Depois que defendi a tese “Além de preto, viado”: linguagens e produção de sentidos protagonizadas por bichas pretas no cotidiano midiatizado, no âmbito do Programa de Pós-graduação em Mídia & Cotidiano da UFF, confrontei-me com a seguinte pergunta: e agora, bicha? Cheguei a realizar consultoria de pesquisa para organizações do Terceiro Setor, como a Rede Comuá e Fundo Brasil de Direitos Humanos. A publicação “Filantropia e Comunicação Comunitária: caminhos para o fortalecimento da comunicação por direitos no contexto da sociedade civil no Brasil” foi lançada em um webinário com debates relevantes e com foco nos povos indígenas, a partir de entrevistas com representantes da Rede Wayuri e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Além dela, realizei pesquisa que registrou as experiências de apoio do Fundo Brasil de Direitos Humanos a povos e comunidades indígenas e tradicionais, que pode ser acessada aqui. Em ambos os trabalhos, apliquei metodologias de pesquisa, com técnicas de entrevistas semiestruturadas. Mas, no fundo, sentia um chamado para ir além.


Segui apostando na academia porque sentia uma vontade genuína de partilhar os conhecimentos que gentilmente me foram oferecidos dentro das universidades públicas das quais fiz parte. Submeti o projeto Diversas, mas inclusivas? Narrativas empresariais sobre LGBTQIAPN+ à Faperj, juntamente com o Prof. Dr. Ricardo Ferreira Freitas, que aceitou meu convite de supervisão deste pós-doutoramento alinhado com as pesquisas que ele desenvolve aqui no Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo – Lacon. A bolsa de Pós-Doutorado Nota 10 foi conquistada e celebrada com muita alegria, já que também é acrescida de uma taxa de bancada que permite cobrir os custos da prática investigativa, como a compra de livros, inscrições em congressos, traduções, passagens aéreas para eventos científicos etc.
Enxerguei nessa nova fase de vida uma grande oportunidade para não apenas robustecer minha prática de pesquisa, com foco na produção intelectual que a própria bolsa Nota 10 propicia, mas também ampliar minhas experiências de extensão e ensino. Sendo esta última um grande desafio, que foi sendo apresentado a mim aula após aula. Durante o percurso, ainda em andamento, a docência tem ancorado em minha mente a possibilidade concreta de me tornar professor universitário concursado.
A ficha caiu: sou professor!
Dentre as mais variadas atividades que tenho desempenhado na condição de pós-doutorando do PPGCom-Uerj está o ensino. Já ministrei três disciplinas no programa, a saber: (1) Tópicos Especiais em Cultura das Mídias, Imaginário e Cidade, com Ricardo Freitas, Muniz Sodré e Raquel Paiva; (2) Narrativa, Experiência e Cidade, com Ricardo Freitas e Janice Caiafa; e (3) Mídias, Imaginários e Afetos, com Ricardo Freitas, Eduardo Bianchi e Carlos Vogel. Tais cursos, inclusive com dois deles em parceria com a ECO-Pós, conferiram-me experiência de docência para mestrandos e doutorandos que me estimularam bastante no aperfeiçoamento desta prática.
Tive o privilégio de estar ao lado de professores e professoras com vasto lastro docente. Pessoas que há décadas compartilham seus saberes dentro de sala de aula com alunes ávides por conhecimento. Cada aula, de cada disciplina, era uma avalanche de aprendizado: recorte da bibliografia, objetivo do curso, relacionamento com os outros docentes, com a secretaria do programa, os temas a serem trabalhados, as questões suscitadas em sala, os convites para bancas de qualificação e defesa, enfim, um mundo se abria diante de mim; e, junto dele, os mais variados afetos me atravessavam com a materialização dessa nova profissão que foi me tomando de assalto, a de ser professor.


Lembro-me do primeiro dia de aula no PPGCom-Uerj: coração na boca e alegria eram o mood. Ricardo e eu exibimos o documentário “Transo” (2023), dirigido por Lucca Messer, que aborda a vida sexual, o prazer e os afetos de pessoas com deficiência, tendo sido indicado ao Emmy Internacional de melhor documentário. Eram cerca de 40 alunes, por demais participativos, que lotaram o Auditório Prof. João Maia todas as tardes das quintas-feiras do primeiro semestre de 2025.
E como acreditamos no aprendizado coletivo, nas trocas e nas experiências como possibilidades teóricas, recorremos à nossa rede pessoal para amplificar nossos encontros acadêmicos. No decorrer das três disciplinas, contamos com convidades que estiveram presentes para partilharem suas ideias, pensamentos e feitos. Foi um privilégio contar com aulas incríveis de pessoas que fazem a diferença em suas áreas de atuação.
Pedagogias sensíveis: afetos e aprendizados coletivos
Na aula “Brechas e resistências: reinventando o cotidiano”, após a exibição de “Favela Gay” (2014), recebemos seu diretor Rodrigo Felha (@rodrigo_felha) e uma das entrevistadas do documentário, Carol Flávia. Foi BA-BA-DO! Primeiro porque no filme Carol não tinha assumido sua travestilidade, gerando certa surpresa para quem a ouvia; e, segundo, sua partilha de experiências transgêneras em comunidades favelizadas, como a violência do tráfico e seus trabalhos comunitários, revelou um cotidiano brutal, mas que não se deixa sucumbir. Brilho e alegria também fazem parte das memórias de LGBTQIAPN+ de favela.
Seguindo nossa linha de Cultura das Mídias, Imaginário e Cidade, tivemos um reforço sonoro para refletir sobre a diversidade dos corpos, identidades e aquilombamentos. O Grupo de Estudos e Pesquisa Etnomusicológica NEGÔ, liderado pelo Prof. Dr. Leonardo Moraes (PPGM-UNIRIO), sacudiu nossas mentes com uma pesquisa sobre o maior festival e plataforma de cultura, educação e entretenimento negro do Brasil, a festa BATEKOO.
Não menos vibrante, chique e potente foram as participações dos irmãos Wallace e Paulo Lino, idealizadores do coletivo “Entidade Maré”, que desde 2020 preserva e divulga a memória de LGBTQIAPN+ de favelas. Exibimos o curta-metragem “Noite das Estrelas”, que retrata acontecimentos e narrativas que perpassam décadas criando corpos e vidas para além da dor, festejados no território da Maré e fora dele.

Diego Paulino (@paulinodiego), diretor de NEGRUM3 (2018), também participou de nossas aulas, com uma discussão afrofuturista sobre estéticas cinematográficas e a importância de pessoas negras na produção de audiovisuais, especialmente seus roteiros, a fim de que “novas” histórias, secularmente apagadas e silenciadas, possam emergir nas visualidades brasileiras.
A temática da negritude perpassou várias de nossas aulas, especialmente quando abordamos as políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) nas corporações; a comunicação nas cidades e as escolas de samba. Kloê Siqueira (@pretadopetrroleo), Danilo dos Santos (@curadarua) e Rodolfo Viana (@ditosdorodolfo), respectivamente, compartilharam seus saberes conosco, propiciando aulas incríveis, onde o conceito de interseccionalidade foi fundamental como ferramenta analítica dos objetos e interlocuções estudados. Kloê nos atravessou com suas experiências profissionais no setor de energia, Danilo, após exibição de “Suporte” (Carmen Luz, 2017), provocou outros olhares sobre as pichações na cidade do Rio e Rodolfo riscou a sala de aula com seus conceitos referentes às performances negras e aos dissensos de gênero em quadras de escola de samba.
Daniela Barcellos, com sua discussão sobre comunicação e comensalidades; Flávio Lins, debatendo cidade, entretenimento e juventude; Talitha Ferraz, relembrando cinemas periféricos, como o Cine Vaz Lobo; Renata Saavedra, com debates sobre a exposição Cidade-Mulher; Adriana Moreira, refletindo sobre a historicidade da marca “Rio Gay Friendly”; Mila Desouzart, discutindo os afetos provocados pela publicidade em pessoas transgêneras; e Mônica Carvalho Bastos, informando sobre as políticas de DEI no Banco do Brasil. Enfim, todes foram imprescindíveis para que pudéssemos alcançar os objetivos de nossas ementas e planos de aula. Obrigado, obrigado e obrigado!
Comunicação: afetos e vínculos

Depois desse período de pouco mais de um ano e meio, tenho ainda mais convicção dos ensinamentos do Prof. Muniz Sodré sobre a Comunicação: comunicar é gerar vínculo, é afetar e tornar alguma ideia comunhão. A circularidade de pensamentos plurais e experiências que alunes e nós professores pudemos partilhar dentro dessas salas de aula foram aprendizados que carregaremos para a vida inteira.
Afetos que nos gatilharam teorias e estimularam formas de alinhavar metodologias a fenômenos sociais de nossos tempos, culminando numa produção de conhecimento em comunidade. Que essa energia criadora, pulsante e vital para nossos estudos permaneça aquecendo nossos corações e mentes, fazendo com que nossa humanidade se fortaleça cada vez mais nesse mundo por vezes tão hostil. Viva a universidade pública!
Diego Cotta é professor permanente do PPGCom-Uerj, onde realiza estágio pós-doutoral com bolsa Nota 10 da Faperj. Doutor em Mídia & Cotidiano pelo PPGMC-UFF com mestrado pelo mesmo programa e jornalista pela ECO-UFRJ. E-mail: diegocotta@gmail.com
