Henry Fragel
Resumo
Há quase dez anos, a drag queen Jasmine Masters veiculava, em seu canal do YouTube, um vídeo em que bradava: “RuPaul’s Drag Race has fucked up drag!”3(em tradução livre, “RuPaul’s Drag Race arruinou a arte drag!”). A ex-competidora do pioneiro reality show, que estreou em 2009 e foi exibido pela primeira vez no Brasil sob o título Corrida das Loucas no canal Vh1, não alcançou um desempenho formidável no programa e recebia críticas frequentes em relação às roupas, maquiagens e perucas, apesar de elogiada pelo carisma e talento para a comédia. Seguindo a fórmula de outros shows de variedades como American’s Next Top Model, as competidoras de cada temporada tinham sua versatilidade posta à prova a cada novo desafio centrado em uma habilidade específica da arte drag. Apesar de contar com uma bancada de jurados fixos e celebridades convidadas, o veredicto final cabia a RuPaul, a grande estrela drag do entretenimento estadunidense, que carrega um longevo legado na moda, na música e na televisão. A franquia brasileira do programa foi lançada em 2023. A ressonância transcultural do reality show, entretanto, não precisou da chancela oficial dos detentores da marca para se efetivar: além de influenciar uma série de shows centrados na competição ou no contato com a cultura drag, também contribuiu para a auto-expressão de um cantores e compositores que, aliados ao apelo estético de seus personagens, exploraram os mais distintos registros sonoros da música brasileira. Entretanto, por mais impactante que o programa tenha demonstrado ser na promoção de uma memória e de uma cultura LGBTI convertida em indústria, o show de Rupaul esteve longe de ser a primeira manifestação que parodia os concursos de beleza e de talentos na cultura dissidente brasileira. Parte importante da construção de espaços de resistência LGBTI à ditadura militar, famílias alternativas, memória coletiva e cultura popular, os concursos de beleza gay foram um dos principais expoentes da arte transformista e zelam, hoje, pela sobrevivência dessa cultura diante da assimilação ao apelo internacional da máquina drag.
Referências

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GREEN, James N.. “Mais amor e mais tesão”: a construção de um movimento brasileiro de gays,  lésbicas e travestis. Cadernos Pagu, n. 15, p.271-295, 2000. 

LORENSONI, Muryllo Rhafael; BERTOLOTO, José Serafim; BARROSO, Maria Regiane S. L.;  DAVIES, Ms. Silvia Mara; VOLTOLINI, Ana Graciela Mendes Fernandes da Fonseca. Miss Brasil  Gay: construindo imaginários sobre a cidade de Juiz de Fora – MG. Relacult: Revista Latino Americana de Estudos em Cultura e Sociedade, Foz do Iguaçu, v. 6, n. , p. 1-9, mar. 2020. 

MESQUITA, Marina Leitão. Os objetos que fazem as misses: uso, criação e circulação de artefatos  em concursos de beleza gay. Revista Homem, Espaço e Tempo, Sobral, v. 1, n. 18, p. 1-13, 2024. 

MUÑOZ, José Esteban. Disidentifications: queers of color and the performance of politics.  Minneapolis: University Of Minnesota Press, 1999. 

NOLETO, Rafael da Silva. “Brilham estrelas de São João!”: notas sobre os concursos de “Miss  Caipira Gay” e “Miss Caipira Mix” em Belém (PA). Sexualidad, Salud y Sociedad (Rio de Janeiro),  [S.L.], n. 18, p. 74-110, dez. 2014. 

SILVA JUNIOR, Aureliano Lopes da. Para uma história dos concursos de beleza trans: criação de  memórias e tradição para um certame voltado para travestis e mulheres transexuais. Cadernos Pagu,  Campinas, v. 50, p. 1-56, 2017.

“RuPaul’s Drag Race Has Fucked Up Drag”: Perspectivas de um Transformismo Desidentificatório
Como citar:

FRAGEL, Henry. “RuPaul’s Drag Race Has Fucked Up Drag”: Perspectivas de um Transformismo Desidentificatório. Lacon - Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo | UERJ, ano 2025. Disponível em: link. Acesso em: 12 de junho de 2026.

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