Como a convocação para dançar é um gesto que fala sobre quedas, levantes e máscaras no disco “Confessions 2”
Era de tarde, num 25 de fevereiro de 2015, quando eu assistia à premiação do Brit Awards pelo computador. Notebook aberto, Madonna vai apresentar músicas de seu então novo álbum “Rebel Heart” (Coração rebelde). Aparece com uma capa longa, sobre uma escada enquanto canta os primeiros versos da canção “Living for Love”. Numa espécie de passagem da introdução para os versos da música, entretanto, algo se irrompe: Madonna é arrastada para trás e cai de uma pequena escadaria no palco. Ela se levanta rapidamente e continua a apresentação até o fim.

Ao que tudo indica, a capa que deveria ser retirada por um dos dançarinos havia sido amarrada com muita firmeza. Quando o dançarino puxou, ela foi arrastada para trás. Em entrevista depois do ocorrido, Madonna explicou que, de fato, a capa estava presa mais apertada do que o ensaiado, que ela tentou desamarrá-la, mas não conseguiu a tempo, que o dançarino puxou – conforme o ensaiado – com certa dose de violência para dar o impacto da visualidade da capa “voando”, ela caiu, perdeu o equilíbrio, caiu. Sofreu apenas um pequeno ferimento e um susto.
Em seguida, vieram um conjunto de memes: a queda de Madonna era típica de uma pessoa velha. Cair é uma espécie de sina da idade avançada, uma expectativa para um corpo em vulnerabilidade. De alguma forma, aquilo me colocou também num impasse: a “minha” cantora pop estava envelhecendo – e eu também. Eu estava chegando aos quarenta anos quando Madonna caiu e alguma coisa estava se esgarçando naquela queda. Dois corpos, duas vidas, expectativas: minha e dela.
Há duas semanas, meu Spotify só toca um disco: “Confessions 2”, dela, Madonna. Algumas frases ficam rondando minha cabeça – “as pessoas acham que a pista de dança é superficial”, “por favor, me ensine algo que eu não saiba”, “como pode o amor ser tão bizarro?” – numa espécie de aviso de instruções de segurança de um vôo, algo como “em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente”. Aquele susto que eu tive com a queda de Madonna no Brit Awards, há onze anos, renova-se. Na música mais viralizável de “Confessions 2”, Madonna diz uma coisa simples, mas que não parece nada simples para uma mulher de mais de sessenta anos: “levante e dance” – verso presente no refrão de “Danceteria”.
De alguma forma, a queda e o levante são dois gestos típicos do envelhecimento e, de alguma forma, ocultados na música pop. Madonna frequentemente constrói performances que flertam com o risco físico e a teatralidade. Fez arriscadas coreografias que colocaram em frangalhos seus joelhos, pulou corda em cena, fez movimentos acrobáticos, ioga e muitos saltos. Quando de sua queda, o imprevisto fraturou uma imagem que acompanha sua carreira há décadas. No entanto, parece que aquela queda colocou algumas questões diante de um ídolo que envelhece. E Madonna também já havia cantando “não me peça para parar” numa canção que, não ironicamente, conta com um videoclipe que fala sobre manipulação de imagens – “Don’t tell me”, dirigido por Jean Baptiste Mondino – e que termina, veja só, com um cowboy caindo do cavalo.


Moral do véu rosa
Ao ver a capa do disco “Confessions 2”, que traz Madonna coberta por um véu rosa, fui ler o texto da pesquisadora argentina Paula Sibilia, “O corpo velho como uma imagem com falhas: a moral da pele lisa e a censura midiática da velhice”, publicado em 2012 na revista Comunicação, Mídia e Consumo, porque achei aquela imagem desafiadora: uma cantora pop envelhecida coberta. Gosto particularmente da noção de “moral da pele lisa”, em que Sibilia analisa como a cultura contemporânea transformou a juventude em um imperativo moral e estético, tornando a velhice algo a ser ocultado ou corrigido.
A ideia central é que, na sociedade marcada pela cultura da imagem, da visibilidade e das mídias digitais, a pele lisa passa a representar um valor moral, sinônimo de disciplina, autocontrole, sucesso e responsabilidade consigo mesmo. O envelhecimento, em contrapartida, seria uma falha, negligência individual. Mas, então, quando Madonna aparece sem o véu que a cobre na capa do “Confessions 2”, não aparecem rugas, machas ou flacidez. Emergem especulações: o rosto não é mais “aquele”, jovial, mas também não é o Outro, idoso, “imperfeito”.
Há algo de suspeito na imagem: cosmética, cirurgia plástica, filtro digital – qual a nova máscara de Madonna? A cantora, mesmo quando jovem, era acusada de criar padrões inalcançáveis de magreza e resistência física: seu corpo sempre foi um projeto permanente de gestão de imagens. Madonna seria um ótimo exemplo para Michel Foucault: o sujeito contemporâneo é incentivado a administrar continuamente seu corpo, investindo tempo, dinheiro e esforço para mantê-lo dentro dos padrões valorizados em que a aparência substitui a interioridade.
Ao se cobrir e, depois, se descobrir na pista de dança, Madonna segue atualizando o roteiro performático de alguém – eu, você, qualquer pessoa que envelhece – que insiste em sair de casa. O envelhecimento é uma condição biológica que sugere limites, mas há formas de negociar com estas fronteiras. Quando Madonna diz, na abertura de “Confessions 2”, que gosta de se esconder nas sombras, parece haver uma dupla suspeita: a sombra como um certo refúgio de um lugar estrutural do etarismo (que olha a pessoa velha como submissa e incapaz), mas também a sombra como um caminho possível para se esconder da luz e chegar à pista de dança.
Gosto particularmente desta imagem de estar na sombra na noite porque me parece um gesto calculado de quem, de fato, não quer – e talvez não possa – mostrar sua pele que não é mais lisa. No entanto, a tal pele lisa sempre foi uma questão comunicacional, ligada à circulação de imagens, aos regimes de visibilidade e às formas contemporâneas de construção da subjetividade. A pele lisa – eu acrescentaria – é uma máscara. É pura teatralidade. Ninguém sabe – nem nunca soube – qual a verdadeira pele da Madonna. Ela nos ensinou – como numa aula sobre pop e também sobre teatro sheakespereano – que a máscara é o grande dispositivo da sociedade de espetáculo. E é na pista de dança que a linguagem das máscaras deixa de ser rosto e passa a ser puro movimento: em direção à finitude da noite, ao esgarçamento da dança e ao eterno adiamento da morte.
Thiago Soares é professor e pesquisador do Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde coordena o Grupo de Pesquisa em Comunicação, Música e Cultura Pop (Grupop/CNPq). Bolsista Produtividade em Pesquisa B do CNPq. Email: thiago.soares@ufpe.br.
