo Ferreira Freitas afirmou que a educação é um elemento essencial para a mudança, e como o direito à escola deveria ser uma discussão recorrente durante todo o evento.

Dia 05/11

Dia 05/11

A sessão 5 da II Jornada foi iniciada pela videoarte “Identidade em movimento”, de Dani Ferreira, que propõe uma reflexão sensível e potente sobre o processo de autodescoberta e afirmação de identidade de uma pessoa trans diante das imposições sociais e familiares. A obra traduz, em imagens e gestos, a luta constante entre o ser e o parecer, revelando as violências sutis e explícitas que moldam o corpo e o comportamento sob o olhar normativo da sociedade. Ao longo da narrativa, a ruptura com essas pressões se transforma em um ato de liberdade e resistência: quando o artista se assume como é, o movimento da obra torna-se símbolo de renascimento. 

Outro trabalho destaque foi “A Navalha na Carne das Bonecas: (Re)significação da Comunicação na Empregabilidade Trans e Travestis”, de Teresa Silveira Cardoso e Marcelo de Barros Tavares, que trouxe uma reflexão profunda sobre os desafios estruturais enfrentados por essas identidades no mercado de trabalho. A apresentação destacou como a comunicação — enquanto prática social, discursiva e institucional — pode tanto reforçar estigmas quanto abrir caminhos para novas formas de reconhecimento e inclusão. Foi enfatizado que a empregabilidade trans e travesti depende não apenas de oportunidades formais, mas também de transformações simbólicas que rompam com a lógica cisnormativa presente em ambientes profissionais.

A sessão 6 da Jornada trouxe trabalhos com temas focados na presença de histórias queer no entretenimento e no crescimento de atividades e produções voltadas para o olhar feminino. 

Um dos destaques foi o texto “O Tabu da Homossexualidade no Esporte: análise a partir da série Olympo (Netflix)”, falando sobre as dificuldades de homens queer de lidar com sua sexualidade em ambientes masculinos e heteronormativos. O trabalho trouxe o exemplo do personagem Roque, que precisa enfrentar os desafios de ser um jogador de rugby e viver um relacionamento com outro homem. A dificuldade de aceitação vivida por Roque é um reflexo de como o mundo dos esportes resiste a aceitar a diversidade, oprimindo esportistas e os impedindo de demonstrar quem realmente são.

Na 2ª mesa sobre a pauta LGBTQIAPN+ no Esporte, a Professora Leda Maria da Costa abordou a perspectiva da misoginia e do machismo em um contexto histórico. Ela analisou as simbologias envolvidas, apresentando a mulher como uma figura subversiva, historicamente associada às bruxas. A professora comentou o surgimento do futebol feminino, sua proibição durante o Estado Novo e a violência de gênero presente dentro e fora dos estádios.

​Já o mediador e palestrante Marcelo Alves de Resende apresentou o caso de Nando Gald. O influenciador e criador de conteúdo vascaíno desafia a cisheteronormatividade ao desconstruir as performances de gênero e os estereótipos do torcedor. Marcelo Resende destacou como o Clube de Regatas Vasco da Gama institucionalizou a imagem de Nando, integrando o influenciador e as pautas de diversidade nas ações oficiais do clube.

​Por fim, Marcelo Silva, professor de educação física da rede pública estadual de ensino e fundador do Aquatrans, detalhou seu projeto, que busca introduzir pessoas trans na prática esportiva, especificamente na natação. Ele explicou como essa iniciativa é vital para a construção da autoestima, focando não apenas na perspectiva competitiva, mas na saúde e na sociabilidade de corpos trans. O projeto possui reconhecimento internacional, atraindo participantes de diversos estados e países.

A 3ª mesa teve o tema “LGBTQIAPN+ na cultura e no entretenimento” e debateu o surgimento da cultura queer e da representatividade nas produções. Os participantes presentes foram Thiago Soares, Bárbara Aires e Nlaisa Luciano.

Começando o debate, Thiago Soares falou sobre como a cultura pop vem influenciando as campanhas e diferentes áreas. O exemplo citado foi um post sobre o ENEM, que diz para os candidatos não serem como Ariana Grande, que cancelou sua vinda ao Brasil, e irem para a prova. 

Em seguida, foi discutido sobre como a visão de cultura é limitada. Para Bárbara Aires, a diversidade não é pensada como algo cultural, e acaba não tendo toda a sua importância reconhecida. Já para Nlaisa Luciano, a linguagem tem um papel fundamental na criação de costumes normalizados socialmente, afirmando que a linguagem é uma perspectiva fundamental que perpetua normas e práticas historicamente normalizadas.  

Dia 06/11

Na jornada do dia 06/11, na sessão 8, um dos destaques foi o texto “Corpos Matáveis, Corpos Transformáveis: Dinâmicas de colonização e racismo em Sinners”. Neste artigo, a pesquisadora apresenta a obra cinematográfica Sinners e nos mostra como a colonização é transformada no filme. Nele é exemplificado como um vampiro invade um bar voltado para pessoas negras e busca pegar a cultura gerada naquele local para ele transformar as pessoas que ali estavam em um padrão irlandês como ele, através da transformação fictícia de humano para vampiro. Assim, nesta obra lúdica, podemos ver muitas críticas e demonstrações do processo de colonização e apagamento da cultura negra. 

Outro trabalho que teve grande relevância foi o trabalho da Victoria de Freitas Andrade e Mariana Lemos Chomentowski sobre o “Mês LGBTQIAPN+ : O cinema encontra acolhimento e resistência dentro da universidade” que aconteceu no auditório da PPGCOM, na sessão 7. Elas começaram a apresentação falando sobre o projeto “Feixes da História”, um projeto cujo objetivo é organizar atividades de aulas, minicursos e oficinas que abordam a relação cinema e o ensino de história.

Na introdução elas comentaram sobre como o projeto auxiliou a elaborar e divulgar produtos que ajudam na didática e no pensar de conteúdos, e formas de ministrar aulas de história. Através dessa introdução, elas evidenciaram como o evento surgiu: o projeto foi criado em comemoração ao mês do orgulho LGBTQIAPN+ após elas notarem a carência de visibilidade ao ambiente universitário, e a falta de celebração da existência da comunidade. 

Ademais, elas abordaram que o projeto “Feixes da História” começou  com a apresentação de 4 filmes: The Rocky Horror Show (1975), Nunca Fui Santa (1999), Crush: Amor Colorido (2022) e Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), sendo exibido um filme a cada semana do mês de junho. Esses filmes as ajudaram a analisar as questões que giram em torno do diálogo entre história e cinema. Por fim, elas concluíram o trabalho convidando todos que estavam presentes para a exibição do filme Wicked parte I, que aconteceu no dia  13/11 na UERJ. Esse encontro levantou debates sobre temas que estão presentes tanto no filme, quanto no nosso dia a dia.

A 4ª mesa  foi sobre a comunidade LGBTQIAPN+ e saúde mental, com a participação de Marcelle Esteve, Céu Cavalcanti e Mario Carvalho. O debate trouxe à tona o estresse crônico e cumulativo que a comunidade apresenta devido à posição social estigmatizada. Durante a palestra, foram discutidos os dilemas no manejo do suicídio em jovens LGBTQIAPN+, que têm possibilidade de 2 a 7 vezes maior de tentar tirar a própria vida em relação à população em geral. Ainda recebeu um destaque maior, a alta taxa de depressão em pessoas trans, que é de 69,5%.

Além desses dados, os especialistas ressaltaram como a discriminação cotidiana, o preconceito institucional e a falta de acesso adequado a serviços de saúde mental reforçam ciclos de sofrimento psicológico. Esse cenário cria barreiras que impedem que indivíduos LGBTQIAPN+ busquem e recebam apoio antes que problemas emocionais se agravem. 

Outro ponto abordado foi a importância dos espaços seguros, e da construção de redes de apoio. Mesmo quem não faz parte da comunidade, os palestrantes recomendam que os aliados se eduquem, acolham e lutem, pois isso se demonstra essencial para reduzir os danos psicológicos e promover o bem-estar. Os palestrantes reforçaram que a prevenção ao suicídio e a promoção da saúde mental passam, necessariamente, por uma transformação social mais ampla, que combata o estigma e garanta o respeito à diversidade em todas as suas formas.

A 5ª e última do evento mesa teve o tema “LGBTQIAPN+ na política” e trouxe discussões sobre a presença de mulheres transexuais na política e a importância das cotas trans nas faculdades. Os participantes convidados foram Bruna Benevides, a deputada estadual Dani Balbi e a vereadora Benny Briolly, e contou com o Professor Ricardo Freitas como mediador.

O debate começou com Bruna Benevides falando sobre quais ações são necessárias para uma maior participação de pessoas LGBTQIAPN+ na política. Para a convidada, a luta da comunidade é fundamental para esse processo, mas não pode ser a única ação devido ao aumento gradativo de grupos conservadores nas esferas de poder.

Em seguida, a deputada Dani Balbi trouxe a discussão sobre a influência burguesa na forma como lidamos com nossos corpos. Segundo a convidada, o controle dos corpos é importante para a maximização dos lucros da burguesia. Nessa lógica, a diversidade funciona como uma antítese a esse processo.

A vereadora Benny Briolly levantou um questionamento sobre quais os avanços das discussões de esquerda contra uma extrema-direita que nunca sai do poder. De acordo com a convidada, as mulheres transexuais na política não estão pedindo permissão para entrar nesses espaços, mas sim explicando de forma lógica e didática que não há mais justificativas para as pessoas no meio acadêmico não entenderem a importância de políticas trans. Dessa forma, a mesa e o evento foram finalizados pelo professor Ricardo Ferreira Freitas. 

A segunda edição do “Berro!” foi um grande sucesso, reforçando a importância do evento para as discussões LGBTQIAPN+ no meio acadêmico. As mesas levantaram pautas de extrema importância, como a participação da comunidade em diferentes campos e a necessidade das cotas trans nas universidades. As Jornadas também incentivaram os debates em torno de diferentes grupos minoritários e na divulgação dos trabalhos. O evento serviu, novamente, como referência sobre como assuntos referentes ao público LGBTQIAPN+ devem ser retratados. 

 

# Esta edição do “Berro!” foi feita pelas alunas: Ana Clara Rodrigues de Jesus; Annike de Brito Ferreira; Julia Oliveira de Sousa; e Manoele Ribeiro Crispim, no âmbito da disciplina Estágio Supervisionado II LCI (Turma 1), sob a coordenação do Prof. Roberto Vilela Elias.

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