Por Allana Barbosa e João Otávio Alves*

Iemanjá é uma divindade cultuada nas religiões de matriz africana, uma das orixás mais populares do Brasil, considerada “mãe de todas as cabeças”. Seu culto atravessou o oceano atlântico até as terras brasileiras pela diáspora forçada e permitiu a ligação dos povos escravizados às raízes de seu território de origem. Desde então, a fé na divindade se popularizou por meio de festividades movidas pela comunidade diaspórica.

Apesar de um símbolo materno que denota união — tornando as pessoas que a saúdam irmãos e irmãs dessa mesma mãe —, Iemanjá passou por processos de violência assim como seus filhos. Durante o período oficial de escravização no Brasil, pessoas negras que carregavam a fé na orixá precisaram mascarar sua devoção, sincretizando-a com santas do catolicismo dominante entre os séculos XVI e XIX. A forte repressão às religiões de matriz africana, porém, não diminuiu mesmo após a Abolição, de modo que o culto à Rainha das Águas continuou sofrendo sérias interferências da colonização. Ela foi embranquecida, adquirindo características europeias das imagens das virgens católicas. A deusa africana de ancas largas e seios fartos à mostra tornou-se uma mulher branca e magra, de longos cabelos lisos e vestido claro.

Esse processo de branqueamento agravou-se após a popularização da orixá ao longo do século XX, por meio de sua festa marcada em 2 de fevereiro, quando pessoas levavam presentes ao mar em saudação à Iemanjá. O costume tornou-se festa anual após um grupo de pescadores realizar o ato pela primeira vez em Salvador, na Bahia, em 1923, quando pediram ajuda à Iemanjá durante um período de escassez na pesca. Ao passo que a celebração cresceu na região, reunindo cada vez mais pessoas, a popularidade da divindade atingiu o nível nacional. O pai de santo e pesquisador em Ciência da Religião David Dias (PUC-SP) relata que houve movimentos de promoção da imagem branca de Iemanjá nos anos 1950. A imagem famosa da mulher branca de vestido claro vem a partir de um quadro pintado a pedido da umbandista carioca Dalla Paes Leme. Com a profusão da festa, a obra tornou-se famosa, tendo sido levada a vários terreiros da época e difundida a ponto de enraizar-se no imaginário popular brasileiro — originando outras versões embranquecidas da orixá.

Pintura encomendada por Dalla Paes Leme

O sincretismo que atingiu a divindade africana não se limitou apenas à assimilação de suas características brancas para um culto sem repressões, mas destacou uma aculturação, quando sua imagem original foi totalmente apagada durante anos. Esse movimento demonstra o forte apagamento da cultura africana no país, que se manteve através dos anos dentro do próprio culto aos orixás.

Como a festa de saudação a uma orixá, que representa união, acaba excluindo a cultura a qual essa orixá pertence?

Apesar da distorção de sua imagem, Iemanjá não foi esquecida, e com os constantes movimentos da população diaspórica de exaltação de suas raízes, uma outra festa em sua homenagem se iniciou, dando origem a que seria a maior festa de Réveillon do mundo. Também em meados do século XX, um pequeno grupo de umbandistas foi até a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, na virada de ano entre 1949 e 1950, vestindo roupas brancas e levando oferendas para a orixá antes da meia-noite. O grupo foi mobilizado pelo sacerdote de umbanda Tatá Tancredo da Silva Pinto, que chamou o evento inicialmente de “Flores de Iemanjá”. O costume, do qual se tem registros desde o fim do século XIX, tornou-se tradição, de modo que, anualmente, cada vez mais pessoas iam à praia na virada de ano entregar flores e fazer pedidos à Rainha do Mar.

Tatá Tancredo foi uma importante liderança da umbanda, articulando eventos para a afirmação do povo de terreiro em espaço público, lutando pela liberdade religiosa e combatendo o preconceito latente às religiões de matriz africana. A celebração à Iemanjá abriu espaço para que umbandistas professassem sua fé, com suas indumentárias e ações ritualísticas. Porém, pessoas de diversas crenças e religiões também aderiram à tradição, indo à praia vestidas de branco e ofertando presentes à Iemanjá. Nos anos seguintes, entre 1970 e 1980, elementos foram incorporados à festa, como a cascata de fogos do Hotel Le Méridien. O que inicialmente era uma pequena celebração da comunidade de terreiro se consolidou como megaevento plural a partir de 1993, com a apresentação de shows como conhecemos.

Hoje, a festa de Réveillon de Copacabana é considerada a maior do mundo pelo Guinness Book. Contudo, sua origem parece ter se perdido, tal como a presença dos povos de terreiro no espaço principal do evento. Ao passar dos anos, eles começaram a realizar suas celebrações dias antes da grande festa de virada de ano. Um exemplo é a famosa Festa de Iemanjá do Mercadão de Madureira, que realiza um cortejo em direção à Copacabana no dia 29 de dezembro, fora dos grandes holofotes do Réveillon. O que antes era resistência e expressão das comunidades religiosas de matriz africana tornou-se puramente comercial. Hoje, as pessoas que vão à beira da praia na virada do ano trajam branco, pulam ondinhas, entregam flores e fazem pedidos em frente ao mar sem saber o significado desses costumes. 

“Hoje o réveillon virou sinônimo de fogos e shows. Algo raso se comparado à riqueza de sentidos e significados que tal festa possui, mas adequado à lógica da marca (vazia de sentidos), e, ao mesmo tempo, perene aos interesses hegemônicos que visam a sedimentação de um projeto político-econômico que transforma a própria cidade em mercadoria”, analisa o Doutor em Comunicação Social Roberto Vilela Elias em sua tese “Das Bênçãos de Iemanjá aos Desígnios do Mercado: ‘violência’ e ‘paz’ no réveillon do Rio global”.

Mas como uma festa criada para afirmar uma cultura pode ter ofuscado a própria e afastado seus mobilizadores? E como a festa que representou a união de tantas crenças pode ter sido afastada de quem a iniciou?

Investimentos e contradições na gestão pública

O histórico de apagamento cultural e religioso, que no passado foi operado pelo catolicismo através do sincretismo, encontra hoje uma nova imposição por meio da influência do evangelismo, sendo muito reforçada na política carioca. Na organização do Réveillon 2025, houve a introdução de um “Palco Gospel”, garantindo estrutura exclusiva a uma fé específica em um dos eventos mais simbólicos da cidade. A problemática surge a partir de que, enquanto houve esse destaque para a fé cristã,  nenhum palco foi destinado para a cultura de matriz africana — raiz histórica da festa —. Como pontuou o Doutor Babalaô Ivanir dos Santos em sua coluna “Seu Zé não foi convidado”, esse ato vem simbolizando a exclusão institucional do axé nos palcos de Copacabana.

A exemplo da festa do Dia de Iemanjá no Arpoador que, em seus primeiros anos, precisou disputar recursos através de editais de cultura, como o Fomento à Cultura Carioca (Foca), submetendo-se a processos burocráticos e incertos. Em contraste, eventos cristãos gozam de repasses diretos e vultosos, como a Marcha para Jesus, que recebeu R$1,9 milhão da Prefeitura e R$ 2 milhões do governo do estado em 2025, somando grande verba patrocinadora, refletindo diretamente na forma como a verba pública é acessada.

A estratégia reativa de Paes: Por que a reparação histórica só chega após desgaste político

Após o Réveillon 2026 também contar com palco gospel e acarretar mais         repercussão negativa e denúncias de intolerância religiosa, a Prefeitura destinou R$700 mil via patrocínio direto para o Dia de Iemanjá no Arpoador, praia da zona sul do Rio de Janeiro. O montante não surge por acaso: ele funciona como uma gestão de danos e um “pedido de desculpas” institucional após a crise gerada pela exclusão do axé nos palcos principais do Réveillon. É interessante observar que, com a proximidade das eleições, o aporte direto também vem como suavização a rejeição entre o eleitorado de matriz africana, sem abrir mão das alianças milionárias com o segmento cristão, que conta com mais de 30% da população segundo dados coletados pelo Mar Asset Management.

​O posicionamento de Eduardo Paes revela um contrassenso proposital. O prefeito, que frequentemente se promove como um entusiasta do samba e da boemia carioca, utiliza ritmos de origem negra para construir seu capital político e reforçar a imagem de “prefeito do povo”. No entanto, ao afirmar que “quem é de axé já está no samba”, ele opera um racismo religioso institucional: validando a cultura negra apenas enquanto entretenimento e folclore, negando a ela o status de fé merecedora de investimento direto. Esse cenário de favorecimento motivou representações no Ministério Público Federal (MPF), expondo que, para a gestão atual, o axé é bem-vindo no cartão-postal, mas o orçamento público ainda tem lado e dogma definidos.

Eduardo Paes rebateu as críticas de exclusão na rede X afirmando que o Rio é uma cidade diversa,  impressionando-se também com o “nível de preconceito desta gente” — referindo-se à comunidade de axé, que reclamou do caso de intolerância religiosa estatal. Para o prefeito, a representatividade estaria contemplada na grade musical geral, visão que ignora a dimensão religiosa da tradição.

A jornalista Flávia Oliveira fez um forte e crítico comentário em cima da declaração do prefeito, destacando a problemática:

“Nível de preconceito “dessa gente”. Essa gente que teve a própria festa apropriada por comércio. Essa gente que teve seus saberes em saúde reconhecidos e, posteriormente, destituídos pela mesma Prefeitura. Essa gente que é alvo preferencial de ataques e destruição.”

Após a polêmica, Paes se manifestou novamente por meio da rede sobre seu compromisso com o povo de axé e com as religiões de matriz africana. Reforçou que não foram poucas as vezes em que saiu em defesa destas tradições, pedindo desculpas caso tenha ofendido os praticantes. Finalizou confirmando a adesão da sugestão para criar uma estátua em homenagem a Tatá Tancredo da Silva Pinto.

Medidas como o aporte para o Arpoador e a promessa de uma estátua surgirem após polêmicas, reforça que a “Marca Rio” de diversidade ainda esbarra em escolhas políticas que priorizam novas alianças religiosas em vez da reparação histórica.

A comunidade que valoriza a cultura que movimenta a cidade

Em um cenário de intolerância religiosa que parece ignorada — ou endossada — pelo Estado, a cultura de terreiro é defendida e valorizada pelos que vivem nela. Como pessoas que sempre movimentaram eventos em prol da exaltação de suas raízes, a comunidade de religiões de matriz africana segue trabalhando em prol da desmistificação e naturalização de sua cultura. 

Um exemplo recente foi a organização do próprio Dia de Iemanjá no Arpoador, idealizado pelo músico e umbandista Marcos André Carvalho e outras lideranças religiosas de matriz africana, realizando sua primeira edição em 2022. Antes, o que eram movimentos isolados de casas de axé nas praias ao redor do estado, hoje, concentrou-se em uma grande festa na praia carioca, unindo diversos terreiros em uma celebração que tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Rio de Janeiro em 2026. A celebração recoloca o povo de axé no centro de um grande evento, tendo sua cultura reconhecida e valorizada. 

“A festa nasceu para criar um ritual coletivo de fé, agradecimento e valorização da nossa tradição de realizar giras nas praias da Zona Sul da cidade do Rio. Uma rica tradição carioca que andava desaparecida, iniciada nos anos 50 pelo lendário Tatá Tancredo. Mostrar a nossa cultura e religiosidade de matriz africana pro mundo justo no cartão postal da cidade”, destacou Marcos André em seu instagram.

Com giras de umbanda abertas, rodas de Jongo, grupos de samba de terreiro e o clássico cortejo para a entrega de oferendas ao mar, o Dia de Iemanjá no Arpoador apresenta as raízes afrobrasileiras a um público diverso. 

Um importante destaque do evento é o resgate da imagem de Iemanjá enquanto deusa preta. A representação aparece de diversas formas, como no pôster de divulgação do evento, com uma arte feita pelo pintor Luang Senegambia Dacach Gueye, na imagem carregada por Marcos André durante o cortejo e na estátua de areia que o artista de praia Rogean é convidado a construir no dia anterior à festa.

As diversas representações reafirmam a identidade da orixá ao público, com suas características originais, ajudando a desconstruir da visão distorcida outrora criada.

Com a edição de 2026 contando com mais de 30 mil pessoas, entre religiosos, simpatizantes e curiosos, o evento resgata um dos atos mais bonitos dessas históricas festas de axé: a união. 

O que começou como uma celebração à orixá mãe de todas as cabeças — a que abraça todas as pessoas igualmente como seus filhos e filhas — dá frutos de uma união diversa, digna do espírito coletivo que Iemanjá emana.

Mesmo com entraves políticos e estruturais, os povos de matriz africana mantêm uma luta constante contra a intolerância religiosa; expondo suas raízes em movimentações culturais e enfrentando sistemas coniventes com a opressão histórica. Tal postura em prol da tolerância em uma sociedade preconceituosa denota a tamanha resistência do povo de axé, que parece não se abater diante das constantes tentativas de aculturação de sua fé.

Referências:

Iemanjá, a divindade africana que ganhou feição branca no Brasil

Entenda como o Arpoador se tornou o principal palco do Dia de Iemanjá no Rio e confira a programação

O ‘papa negro da umbanda’ que transformou o culto a Iemanjá e ‘inventou’ o Réveillon de Copacabana

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* Bolsistas de pesquisa do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo e graduandos de Comunicação Social na Uerj

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